Alcatrazes

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Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Ilha de Alcatraz. Para outros significados, veja Alcatraz (desambiguação).

Alcatrazes é um arquipélago brasileiro, localizado aproximadamente 35 km ao sul de São Sebastião, no litoral norte do Estado de São Paulo,[1][2][3] a uma hora de barco, aproximadamente.[3] É protegido pela maior unidade de conservação integral marinha do Brasil depois do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.[2]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O nome do arquipélago vem do pássaro que corresponde à segunda maior população de aves no local, com cerca de 3 mil indivíduos: o atobá-pardo, que também é conhecido como "alcatraz", termo que em árabe significa "o mergulhador" - devido à sua habilidade para mergulhar no mar e capturar peixes ou lulas.[4]

Geografia[editar | editar código-fonte]

Geologia[editar | editar código-fonte]

Reprodução de uma montagem de fotos do arquipélago.

Acredita-se que as ilhas apresentam o formato dos dias de hoje há pelo menos 2,5 milhões de anos. Contudo, durante o último período glacial (entre 85 mil e 15 mil anos atrás), o mar estava recuado de tal forma que o arquipélago era, na verdade, uma montanha ainda conectada ao continente.[4]

Alcatrazes é formado por cinco ilhas maiores, sendo a principal denominada Ilha de Alcatrazes (2,5km de extensão[2] e 170 hectares de área[3]) e as demais conhecidas como da Sapata, do Paredão, do Porto (ou do Farol) e do Sul. Há também quatro ilhas menores (ilhotas não nominadas); cinco lajes (Dupla, Singela, do Paredão, do Farol e Negra); e dois parcéis (Nordeste e Sudeste). Sua profundidade pode chegar aos 50 m.[1] Sua cobertura oceânica total é de 67 mil hectares.[2]

O ponto culminante do arquipélago é o Pico da Boa Vista (ou dos Alcatrazes), com 316 m de altura. Outro pico é o do Oratório, com 154m.[3] As faces das ilhas são marcadas por paredões rochosos íngremes que podem chegar aos 200 m de altura.[4] Entre os braços sul e leste da ilha principal fica o Saco do Funil, parte mais abrigada da ilha e local onde a marinha brasileira praticava tiros (veja detalhes na seção "História" abaixo).[4]

Biodiversidade[editar | editar código-fonte]

Jararaca-de-alcatrazes, uma das espécies endêmicas do arquipélago.

Possui rica fauna e flora,[1][2] com ocorrência de 20 espécies endêmicas, incluindo a jararaca-de-alcatrazes, a perereca-de-alcatrazes e a rã Cycloramphus faustoi.[4][2] Acredita-se que haja outras espécies endêmicas no local que ainda não foram catalogadas, incluindo uma espécie de cobra-coral cujos dois únicos exemplares conhecidos foram destruídos durante o incêndio de 2010 no Instituto Butantan.[4]

Tal característica levou o arquipélago a ser conhecido como "a Galápagos do Brasil" por alguns cientistas,[3] que acreditam que Charles Darwin teria chegado às mesmas conclusões que chegou no arquipélago equatoriano se tivesse estudado a fauna de Alcatrazes.[4] Conforme descrito na subseção "Geologia" acima, a ilha foi por dezenas de milhares de anos ligada ao continente, o que permitiu que diversas espécies terrestres tivessem fácil acesso ao local. Conforme o nível do mar subiu e voltou a isolar o arquipélago, a fauna que ali permaneceu ou se extinguiu ou se adaptou e evoluiu, dando origem às espécies únicas.[4]

Na ilha principal pode ser encontrado o maior ninhal de fragatas do mundo, agrupando 6 mil espécimes.[2][3] Um total de cerca de 10 mil aves habita o arquipélago, onde já foram avistadas mais de 100 espécies, incluindo algumas sob risco de extinção, como o pirupiru e o trinta-réis-de-bico-vermelho.[4]

Em suas águas, diversas espécies convivem em meio aos corais-cérebro, incluindo 400 espécies de invertebrados[5] e um número de espécies de peixes (entre 200 e 250) superior a qualquer outro lugar do Brasil, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha, que é bem maior que Alcatrazes,[2] mas abriga 150 espécies.[5] O local também é visitado por cetáceos.[3][5] A distância nem muito grande, nem muito pequena da ilha em relação ao continente e o fato de estar situada numa zona de transição entre águas tropicais quentes e águas subtropicais mais frias contribui para a diversidade de peixes.[5]

