Igreja Ortodoxa Ucraniana

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Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Igreja Ortodoxa da Ucrânia.
Igreja Ortodoxa Ucraniana
(Metrópole de Kiev)
Logo of the UOC (Moscow Patriarchate).svg
Emblema da Igreja Ortodoxa Ucraniana
Fundador Santo André (tradicional), São Vladimir, o Grande (de fato), Gedeão (instituição atual)
Independência 1685 (autonomia)
1921 (exarcado)
1990 (autonomia reinstituída)
2022 (do Patriarcado de Moscou)
Reconhecimento Igreja Ortodoxa Russa, como Igreja autônoma.
Primaz Metropolita Onúfrio de Kiev
Sede Primaz Kiev,  Ucrânia
Território  Ucrânia (incluindo Donbas)
República da Crimeia e Sebastopol ( Rússia)
Posses Nenhuma (os ortodoxos ucranianos na diáspora estão sob outras jurisdições)
Língua Língua eslava litúrgica, ucraniano, romena
Adeptos 4% população ucraniana[1]
Site Igreja Ortodoxa Ucraniana
Lavra de Kiev-Pechersk, residência do Metropolita de Kiev

A Igreja Ortodoxa Ucraniana (em ucraniano: Українська Православна Церква; em russo: Украинская Православная Церковь) , comumente referida como Igreja Ortodoxa Ucraniana (Patriarcado de Moscou), é uma Igreja ortodoxa canônica, parte constituinte do Igreja Ortodoxa Russa, com amplos direitos de autonomia.[2] Todavia, o Patriarcado de Constantinopla, contesta a legalidade da jurisdição eclesiástica do Patriarcado de Moscou sobre a Ucrânia, que data de 1686.[3]

O Estatuto da Igreja Ortodoxa Ucraniana, alterada em maio de 2022, já não prevê qualquer menção direta à Igreja Ortodoxa Russa, mas também não fala de autocefalia[4][5][6][7], de maneira que a igreja ainda é considerada como dependente, do ponto de vista canônico, da Igreja Ortodoxa Russa.[8]

A denominação considera seu território de atuação toda a Ucrânia, incluindo Donbas, a Crimeia e Sebastopol.[9][10][11]

Em termos absolutos, já foi reconhecida como maior denominação cristã na Ucrânia, com 11.393 paróquias, 10.963 padres, 219 mosteiros e 53 eparquias[12][13][14], antes do surgimento da atual Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que passou a ser a maior igreja ortodoxa do país depois de 2018.[1]

Sua sede fica no monastério conhecido como Lavra de Pechersk, em Kiev. O Primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana é Sua Beatitude Onúfrio Berezovski, Metropolita de Kiev e Toda a Ucrânia.[15]

A Igreja Ortodoxa Ucraniana considera-se a sucessora legal da antiga Metrópole de Kiev (dentro da Ucrânia) e do antigo Exarcado ucraniano da Igreja Ortodoxa Russa.[16]

História[editar | editar código-fonte]

A história da Cristandade na Ucrânia está intimamente ligada à história da Igreja Ortodoxa Russa, tradicionalmente começando quando Santo André teria chegado onde hoje é Kiev e profetizado a construção de uma grande cidade cristã, erigido uma cruz onde seria hoje a Igreja de Santo André.[17][18] A efetiva cristianização da região, no entanto, começaria no século IX, quando o Império Bizantino enviou bispos ao então Grão-Canato de Rus e os santos irmãos Cirilo e Metódio fizeram missões lá. Em 988, o cristianismo foi oficializado por Vladimir I, grão-duque de Kiev, em evento conhecido como Batismo da Rus.[19][20]

Com a invasão mongol da Rússia, no século XIII, a Sé do Metropolita de Kiev foi transferida para Vladimir, e posteriormente para Moscou, dando origem ao que é conhecido atualmente como o Patriarcado de Moscou. No século XIV, o Grão-Duque Algirdas da Lituânia tentou o retorno dessa Sé para Kiev, que estava sob seu controle. Em 1620, a União de Brest transferiu esta Sé para Igreja Católica Romana, gerando a Igreja Greco-Católica Ucraniana, mas a Sé ortodoxa seria reinstituída pelo Patriarcado Ecumênico no mesmo ano.

