Idealismo

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Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Idealismo (relações internacionais), Idealismo (escatologia) ou Ideal.
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O idealismo é uma corrente filosófica que emergiu apenas com o advento da modernidade, uma vez que, nele, a posição central da subjetividade é fundamental. Seu oposto é o materialismo. Tendo suas origens a partir da revolução filosófica iniciada por Descartes, é aos pensadores alemães que o idealismo[1] está em geral associado, desde Kant até Hegel, que seria talvez o último grande idealista da modernidade. Embora muitos acreditem que a teoria das ideias de Platão é, historicamente, o primeiro dos idealismos, em que a verdadeira realidade está no mundo das ideias, das formas inteligíveis, acessíveis apenas à razão.

Definições de idealismo[editar | editar código-fonte]

É muito difícil resumir o pensamento idealista, uma vez que há divergências de perspectivas teóricas entre os filósofos idealistas. De todo modo, podemos considerar o primado do "eu subjetivo" como central em todo idealismo, o que não significa necessariamente reduzir a realidade ao pensamento. Assim, na filosofia idealista, o postulado básico é que "eu sou eu", no sentido de que o eu é objeto para mim (eu). Ou seja, a velha oposição entre sujeito e objeto[2] se revela no idealismo como incidente no interior do próprio eu, uma vez que o próprio eu é o objecto para o sujeito (eu).

"O idealismo tem elementos em comum com o preconceito, ou seja, sempre pensar no ideal. Mas, na sociedade humana, não deveria existir 'o ideal', pois todos nós somos diferentes e isso faz a evolução da sociedade ser maior. O ideal, então, é a mistura das diferenças", segundo Rodrigo Silva Ferreira.[3]

É qualquer teoria filosófica em que o mundo material, objetivo, exterior só pode ser compreendido plenamente a partir de sua verdade espiritual, mental ou subjetiva. Seus opostos seriam representados pelo realismo (na filosofia moderna) e o materialismo. No sentido ontológico, é doutrina filosófica cujo exemplo mais conhecido é o platonismo, segundo o qual a realidade apresenta uma natureza essencialmente espiritual, sendo a matéria uma manifestação ilusória, aparente, incompleta, ou mera imitação imperfeita de uma matriz original constituída de formas ideais inteligíveis e intangíveis.

No sentido gnosiológico, tal como ocorre especialmente no kantianismo, teoria que considera o sentido e a inteligibilidade de um objeto de conhecimento dependente do sujeito que o compreende, o que torna a realidade cognoscível heterônoma, carente de autossuficiência, e necessariamente redutível aos termos ou formas ideais que caracterizam a subjetividade humana. No âmbito prático, cujo exemplo mais notório é o da ética kantiana, doutrina que supõe o caráter fundamental dos ideais de conduta como guias da ação humana, a despeito de uma possível ausência de exequibilidade integral ou verificabilidade empírica em tais prescrições morais. Propensão a idealizar a realidade ou a deixar-se guiar mais por ideais do que por considerações práticas; Teoria ou prática que valoriza mais a imaginação do que a cópia fiel da natureza. Seu oposto seria o realismo. Sistema filosófico que aproxima, do pensamento, toda existência. Concepção estética na qual se deve buscar a expressão do ideal acima do real. Atitude que consiste em subordinar o pensamento e a conduta a um ideal.

Tipos[editar | editar código-fonte]

Idealismo absoluto: Doutrina idealista inerente ao hegelianismo, caracterizada pela suposição de que a única realidade plena e concreta é de natureza espiritual, sendo a compreensão materialística ou sensível dos objetos um estágio pouco evoluído e superável no paulatino desenvolvimento cognitivo da subjetividade humana.

Idealismo dogmático: Idealismo, especialmente o berkelianismo, que se caracteriza por negar a existência dos objetos exteriores à subjetividade humana [Termo cunhado pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) para designar uma orientação idealista com a qual não concorda.]. Seu oposto seria o idealismo transcendental.

Idealismo imaterialista: Idealismo defendido por George Berkeley (1685-1753) que, partindo de uma perspectiva empirista, na qual a realidade se confunde com aquilo que dela se percebe, conclui que os objetos materiais reduzem-se a ideias na mente de Deus e dos seres humanos; berkelianismo, imaterialismo.

Idealismo transcendental (também chamado formal ou crítico): Doutrina kantiana, segundo a qual os fenômenos da realidade objectiva, por serem incapazes de se mostrar aos homens exactamente tais como são, não aparecem como coisas-em-si, mas como representações subjectivas construídas pelas faculdades humanas de cognição. Seu oposto seria o idealismo dogmático.

No oriente[editar | editar código-fonte]

Existem correntes idealistas na filosofia indiana antiga e moderna. O idealismo hindu toma a forma de monismo ou não dualismo, defendendo a visão de que a consciência unitária é a essência ou o sentido da realidade fenomênica e da pluralidade. O idealismo budista, por outro lado, é mais epistêmico e não é um monismo metafísico, monismo este que os budistas consideram eternista e consequentemente não o Caminho do Meio preconizado por Sidarta Gautama.

