Incidente de Varginha

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Disambig grey.svg Nota: "Incidente em Varginha" redireciona para este artigo. Se procura o jogo eletrônico, veja Incidente em Varginha (jogo eletrônico).
Um dos monumentos criados em Varginha após o incidente

Incidente de Varginha ou Incidente em Varginha, como ficou conhecido pela imprensa brasileira, foi uma alegada série de aparições de Objetos Voadores Não Identificados, que gerou teorias da conspiração sobre captura de seres extraterrestres pelas autoridades militares brasileiras em janeiro de 1996, no município de Varginha, sul do estado de Minas Gerais.

Tais relatos foram primeiramente transmitidos no Fantástico,[1] e rapidamente reuniu extensa cobertura de mídia em todo o mundo, incluindo um artigo no The Wall Street Journal.[2]

Toda a história é baseada em relatos e testemunhos. As autoridades locais e federais negaram todas as afirmações de naves e seres extraterrestres, enquanto teóricos da conspiração alegaram encobrimento.[3] A falta de evidências do incidente, baseada unicamente em relatos e testemunhos, foi notada até mesmo por ufólogos crédulos. O ufólogo Kevin Randle notou que não há evidências físicas que dêem suporte ao caso, acrescentando que "Na verdade, não fomos capazes de verificar nada".[4] E o ufólogo brasileiro Ubirajara Rodrigues, um dos principais divulgadores da história em 1996, afirmou que "Não há prova de que foi capturado um ser extraterrestre".[3]

Relatos[editar | editar código-fonte]

As criaturas[editar | editar código-fonte]

Segundo relatos da mídia, uma criatura foi avistada por três mulheres de 14 a 21 anos: as irmãs Liliane e Valquíria Fátima Silva, e sua amiga Kátia Andrade Xavier. Na tarde de 20 de janeiro de 1996, quando chovia forte e ventava muito, e resolveram pegar um atalho por um terreno baldio, quando alegaram ver a criatura: Um bípede de cerca de 1,6 metros de altura, com uma cabeça grande e corpo muito fino, com pés em forma de V, pele marrom e grandes olhos vermelhos. Parecia estar trêmula ou instável, e as garotas achavam que estava ferida ou doente.

As irmãs Silva disseram que fugiram e disseram à mãe que tinham visto o "diabo". A mulher não acreditou nelas até que foi para a área onde elas supostamente tinham visto a criatura, onde diz que sentiu um cheiro desagradável que não soube descrever, e não encontrou nada além de uma marca no chão e um cachorro cheirando o lugar.[5] Depois de relatar seu conto à família e amigos, rumores começaram a se espalhar por toda a cidade sobre avistamentos de OVNIs e criaturas alienígenas sendo abduzidas pelas forças militares. Dois dias depois, outra criatura teria sido encontrada deitada ao longo de uma estrada. Três caminhões militares foram supostamente enviados para recuperá-lo.

O zelador do zoológico local também afirmou ter visto uma criatura estranha, levada para lá pelo Corpo de Bombeiros, mas que não foi deixada lá. Nos meses seguintes, três animais misteriosamente morreram.[6]

O áudio de um relato fornecido por ufólogos e atribuído a um militar anônimo dava detalhes da suposta criatura, e afirmava que esta teria sido recolhida pelo Corpo de Bombeiros - que emitiu nota desmentindo a alegação - e levada para a EsSA (Escola de Sargentos das Armas).[7] O comandante da EsSA, General Lima, leu nota em coletiva de imprensa negando estas alegações.[7](5:00) O coronel Olímpio Vanderlei, que ufólogos alegam ter sido apontado por um militar como líder da operação de captura do suposto ET, não gravou entrevista, e disse por telefone que a história foi inventada por um ex-soldado.[7](5:50)

Aparições de OVNIs[editar | editar código-fonte]

Oralina e Eurico de Freitas, proprietários de uma fazenda na cidade, após os relatos descritos acima, afirmaram terem visto um OVNI pairando sobre seu pasto em uma madrugada de janeiro daquele ano. Oralina diz que foi atraída pela agitação súbita em seus animais e viu um objeto voador. Oralina diz que chamou o marido e que eles observaram o objeto por cerca de 40 minutos.[5]