Em 1685, as então seis eparquias em território ucraniano foram transferidos para a jurisdição da Igreja Ortodoxa Russa, com Gideão (Svyatopolk-Chetvertynski) sendo escolhido como Metropolita de Kiev, Galícia e Pequena Rússia.[3] Esta Sé, no entanto, progressivamente perdeu força, com suas eparquias sendo transferidas para outras jurisdições, culminando na limitação do título do Metropolita Arsênio a Metropolita de Kiev e Galícia em 1767 por édito de Catarina II da Rússia.[21] Com sua morte três anos depois, a Sé foi reduzida a uma simples diocese administrativa. A Igreja da Ucrânia se tornou provisoriamente um Exarcado em 1921, e, após um duro período de duras perseguições sob a União Soviética, finalmente restaurou sua autonomia em 1990.

O intenso clima político durante e após o período comunista, acabou causando dois cismas na igreja, com o surgimento da Igreja Autocéfala Ucraniana e do Patriarcado de Kiev, nenhum dos dois foi reconhecido por nenhum dos 9 patriarcas. No Século XXI, primazes ortodoxos mundiais, com participação ativa dos Patriarcas de Constantinopla e Moscou, iniciaram esforços para sanar os cismas locais. O ex-presidente da Ucrânia Viktor Yushchenko reafirmou publicamente a importância da Ucrânia unida, pedindo o fim das divisões entre ortodoxos ucranianos. A recente intervenção militar russa no país polarizou a situação, principalmente entre o Patriarcado e a Metrópole sob Moscou. O Patriarca Filareto de Kiev, por exemplo, apoia abertamente a inclusão da Ucrânia na OTAN, enquanto figuras importantes da Igreja Ortodoxa Russa como o Arcipreste Vsevolod Chaplin expressaram posicionamentos positivos quanto à presença russa no país.[22][23]

Surgimento da Igreja Ortodoxa da Ucrânia[editar | editar código-fonte]

Em 15 de dezembro de 2018, as duas dissidentes da Igreja Ortodoxa Ucraniana, Igreja Autocéfala Ucraniana e Patriarcado de Kiev, juntamente com parte dos membros da Igreja Ortodoxa Ucraniana, realização o Concílio de Unificação, decidindo assim pela sua fusão e criação da atual Igreja Ortodoxa da Ucrânia. Desde então, a nova igreja foi reconhecida como canônica pelo Patriarcado de Constantinopla, Patriarcado de Alexandria, Igreja da Grécia e Igreja do Chipre, que logo tornou-se a maior denominação ortodoxa do país.[24][25][26][27][28][29]

Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022[editar | editar código-fonte]

Após invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a Igreja Ortodoxa Ucraniana (IOU) perdeu mais de 70% dos seus membros e paróquias, que se transferiram para a Igreja Ortodoxa da Ucrânia por associarem a IOU à invasão russa. Em abril de 2022, apenas 4% da população do país se identificava como membro da denominação.[4][1]

Status atual[editar | editar código-fonte]

Em 27 de maio de 2022, a Igreja Ortodoxa Ucraniana retirou toda menção à Igreja Ortodoxa Russa em seu estatuto.[7][4][30] Em um anúncio no Telegram, o arcebispo Nicolau Danilevich, chefe do Departamento de Relações Externas da Igreja Ortodoxa Ucraniana, declarou:

A Igreja Ortodoxa Ucraniana se separou do Patriarcado de Moscou e confirmou seu status independente, e fez as mudanças apropriadas em seus estatutos. Todas as referências à conexão da Igreja Ortodoxa Ucraniana com a Igreja Ortodoxa Russa foram removidas dos estatutos. De fato, em seu conteúdo, os estatutos da Igreja ortodoxa Ucraniana são agora os de uma Igreja autocéfala.[6][31]

Em 29 de maio de 2022, o Metropolita Onúfrio não mencionou o Patriarca Cirilo durante a liturgia como alguém que tinha autoridade sobre ele, em vez disso, ele comemorou todos os primazes das Igrejas Ortodoxas, semelhantes às liturgias divinas primaciais. Onúfrio também não comemorou o Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla, o Patriarca Teodoro II de Alexandria, o Arcebispo Jerônimo II de Atenas e o Arcebispo Crisóstomo II de Chipre, indicando que a comunhão ainda está em erupção entre eles.[4][32]

