Indústria criativa no Brasil

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A expressão indústria criativa no Brasil se refere a diversos setores econômicos do país que dependem do talento e da criatividade para se desenvolverem.[1] Em outras palavras, trata-se de gerar riqueza para a região por meio do conhecimento, da cultura e da criatividade, de forma a contribuir para o desenvolvimento sustentável (ambiental, econômico e social).[2] O termo "indústria criativa" foi cunhado pelo Reino Unido em 1990 e ganhou duas atualizações em 2001: uma do pesquisador John Howkins, que lhe conferiu uma visão empresarial ao focar na transformação da criatividade em produto;[nota 1] e outra do professor Richard Florida, que se concentrou nos profissionais envolvidos nos processos criativos de produção, abordando os traços sociais e o "potencial de contribuição para o desenvolvimento" da chamada "classe criativa". O primeiro estudo de abrangência internacional só surgiu em 2008 - realizado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) -, no mesmo ano em que foi publicado pela FIRJAN outro estudo sobre o tema, só que totalmente voltado para o Brasil.[3]

Profissões criativas[editar | editar código-fonte]

Com base na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO),[4] listagem do Ministério do Trabalho e Emprego de todas as profissões do país,[nota 2] o Sistema FIRJAN mapeou o mercado de trabalho criativo. O resultado do estudo elencou catorze profissões criativas,[3] nas quais o conhecimento é um insumo de produção com caráter transformador:

  1. Arquitetura e Engenharia;
  2. Artes;
  3. Artes cênicas;
  4. Biotecnologia;
  5. Design;
  6. Expressões culturais;
  7. Filme & vídeo;
  8. Mercado editorial;
  9. Moda;
  10. Música;
  11. Pesquisa e desenvolvimento;
  12. Publicidade;
  13. Software, Computação & Telecom;
  14. Televisão & Rádio.

História[editar | editar código-fonte]

A primeira iniciativa de mapear as indústrias criativas de algum país foi do Reino Unido,[nota 3] no final dos anos 1990. O objetivo era provar que esses setores têm importante papel para a cultura e o potencial de gerar empregos e riqueza para o país. Foram mapeadas, então, essas indústrias criativas e todas as demais que mantinham relação com elas. Construiu-se, assim, uma visão sobre o peso das cadeias criativas no processo produtivo.

Três anos depois desse trabalho pioneiro, em 2001, surgiram dois outros:

  • O do pesquisador John Howkins, que construiu seu estudo segundo uma visão empresarial (baseada em conceitos mercadológicos de propriedade intelectual);
  • E o do professor Richard Florida, que evidenciou a chamada “classe criativa” (profissionais que trabalham com processos criativos).

Não demorou muito para a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, 2008) lançar mais um estudo sobre o tema, só que desta vez com abrangência internacional. Segundo o levantamento, as exportações das indústrias criativas no mundo superavam 500 bilhões de dólares.[5] Dada a importância do tema para o mundo e, especificamente, para o Brasil, o Sistema Firjan lançou nesse mesmo ano de 2008 o estudo A Cadeia da Indústria Criativa no Brasil, que foi atualizado em 2011 e publicado em 2012.[3] Essa ferramenta para mapear a indústria criativa no país é capaz de listar dados a respeito de cada uma dessas profissões (adicionando também rádio e TV), tais como quantidade de postos de trabalho, remuneração e grau de escolaridade exigido. Une, assim, informações tanto da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) quanto da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).

O tema, por vezes, é confundido com o termo "indústria cultural". No entanto, "o escopo da economia criativa é determinado pela extensão das indústrias criativas".[6] Em outras palavras, os produtos e serviços culturais fariam parte de uma categoria maior, de produtos e serviços criativos que envolveriam outros onze segmentos criativos como o audiovisual, a moda, a publicidade, a arquitetura, as TICs, as artes e artes cênicas, o design, a biotecnologia, o mercado editorial, a música e P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

Cadeia[editar | editar código-fonte]

Para a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a cadeia da indústria criativa compreende os “ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que usam criatividade e capital intelectual como insumos primários”.[5] Assim, ela pode ser dividida em três grandes áreas: núcleo criativo (são as atividades econômicas criativas), atividades relacionadas (fornecem bens e serviços de forma direta ao núcleo) e apoio (fornecem bens e serviços de forma indireta ao núcleo).

Já o Sistema FIRJAN adotou a mesma definição dada pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esportes do Reino Unido, que considera como indústrias criativas as atividades “que têm sua origem na criatividade, na perícia e no talento individual e que possuem um potencial para a criação de riqueza e empregos através da geração e da exploração de propriedade intelectual”.

Com base nesse conceito, pode-se dizer que o Brasil tem grande peso quando se trata de indústria criativa. Afinal, ele é um dos maiores produtores de criatividade do mundo. Analisando-se a remuneração do povo brasileiro, verificou-se que o salário de quem trabalha na indústria criativa no Brasil é quase três vezes maior do que a média salarial nacional (valor de comparação: R$4.693 e R$1.733, respectivamente). E dentre os profissionais criativos, os de Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal são os que recebem as melhores remunerações. Esses são dados do Mapeamento da Indústria Criativa,[3] que se baseou em informações de 2011. O estudo aborda temas como profissões, remunerações, salário médio por estado, número de empregados por segmento e até participação do PIB criativo do país.

