Ideias de Canário

"Ideias de Canário" é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na na Gazeta de Notícias de 15 de novembro de 1895 com o título "Que é o mundo?". Posteriormente, foi incluído no livro Páginas Recolhidas, em 1899. Trata-se de um conto fantástico e alegórico, onde Machado mostra toda sua inventividade e imaginação, sobre um canário falante.
Enredo
[editar | editar código]Este conto mostra a interação entre um homem, Macedo, e um canário de uma loja de belchior. Macedo entra na loja, vendo principalmente lixo, mas encontra um canário brilhante em uma gaiola no canto que desperta seu interesse. O canário fala com ele, acreditando ser o governante do mundo, mas o mundo só consiste na loja de belchior (o que hoje chamamos de "brechó").[1]
Fascinado por esse canário ingênuo, Macedo compra a ave e uma gaiola vasta, e o instala em sua varanda, com uma bela vista de jardins e céu. No entanto, o canário ainda acredita ser o governante de seu novo mundo, só que agora ele é o governante da varanda, do jardim e do céu. Eventualmente, o canário escapa; quando Macedo o encontra novamente, ele se declara governante do mundo em que agora vive, esquecendo completamente da loja de belchior.
TRECHO: O mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.[2]
Análise da trama
[editar | editar código]O conto é relato alegórico sobre o relativismo, que nos apresenta uma personagem estudiosa, um homem das ciências, crente na revolução que o fenômeno de um canário falante faria no mundo científico. Nesta narrativa, o que está em jogo é a relativização de absolutos, já que as diferentes concepções de mundo apresentadas variam de acordo com as circunstâncias.[3] O conto pode ser visto como uma alegoria à pretensão do ser humano, com o avanço da ciência, de conhecer toda a realidade. Será que não existe algo oculto "fora da nossa gaiola"?
A narrativa do conto é regida pelo princípio da volubilidade, de maneira que o narrador passa a ser não confiável. O extraordinário ganha posição de centralidade, não só por ter um canário racionalmente emancipado que é capaz de expor seus pensamentos, mas por este ser o elemento que atuará de forma determinante no caráter realista do conto. É o caráter extraordinário do canário que dará crédito ao fato narrado. O motivo da história se tornar verossímil está no narrador já estabelecer este pacto de veracidade com o extraordinário.[4]
Macedo, um naturalista acabado, desce da posição de sujeito da narrativa para a de objeto da sátira, a partir do contato com o canário extraordinário; um movimento compositivo que também rebaixa a aparência triunfante do projeto determinista de mundo dos proprietários e homens bem postos na vida social brasileira à sua posição real frente aos problemas dessa mesma sociedade: a incapacidade de lidar com as exigências de um futuro histórico humanamente possível.
A composição satírica do conto resulta da oscilação entre a motivação realista (Macedo, o mundo ordinário, verossímil) e a motivação fantasiosa (o canário, o mundo extraordinário, inverossímil), reforçada pelo fato de que o autor organiza a narrativa de forma a não chancelar uma motivação em detrimento da outra. Entretanto, se por um lado Macedo tem o privilégio de proprietário da narrativa, como narrador-personagem, o canário parece compartilhar da astúcia compositiva do autor, como se nele ficasse conformado o triunfo do arranjo de efeito realista e representativo produzido pela ação criativa do autor. Isso ganha reforço pelo fato de que, ao final da disputa que se instaura no conto, o canário acaba por triunfar, mas o seu triunfo, como o do método criador da sátira machadiana, se dá por meio da burla e, não, por uma tomada de partido explícita do componente da realidade social que deve ser superado e que, na narrativa, termina desmascarado, sem uma fundamentação evidente e sem justificativas moralizantes.[5]
Para Luiz Antonio Aguiar, "Ideias de Canário" é "um conto excepcional, principalmente para a época. Num tempo em que se cultuavam com fé quase sacra a ciência da época e o racionalismo, eis que este canário subverte a cabeça de um típico erudito da época. Um conto divertidíssimo, para o qual não se tem chamado a necessária atenção.[6]
Referências
- ↑ Sousa, Paulo Melo (27 de março de 2009). «O universo paralelo dos Brechós». Jornal Pequeno. Consultado em 29 de janeiro de 2010
- ↑ ASSIS, Machado de. Ideias de Canário. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/ideias-de-canario/32285 . Acesso em: 27 dez. 2025.
- ↑ machadodeassis.net. «Páginas Recolhidas». Consultado em 30 de janeiro de 2025
- ↑ FERREIRA, Mateus de Morais Torres; CORRÊA, Ana Laura dos Reis. Realismo, Naturalismo e "Dialética da malandragem" em "Ideias de Canário", de Machado de Assis. Revista Cerrados, v. 32, n. 62, p. 119-126, 2023. DOI: 10.26512/cerrados.v32i62.46998.
- ↑ Correa, A. L. dos R. (2020). "NO MEIO DAQUELE CEMITÉRIO BRINCAVA UM RAIO DE SOL": SÁTIRA E MALANDRAGEM EM UM CONTO DE MACHADO DE ASSIS. Revista Cerrados, 29(52), 80–115. Recuperado de https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/29627
- ↑ AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
