Igreja orgânica

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O movimento igreja orgânica é o nome dado a um movimento cristão evangélico que reinterpreta a natureza e a prática da igreja, oriundo do descontentamento dos cristãos protestantes com o "universo evangélico", em uma busca por agrupamentos mais autênticos, menos rígidos, com mais liberdade e que sejam menos hipócritas.[1][2] Os desigrejados[3], como são denominados os participantes desse movimento, são cristãos protestantes identificados com as doutrinas fundamentais de fé cristã, mas que se recusam a congregar, pois não acreditam mais na necessidade e relevância da igreja institucional.[4][5]

Os autores Tony e Felicity Dale, fundadores do ministério House2House, defendem a denominação "igreja simples" em seu livro "Simply Church"[6], mas o termo "igreja orgânica" se tornou popular no Brasil com a publicação em 2007 do livro "Igreja Orgânica: Plantando a fé onde a vida acontece" de Neil Cole[1]. Levando em conta seu caráter descentralizado o movimento ainda pode receber outras denominações como "igreja nos lares", "igreja doméstica", "igreja não denominacional", "simplesmente igreja", "igrejas da cidade", "igreja essencial", "igreja primitiva", micro-igreja, entre outros.[1][7][8]

Origem e influências[editar | editar código-fonte]

Muitos apoiadores do movimento da igreja orgânica justificam o seu modelo utilizando o Novo Testamento, especialmente os Evangelhos, Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo de Tarso. Historicamente falando, encontros simples de cristãos eram a norma do cristianismo primitivo. Entre 100 dC e 300 dC, o cristianismo cresceu de 25 mil para 20 milhões de pessoas no Império Romano. Na verdade, grande parte do Novo Testamento foi escrito para as pessoas que se reuniram em casas em igrejas domésticas.[9]

As igrejas domésticas cristãs eram semelhantes às sinagogas, que eram numerosas. Cristãos adotaram esse modelo de baixo custo e fácil de multiplicar e adaptaram ao seu novo contexto cristão. Além disso, a comunhão, também chamada de Ceia do Senhor, era exclusivamente cristã (embora inspirada na páscoa judaica). Uma vez que este não se aplicava aos judeus e não se encaixam nas sinagogas são realizadas em outros lugares e as igrejas domésticas eram o lugar natural para a partilha da comunhão.

No princípio do século XXI o movimento das igrejas orgânicas no Ocidente ressurgiu, sendo que é bastante praticado em outras partes do mundo onde o cristianismo tem sido historicamente perseguido. Na América do Norte e no Reino Unido, em particular, o movimento das igrejas domésticas é frequentemente visto como o desenvolvimento e a extensão lógica da confraria ou o movimento dos irmãos de Plymouth, onde muitos indivíduos e grupos têm adotado novas abordagens para adoração e governança, enquanto outros reconhecem um relacionamento com os anabatistas, quakers, amish, hutterites, menonitas, moravianos e metodistas, assim como com valdenses e priscilianos.

Outro enfoque vê o movimento das igrejas domésticas como um reavivamento da mudança do Espírito Santo no Movimento de Jesus da década de 1970 nos EUA ou da renovação carismática em todo o mundo nos anos sessenta e setenta. Outros a vêem como um retorno ao paradigma restauracionista da igreja neotestamentária e uma restauração do propósito eterno de Deus e a expressão natural de Cristo na terra, exortando os cristãos para mudarem das hierarquias e posições para as práticas descritas e encorajadas nas Escrituras.

A igreja orgânica também foi influenciada pelo movimento missionário, pelas missões no exterior e o crescimento dos movimentos de plantação de igrejas. Os movimentos de plantação de igrejas estão espontaneamente adicionando esforços para a multiplicação de igrejas.

Valores[editar | editar código-fonte]

Como em todo movimento descentralizado e espontâneo, uma variedade de valores são manifestadas na igreja orgânica. Devido à influência de alguns grupos chaves e ao texto do livro Atos dos Apóstolos 2:42-47, três valores essenciais emergiram em muitos círculos. Paul Kaak (que começou o ministério em uma das maiores e mais sistematizadas mega-igrejas dos Estados Unidos) e Neil Cole originalmente articularam utilizando a sigla DNA. Segundo eles:

  • D, de Divina Verdade: a Verdade é a base de tudo.
  • N, de Nutrir Relações: relações sadias são o que constituem uma família. O amor pelo outro deve ser uma busca constante da família de Deus.
  • A, de Apóstolos Missionários: apóstolo simplesmente significa "enviado".

Nos Estados Unidos estes valores foram promovidos por vários ministérios como House2House e DAWN North America e foram adotados por vários grupos, como o New York's MetroSoul. No Brasil esses valores se difundiram graças a obra de Cole.

