Igreja Ortodoxa Ucraniana (Patriarcado de Kiev)
| Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev | |
Brasão utilizado pelo Patriarcado de Kiev | |
| Fundador | Mistislau (Skrypnyk), Filareto de Kiev e outros participantes do concílio de 1992 |
| Independência | Declarada em 1992 |
| Reconhecimento | Não reconhecida como Igreja autocéfala pelas demais Igrejas ortodoxas; a estrutura histórica foi incorporada à Igreja Ortodoxa da Ucrânia em 2018 |
| Primaz | Vacante |
| Sede Primaz | Catedral de São Vladimir, Kiev, Ucrânia |
| Território | Principalmente Ucrânia |
| Posses | {{{posses}}} |
| Língua | ucraniano e eslavo eclesiástico |
| Adeptos | {{{população}}} |
| Site | cerkva.info |

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (em ucraniano: Українська православна церква Київського патріархату; transliteração: Ukrainska pravoslavna tserkva Kyivskoho patriarkhatu), abreviada como IOU–PK ou Patriarcado de Kiev, foi uma jurisdição ortodoxa ucraniana constituída em 1992 e não reconhecida como autocéfala pelas demais Igrejas ortodoxas durante a maior parte de sua existência independente.[1]
Em 15 de dezembro de 2018, seus bispos, clérigos e paróquias participaram do Concílio de unificação, no qual o Patriarcado de Kiev, a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana e dois bispos da Igreja Ortodoxa Ucraniana ligada historicamente ao Patriarcado de Moscou formaram a Igreja Ortodoxa da Ucrânia. A estrutura histórica do Patriarcado de Kiev aprovou o encerramento de sua existência separada e sua incorporação à nova Igreja.[2]
Em junho de 2019, entretanto, Filareto Denysenko, antigo primaz do Patriarcado e então patriarca honorário da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, reuniu um pequeno grupo de apoiadores e declarou que o Patriarcado de Kiev continuava a existir. Essa reorganização não foi reconhecida pela Igreja Ortodoxa da Ucrânia, pelo Patriarcado Ecumênico de Constantinopla ou pelas demais Igrejas ortodoxas autocéfalas. A entidade jurídica da estrutura anterior permaneceu oficialmente extinta na Ucrânia.[3][4]
Filareto dirigiu o grupo que reivindicava a continuidade do Patriarcado até sua morte, em 20 de março de 2026. Depois de sua morte, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia reiterou que as ordenações episcopais realizadas em nome do Patriarcado de Kiev após dezembro de 2018 não eram reconhecidas por ela.[5][6]
História
[editar | editar código]Antecedentes
[editar | editar código]Durante o período soviético, as estruturas ortodoxas oficialmente permitidas na Ucrânia estavam subordinadas ao Patriarcado de Moscou. Após a declaração da independência da Ucrânia, em 1991, parte do episcopado e do clero passou a defender a criação de uma Igreja ortodoxa ucraniana plenamente autocéfala.[7]
O metropolita Filareto Denysenko, então primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana vinculada ao Patriarcado de Moscou, apoiou uma resolução aprovada em novembro de 1991 que solicitava a autocefalia. A proposta não recebeu o apoio necessário da Igreja Ortodoxa Russa, e Filareto comprometeu-se, durante um concílio realizado em Moscou em abril de 1992, a deixar a posição de primaz.
Depois de retornar à Ucrânia, Filareto recusou-se a renunciar. Em maio de 1992, uma reunião episcopal realizada em Carcóvia o afastou da direção da Igreja Ortodoxa Ucraniana e elegeu Vladimir Sabodan como novo metropolita de Kiev. Filareto não reconheceu a decisão.
Fundação do Patriarcado de Kiev
[editar | editar código]Nos dias 25 e 26 de junho de 1992, representantes ligados a Filareto e uma parte da Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana reuniram-se em Kiev e anunciaram a formação da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev.[1]
O metropolita Mistislau (Skrypnyk), que dirigia a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana e vivia nos Estados Unidos, foi proclamado patriarca da nova estrutura. A forma como a união foi conduzida, entretanto, provocou oposição entre integrantes da própria Igreja Autocéfala, alguns dos quais afirmaram que Mistislau não havia autorizado o processo.