O mar em volta das ilhas não recebia muita atenção até os anos 1990, pois o mergulho ainda não era visto como um instrumento de pesquisa científica até então no Brasil. Foi no arquipélago que esta realidade começou a mudar.[5]

Além dos próprios exercícios militares da Marinha, outra ameaça ao ecossistema local é a poluição do mar, tanto na forma de resíduos químicos (que contaminam o plâncton e, consequentemente, toda a cadeia alimentar que o envolve) quanto lixo indevidamente descartado.[4] Os corais-sol, espécie invasora, representam também um risco para a fauna nativa. Foram detectados primeiramente em 2011 e, desde então, vêm sendo monitorados e removidos para que não se tornem uma praga, embora a erradicação seja considerada impossível de se atingir.[5]

História[editar | editar código-fonte]

Exercícios da Marinha[editar | editar código-fonte]

Até os anos 1980, a Marinha do Brasil tinha de se deslocar até Porto Rico para realizar treinamentos de tiro com seus navios. Os custos elevados das viagens motivou os militares a buscarem um local propício para a prática no próprio litoral brasileiro. O levantamento apontou três lugares potenciais: Alcatrazes, Fernando de Noronha e Abrolhos. Alcatrazes acabou escolhido por ser desabitado e por combinar o menor impacto ambiental resultante dos disparos com a menor distância para o Rio de Janeiro, onde a esquadra fica sediada.[6]

A prática, contudo, acarretava danos ambientais consideráveis, tornando-se objeto de várias demandas judiciais, inclusive de ações civis públicas que visavam impedi-la,[2] embora pesquisadores admitam que a presença dos militares também ajudava na preservação do local, pois evitava a aproximação de pescadores.[5]

Em 1989, preocupados com os efeitos dos treinamentos, ambientalistas começaram a realizar visitas à ilha para levantar o maior número possível de informações e mostrar a extensão dos danos que os tiros estavam causando e conseguir, assim, que as manobras parassem. Até então, a última expedição registrada até o arquipélago datava de 1920.[6]

Na época, a Marinha se comprometeu a realizar estudos para determinar o impacto dos tiros no ecossistema local e o resultado das análises confirmou os danos. No meio tempo, o então deputado federal Fábio Feldmann apresentou projeto de lei que criava o Parque Nacional Marinho dos Alcatrazes em 1990. Os exercícios continuaram, sendo interrompidos somente entre 1991 e 1998 pela Justiça. Em 1998, os ambientalistas realizaram um protesto com apoio do Greenpeace bem em cima de um dos alvos antes da realização de mais um exercício.[6]

Em 2004, como resultado de um disparo, um incêndio consumiu 20 hectares de mata na ilha, o que faria a proposta de Feldmann voltar a ganhar atenção, mas foi só em 2013 que a Marinha cedeu e aceitou que o parque fosse criado, com a condição de que a Ilha da Sapata, com cerca de 4 hectares e localizada a nordeste da ilha principal, fosse excluída para que eles pudessem continuar os treinamentos lá. A marinha sempre defendeu que os exercícios são "essenciais para o treinamento das tropas e alinhamento dos canhões da esquadra", e que Alcatrazes é o único local viável para as manobras. Desde então, e após um estudo de impacto realizado por uma equipe conjunta dos Ministérios do Meio Ambiente e Defesa, os exercícios são realizados apenas uma vez por ano.[6]

Status e preservação[editar | editar código-fonte]

Com a adoção do local pela Marinha nos anos 1980, a visitação à ilha passou a ser fechada pela entidade.[1][2] O mergulho, mesmo recreativo, também era proibido até 2016. Somente era autorizada a atividade de mergulho em casos especiais, como para pesquisa. As infrações podiam ser penalizadas com multas aplicadas tanto pela Marinha do Brasil, que variam de R$ 40,00 (quarenta reais) a R$ 2.200,00 (dois mil e duzentos reais), como pelo ICMBio, que podem variar de R$ 700,00 (setecentos reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais).[1]

