Inquisição espanhola

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Escudo da Inquisição espanhola (1571). Ladeando a cruz, a espada, símbolo do castigo aos hereges e o ramo de oliveira, símbolo da reconciliação com os arrependidos. Em latim, a inscrição «Exurge Domine et judica causam tuam. Psalm. 73» (Levantai-vos, ó Deus, e defendei a vossa causa;" salmo 73;22).[1]

A Inquisição espanhola ou Tribunal do Santo Ofício da Inquisição foi uma instituição fundada em 1478 por Fernando II de Aragão e Isabel de Castela para manter a ortodoxia católica em seus reinos que atuou de 1478 até 1834. Esta Inquisição foi o resultado da Reconquista da Espanha das mãos dos árabes muçulmanos, e da política de conversão de judeus e muçulmanos espanhóis ao catolicismo. A Inquisição foi um importante instrumento na política chamada "limpeza de sangue" contra os descendentes de judeus e de muçulmanos convertidos.

Representação de um "auto de fé" presidido por Domingos de Gusmão. Pintura de Pedro Berruguete. Visões artísticas sobre o tema geralmente apresentam cenas de tortura e de pessoas queimando na fogueira durante os rituais.

Contexto[editar | editar código-fonte]

No século XV a Espanha não era um estado unificado, mas sim uma confederação de monarquias, cada qual com seu administrador, como os reinos de Aragão e Castela, governados por Fernando e Isabel, respectivamente. No Reino de Aragão (na verdade, uma confederação de Aragão, Ilhas Baleares, Catalunha e Valência) havia uma Inquisição local desde a Idade Média, tal como em outros países da Europa, porém ainda não havia Inquisição no Reino de Castela e Leão.

A maior parte da Península Ibérica estava sob o governo dos mouros, e as regiões do sul, particularmente Granada, estavam muito povoadas de muçulmanos. Até 1492, Granada ainda estava sob o controle mouro. As cidades mais importantes, como Sevilha, Valladolid e Barcelona (capital do Reino de Aragão), tinham grandes populações de judeus em guetos.

Havia uma longa tradição de trabalhos de judeus no Reino de Aragão. O pai de Fernando, João II de Aragão, indicou Abiathar Crescas, um judeu, como astrólogo da corte. Muitos judeus ocupavam postos de importância, tanto religiosos como políticos.

O aragonês Fernando não pensava usar a religião como meio de controlar o seu povo, mas sim desejava as religiões judaica e muçulmana fora de seus domínios, e a Inquisição foi o meio que usou para atingi-lo. Muitos historiadores creem que a Inquisição foi o método usado por Fernando para enfraquecer os seus opositores principais no reino. Possivelmente havia também uma motivação econômica: muitos financistas judeus forneceram o dinheiro que Fernando usou para casar com a rainha de Castela, e vários desses débitos seriam extintos se o financiador fosse condenado. O inquisidor instalado na Catedral de Saragoça por Fernando foi assassinado por cristãos novos.

O papa não desejava a Inquisição instalada na Espanha, porém Fernando insistiu. Ele persuadiu a Rodrigo Borgia, então bispo de Valência, a usar de sua influência em Roma, junto ao papa Sixto IV. Borgia teve êxito, e a Inquisição foi instalada em Castela. Mais tarde, Borgia teve apoio espanhol ao seu papado, ao suceder Sixto IV, com o título de papa Alexandre VI.

Sixto IV era papa quando a Inquisição foi instalada em Sevilha em 1478. Ele foi contra, devido aos abusos, porém foi forçado a concordar quando Fernando ameaçou negar apoio militar à Santa Sé. Fernando obteve assim o que desejava: controlar sozinho a Inquisição espanhola.

A Inquisição e a expulsão dos judeus[editar | editar código-fonte]

Em 1481, Fernando e Isabel indicaram Tomás de Torquemada para investigar e punir os conversos — judeus e mouros que diziam ter-se convertido ao catolicismo, mas que, de fato, continuavam a praticar suas antigas religiões em segredo. Alguns judeus disfarçados tornaram-se padres e mesmo bispos. Os detratores chamavam os judeus convertidos de marranos, uma expressão pejorativa, que se crê significar porcos. Entre os anos 1486 e 1492, 25 autos-de-fé ocorreram em Toledo. Um total de 464 autos-de-fé contra judeus ocorreram entre 1481 e 1826. No total, mais de 13 mil conversos foram julgados entre 1480 e 1492.

