Insurreição islâmica em Moçambique

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Insurreição islâmica em Moçambique
Cabo Delgado Province in Mozambique 2018.svg
Data 5 de outubro de 2017 – presente
Local Província de Cabo Delgado, Moçambique
Situação Em andamento
Beligerantes
 Moçambique

Tanzânia

Portugal Portugal

África do Sul

Ansar al-Sunna

Estado Islâmico (Província da África Central)

Al-Qaeda

A insurreição islâmica em Moçambique é um conflito em curso na província de Cabo Delgado, em Moçambique, entre militantes islâmicos que pretendem estabelecer um Estado islâmico em Moçambique e as forças de segurança moçambicanas. O conflito também inclui os ataques contra civis.[1] Suspeita-se que grupos de bandidos armados tenham também aproveitado a confusão a seu favor.[2]

Um grupo islâmico se autodenomina Ansar al-Sunna (ou Ahlu Sunnah Wa-Jamo)- Defensores da Tradição, que também foi o nome de um grupo insurgente sunita iraquiano que lutou contra as tropas estado-unidenses entre 2003 e 2007. Os residentes locais os chamam de "Al-Shabaab", apesar de não estar claro que possua ligações diretas com o grupo somali de mesmo nome; embora haja somalis no norte de Moçambique.[3][4]

Relatos mencionaram que este grupo fundamentalista islâmico é composto principalmente de moçambicanos dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma e Macomia, mas também inclui estrangeiros da Tanzânia e da Somália.[5]

Em Junho de 2019, também o Estado Islâmico deu a conhecer a sua presença em Moçambique e o seu envolvimento nos combates que têm abalado o norte do país desde o final de 2017.[6][7][8] Em 24 de Março de 2020, o Estado Islâmico reivindicou mais um ataque em Mocimboa da Praia, no Norte de Moçambique, localidade que ocuparam por um dia antes de serem expulsos. Perto da localidade está a ser desenvolvido um projecto de aproveitamento de gás natural pela firma francesa Total. Os terroristas apoderaram-se de armamento e outro equipamento e deixaram atrás de si um número indeterminado de vítimas.[9]

Segundo um relatório de um grupo de peritos dos orgãos antiterroristas da ONU, desde fins de 2019 que o grupo Ansar al-Sunna pertence ao chamado EIPAC (Estado Islâmico na Província da África Central ,ou IS-CAP, Central Africa Wilayah ou Wilayat Wasat Ifriqiya, uma divisão do Daesh ). Segundo um estado membro da ONU, as operações jihadistas em Moçambique foram planeadas e comandadas pela República Democrática do Congo.[10]

Os ataques provocaram até á data de Novembro de 2020 cerca de dois mil mortos e um número crescente de deslocados em fuga, estimado em 435 mil.[11][12][13]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique, é conhecida por alguns como "cabo esquecido". Dista tão longe da capital como mil e setecentos quilómetros.

Cabo Delgado, é a província moçambicana mais «islamizada», isto é, onde a fé muçulmana ganhou mais peso e penetração social. Foi sempre, no entanto, um culto religioso pacífico e natural, que se adaptava à terra mais do que a obrigava a adaptar-se.[14]

O grupo Ansar al-Sunna nasceu de uma seita que tinha atritos com muçulmanos sufistas locais e ligações a fundamentalistas na África Oriental. Recrutava os jovens frustrados pela pobreza e falta de oportunidades de emprego. Poucos habitantes locais acreditam que a descoberta das enormes quantidades de gás natural ao largo da costa de Cabo Delgado os vá beneficiar, ao contrário das elites dentro e à volta do partido no poder, a Frelimo.[15]

No início, o Estado moçambicano encarou o grupo como bandidos vulgares. O Presidente Filipe Nyusi admitiu entretanto que existe um problema, mas o seu governo está sobrecarregado. Os melhores soldados do país estão a guardar as instalações de gás. Os restantes estão mal treinados, mal pagos e ainda por vezes acusados de abusos dos direitos humanos. A maioria dos soldados não é de Cabo Delgado e não fala as línguas locais.[15]