Desde 1987, uma pequena parte da ilha era, em teoria, protegida pelo governo federal na forma da Estação Ecológica Tupinambás, embora não houvesse pessoal nem estrutura no local para garantir sua preservação de fato e o ponto em questão não fosse atingido pelos disparos militares.[6]

Em março de 2012, o então vice-prefeito de São Sebastião, Wagner Teixeira (PV) foi pego pescando ilegalmente, próximo à Ilha do Paredão.[7] Ele estava em seu barco pessoal com outros cinco homens, e não parou até ficar sem combustível, mesmo com a guarda costeira em seu encalço e com as sirenes ligadas.[7] Ele carregava 116 quilogramas de peixes, incluindo espécies ameaçadas, e afirmou que não sabia da proibição da pesca na área.[7] Em entrevista posterior ao incidente, o político se defendeu dizendo que o combustível acabou somente quando já havia concordado em seguir para o continente acompanhado dos fiscais.[8] Disse também que não sabia que a área era protegida e que sempre lutou justamente pela preservação do arquipélago.[8]

Em 2016, Alcatrazes recebeu status de Refúgio de Vida Silvestre e teve sua proteção estendida a toda a área do arquipélago (exceto a Ilha de Sapata, conforme explicado na subseção "Exercícios da Marinha" acima),[1][2] totalizando 673 km² - tamanho criticado por alguns ambientalistas, que preveem um custo demasiadamente elevado para fiscalizar toda a área.[6] A pesca e o desmate seguem proibidos, mas à época planejava-se liberar passeios de barco e mergulho ao público, segundo critérios que seriam definidos em plano de manejo.[1][2]

Em setembro de 2017, ficou estipulado que as águas ao redor da ilha ficarão, de fato, disponíveis para passeios de barco e mergulho, mas não o desembarque em terra, uma vez que não há praias[3][2] ou outros locais seguros para o turista entrar na ilha em segurança. As visitações, que só poderão ser feitas por empresas autorizadas pelo ICMBio, só deverão ocorrer em 2018, ficando o ano de 2017 reservado à preparação para as atividade (cadastramento de empresas, treinamentos e emissão de licenças). Uma embarcação de 60 pés será instalada na ilha e lá permanecerá o tempo todo para facilitar a pesquisa e a proteção do local.[2] Alguns pesquisadores defendem a visitação turística, pois a presença constante de pessoas pode afugentar pescadores ilegais.[5]

Referências

  1. a b c d e f g Motta, Camilla (10 de agosto de 2016). «Arquipélago de Alcatrazes em São Sebastião será aberto aos turistas». G1. Grupo Globo. Consultado em 3 de junho de 2017 
  2. a b c d e f g h i j k l m n Escobar, Herton (9 de setembro de 2017). «Arquipélago dos Alcatrazes será aberto ao turismo». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 13 de setembro de 2017 
  3. a b c d e f g h Escobar, Herton (18 de dezembro de 2016). «Alcatrazes - um mundo perdido no litoral paulista». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 25 de setembro de 2017 
  4. a b c d e f g h i j Escobar, Herton (18 de dezembro de 2016). «Alcatrazes - um mundo perdido no litoral paulista (Capítulo 1: Biodiversidade terrestre)». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 25 de setembro de 2017 
  5. a b c d e f g h Escobar, Herton (18 de dezembro de 2016). «Alcatrazes - um mundo perdido no litoral paulista (Capítulo 2: Biodiversidade marinha)». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 25 de setembro de 2017 
  6. a b c d e f Escobar, Herton (18 de dezembro de 2016). «Alcatrazes - um mundo perdido no litoral paulista (Capítulo 3: História)». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 25 de setembro de 2017 
  7. a b c Bedinelli, Talita; Joel Silva (23 de março de 2012). «Vice-prefeito de São Sebastião é flagrado fazendo pesca ilegal; veja». Folha.com. Consultado em 25 de março de 2012 
  8. a b «Wagner Teixeira deixa Secretaria de Governo, fala sobre incidente durante pesca e confirma projetos políticos» (PDF). Imprensa Livre. 3 de abril de 2012. Consultado em 15 de fevereiro de 2014