Após a morte de Mistislau, em junho de 1993, parte dos antigos membros da Igreja Autocéfala retirou-se da união. O Patriarcado de Kiev escolheu então Vladimir Romaniuk como seu primaz.
Romaniuk morreu em julho de 1995. Em outubro daquele ano, Filareto foi eleito patriarca de Kiev e de Toda a Rus-Ucrânia, cargo que ocuparia até a incorporação da Igreja à Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em dezembro de 2018.[5]
Relações com o Patriarcado de Moscou
[editar | editar código]A Igreja Ortodoxa Russa destituiu Filareto do episcopado em 1992 e declarou seu anátema em 1997. O Patriarcado de Kiev rejeitou essas decisões e continuou a considerá-lo bispo e patriarca legítimo.
Durante esse período, nenhuma das Igrejas ortodoxas autocéfalas reconheceu formalmente o Patriarcado de Kiev como uma Igreja autocéfala canônica. Apesar da ausência de reconhecimento, a jurisdição ampliou sua presença na Ucrânia, principalmente nas regiões centrais e ocidentais, e estabeleceu paróquias em outros países.[7]
O conflito sobre a jurisdição e a autocefalia ucranianas esteve relacionado a questões eclesiásticas, históricas e políticas, incluindo a relação entre a Ucrânia e a Rússia e as diferentes interpretações sobre a transferência da Metrópole de Kiev à administração do Patriarcado de Moscou no século XVII.
Decisões do Patriarcado Ecumênico em 2018
[editar | editar código]Em 11 de outubro de 2018, o Santo Sínodo do Patriarcado Ecumênico decidiu examinar favoravelmente os recursos apresentados por Filareto e pelo metropolita Macário Maletych, dirigente da Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana. Ambos foram restaurados à comunhão e reconhecidos em suas ordens episcopais.[8]
A decisão retirou as sanções canônicas que Constantinopla reconhecia até então, mas não significou o reconhecimento do Patriarcado de Kiev como Igreja autocéfala nem o reconhecimento do título patriarcal de Filareto. Para o Patriarcado Ecumênico, Filareto foi recebido como antigo metropolita de Kiev.[9]
O mesmo sínodo anunciou a intenção de conceder autocefalia a uma Igreja ortodoxa unificada na Ucrânia e revogou a validade da carta sinodal de 1686 na medida em que ela havia concedido ao patriarca de Moscou o direito de ordenar o metropolita de Kiev sob determinadas condições.[8]
Incorporação à Igreja Ortodoxa da Ucrânia
[editar | editar código]Em 15 de dezembro de 2018, o Patriarcado de Kiev realizou um concílio no qual decidiu encerrar sua existência separada e participar do Concílio de Unificação reunido no complexo da Catedral de Santa Sofia de Kiev.[2]
O concílio reuniu bispos do Patriarcado de Kiev, da Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana e dois bispos da Igreja Ortodoxa Ucraniana historicamente vinculada a Moscou. Os participantes criaram a Igreja Ortodoxa da Ucrânia e elegeram o metropolita Epifânio Dumenko como seu primaz.[10]
Filareto não se candidatou à direção da nova Igreja e recebeu o título de patriarca honorário. A denominação não integrava a estrutura canônica prevista nos estatutos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia e não lhe conferia poderes equivalentes aos do primaz.
Em 5 de janeiro de 2019, o patriarca ecumênico Bartolomeu I assinou o tomos de autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia. A entrega solene do documento ocorreu no dia seguinte, em Constantinopla.[11]
Ruptura de Filareto com a nova Igreja
[editar | editar código]Nos meses seguintes à criação da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, surgiram divergências entre Filareto e Epifânio sobre a administração da nova estrutura. Filareto sustentava que acordos anteriores lhe garantiriam influência sobre o governo interno, enquanto a Igreja Ortodoxa da Ucrânia afirmava que o metropolita eleito possuía integralmente as atribuições de primaz.
