Igreja Assíria do Oriente

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Igreja Assíria do Oriente
Orientação nestorianismo
Política Episcopal
Fundador Santos Tomé, Tadeu de Edessa e Bartolomeu; separada das outras sés por Perozes I e Barsauma
Origem período apostólico; separada em 484
Congregações 283.413
Membros 400-500 mil[1][2][3]
Site oficial http://news.assyrianchurch.org

A Igreja Assíria do Oriente (em siríaco: ܥܕܬܐ ܕܡܕܢܚܐ ܕܐܬܘܖ̈ܝܐ) é uma denominação cristã oriental que reivindica continuidade da sé fundada na Babilônia por São Tomé. Algumas vezes é chamada de Antiga Igreja do Oriente ou ainda de Igreja Ortodoxa Assíria,[carece de fontes?] mas não deve ser confundida com a Igreja Ortodoxa Síria. Na Índia, é conhecida como Igreja Sírio-Caldeia do Oriente. Teologicamente, é associada à doutrina do nestorianismo, o que fez com que ficasse conhecida como "Igreja Nestoriana" (principalmente pelos seus inimigos), embora sua liderança tenha por vezes rejeitado expressamente tal rótulo. O seu rito litúrgico é o siríaco oriental.

A Igreja Assíria do Oriente não está em comunhão nem com a Igreja Ortodoxa, nem com a Igreja Católica e nem com as Igrejas ortodoxas orientais, porque ela só aceita os ensinamentos dos dois primeiros concílios ecumênicos. [4][5][6] O atual Patriarca e líder máximo da Igreja Assíria do Oriente (chamado Patriarca Catholicós da Babilônia) é Mar Gewargis III.

História[editar | editar código-fonte]

Ruínas de Assur, antiga sé da Igreja, destruída por Tamerlão no século XV.

A Igreja Assíria do Oriente reivindica sucessão da sé fundada na Babilônia por Santos Tomé, Tadeu de Edessa e Bartolomeu, traçando sua existência ao período apostólico às epístolas de São Pedro.[7][8]

Os fundadores da teologia da Igreja do Oriente foram Diodoro de Tarso e Teodoro de Mopsuéstia, que ensinaram entre o quarto e quinto séculos d.C. em Antioquia. A cristologia da Igreja foi fixada por Mar Babai, o Grande: seu trabalho cristológico principal foi a doutrina da União, que afirma que os dois qnome (essências, às vezes traduzida como hipóstases) não são misturados, mas eternamente unidos em uma única parsopa (pessoa) de Jesus Cristo. Assim, Babai ensinou uma doutrina diferente da de Nestório, que foi acusado de dualismo.

Devido à sua doutrina cristológica, os nestorianos opuseram-se aos partidários de São Cirilo de Alexandria, que defendia a tese da unidade entre a pessoa humana e divina de Cristo. Esta disputa cristológica foi de tal forma violenta e grave que os dois lados opostos foram chamados ao Concílio de Éfeso, no ano de 431. A disputa centrou-se fundamentalmente em torno do título com o qual se devia referir a Maria, se somente Christotokos (mãe de Cristo, a dizer, de Jesus humano e mortal), como defendiam os nestorianos, ou de Theotokos (mãe de Deus, ou seja, também do Logos divino), como defendiam os partidários de Cirilo. Resolveu-se adotar como verdade de fé a doutrina proposta por Cirilo, concedendo a Maria o título de Mãe de Deus, e os nestorianos foram considerados hereges.

Nisto, uma facção com simpatias nestorianas na região foi favorecida pelo Imperador Perozes I, que, hostil ao Império Bizantino, viu na querela cristológica uma oportunidade de emancipar a igreja do Império Sassânida, pelo que ordenou a execução do Patriarca Babowai, pró-bizantino e empossou um inimigo político deste, Barsauma. Logo, esta comunidade enfaticamente diofisita, organizada em torno da Igreja do Oriente, foi desterrada do Império Romano, encontrando refúgio no Império Sassânida. Todavia, em algumas regiões isoladas do Oriente Próximo é ainda possível encontrar nestorianos.[carece de fontes?] Os nestorianos se propagaram pela Ásia Central, chegando até a China, e durante algum tempo influenciaram os mongóis, até a conversão destes ao lamaísmo, quando abandonaram o cristianismo assírio.

Hoje, discute-se muito até que ponto a Igreja do Oriente é ou foi efetivamente nestoriana. Opina-se que a dificuldade de traduzir termos como qnome e pasopa para as línguas ocidentais potencializaram a controvérsia, o que foi parcialmente coberto pela "Declaração cristológica comum entre a Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente", assinada por Mar Dinkha IV e o papa João Paulo II em 1994.

A Igreja do Oriente teve um papel fundamental na conservação de antigos textos gregos que foram traduzidos para o siríaco (um ramo do arameu). Mais tarde foram traduzidos para o árabe e no século XIII para o latim. A Igreja do Oriente é bem conhecida dos historiadores, e foi chamada pelo Papa João Paulo II, "igreja dos mártires", por seu grande sofrimento sob diferentes algozes ao longo de sua história.[9]

Atualmente, subsiste ainda a Igreja Assíria do Oriente na Índia, no Iraque, no Irã, na China, nos Estados Unidos e em outros lugares onde haja migrado comunidades nestorianas dos países citados. Estima-se que a Igreja Assíria conta apenas com cerca de 1 milhão de fiéis. Em virtude da perseguição religiosa, a sede principal da Igreja Assíria chegou a alocar-se em Chicago, apenas em 2015 retornando a Arbil, no Iraque. Muitos fiéis, entretanto, permanecem ainda no Oriente Médio, na Índia e na China.