Principais confrontos[editar | editar código-fonte]

Tomada de Mocimboa da Praia[editar | editar código-fonte]

Cabo Delgado

No dia 12 de Agosto de 2020, durante a madrugada, os jihadistas capturaram, pela terceira vez, Mocimboa da Praia e o respectivo porto, assim como, segundo algumas fontes, duas instalações militares.[16][17][18] Mercenários do grupo de segurança sul-africano Dyck Advisor Group (DAG), que têm apoiado o Governo moçambicano no combate aos jihadistas, não chegaram a tempo de intervir.[11][12][19]

As tropas do governo acabaram por retirar após terem ficado sem munições. Uma embarcação militar foi afundada pelos jihadistas.[18] A partir dum pequeno e mal armado bando, os jihadistas revelam agora um nível superior de organização, estratégia e armamento.[12]

A 20 de Agosto os confrontos em M. da Praia continuavam e há um número indeterminado de mortos. A população tem fugido quase toda para Pemba, Palma e a ilha de Ibo.[20][21]

A 8 de Setembro, os jihadistas capturaram as duas pequenas ilhas de Mecungo e Vamisse.[22][23] Segundo o site de notícias moçambicano Moz24Horas, alguns dias depois tomaram também o controlo duma importante via de ligação entre Sul e Norte de Cabo Delgado através do distrito de Montepuez.[24]

Ataques em Cabo Delgado[editar | editar código-fonte]

Em 6 de novembro de 2020, um grupo terrorista ligado ao Estado Islâmico atacou de surpresa a aldeia de Nanjaba na província de Cabo Delgado. Durante o ataque foram feitos disparos contra vários habitantes e incendiadas várias habitações. Duas pessoas foram decapitadas e várias mulheres violadas. Em seguida o mesmo grupo atacou a aldeia de Muatide. Os fugitivos foram reunidos num campo de futebol próximo, tendo aí sido decapitadas mais de 50 pessoas.[25][26][27][28]

A 7 de Janeiro de 2021 o ministro moçambicano da Defesa Nacional, Jaime Neto, afirmou que o apoio que tem sido dado às forças de defesa e segurança por parceiros internacionais (a União Europeia por exemplo) já permitiu a recuperação de várias zonas que tinham sido ocupadas pelos insurgentes em Cabo Delgado, incluindo o porto de Mocimboa da Praia.[29]

Limites à informação[editar | editar código-fonte]

Existe uma falta de acesso a informação fiável na região[30] devido à intimidação de jornalistas pelo governo e militares. A 5 de Janeiro de 2019, as autoridades moçambicanas detiveram ilegalmente o jornalista Amade Abubacar, que tinha relatado a insurreição. Foi alegadamente sujeito a tortura, e só foi libertado sob fiança após 107 dias de detenção.[31]