Em maio de 2019, Filareto declarou que o Patriarcado de Kiev não havia sido efetivamente dissolvido. Em 20 de junho, reuniu na Catedral de São Vladimir um encontro denominado por seus participantes “concílio local”, que revogou a decisão de dissolução, rejeitou disposições do tomos de autocefalia e declarou a continuidade do Patriarcado de Kiev.
A Igreja Ortodoxa da Ucrânia não reconheceu esse encontro como concílio legítimo. A maior parte dos antigos bispos, clérigos e paróquias do Patriarcado de Kiev permaneceu na nova Igreja, enquanto apenas um número reduzido de hierarcas e comunidades apoiou Filareto.
Em 24 de junho de 2019, o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa da Ucrânia retirou de Filareto a administração da Diocese de Kiev, mas inicialmente manteve-o no episcopado e atribuiu-lhe a condição de bispo emérito.
Situação jurídica
[editar | editar código]Em julho de 2019, o Ministério da Cultura da Ucrânia informou que a entidade denominada “Patriarcado de Kiev da Igreja Ortodoxa Ucraniana” havia encerrado oficialmente suas atividades por incorporação à Metrópole de Kiev da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.[3]
Filareto e seus apoiadores contestaram o processo, argumentando que a dissolução não havia sido conduzida de forma válida e que a estrutura deveria recuperar seu registro. Os tribunais ucranianos rejeitaram os principais pedidos apresentados para anular a extinção.
Em 2021, a Suprema Corte da Ucrânia manteve as decisões relacionadas à liquidação da entidade jurídica. Dessa forma, embora comunidades e indivíduos continuassem a utilizar a denominação “Patriarcado de Kiev”, a organização central que havia existido antes de dezembro de 2018 não recuperou sua personalidade jurídica.[4]
A situação jurídica das paróquias locais podia variar, pois as comunidades religiosas possuíam registros próprios e algumas delas permaneceram ligadas a Filareto ou foram objeto de disputas administrativas e patrimoniais.
Grupo reorganizado após 2019
[editar | editar código]Depois do encontro de junho de 2019, Filareto passou a ordenar novos bispos em nome do Patriarcado de Kiev e anunciou a reorganização de dioceses na Ucrânia e no exterior.
A Igreja Ortodoxa da Ucrânia considerou essas ordenações inválidas e afirmou que Filareto não possuía autorização para realizar consagrações episcopais fora de sua posição como bispo emérito. Em fevereiro de 2020, o Santo Sínodo retirou-o de seus órgãos dirigentes e proibiu-o de realizar novas ordenações em nome da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.
Em fevereiro de 2022, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia determinou que os indivíduos ordenados por Filareto depois de junho de 2019 não seriam reconhecidos como bispos ou clérigos. Alguns antigos membros que haviam participado do grupo reorganizado também foram submetidos a julgamentos eclesiásticos.[6]
O grupo continuou a realizar cerimônias e a manter um site próprio, mas permaneceu sem reconhecimento das Igrejas ortodoxas autocéfalas e sem o registro jurídico da antiga organização central.
Morte de Filareto
[editar | editar código]Filareto morreu em Kiev em 20 de março de 2026, devido ao agravamento de doenças crônicas. A Igreja Ortodoxa da Ucrânia anunciou oficialmente sua morte, referindo-se a ele como patriarca honorário e antigo primaz do Patriarcado de Kiev.[2][5]
O corpo foi recebido na Catedral de São Miguel das Cúpulas Douradas, sede da Igreja Ortodoxa da Ucrânia. O funeral foi presidido pelo metropolita Epifânio e contou com a participação de bispos e clérigos da Igreja. Filareto foi sepultado em 22 de março na Catedral de São Vladimir, templo que havia servido como sua principal sede eclesiástica.[12]
Após sua morte, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia reiterou que o Patriarcado de Kiev havia encerrado sua existência separada em 2018 e que não reconhecia como bispos os integrantes do grupo reorganizado depois de 2019.[6]
Status canônico
[editar | editar código]Entre 1992 e 2018, o Patriarcado de Kiev não esteve em comunhão com as Igrejas ortodoxas autocéfalas reconhecidas. Seus sacramentos, ordenações e sucessão episcopal foram objeto de controvérsia entre as diferentes jurisdições.
