Imigração irlandesa nos Estados Unidos

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A imigração irlandesa nos Estados Unidos foi intensa. No censo de 2008, 36.278.332 americanos, 11,9% da população total, disseram ser descendentes de irlandeses.[1] Outros 3,5 milhões (1,2% dos americanos) disseram descender de "escoceses-irlandeses". A diáspora irlandesa nos Estados Unidos é quase seis vezes maior que a população da atual Irlanda.

Os irlandeses e seus descendentes estão espalhados por todo o território norte-americano e têm participação ativa na sociedade local. Vinte e seis presidentes dos Estados Unidos tinham alguma ascendência irlandesa, de Andrew Jackson até o presidente Barack Obama.

Imigração durante o período colonial[editar | editar código-fonte]

De acordo com o Dictionary of American History, de "50.000 a 100.000 irlandeses, mais de 75 por cento deles católicos, vieram para a América no século XVII, enquanto que 100.000 mais católicos irlandeses chegaram no século XVIII." Irlandeses que trabalhavam sob o sistema de servidão formavam o grupo mais comum e na década de 1740 nove em cada dez servos eram irlandeses em certas regiões da colônia.[2][3]

A maioria dos colonos provenientes da província irlandesa do Ulster vieram a ser conhecidos nos Estados Unidos como "Scotch-Irish" ("escoceses-irlandeses"). Eles eram descendentes de fazendeiros escoceses e ingleses, que tinham sido mandados para a Irlanda pelo Governo Britânico no século XVIII.[4] Cerca de 250.000 deles migraram para a América durante o período colonial. Os "escoceses-irlandeses" se instalaram sobretudo nas proximidades das Apalaches e tornaram-se o componente étnico de destaque na cultura que ali foi desenvolvida. Os descendentes dos "escoceses-irlandeses" tiveram uma grande influência sobre a cultura dos Estados Unidos, por meio de contribuições como a música popular americana country que, depois, se tornaria popular em todo o país.[5][6]

A grande fome e a imigração em massa[editar | editar código-fonte]

Embora a partir da década de 1820 já se percebia um forte crescimento imigratório de irlandeses para os Estados Unidos, o seu auge foi alcançado com a grande fome de 1845–1849 na Irlanda. Grande parte da população desse país dependia do consumo de batata para sobreviver, o que resultou numa tragédia quando várias plantações de batata foram contaminadas por uma doença. Tal fato acarretou na morte de cerca de um milhão de pessoas de fome e outro milhão teve que emigrar da ilha para sobreviver, a maioria indo para os Estados Unidos. As condições dessa imigração em massa foram traumáticas e os navios que transportavam esses imigrantes eram conhecidos como "navios tumbeiros", pois os índices de mortalidade durante a viagem alcançavam os 30%, semelhante aos navios negreiros que transportavam escravos da África.[7][8]

A grande fome alterou as estruturas familiares da Irlanda, uma vez que, em meio ao caos, menos pessoas se casavam e tinham filhos, fazendo com que muitos passassem a viver sozinhos. Consequentemente, muitos cidadãos irlandeses estavam menos ligados a obrigações familiares e puderam mais facilmente migrar para os Estados Unidos nas décadas posteriores.[9]

A maioria desses imigrantes se instalaram no Nordeste dos Estados Unidos, principalmente nos grandes centros urbanos, uma vez que ali eles poderiam criar suas próprias comunidades que serviam de apoio e proteção nesse novo ambiente e também porque eles não tinham capital para se mudar para o interior, tendo que se contentar em fixar residência perto dos portos em que desembarcavam. Cidades com grande número de imigrantes irlandeses incluíam Boston, Filadélfia e Nova York, bem como Pittsburgh, Baltimore, Detroit, Chicago, St. Louis, St. Paul, San Francisco e Los Angeles. Em 1910, havia mais pessoas em Nova York de origem irlandesa do que em Dublin, e ainda hoje, muitas dessas cidades ainda mantêm uma comunidade irlandesa substancial.[10][11][12]