Reconhecimento[editar | editar código-fonte]

O setor tem ganhado tanta importância que, em maio de 2012, a presidente do Brasil Dilma Rousseff decretou a criação da Secretaria da Economia Criativa.[7] O objetivo da SEC é criar, implementar e monitorar políticas públicas que têm a cultura como eixo estratégico, "priorizando o apoio e o fomento aos profissionais e aos micro e pequenos empreendimentos criativos brasileiros".[8]

De acordo com relatório das Nações Unidas, o Brasil ainda não está entre os vinte principais produtores do setor,[9] mas a iniciativa de criação da SEC indica a vontade governamental de reposicionar a "cultura como eixo de desenvolvimento do estado brasileiro".[10] Para o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, esse é um reconhecimento de que as atividades criativas são importantes para o país "numa perspectiva de longo prazo, tendo como norte o desenvolvimento mais inclusivo e sustentável".[11]

Em termos mundiais, os países que mais têm se destacado no setor são a China, em primeiro lugar, seguida pelos EUA e pela Alemanha. Mas o Brasil tem contribuído grandemente nas áreas de arquitetura, moda e design, revelando seu potencial criativo mundialmente.[12]

Radiografia brasileira[editar | editar código-fonte]

A indústria criativa no Brasil reúne profissionais bem remunerados, que, quando assalariados, chegam a receber 42% acima da média salarial do país,[1] nesse ramo predominam os profissionais que atuam por conta própria. Difícil é saber quanto custa uma ideia ou inovação, que são ativos intangíveis. Um caminho seria criar métricas e usar pesquisas qualitativas e quantitativas. O que é possível identificar são dados econômicos gerais da Indústria Criativa no Brasil, tais como:[3]

  • Parcela do PIB: R$ 110 bilhões
  • Empresas: 243 mil
  • Profissionais: 810 mil, dos quais os mais numerosos são:
  1. Arquitetos e engenheiros: 229.877 empregados formais;
  2. Programador de sistemas de informação: 50.440;
  3. Analista de negócios: 45.324;
  4. Analista de pesquisa e mercado: 25.141;
  5. Gerente de marketing: 20.382;
  6. Agente publicitário: 14.032;
  7. Designer gráfico: 17.806;
  8. Biólogo: 15.182;
  9. Gerente de pesquisa e desenvolvimento: 13.414;
  10. Designer de calçados sob medida: 13.068.
  • Salários: as atividades criativas melhor remuneradas são:
  1. Geólogos e geofísicos: R$ 11.385;
  2. Diretor de programas de televisão: R$ 10.753;
  3. Ator: R$ 10.348;
  4. Biotecnologista: R$ 8.701;
  5. Diretor de redação: R$ 7.774;
  6. Editor de revista: R$ 7.594;
  7. Arquitetos e engenheiros: R$ 7.524;
  8. Engenheiros elétricos, eletrônicos e de computação: R$ 7.431;
  9. Autor roteirista: R$ 7.347;
  10. Pesquisadores em geral: R$ 7.102.

Segundo a Secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, Cláudia Leitão, o país está aprendendo a crescer nessa área, transformando "a criatividade brasileira em inovação e a inovação em riqueza".[10]

Notas

  1. Para isso, baseou-se "nos conceitos mercadológicos de propriedade intelectual" aplicados a marcas, patentes e direitos autorais.
  2. Ela foi atualizada em 2002 devido à nova metodologia de classificação, conforme explicado na página "CBO - Classificação Brasileira de Ocupações"
  3. O nome do documento é “Creative Industries Mapping Documents” (no original em inglês), lançado em 1998 pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esportes do Reino Unido.

Referências

  1. a b Coldibeli, Larissa - UOL Economia (07/02/2013). «Conheça a economia criativa e veja 5 dicas para empreender na área». Consultado em 15 de abril de 2014 
  2. Rede Globo de Televisão (14/07/2012). «Brasil possui imenso potencial no mercado da economia criativa (in Globo Ecologia. Consultado em 15 de abril de 2014 
  3. a b c d e FIRJAN, Sistema (2012). «Indústria Criativa - Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil (PDF - 1,85 MB)» (PDF). Consultado em 16 de dezembro de 2013. Arquivado do original (PDF) em 10 de agosto de 2013 
  4. Ministério do Trabalho e Emprego. «Classificação Brasileira de Ocupações». Consultado em 16 de dezembro de 2013 
  5. a b Unctad (2008). «Creative Economy Report 2008: the challenge of assessing the creative economy (PDF - 2,54 MB)» (PDF). Consultado em 26 de março de 2014 
  6. Nações Unidas. «Relatório de Economia Criativa 2010 (PDF)» (PDF). Consultado em 14 de abril de 2014. Arquivado do original (PDF) em 15 de abril de 2014 
  7. Presidência da República do Brasil (31/05/2012). «Decreto Nº 7.743, de 31 de maio de 2012». Consultado em 15 de abril de 2014 
  8. Ministério da Cultura do Brasil. «Economia Criativa». Consultado em 15 de abril de 2014. Arquivado do original em 1 de junho de 2014 
  9. Brasil Econômico (05/12/2011). «Brasil avança em criatividade» (PDF). Consultado em 15 de abril de 2014 
  10. a b Brasil Econômico (05/12/2011). «Planejando um Brasil criativo» (PDF). Consultado em 15 de abril de 2014 
  11. Ministério da Cultura. «Economia criativa para o desenvolvimento (in Plano da Secretaria da Economia Criativa (PDF) 
  12. Rede Globo de Televisão (14/07/2012). «Economia criativa:cultura e sustentabilidade (in Globo Ecologia. Consultado em 15 de abril de 2014 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]