Modo de atuação[editar | editar código-fonte]

A Inquisição, como uma corte religiosa, era operada por autoridades da Igreja Católica. Porém, se uma pessoa fosse considerada herege, a punição era entregue às autoridades seculares, pois a Igreja "não derramava sangue". A tortura frequentemente era usada como modo de penitência. As punições variavam: da mais comum (quase 80% dos casos), que era a vergonha pública (obrigar o uso do sambenito, uma roupa de penitente, usar máscaras de metal com formas de burro, usar mordaças) até ser queimado em praça pública, quando o crime era mais grave. A morte pelo garrote (estrangulamento) era usada para os arrependidos. Essas punições eram executadas publicamente, durante os chamados autos-de-fé, que aconteciam uma vez por ano na maioria dos casos. Algumas pessoas acusavam outras por vingança ou para obter recompensas da Coroa. A própria Coroa Espanhola beneficiava-se, ao desapropriar os bens dos conversos. O potro, como era chamado o cavalete, era o instrumento de tortura mais utilizado[2].

A Inquisição também foi usada contra os primeiros focos do protestantismo, contra a disseminação das idéias de Erasmo de Roterdão, contra o iluminismo e, no século XVIII, contra o enciclopedismo. Apesar das ações das outras inquisições europeias contra a bruxaria, as bruxas não eram o principal foco da inquisição espanhola. As acusadas de bruxaria eram normalmente qualificadas como loucas. Durante o governo de Napoleão Bonaparte, a Inquisição foi suspensa na Espanha, porém foi reinstalada quando Fernando VII de Espanha subiu ao trono. O professor Cayetano Ripoll, garroteado em Valência no dia 31 de julho de 1826 [3], foi a última pessoa morta pela Inquisição espanhola, que, em 15 de julho de 1834, foi finalmente abolida.

A Inquisição também foi instalada no México e no Peru, porém foi abolida nesses países quando se tornaram independentes da Espanha.

Pesquisas recentes sobre a Inquisição espanhola[editar | editar código-fonte]

Pesquisas históricas recentes vêm contestando alguns fatos sobre a Inquisição. Em 6 de novembro de 1994, a BBC de Londres transmitiu o documentário The Myth of the Spanish Inquisition[4] . Segundo o programa, que se baseia em anos de pesquisa em arquivos antes fechados, a Inquisição espanhola – tida como a mais cruel e violenta – teve, na verdade, sua imagem distorcida por protestantes que queriam minar o poder da maior potência mundial na época: a Espanha. O vídeo explica que cada processo inquisitorial ocorrido foi registrado individualmente durante os 350 anos em que a Inquisição esteve ativa, mas somente agora esses registros estão sendo reunidos e analisados adequadamente. No programa, o professor Henry Kamen, especialista no assunto, admitiu que esses registros são extremamente detalhados e vêm trazendo à tona uma visão da Inquisição espanhola que é muito diferente da que estava cristalizada na mente dos historiadores (ele incluso). Henry Kamen lançou, em 1999, o livro The Spanish Inquisition: A Historical Revision. (Yale University Press), que é uma revisão de seu trabalho de 1966 à luz das novas descobertas.[5] A Igreja Católica também auxilia nas pesquisas, liberando todos os documentos que antes eram guardados em universidades católicas para aprofundamentos e estudos mais minuciosos sobre a Inquisição Espanhola.

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

O grupo de humor britânico Monty Python fez referência à Inquisição Espanhola, que era composta por três cardeais, sendo um, o cardeal Ximenes, que dizia o bordão: "Nobody expects the Spanish inquisition!" traduzido para o português como "Ninguém espera a Inquisição Espanhola!".

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Bíblia Católica Online
  2. Carrol. James, Constantine's Sword: The Church and the Jews: A History, p. 356, Houghton Mifflin Books (2002), ISBN 0-618-21908-0.
  3. Cayetano Ripoll, el último asesinado por la Inquisición(em espanhol)
  4. Vídeo: The Myth of the Spanish Inquisition
  5. A Kinder, Gentler Inquisition. A new revisionist study of the Spanish tribunal asserts that it wasn't as bad as previously thought. Por Richard L. Kagan. NY Times, 19 de abril de 1998.
  6. BÁEZ, Fernando. História universal da destruição dos livros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006
  7. JORGE, Fernando. Lutero e a igreja do pecado. 7 ed. Osasco: Novo Século, 2008

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Henry Kamen, The Spanish Inquisition: A Historical Revision. (Yale University Press, 1999). ISBN 0300078803
  • Henry Charles Lea, A History of the Inquisition of Spain (4 volumes), (New York and London, 1906-1907)
  • Emil van der VekeneBibliotheca bibliographica historiae sanctae inquisitionis. Bibliographisches Verzeichnis des gedruckten Schrifttums zur Geschichte und Literatur der Inquisition. Band 1 - 3. Topos-Verlag, Vaduz 1982-1992, ISBN 3-289-00272-1, ISBN 3-289-00578-X
  • Emile van der Vekene: La Inquisición en grabados originale Exposición realizada con fondos de la colección Emile van der Vekene de la Universidad San Pablo-CEU, Aranjuez, 4-26 de Mayo de 2005, Madrid: Universidad Rey Juan Carlos, 2005. ISBN 84-96144-86-0
  • Barthélemy, Charles Erreurs et mensonges historiques. 1ère série. Paris: Ch. Blériot, 1876, pp. 38s, 43s.