Todavia, a mudança no estatuto da igreja não declarou explicitamente a autocefalia e esta condição não foi reconhecida por qualquer igreja na comunidade ortodoxa global, razão pela qual teólogos ucranianos declaram que a igreja ainda está canonicamente dependente da Igreja Ortodoxa Russa.[4][8]

Divisões administrativas[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 2014, a Igreja Ortodoxa Ucraniana foi subdividida em 53 Eparquias (Dioceses) lideradas por bispos. Também havia 25 vigários (bispos sufragâneos), atualmente chegam a 47.[33]

Em 2008, a Igreja possuía 42 Eparquias, com 58 Bispos (eparquial - 42; vigário - 12; aposentado - 4; sendo eles classificados como: metropolitanos - 10; arcebispos - 21; ou bispos - 26). Havia também 8.516 padres e 443 diáconos.

Não obstante a anexação russa da Crimeia em 2014, a Igreja Ortodoxa Ucraniana mantinha o controle de suas Eparquias na Crimeia. Em janeiro de 2019, o chefe do Departamento de Informação e Educação da Igreja Ortodoxa Ucraniana, Arcebispo Clemente, declarou que "do ponto de vista do cânon da igreja e do sistema da igreja, a Crimeia é território ucraniano".[34]

Primaz[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Onúfrio de Quieve

Sua Beatitude Onúfrio (Berezovski) (latim: Onuphrius, nome secular: Orest Volodimirovich Berezovski; ucraniano: Орест Володимирович Березовський; russo: Орест Владимирович Березовский; nascido em 5 de novembro de 1944, Korytne (Oblast de Chernivtsi), é o Primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana, com o título de Metropolita de Kiev e Toda a Ucrânia.[35][36]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, não há presença da Igreja Ortodoxa Ucraniana. A comunidade ortodoxa ucraniana em diáspora é representada pela Eparquia Ortodoxa Ucraniana da América do Sul, sob jurisdição do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, com quem a Igreja Ortodoxa Russa rompeu relações desde 2018. Seu arcebispo é Jeremias Ferens, que reside em Curitiba, Paraná. Além do Brasil, Jeremias é responsável pelos ortodoxos ucranianos da Argentina, do Paraguai e da Venezuela. Há paróquias ortodoxas ucranianas no país nos estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul.[37]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c «73% dos paroquianos da Igreja Ortodoxa Ucraniana (Patriarcado de Moscou) não se identifique mais com esta igreja» (PDF). 6 de abril de 2022. Consultado em 22 de dezembro de 2022 
  2. «A Carta da Igreja Ortodoxa Russa - Capítulo X. Igreja Ortodoxa Ucraniana». Патриархия.ru (em russo). Consultado em 2 de junho de 2022 
  3. a b «Historical-Canonical Basis for the Unity of the Russian Church. Priest Mikhail Zheltov». OrthoChristian.Com. Consultado em 18 de dezembro de 2020 
  4. a b c d e Ksenia Luchenko (17 de janeiro de 2022). «A Igreja Ortodoxa Ucraniana pode sobreviver à guerra com a Rússia?». Carnegie Endowment for International Peace (em inglês). Consultado em 20 de janeiro de 2023 
  5. «Украинская православная церковь заявила о независимости от Московского патриархата». BBC News Русская служба (em russo). Consultado em 2 de junho de 2022 
  6. a b «Council of UOC strengthens UOC independence, considers making Chrism, expresses disagreement with Patriarch». OrthoChristian.Com. Consultado em 2 de junho de 2022 
  7. a b «Постанова Собору Української Православної Церкви від 27 травня 2022 року». Українська Православна Церква (em ucraniano). 27 de maio de 2022. Consultado em 2 de junho de 2022 
  8. a b «Teólogo sobre emendas ao estatuto da UOC-MP: a calma de Moscou sobre sua filial fica clara, pois não está virando as costas para Moscou». 27 de maio de 2022. Consultado em 6 de junho de 2022 
  9. Globalne problemy lokalne perspektywy : studia nad bezpieczeństwem. Krzysztof Kociubiński, Elżbieta Szyszlak, Difin Wydanie 1 ed. Warszawa: Difin. 2020. OCLC 1228841920 
  10. Ilyashevich, Alexey (28 de janeiro de 2018). «Como Donetsk vive: a Igreja Ortodoxa». Consultado em 2 de junho de 2022 