A decisão do Patriarcado Ecumênico de outubro de 2018 restaurou Filareto, Macário e seus seguidores à comunhão e reconheceu suas ordens, preparando sua participação na criação da Igreja Ortodoxa da Ucrânia. A decisão não reconheceu, contudo, a continuidade de um Patriarcado de Kiev separado depois do Concílio de Unificação.
A Igreja Ortodoxa da Ucrânia recebeu o tomos de autocefalia de Constantinopla e foi posteriormente reconhecida por algumas outras Igrejas autocéfalas. O grupo reorganizado por Filareto em 2019 não recebeu reconhecimento semelhante.
Organização histórica
[editar | editar código]Antes da unificação de 2018, o Patriarcado de Kiev era governado por um patriarca, um Santo Sínodo e concílios episcopais e locais. Sua principal sede litúrgica era a Catedral de São Vladimir, em Kiev.
A jurisdição mantinha dioceses, paróquias, mosteiros e instituições de ensino teológico em diferentes regiões da Ucrânia. Também possuía comunidades no exterior, embora algumas das estruturas internacionais tenham mudado de jurisdição depois da criação da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.
As estatísticas anteriores a 2018 variavam conforme a fonte e os critérios adotados. Pesquisas de opinião sobre identificação religiosa não correspondiam necessariamente ao número de membros registrados, pois parte considerável da população ucraniana se identificava com uma Igreja sem participação institucional regular.
Primazes
[editar | editar código]- Mistislau (Skrypnyk) — 1992–1993;
- Vladimir Romaniuk — 1993–1995;
- Filareto Denysenko — 1995–2018, como primaz da estrutura histórica;
- Filareto Denysenko — 2019–2026, como dirigente do grupo que reivindicava a continuidade do Patriarcado.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 Havryliuk, Tetiana; Chornomorets, Yuriy (2024). «Inter-Orthodox Conflicts in Ukraine and the Movement to Unite Ukrainian Orthodoxy». Occasional Papers on Religion in Eastern Europe (em inglês). 44 (1). Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2026
- 1 2 3 «Упокоївся у Бозі Святійший Патріарх Філарет» (em ucraniano). Igreja Ortodoxa da Ucrânia. 20 de março de 2026. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 6 de agosto de 2026
- 1 2 «Ministry of Culture confirms liquidation of Kyiv Patriarchate» (em inglês). Religious Information Service of Ukraine. 31 de julho de 2019. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 24 de abril de 2026
- 1 2 «Supreme Court of Ukraine confirms that UOC-KP was liquidated legally» (em inglês). Religious Information Service of Ukraine. 8 de junho de 2021. Consultado em 5 de agosto de 2026
- 1 2 3 «Patriarch Filaret, who fought for an independent Ukrainian Orthodox church, dies at 97» (em inglês). Associated Press. 20 de março de 2026. Consultado em 5 de agosto de 2026
- 1 2 3 «Події в українському православ'ї після упокоєння Святійшого Патріарха Філарета: факти та оцінки» (em ucraniano). Igreja Ortodoxa da Ucrânia. 2026. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2026
- 1 2 Spiegel, Egbert (2019). «The New Independent Orthodox Church in Ukraine». Südosteuropa (em inglês). 67 (2): 170–191. doi:10.1515/soeu-2019-0037. Cópia arquivada em 25 de janeiro de 2025
- 1 2 «Announcement (11/10/2018)» (em inglês). Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. 11 de outubro de 2018. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2026
- ↑ «Autocephaly of the Orthodox Church of Ukraine: Announcements» (em inglês). Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2026
- ↑ «В Киеве создана независимая православная церковь» (em russo). BBC News Русская служба. 15 de dezembro de 2018. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2025
- ↑ «Autocephaly of the Orthodox Church of Ukraine» (em inglês). Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 6 de agosto de 2026
- ↑ «Офіційне повідомлення: Щодо розпорядку поховання спочилого Патріарха Філарета» (em ucraniano). Igreja Ortodoxa da Ucrânia. 20 de março de 2026. Consultado em 5 de agosto de 2026
Ligações externas
[editar | editar código]- Página mantida pelo grupo que reivindicava a continuidade do Patriarcado de Kiev (em ucraniano)
- Site oficial da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (em ucraniano)