Em fevereiro de 2017 foi divulgado um documento do Ministério da Aeronáutica onde fazendeiros e comerciantes afirmaram terem visto OVNIs ao redor do município, em 1971. Segundo o documento, o OVNI sobrevoou a Escola de Sargentos das Armas em Três Corações e causou alguns transtornos aos moradores.[8]

Investigações oficiais[editar | editar código-fonte]

Sindicância ESA[editar | editar código-fonte]

Em maio de 1996, o Comandante da Escola de Sargentos das Armas - EsSA, determinou a abertura de uma sindicância para investigar as notícias veiculadas pela imprensa envolvendo militares da escola. O responsável pela sindicância foi o Cel. Rene Jairo Fagundes, e foram ouvidos os militares citados pela mídia e suas testemunhas.[3]

Concluiu-se que, em relação a movimentação extraordinária de viaturas militares na cidade de Varginha, o aludido deslocamento tratou-se de manutenção dos veículos em concessionária nos dias 25 e 26 de janeiro, portanto, não nos dias 22, 23 e 24, datas dos aludidos eventos do Caso Varginha. Que os militares citados não participaram de nenhum transporte de qualquer tipo de carga e que os meios de comunicação estavam equivocados, dando publicidade a fatos inverídicos.[3]

Inquérito Policial Militar[editar | editar código-fonte]

Em 29 de janeiro de 1997, o Comandante da Escola de Sargentos das Armas - EsSA, determinou, a instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM), sobre as alegações contidas no livro Incidente em Varginha, de autoria de Vitório Pacaccini e Maxs Portes.[3]

O resultado do IPM foi levado a público pela mídia em outubro de 2010.[3]

Concluiu-se que apenas pesquisas pseudo-científicas e descrições de caráter sensacionalista, baseadas em provas testemunhais de credibilidade duvidosa. A hipótese mais provável oferecida para a suposta criatura avistada pelas três mulheres foi que poderia ser um cidadão com problemas mentais conhecido na região como "Mudinho".[3]

A movimentação de veículos militares foi explicada pelo fato de que viaturas do exército haviam sido levadas para manutenção, e as chuvas fortes terem ocasionado várias ocorrências que necessitaram atendimento dos bombeiros. Nenhuma dessas ocorrências envolvia apreensão de animal ou criatura estranha.[3]

A conclusão do IPM foi de que a obra era de caráter ficcional, e que apesar da ingenuidade, não existiu prática de crime.[3]


Teorias da conspiração[editar | editar código-fonte]

O ufólogo Marco Antonio Petit disse ter depoimentos de várias fontes que confirmam a presença de seres extraterrestres e a queda de uma aeronave, e que elas foram "acobertados" pelas autoridades do Brasil.[9][10]

O falecido ufólogo Claudeir Covo alegava que não estava chovendo quando as três meninas viram a criatura.[11]

Intimidação das irmãs[editar | editar código-fonte]

As irmãs Liliana e Valquíria, que disseram ter visto o ser desconhecido, disseram que cerca de quatro meses após o ocorrido, cinco homens apareceram na casa delas por volta das 22 horas, oferecendo dinheiro para que gravassem entrevista desmentindo o que vinham afirmando. Segundo elas, homens misteriosos começaram a seguir a mãe delas e também a dar telefonemas. Com medo, elas deram entrevistas à imprensa e a perseguição cessou.[5]

Supostas contradições envolvendo militares[editar | editar código-fonte]

Em uma reportagem do Fantástico, foi reproduzido o relato anônimo de um militar, que deu detalhes da suposta criatura, e disse que a mesma foi levada para a EsSA (Escola de Sargentos das Armas). Questionado em coletiva de imprensa, o comandante da EsSA, General Lima, leu nota negando o fato e disse que ia mostrar o "nosso trabalho". Questionado por um repórter se ele poderia provar o que estava fazendo no dia, o General Lima disee que "não tenho o que provar. Tudo o que tinha a dizer, eu disse." O coronel Olímpio Vanderlei, que foi apontado por um militar como responsável pela captura do suposto ET, não gravou entrevista, e disse por telefone que a história foi inventada por um ex-soldado.[7]