Grande número de irlandeses desempregados ou muito pobres viviam em condições precárias em favelas e cortiços das cidades americanas. Os irlandeses eram os mais pobres de todos os grupos de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos no século XIX. Embora os católicos irlandeses começaram muito baixo na escala social, por volta de 1900, eles já tinham emprego e renda igual à média americana. No entanto, havia ainda muita pobreza entre os irlandeses da classe trabalhadora em Chicago, Boston, Nova York, e em outras partes do país. Depois de 1945, os irlandeses católicos consistentemente ascenderam ao topo da hierarquia social, graças principalmente à sua elevada taxa de graduação em faculdade.[13]

Religião[editar | editar código-fonte]

Dois grupos religiosos irlandeses imigraram para os Estados Unidos: protestantes e católicos. Os evangélicos chegaram sobretudo no período colonial, enquanto que os católicos imigraram em massa no século XIX. Pesquisas da década de 1990 mostram que, dos americanos que identificaram sua origem como "irlandesa", 51% disseram que eram protestantes e 36% católicos. No Sul, os protestantes são 73% dos irlandeses, enquanto os católicos representam 19%. No Norte, 45% das pessoas de origem irlandesa são católicas, enquanto que 39% são protestantes. Líderes irlandeses foram proeminentes na Igreja Católica nos Estados Unidos por mais de 150 anos. Os irlandeses foram os líderes nas tradições presbiteriana e metodista de igual maneira.[14]

Entre 1607 e 1820, a maioria dos emigrantes da Irlanda na América eram protestantes e estes se identificavam simplesmente como "irlandeses". Porém, a distinção religiosa se ​​tornou importante depois de 1820, quando um grande número de católicos irlandeses começou a emigrar para os Estados Unidos. Os descendentes dos colonos protestantes oriundos do Ulster que chegaram na época colonial, então, começaram a se autodenominar "escoceses-irlandeses", para salientar suas origens históricas e se distanciarem dos irlandeses católicos que estavam chegando em massa. Em 1830, a demografia da diáspora irlandesa tinha mudado rapidamente, com mais de 60% de todos os imigrantes irlandeses nos Estados Unidos sendo católicos de áreas rurais da Irlanda.[15][16]

Descendente de irlandeses, John F. Kennedy foi o primeiro, e único, presidente católico dos Estados Unidos.[17]

Os irlandeses foram o primeiro grande grupo católico a imigrar para os Estados Unidos. Eles se tornaram proeminentes na liderança da Igreja Católica nos país por volta de 1850. Em 1890 havia 7,3 milhões de católicos nos EUA e a maioria dos bispos eram irlandeses. No final da década de 1970, quando os descendentes de irlandeses perfaziam somente 17% dos católicos norte-americanos, eles eram 35% dos padres e 50% dos bispos, juntamente com uma proporção similar de presidentes de faculdades e hospitais católicos.[18]

Preconceito[editar | editar código-fonte]

Os irlandeses sofreram alguns tipos de preconceito quando da sua imigração para os Estados Unidos. Católicos e protestantes mantiveram distância; casamentos entre os dois grupos eram incomuns e fortemente desencorajados pelos pastores e padres.[19] O preconceito contra os irlandeses católicos nos EUA atingiu seu auge em meados da década de 1850, com o movimento Know Nothing, que tentou expulsar os católicos de cargos públicos. Depois de um ou dois anos de sucesso local, esse partido desapareceu. Alguns historiadores, no entanto, afirmam que a discriminação no trabalho, de fato, foi mínima.[20]

População[editar | editar código-fonte]

No censo de 2011, 34,5 milhões de americanos disseram ter ascendência irlandesa, 11,2% da população dos Estados Unidos. Este número é sete vezes maior que a população da Irlanda, que conta com somente 4,68 milhões de habitantes. É também a segunda maior ancestralidade apontada pelos americanos, perdendo apenas para a alemã.[21]

O estado de Massachusetts tem a maior concentração de irlandeses, quase 24% da sua população, sendo Boston a região metropolitana com maior porcentagem, 20,4%. Os estados da Califórnia e de Nova Iorque têm as maiores populações irlandesas (cerca de 2,5 milhões cada). A menos irlandesa é Miami, com somente 1%. Embora presentes em todo os Estados Unidos, há uma grande concentração de descendentes de irlandeses no Nordeste do país.[22][23]