Características[editar | editar código-fonte]

Assim como há valores em comum, as igrejas orgânicas compartilham características bastante próximas. Estudando o fenômeno, o teólogo Wolgang Simson, em seu livro Casas que transformam o mundo, montou a seguinte planilha[10] mostrando as diferenças que há entre as igrejas institucionais e as igrejas orgânicas:

Igrejas institucionais Igrejas orgânicas
Local Recintos eclesiásticos Qualquer lugar
Financiamento Dízimo, oferta Partilha-se o que se possui
Estilo de vida Individual Comunitário
Evangelização Campanhas, ações, programas de especialistas eclesiásticos "fazer discípulos" naturalmente entre os vizinhos; multiplica-se por si
Lema "Tragam mais pessoas para a igreja!" "Levem a igreja até as pessoas!"
Tamanho Grupo grande e apessoal Grupos pequenos com relacionamentos estreitos
Estilo de ensino Estático, centrado na pregação Dinâmico, estilo de pergunta e resposta
Centro O culto na igreja A vida cotidiana
Tarefa mais importante Fazer boas pregações, visitas às casas, oferecer um programa completo Orientar cristãos a assumirem pessoalmente o serviço pastoral
Palavra-chave "Torna-se membro" "Ide e faça discípulos"
Serviço Caráter de apresentação, impressionar os outros Centrado na formação, confere poder a todos.
Missão Enviar missionários especiais Igreja envia a si própria como unidade multiplicável

Atente-se assim à experiência cristã comunitária, feita fora dos espaços considerados sagrados pela maioria das religiões, com tendências anti-clericais e que valorizam a rede de solidariedade formada pela comunidade religiosa. O termo corresponde a um grupo de cerca de 8 a 20 cristãos que se reúnem regularmente ou espontaneamente em residências ou locais pouco usuais para reuniões eclesiais tais como bares, cafés e locais públicos. Esses agrupamentos possuem traços distintivos:

  1. não há clero estabelecido, todos os fiéis são empoderados, isto é, capazes de participar ativamente no grupo e nas esferas de liderança;
  2. durante seus encontros não há condução litúrgica refinada ou profissionalizada, as igrejas orgânicas encorajam a que todos os fiéis participem ativamente sem considerar ninguém como pertencente a uma "classe privilegiada";
  3. também são conduzidos por um sistema de liderança descentralizado e livre, criando um sistema de autonomia dos indivíduos para auto gerirem os próprios grupos emancipados.

O trânsito religioso que há - de "igrejas institucionais" para uma "igreja orgânica" - é outra forte marca. Também, em alguns casos, redes de igrejas são estabelecidas nas cidades, "redes apostólicas ou de supervisão".[1]

Práticas[editar | editar código-fonte]

Em seu livro Cristianismo pagão o autor Frank Viola sinaliza uma série de reformas que as igrejas orgânicas frequentemente defendem:

  • A crença de que o clero moderno é um vestígio da religião romana pagã que era ausente da igreja primitiva e que em grande parte está em desacordo com o verdadeiro sacerdócio de todos os crentes. O movimento considera a instituição do clero como estando em desacordo com o que se encontra em textos como Mateus 20, Mateus 23, a Terceira Epístola de João e a mensagem no Apocalipse sobre as obras dos nicolaitas. A Primeira Epístola aos Coríntios 12-14 apresenta o quadro de uma reunião da igreja onde todos os membros participam ao contrário do serviço religioso moderno que é executado por profissionais como presbíteros e diáconos para uma audiência estática. Em um ambiente em que há liberdade para expressar seus dons tais pessoas podem surgir. Além disso, ser um presbítero ou um diácono não significa que tal pessoa dominará a reunião. Na Terceira Epístola de João, Diótrefes é repreendido pois queria ser o primeiro e dominar os demais. A igreja simples defende amplamente a idéia de que ser um presbítero ou um diácono não é uma licença para que apenas alguns ministrem e que os demais permanecer passivos.
  • Valoriza-se a Ceia do Senhor como sendo a celebração regular e recorrente de uma refeição completa no lugar de um ritual religioso curto. A integração inicial do ritual baseado em casa para a reunião pública em sinagoga reduziu a natureza simbólica do ato para um momento privado, substituindo seu simbolismo de companheirismo e dedicação ao Senhor. Isso foi completado no tempo de Constantino, quando festas do amor foram proibidos. No entanto, esta história em si não desvaloriza a necessidade de um local de reunião maior no estilo sinagoga para oração, ministério da palavra e canto. Adeptos da igreja simples também desfrutam de encontros ocasionais e até mesmo mensais maiores para fazer o mesmo, embora eles enfatizem a eucaristia em uma reunião menor como o ambiente para o crescimento espiritual.
  • As igrejas orgânicas tendem a colocar menos ênfase nos edifícios ou lugares de reunião. Neil Cole afirma que "os edifícios, orçamentos e grandes personalidades" tendem mais a conter o cristianismo do que permitir sua expansão.