Ao comentar sobre o inquérito do IPM em março de 2011 na Revista UFO, Marco Antonio Petit apontou que o mesmo afirma que um dos motivos das meninas terem confundido o Mudinho com uma suposta criatura foi devido a uma chuva forte com raios, mas ela aconteceu depois, e também mencionou a declaração e a mudança de posicionamento de um dos ufólogos que cobria o caso, Ubirajara Rodrigues, que após conceder depoimento ao militares disse que recebeu "um educado, simpático e justo pedido para que procurasse não provocar na imprensa um sensacionalismo em razão do IPM." Ubirajara, que era coautor da publicação, se afastou da Revista UFO, pois a mesma prossegiu divulgando os inquéritos.[12]

Ainda segundo Petit, a sindicância iniciada pelo exército em 10 de maio de 1996 era para tentar encontrar os informantes dos ufólogos e, segundo as fontes, "havia a preocupação do comando da EsSA de que algum militar deixasse o Exército e revelasse os fatos relacionados ao Caso Varginha. Se isto acontecesse, pelo menos na visão limitada dos que conceberam e desenvolveram a sindicância, aquela Força Singular já teria preparada outra versão para a imprensa, uma nova tentativa de defender a 'verdade oficial' do órgão — um depoimento desmentindo tudo, previamente prestado", além disso, o IPM não ouviu as testemunhas locais que disseram ter visto a suposta criatura.[12]

Petit também criticou o modo como a imprensa divulgou o inquérito, dando a impressão de que ele investigou o caso Varginha, quando na verdade seria devido a um livro lançado por Pacaccini em co-autoria com Maxs Portes (Editora Cuatiara, 1996) como diz em trecho do IPM: "(os autores teriam) incitado, sobre o manto do anonimato, militares da EsSA a prestarem depoimentos reveladores de dados sigilosos sobre o funcionamento daquela organização militar, e também fizeram críticas a atos superiores hierárquicos, contrários à disciplina militar".[12]

No dia 18 de agosto de 2021, o jornalista Eduardo Bueno publicou um vídeo no YouTube comentando o caso, e chamou a atenção para o fato de que outro militar se referiu em entrevista como "criatura" ao bebê que, segundo o exército, nasceu de um casal de anões e estava sendo escoltado no dia do incidente, e também para o fato do isolamento do Hospital de Varginha e o Hospital Humanitas, além da apresentação de um documento para justicar a saída de dois caminhões do exército para manutenção em direção a Varginha, afirmando que naquele dia a oficina não funcionaria, pois era sábado.[13]

Efeitos sócio-econômicos[editar | editar código-fonte]

Nave espacial (caixa d'água) de Varginha iluminada no centro à noite

O Incidente de Varginha trouxe efeitos sócio-econômicos à cidade de Varginha devido ao turismo. Os bonecos na forma de Grey com uniformes de times de futebol começaram a ser vendidos no local. Foram construídos pontos de ônibus e uma enorme caixa d'água em formato de naves espaciais na cidade. O desenho do ET foi usado eventualmente nas ilustrações de campanhas publicitárias.[14]

Livros, filmes e documentários[editar | editar código-fonte]

Livros
  • O incidente inspirou a novela de ficção "E a Terra parou novamente - O caso dos ETs de Varginha" (Atual Editora), do escritor e jornalista Jorge Fernando dos Santos.
  • O Caso Varginha, de Ubirajara Franco Rodrigues. (2001)[15]
  • Em 2015 foi anunciado o lançamento do livro "Varginha, toda a verdade revelada", do ufólogo e escritor Marco Antônio Petit, que afirma denunciar "verdades não reveladas" do Inquérito Polícial Militar (IPM).[16]
Filmes

Em 2020, o curta-metragem "1996"[17], do diretor mineiro Rodrigo Brandão, revisita o incidente em uma história de terror feita nos moldes de mocumentário (no estilo de Bruxa de Blair). O curta foi feito em VHS e segue a trajetória de duas adolescentes que estão indo a cidade de Varginha no dia 20/01/1996. Elas ficam perdidas em uma mata durante a noite e são encontradas pela criatura. O curta teve ótima recepção, recebendo críticas positivas e vencendo prêmios em vários festivais importantes como a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Documentários

Em outubro de 2019, a Revista UFO apresentou o documentário "O ET de Varginha".[18]