Mocimboa da Praia encontra-se sem telefones e sem internet.[12] A informação sobre o conflito está praticamente ausente dos noticiários televisivos ou jornais portugueses.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Mozambique: Islamist Raids Continuing in Mocímboa da Praia». AllAfrica.com (em inglês). 4 de dezembro de 2017 
  2. «Beheadings, kidnappings amid surge in Mozambique attacks: UN». www.aljazeera.com. Consultado em 16 de agosto de 2020 
  3. Hanlon, Joseph (8 de janeiro de 2018). «Alleged Islamist base shelled near Mocimboa da Praia» (em inglês). Club of Mozambique. Consultado em 26 de janeiro de 2018. Arquivado do original em 11 de janeiro de 2018 
  4. Baptista, André (6 de outubro de 2017). «Grupo que atacou vila moçambicana apontado como tendo ligações ao fundamentalismo islâmico». Voz da América 
  5. «População captura supostos membros do grupo armado que atacou Mocímboa da Praia». A Verdade. 23 de outubro de 2017 
  6. «Le groupe Etat islamique affirme participer à l'insurrection au Mozambique, Maputo dément». LExpress.fr (em francês). 5 de junho de 2019. Consultado em 11 de fevereiro de 2020 
  7. Welle (www.dw.com), Deutsche. «Mozambicans flee in fear of beheadings in extremist north | DW | 07.02.2020». DW.COM (em inglês). Consultado em 11 de fevereiro de 2020 
  8. «Islamic State claims first attack in Mozambique | FDD's Long War Journal». www.longwarjournal.org (em inglês). 4 de junho de 2019. Consultado em 11 de fevereiro de 2020 
  9. Reuters Editorial. «Islamic State claims Mozambique attack close to gas projects». AF (em inglês) 
  10. Rogeiro, Nuno (2020). O Cabo do Medo – O DAESH em Moçambique (Junho 2019-2020) Capː Conclusão necessáriamente provisória. [S.l.]: Publicações Dom Quixote  
  11. a b «Moçambique: jihadistas capturam porto de Mocímboa da Praia». Público. 13 de Agosto de 2020 
  12. a b c d Bowker, Tom (25 de Agosto de 2020). «Battle looms in Mozambique over extremists' control of port» (em inglês). The Washington Times 
  13. «Moçambique gasta fortunas com mercenários russos e sul-africanos». Plataforma Media. 18 de Novembro de 2020 
  14. Rogeiro, Nuno (2020). O Cabo do Medo – O DAESH em Moçambique (Junho 2019-2020) - (Cap.ː No princípio, o "Islão Social" "revolucionário" e "libertador"). [S.l.]: Publicações Dom Quixote 
  15. a b «More misery, few answersː The war in Mozambique is getting worse». The Economist. 26 de Agosto de 2020 
  16. «Estado Islâmico toma porto e bases militares em Moçambique». O Antagonista. 12 de Agosto de 2020 
  17. Cascais, António (16 de Agosto de 2020). «Mozambique: Jihadi militants making inroads». Deutsche Welle 
  18. a b Fabricius, Peter (12 de agosto de 2020). «Mozambique: Mocimboa da Praia: Islamic State insurgents recapture strategic port town» (em inglês). Daily Maverick 
  19. Valoi, Estacio (12 de agosto de 2020). «Porto de Mocímboa em mãos terroristas». Moz24h 
  20. «Moçambique. Confrontos continuam e as ruas estão vazias em Mocímboa da Praia». Observador. 17 de Agosto de 2020 
  21. Paris, Costas (e outros) (20 de agosto de 2020). «Islamist Attacks in Mozambique Threaten to Disrupt Total-Led Natural-Gas Project». Wall Street Journal (em inglês). ISSN 0099-9660 
  22. Baptista, André (10 de Setembro de 2020). «Insurgentes capturam duas ilhas em Cabo Delgado». VOA 
  23. Aoraha, Claudia (17 de setembro de 2020). «ISIS take over luxury islands popular among A-list celebrities» (em inglês). NewsComAu 
  24. Nhachote, Luis (14 de setembro de 2020). «Terroristas tomam o controlo da única via alternativa de ligação entre Sul e Norte de Cabo Delgado». Moz24h 
  25. «Grupo do Estado Islâmico decapitou mais de 50 pessoas em Moçambique». Observador. 10 de novembro de 2020. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  26. «Militant Islamists 'behead more than 50' in Mozambique». BBC. 10 de novembro de 2020. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  27. «Jihadistas "decapitaram mais de 50 pessoas" em Cabo Delgado». Público. 10 de novembro de 2020. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  28. Sandner, Philipp (11 de Novembro de 2020). «New massacre in Mozambique's Cabo Delgado? | DW | 11.11.2020» (em inglês). DW 
  29. Miguel, Ramos (7 de Janeiro de 2021). «Forças moçambicanas recuperam zonas ocupadas por insurgentes, diz ministro da Defesa». VOA 
  30. Nhachote, Luis (21 de agosto de 2020). «Jornalistas moçambicanos querem cobrir insurgência em Cabo Delegado». Moz24h 
  31. «Mozambique: Detained journalist in critical condition». www.amnesty.org (em inglês). Consultado em 22 de agosto de 2020 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Rogeiro, Nuno (2020) - O Cabo do Medo – O DAESH em Moçambique (Junho 2019-2020) - Publicações Dom Quixote

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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