Referências

  1. «U.S. Census». U.S. Census Bureau. Consultado em 13 de abril de 2008 
  2. Kutler, S. (2003). Irish Americans, pp. 423–426.
  3. Dolan, Jay P. (2008). The Irish Americans: A History. [S.l.]: Bloomsbury Press. p. 18. ISBN 978-1-59691-419-3 
  4. Philip Robinson, The Plantation of Ulster, St. Martin's Press, 1984, pp. 52–55
  5. Scholarly estimates vary, but here are a few: "more than a quarter-million", Fischer, David Hackett, Albion's Seed: Four British Folkways in America Oxford University Press, USA (March 14, 1989), pg. 606; "200,000", Rouse, Parke Jr., The Great Wagon Road, Dietz Press, 2004, pg. 32; "...250,000 people left for America between 1717 and 1800...20,000 were Anglo-Irish, 20,000 were Gaelic Irish, and the remainder Ulster-Scots or Scotch-Irish...", Blethen, H.T. & Wood, C.W., From Ulster to Carolina, North Carolina Division of Archives and History, 2005, pg. 22; "more than 100,000", Griffin, Patrick, The People with No Name, Princeton University Press, 2001, pg 1; "200,000", Leyburn, James G., The Scotch-Irish: A Social History, University of North Carolina Press, 1962, pg. 180; "225,000", Hansen, Marcus L., The Atlantic Migration, 1607–1860, Cambridge, Mass, 1940, pg. 41; "250,000", Dunaway, Wayland F. The Scotch-Irish of Colonial Pennsylvania, Genealogical Publishing Co (1944), pg. 41; "300,000", Barck, O.T. & Lefler, H.T., Colonial America, New York (1958), pg. 285.
  6. James Webb, Born Fighting, Broadway Books (2004), pgs 253-264.
  7. «Irish-Catholic Immigration to America». Library of Congress. Consultado em 13 de abril de 2008 
  8. «Early Emigrant Letter Stories». eligrantletters.com 
  9. Diner, Hasia R. Erin's Daughters. [S.l.: s.n.] pp. 31–32 
  10. Diner, Hasia R. Erin's Daughters. [S.l.: s.n.] pp. 40–41 
  11. «Irish Immigration». Spartacus Educational. Consultado em 17 de abril de 2011 
  12. Chisholm, Hugh, ed. "New York (City)". The Encyclopædia Britannica. 11th ed. Vol. XIX. New York: Encyclopædia Britannica Company, 1911. p. 617
  13. Greeley (1988), p. 1.
  14. Carroll, Michael P. (2006). «How The Irish Became Protestant In America». Religion and American Culture. 16 (1): 25–54. doi:10.1525/rac.2006.16.1.25 
  15. Brighton, Stephen A. (2009). Historical Archaeology of the Irish Diaspora: A Transnational Approach. [S.l.]: University of Tennessee Press. p. 41. ISBN 978-1-57233-667-4 
  16. Falley, Margaret Dicknson (1995). Irish and Scotch-Irish Ancestral Research: A Guide to the Genealogical Records. [S.l.]: Genealogical Publishing Company. p. 12. ISBN 978-0-8063-0916-3 
  17. http://religion.blogs.cnn.com/2013/11/23/how-catholic-was-john-f-kennedy/comment-page-9/
  18. Greeley, Andrew M. (1972). That Most Distressful Nation: The Taming of the American Irish. [S.l.: s.n.] p. 264. ISBN 0-8129-6219-2 
  19. "Mixed marriages", as they were called, were allowed in rare cases, were warned against repeatedly, and were uncommon; Jay P. Dolan, The American Catholic Experience (1985) p. 228
  20. Dolan, The Irish Americans (2008) pp 97-98
  21. https://www.census.gov/newsroom/releases/archives/facts_for_features_special_editions/cb13-ff03.htm
  22. http://www.huffingtonpost.com/jed-kolko/americas-most-irish-towns_b_2885335.htmlinserir fonte aqui
  23. http://floridairishheritagecenter.wordpress.com/2012/01/04/where-are-the-irish-in-america/