  • 2022: Varginha: The Roswell of Brazil, do ufólogo James Fox[19]
Na TV
  • 2011: UFO Files S1 E4: The Brazilian UFO Crash: The Truth, transmitido em 23 de julho, no Syfy[20]

Revistas Especializadas

  • Revista OVNI Pesquisa publicou, na edição 7 de outubro de 2020, quando o caso completar 25 anos do caso, uma matéria exclusiva trazendo novas informações.[21]
  • A Revista UFO publicou duas edições especiais dedicadas ao caso varginha, a "UFO Especial 17 - Caso varginha: um ano de pesquisas" e a "UFO Especial 17 - Caso varginha: um ano de pesquisas", além de diversas matérias sobre o caso nas edições regulares.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

Referências

  1. Caso ET de Varginha (vídeo). Brasil: Globo. 4 de fevereiro de 1996. Em cena em 7:10. Consultado em 22 de dezembro de 2020 
  2. «Tale of Stinky Extraterrestrials Stirs Up UFO Crowd in Brazil». The Wall Street Journal (em inglês). 28 de junho de 1998. Consultado em 25 de março de 2017 
  3. a b c d e f g h i «ISTOÉ - A história oficial do ET de Varginha. Revista Istoé». Consultado em 27 maio de 2010 
  4. Randle, Kevin D (1997). The Randle Report: UFO's in the ‘90's. [S.l.]: M. Evans and Company. ISBN 0-87131-820-2 
  5. a b c «ET de Varginha: caso completa 20 anos com mistérios e incertezas». G1. 21 de janeiro de 2016. Consultado em 27 de janeiro de 2017 
  6. «As pegadas do ET de Varginha em 20 anos». O Globo. 19 de janeiro de 2016. Consultado em 25 de março de 2017 
  7. a b c d Suposta aparição de um ET em Varginha (MG) mexeu com o Brasil (vídeo). Brasil: Globo. 31 de outubro de 2016. Consultado em 22 de dezembro de 2020 
  8. «Documento oficial aponta relatos, 25 anos antes do Caso ET de Varginha». G1. 17 de fevereiro de 2017. Consultado em 28 de março de 2017 
  9. «ET de Varginha: 'Tentaram acobertar a verdade', diz ufólogo Marco Petit». 22 de janeiro de 2016. Consultado em 27 de janeiro de 2017 
  10. Marcelo Moreira (13 de janeiro de 2016). «'ET de Varginha' faz 20 anos: queda de nave e seres passeando na rua». noticias.uol.com.br. Consultado em 27 de janeiro de 2017 
  11. Bruno Abbud. «O mistério que ronda os céus de Varginha completa 15 anos». Veja Colunistas Augusto Nunes. Consultado em 27 de maio de 2016 
  12. a b c Marco Antonio Petit (1 de março de 2011). «Vem à tona, finalmente, o Inquérito Policial Militar sobre o Caso Varginha». UFO. Consultado em 2 de fevereiro de 2022 
  13. Alienígenas no Brasil (vídeo). Brasil: Eduardo Bueno (YouTube). Consultado em 2 de fevereiro de 2022 
  14. Daniela Maciel (8 de fevereiro de 2014). «Varginha traça planos para atrair turistas». Diario do Comercio. Consultado em 25 de março de 2017 
  15. Rodrigues, Ubirajara Franco (2001). O Caso Varginha. [S.l.]: Editora Biblioteca UFO 
  16. «Livro promete divulgar 'verdades não reveladas' sobre ET de Varginha, MG». G1. 15 de abril de 2015. Consultado em 25 de março de 2017 
  17. «Curtametragem 1996». 22 de abril de 2022. Consultado em 22 de abril de 2022 
  18. «O ET de Varginha Documentário Inédito Legendado». Revista UFO. 17 de outubro de 2019. Consultado em 5 de novembro de 2019 
  19. «'Varginha: The Roswell of Brazil». Variety. Consultado em 2 de fevereiro de 2022 
  20. «UFO Files S1 E4: The Brazilian UFO Crash: The Truth». Metacritic (em inglês). CBS. Consultado em 26 de maio de 2020 
  21. «Edições». www.ovnipesquisa.com.br. Consultado em 17 de março de 2022 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • «Ceticismoaberto». - Documentos oficiais revelam investigação do Caso Varginha. (Arquivado)