  11. «Статус епархий в Крыму остался неизменным, заявили в УПЦ Московского патриархата». NEWSru.com (em russo). 10 de março de 2015. Consultado em 2 de junho de 2022 
  12. Станом на 31 жовтня 2014 року (em ucraniano)
  13. Most of population of Ukraine considers itself predominantly of the Ukrainian Orthodox Church (Kiev Patriarchate) Arquivado em 17 de abril de 2015, no Wayback Machine.. (em inglês)
  14. «Єпархії – Українська Православна Церква». church.ua. Consultado em 11 de agosto de 2020 
  15. «Сторінка Предстоятеля УПЦ». ОНУФРІЙ, Блаженніший Митрополит Київський і всієї України (em ucraniano). 19 de janeiro de 2013. Consultado em 18 de dezembro de 2020 
  16. «Голова УПЦ: Коли Президент відвідує Лавру, заходить до мене на каву і молиться біля мощей : Новини УНIАН». web.archive.org. 24 de janeiro de 2010. Consultado em 2 de junho de 2022 
  17. Damick, Andrew S. «Life of the Apostle Andrew». Chrysostom. Consultado em 25 de junho de 2007. Arquivado do original em 27 de julho de 2007 
  18. Voronov, Theodore (13 de outubro de 2001). «The Baptism of Russia and Its Significance for Today». Orthodox. Clara. Consultado em 25 de junho de 2007. Arquivado do original em 18 de abril de 2007 
  19. Theophanes Continuatus, Ioannes Cameniata, Symeon Magister, Georgius Monachus. Ed. I. Becker. Bonnae, 1838 (CSHB), p. 196.
  20. «Archbishop Averky (Taushev). The Baptism of Rus' and the Legacy to the Russian People of Holy Prince Vladimir». OrthoChristian.Com. Consultado em 18 de dezembro de 2020 
  21. Arseniy na Pravoslavnaya Entsiklopediya (em russo)
  22. Simons, Greg; Westerlund, David (2015). Religion, Politics and Nation-Building in Post-Communist Countries. [S.l.: s.n.] p. 31-35. ISBN 1317067150 
  23. Gavrilyuk, Paul L. The President and the Patriarch (em inglês)
  24. «OCU сlaims to be recognized by Alexandrian Church - RISU». Religious Information Service of Ukraine (em inglês). Consultado em 23 de fevereiro de 2022 
  25. «Metropolitan Epiphanius: The Church of Greece recognized de facto our Church (upd)». Orthodox Times (em inglês). 29 de julho de 2019. Consultado em 23 de fevereiro de 2022 
  26. «Ecumenical Patriarchate's official website lists Orthodox Church of Ukraine - RISU». Religious Information Service of Ukraine (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2021 
  27. «The document of the recognition of the Church of Greece has arrived in Kyiv (upd)». Orthodox Times (em inglês). 29 de outubro de 2019. Consultado em 2 de fevereiro de 2021 
  28. «Patriarchate of Alexandria recognizes Autocephalous Church of Ukraine (upd)». Orthodox Times (em inglês). 8 de novembro de 2019. Consultado em 2 de fevereiro de 2021 
  29. «Archbishop of Cyprus commemorates Metropolitan Epifaniy of Kyiv for first time (upd)». Orthodox Times (em inglês). 24 de outubro de 2020. Consultado em 2 de fevereiro de 2021 
  30. «Conselho da Igreja Ortodoxa Ucraniana decide sobre total autonomia e independência». tass.ru. Consultado em 2 de junho de 2022 
  31. «Миколай Данилевич». Telegram. Consultado em 2 de junho de 2022 
  32. «Met. Onuphry changes how he commemorates—reads diptychs of Orthodox primates (+VIDEO)». OrthoChristian.Com. Consultado em 2 de junho de 2022 
  33. «Вікарні архієреї – Українська Православна Церква». church.ua. Consultado em 11 de agosto de 2020 
  34. «Згідно з церковними канонами, Крим є територією України — УПЦ МП». Українська правда (em ucraniano). Consultado em 11 de agosto de 2020 
  35. «Українська Православна Церква». church.ua. Consultado em 11 de agosto de 2020 
  36. «Metropolitan Onufry: biografia, obras - Cristianismo - 2020». https://pt.verdauung-info.com/. Consultado em 11 de agosto de 2020 
  37. «Eparquia Ortodoxa Ucraniana da América do sul». Eparquia Ortodoxa Ucraniana da América do sul. Consultado em 11 de agosto de 2020 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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