A mais antiga referência ao idealismo nos textos indianos é o Purusha Sukta do Rigveda. Este sukta defende o panenteísmo ao apresentar o ser cósmico Purusha tanto como parte do universo como transcendente a ele.[4] O idealismo absoluto pode ser encontrado no Chandogya Upanishad, no qual elementos do mundo objetivo como os cinco elementos (éter, fogo, água, ar e terra) e elementos do mundo subjetivo como vontade, esperança e memória são vistos como emanações do atman.[5]

No hinduísmo[editar | editar código-fonte]

Noções de idealismo foram propostas pelas escolas vedantas de pensamento, que usam os vedas e especialmente os upanixades como seus textos básicos. O idealismo se opôs aos dualistas sânquias, aos atomistas vaisheshikas, aos lógicos nyayas, aos linguistas mimāṃsā e aos materialistas carvacas. Existem várias subescolas de vedanta, como a Advaita Vedânta (não dualista), a vishishtadvaita e a bhedabheda vedanta (diferença e não diferença).

Todas as escolas de vedanta tentam explicar a natureza e a relação entre o bramã (alma universal) e o atman (alma individual). Essas escolas consideram que é este o núcleo principal dos vedas. Uma das primeiras tentativas nesse sentido foi o Brahma-sutra, de Bādarāyaņa, que é canônico para todas as subescolas vedantas. O advaita vedanta é uma grande subescola vedanta que possui uma metafísica idealista não dualista. De acordo com pensadores advaitas como Shânkara (788–820) e seu contemporâneo Maṇḍana Miśra, bramã, a unidade elementar de consciência absoluta, aparece como diversidade no mundo devido a maiá, ilusão. Portanto, a percepção de pluralidade é mithya, erro. O mundo e todos os seres ou almas nele não têm existência separada de bramã, a consciência universal, e a aparentemente independente alma (jiva) é idêntica a bramã. Estas doutrinas estão representadas em versos como brahma satyam jagan mithya; jīvo brahmaiva na aparah (Bramã é a única verdade, e este mundo de pluralidade é um erro; a alma individual não é diferente de bramã.). Outras formas de vedanta como o vishishtadvaita de Ramanuja e o bhedabheda de Bhaskara não são tão radicais em seu não dualismo, aceitando que existe uma diferença entre as almas individuais e bramã.

A tradição tântrica do xivaísmo da Cachemira também foi rotulada por acadêmicos como idealista.[6]

O idealismo indiano moderno foi defendido pelo influente filósofo indiano Sarvepalli Radhakrishnan em seu livro de 1932 An Idealist View of Life (Uma visão idealista da vida), bem como em outros livros, que seguem o advaita vedanta. A essência do idealismo hindu foi captada por escritores modernos como Nisargadatta Maharaj, Sri Aurobindo, Prabhat Ranjan Sarkar e Sohail Inayatullah.

No budismo[editar | editar código-fonte]

Visões budistas que podem ser consideradas similares ao idealismo aparecem em textos budistas maaianas como o Sandhinirmocana Sutra, Laṅkāvatāra Sūtra, Sutra dos Dez Estágios etc.[7] Estes foram, posteriormente, expandidos por filósofos budistas indianos como Vasubandhu, Asanga, Dharmakirti e Śāntarakṣita. O pensamento iogacara também foi promovido na China por filósofos chineses e tradutores como Xuanzang.

Existe uma polêmica acadêmica moderna quanto ao budismo iogacara ser ou não uma forma de idealismo. Como observa Saam Trivediː "de um lado do debate, escritores como Jay Garfield, Jeffrey Hopkins, Paul Williams e outros mantêm o rótulo idealista, enquanto, do outro lado, Stefan Anacker, Dan Lusthaus, Richard King, Thomas Kochumuttom, Alex Wayman, Janice Dean Willis e outros argumentam que o iogacara não é idealista".[8] O ponto central do debate é o que filósofos budistas como Vasubandhu, que usava o termo Vijñapti-matra ("apenas-representação" ou "apenas-conhecimento") e formulou argumentos para refutar objetos externos, realmente pretendiam dizer.