Grupos dissidentes[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Igreja Católica Caldeia

Em 1552, grupos dentro da Igreja Assíria do Oriente elegeram Mar Shimun VIII, um patriarca rival ao impopular Mar Shemon VII. Ao ter seu povo recusado pela Igreja Ortodoxa Síria, Shimun viajou a Roma, onde foi entronado em 1553. Seu grupo hoje subsiste na Igreja Católica Caldeia, que é uma Igreja oriental sui juris em comunhão com a Santa Sé e supervisionada pelo Papa, o líder da Igreja Católica Romana.[10]

Em 1599, um grupo numeroso abandonou a Igreja Assíria na Índia, por influência de missionários portugueses, estabelecendo a Igreja Católica Siro-Malabar, que junto da Igreja Caldeia veio a ser uma das duas igrejas particulares em comunhão com Roma praticando o rito siríaco oriental. Por fim, partes deste grupo se uniriam à Ortodoxia Oriental e ao anglicanismo, resultando na hoje dividida comunidade dos Cristãos de São Tomé.[11][12]

Desde 1968, a comunidade nestoriana está dividida em resultado de disputas relacionadas ao uso do calendário gregoriano, com um grupo numeroso tendo estabelecido a Igreja Antiga do Oriente, sediada em Bagdá. Há, no entanto, esforços ativos de reunificação entre ambas as partes.

Doutrina[editar | editar código-fonte]

A Igreja Assíria do Oriente tem a distintiva crença cristológica de que em Jesus Cristo há duas essências (Qnome) distintas, uma humana e outra divina, em uma só pessoa (Parsopa). A crença dita nestoriana, de que em Cristo haveria duas pessoas, completas de tal forma que constituem dois entes independentes vivendo no mesmo corpo, ao contrário do que se pensa, não é a professada por esta igreja, e na verdade nem corresponde exatamente à realidade (só se conhece o nestorianismo na versão dos inimigos dessa visão teológica, como os monofisitas e ortodoxos). Esta doutrina cristológica surgiu em Antioquia, no século V, e foi proposta por Nestório, monge oriundo de Alexandria, que assumiu o bispado de Constantinopla. O Teshbokhta, hino composto por Mar Babai, resume a crença da Igreja Assíria da seguinte forma:[13]

Um é Cristo o Filho de Deus, adorado por todos em duas naturezas; em sua divindade gerado do Pai, sem princípio antes de todos os tempos; em sua humanidade nascido de Maria, na plenitude do tempo, em um corpo unido; nem sua divindade é da natureza da mãe, nem sua humanidade é da natureza do Pai; suas naturezas são preservadas em suas qnome, em uma pessoa de uma filiação. E assim como Deus é três substâncias em uma natureza, a filiação do Filho é em duas naturezas, uma pessoa. Assim ensinou a Santa Igreja.


As paróquias assírias carecem de qualquer ornamentação ou ícones. Na maioria das vezes usa-se uma cruz simples no altar em vez de crucifixos.

A Igreja do Oriente difere da maior parte da Cristandade quanto ao cânon bíblico. Possui no Novo Testamento apenas 22 livros, excluindo a Segunda Epístola de Pedro, a Segunda e Terceira epístolas de João, Judas e o Livro do Apocalipse. No Antigo Testamento não possui o livro das Crônicas e Esdras, Neemias e de Ester. A versão utilizada é a Peshitta em língua aramaica.

Desde 1964 a Igreja Assíria do Oriente adota o calendário gregoriano, o que deflagrou o cisma com a Igreja Antiga do Oriente. Pratica o sacramento da eucaristia (Qurbana) na Divina Liturgia de Addai e Mari notavelmente não há as palavras de consagração na epiclese.

O celibato é normalmente obrigatório para os bispos e monges. Sacerdotes podem se casar, em contraste com as outras igrejas orientais e a Igreja Católica Romana, mesmo após a ordenação. Há instâncias de bispo se casarem, como fez o Patriarca Mar Shimun XXIII.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. "Nestorian". Encyclopædia Britannica. Retrieved April 19, 2010.
  2. «CNEWA United States – The Assyrian Church of the East». Cnewa.org. Consultado em 2012-06-12. 
  3. «The Church of the East – Mark Dickens». The American Foundation for Syriac Studies. 2012-10-05. Consultado em 2012-12-25. 
  4. Garsoïan 1999, p. 73
  5. Chabot 1902, p. 532
  6. Leonard M Outerbridge, The Lost Churches of China, (Westminster Press, USA, 1952)
  7. «Holy Apostolic Catholic Assyrian Church of the East». Oikoumene.org. Consultado em 2016-05-15. «St Peter, the chief of the apostles added his blessing to the Church of the East at the time of his visit to the see at Babylon, in the earliest days of the church: '... The chosen church which is at Babylon, and Mark, my son, salute you ... greet one another with a holy kiss ...' ( I Peter 5:13-14).» 
  8. 1Pe 5:13
  9. Church Times: Church of mission and martyrs
  10. George V. Yana (Bebla), "Myth vs. Reality," JAA Studies, Vol. XIV, No. 1, 2000 p. 80
  11. Malankara Mar Thoma Syrian Church: Heritage
  12. CNEWA: The Chaldean Catholic Church
  13. [1]