Igreja orgânica no Brasil[editar | editar código-fonte]

No ano de 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou os dados censitários de uma ampla análise desenvolvida pelo POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), onde, entre outros temas, avaliou a performance da religiosidade do brasileiro. Foi apontado que, em termos de identidade religiosa, o grupo que mais cresceu foi o dos que se declararam “sem religião”, assim como identificou um ator social até bem pouco tempo inexistente no extrato religioso do território brasileiro: o evangélico nominal, sem vínculo eclesiástico, ou desigrejado. De acordo com o IBGE, eram mais de 4 milhões de evangélicos em tal situação.[4]

Em 2016 foi constatado que a quantidade de fiéis que frequentam templos menores cresceu 62% e que o número de evangélicos sem laços com igreja quadruplicou, já representando cerca de 5,8 milhões de pessoas (2,9% da população brasileira).[11][12][13][3]

Referências

  1. a b c d CHIROMA, Livan. «Igrejas Orgânicas - Mobilidade e reconfiguração religiosa: o caso do Caminho da Graça» (PDF). Consultado em 27 de julho de 2016 
  2. Maciel, Rebecca Ferreira Lobo Andrade (2015). «Cristãos sem igreja: um olhar a partir da contemporaneidade» (PDF). SACRILEGENS - Revista dos Alunos do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da UFJF. ISSN 2237-6151 
  3. a b «Os desigrejados - CACP - Ministério Apologético». www.cacp.org.br. Consultado em 27 de julho de 2016 
  4. a b Artigo: Niilismo eclesiástico: uma análise do movimento dos desigrejados - Teologia Brasileira. [S.l.: s.n.] 
  5. «Sociedade - NOTÍCIAS - A nova reforma Protestante». revistaepoca.globo.com. Consultado em 27 de julho de 2016 
  6. Dale, Tony; Dale, Felicity (1 de setembro de 2000). Simply Church (em inglês). [S.l.]: Karis Publishing. ISBN 9780971804012 
  7. Santos, Valdeci da Silva. «Antes de continuar falando sobre revitalização de igrejas: discussão preliminar». Fides Reformata. Consultado em 27 de julho de 2016 
  8. Kreider, Larry. «House church networks — a wave of the future». DOVE International. Consultado em 26 de julho de 2016 
  9. The Forgotten Ways (Grand Rapids, MI: Brazos Press, 2007)
  10. Simson, Wolfgang (2 de setembro de 2015). Casas que transformam o mundo: Igrejas nos lares. [S.l.]: Editora Evangélica Esperança. ISBN 9788578390037 
  11. «São Paulo viu pulverização evangélica na última década, mostra Censo 2010 - São Paulo - Estadão». Consultado em 27 de julho de 2016 
  12. «Folha de S.Paulo - Cresce o número de evangélicos sem ligação com igrejas - 15/08/2011». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 27 de julho de 2016 
  13. «O novo retrato da fé no Brasil: Pesquisas indicam o aumento da migração religiosa entre os brasileiros, o surgimento dos evangélicos não praticantes e o crescimento dos adeptos ao islã». 21 de janeiro de 2016. Consultado em 27 de julho de 2016 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AZEVEDO, Israel Belo de. Gente cansada de igreja, Editora Hagnos ISBN 9788524304767.
  • BARNA, George; VIOLA, Frank. Cristianismo Pagao, Abba Press Editora [S.l.] ISBN 9788578570132.
  • BOMÍLCAR, Nelson. Os sem-igreja: Buscando caminhos de esperança na experiência comunitária, Editora Mundo Cristão ISBN 9788573258103.
  • CAMPOS, Idauro. Desigrejados – Teoria, história e contradições do niilismo eclesiástico. São Gonçalo: Editora Contextualizar, 2014.
  • COLE, Neil. Igreja Orgânica: Plantando a fé onde a vida acontece, Editora Danprewan ISBN 9788589829205.
  • KIMBALL, Dan. Eles gostam de Jesus, mas não da igreja, Editora Vida ISBN 9788538302162.
  • SIMSON, Wolfgang. Casas que transformam o mundo: Igrejas nos lares Editora Evangélica Esperança ISBN 9788578390037.
  • VIOLA, Frank. Vivenciando uma Igreja Orgânica, Editora Palavra ISBN 9788565158015.
  • YANCEY, Philip. O eclipse da graça: Onde foi parar a boa-nova do cristianismo?, Editora Mundo Cristão ISBN 9788543300986.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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