Os trabalhos de Vasubandhu incluem uma refutação dos objetos externos ou externalidades e argumentam que a verdadeira natureza da realidade vai além da distinção sujeito-objeto.[9] Ele vê a experiência da consciência ordinária como ilusória na sua percepção de um mundo externo separado. Ao invés disso, ele argumenta que tudo o que existe é Vijñapti (representação ou conceitualização).[10] Consequentemente, Vasubandhu começa seu Vimsatika com o versoː "tudo isto é consciência-apenas, por causa da aparência de objetos não existentes, como alguém com uma desordem de visão pode ver fios de cabelo não existentes".[11]

Do mesmo modo, a visão do filósofo budista Dharmakirti para os aparentes objetos externos é resumida no Pramanavarttika (Comentário sobre Lógica e Epistemologia)ː "a cognição experiencia a si mesma e nada mais. Mesmo os particulares objetos da percepção são, por natureza, apenas consciência".[12]

Enquanto alguns escritores como Jay Garfield asseguram que Vasubandhu é um metafísico idealista, outros o veem como mais próximo a um idealista epistêmico como Kant, que assegura que nosso conhecimento do mundo é, simplesmente, conhecimento sobre os nossos próprios conceitos e percepções de um mundo transcendental. Sean Butler, sustentando que a iogacara é uma forma de idealismo, embora de tipo único, nota a similaridade com as categorias de Kant e as Vāsanās da iogacara, ambas simples ferramentas fenomênicas com que a mente interpreta o domínio do númeno.[13] Ao contrário de Kant, no entanto, que diz que o númeno ou coisa-em-si é incognoscível por nós, Vasubandhu diz que a realidade última é cognoscível, mas somente através de percepção iogue não conceitual de uma mente meditativa altamente treinada.[14]

Escritores como Dan Lusthaus que dizem que a iogacara não é um idealismo metafísico apontam, por exemplo, que os pensadores iogacaras não focavam na consciência para assegurar que ela fosse ontologicamente real, mas simplesmente para analisar como nossas experiências e consequentemente nosso sofrimento são criados. Como Lusthaus notaː "nenhum texto indiano iogacara defende que o mundo é criado pela mente. Os textos iogacaras defendem que confundimos nossas interpretações do mundo com o mundo em si, ou seja, que interpretamos nossas construções mentais como sendo o mundo real".[15] Lusthaus nota que existem similaridades com idealistas epistêmicos ocidentais como Kant e Husserl, de modo que a iogacara pode ser vista como uma forma de idealismo epistêmico. No entanto, ele também nota que existem diferenças fundamentais, como os conceitos de carma e nirvana.[16] Enquanto isso, Saam Trivedi nota as similaridades entre o idealismo epistêmico e a iogacara, mas assegura que o budismo iogacara é uma teoria própria.[17]

De modo similar, Thomas Kochumuttom vê a iogacara como uma "explicação da experiência, mais do que um sistema de ontologia", e Stefan Anacker vê a filosofia de Vasubandhu como uma forma de psicologia e terapia.[18][19]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Gonçal Mayos, A maturidade do Idealismo Arquivado em 21 de julho de 2011, no Wayback Machine., trad. José Luiz Borges Horta.
  2. G. Mayos, O PROBLEMA SUJEITO-OBJETO EM DESCARTES, PERSPECTIVA DA MODERNIDADE Arquivado em 21 de julho de 2011, no Wayback Machine., traduzido por Mariá Brochado e Natália Freitas Miranda.
  3. 1833 RevPhil 62
  4. Swami Krishnananda. Disponível em https://www.swami-krishnananda.org/invoc/in_pura.html. Acesso em 25 de janeiro de 2018.
  5. Bharatadesam. Disponível em http://www.bharatadesam.com/spiritual/upanishads/chandogya_upanishad.php. Acesso em 25 de janeiro de 2018.
  6. S. G. Dyczkowski, Mark. The Doctrine of Vibration: An Analysis of Doctrines and Practices of Kashmir Shaivism. p. 51
  7. Fernando Tola, Carmen Dragonetti. Philosophy of mind in the Yogacara Buddhist idealistic school. History of Psychiatry, SAGE Publications, 2005, 16 (4), pp.453-465.
  8. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  9. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  10. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  11. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  12. Kapstein, Matthew T. Buddhist Idealists and Their Jain Critics On Our Knowledge of External Objects. Royal Institute of Philosophy Supplement / Volume 74 / July 2014, pp 123 - 147 DOI: 10.1017/S1358246114000083, Published online: 30 June 2014
  13. Butler, Idealism in Yogācāra Buddhism, 2010.
  14. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  15. Internet archive. Disponível em https://web.archive.org/web/20131216190312/http://www.acmuller.net/yogacara/articles/intro-uni.htm. Acesso em 26 de janeiro de 2018.
  16. Internet archive. Disponível em https://web.archive.org/web/20131216190312/http://www.acmuller.net/yogacara/articles/intro-uni.htm. Acesso em 26 de janeiro de 2018.
  17. Trivedi, Saam; Idealism and Yogacara Buddhism. Asian Philosophy Vol. 15, No. 3, November 2005, pp. 231–246
  18. Kochumuttom, Thomas A. (1999), A buddhist Doctrine of Experience. A New Translation and Interpretation of the Works of Vasubandhu the Yogacarin, Delhi: Motilal Banarsidass
  19. Anacker, Stefan; Seven works of Vasubandhu.
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