Intolerância à lactose

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Intolerância à lactose
Lactose é um disacarídeo da β-D-galactose e da β-D-glucose, normalmente rompida pela lactase.
Classificação e recursos externos
CID-10 E73
CID-9 271.3
OMIM 223100 150220
DiseasesDB 7238
MedlinePlus 000276
eMedicine med/3429 ped/1270
MeSH D007787

Intolerância à lactose ou hipolactasia é um transtorno no metabolismo da lactose, o açúcar do leite, devido a quantidade insuficiente da enzima necessária para romper a lactose em galactose e glucose: a lactase. Não deve ser confundida com a alergia a laticínios. Sua prevalência nas populações humanas varia entre 5% das pessoas no norte da Europa e 90% em alguns países asiáticos, como o Japão.[1]

Sem a presença da lactase, o açúcar do leite passa pelo intestino sem ser digerido e encontra bactérias que vão fermentar essa lactose. Essas bactérias é que são responsáveis pelo incômodo que as pessoas intolerantes à lactose sentem ao ingerir produtos derivados do leite.[2]

Causas[editar | editar código-fonte]

As três principais causas são:[3] *Genética: A causa mais comum, atingindo a maioria dos adultos do mundo, especialmente comum no Ásia Oriental, Europa Meridional, na África Subsaariana e América Latina. Os níveis de produção de lactase diminuem progressivamente entre os dois anos e a idade adulta.

  • Congênita: Rara, impede o aleitamento, sendo necessário usar uma fórmula substituta para bebês.
  • Doença secundária: Causada pela lesão da mucosa do intestino delgado por alguma infecção. Bastante comum em crianças no primeiro ano de vida. Nestes casos, após resolvida a infecção, há persistência da diarreia até que ocorra a cicatrização do intestino. Continuar a alimentação com mamadeiras contendo lactose (afora o leite materno), nestes casos, pode prolongar a diarreia.

A intolerância à lactose também pode ser adquirida. Caso a criança pare de tomar leite por muito tempo, o organismo pode entender que não é mais necessário produzir a lactase.[4]

Também pode ocorrer em bebês prematuros, ainda incapazes de produzir lactase.

Origem genética[editar | editar código-fonte]

Apesar de todos os mamíferos ingerirem leite materno quando filhotes, eles não mantém a capacidade de digerir a lactose do leite depois de adultos. Os filhotes de mamíferos sintetizam a enzima lactase, que faz a quebra do carboidrato lactose, durante o período do aleitamento, mas os adultos não. Por isso, diz-se que todos os mamíferos são intolerantes à lactose.

No entanto, grande parte da população de seres humanos consegue digerir o açúcar do leite. Em 2002, um estudo finlandês chegou a conclusão de que existe uma mutação genética associada a essa condição médica. Atualmente, a teoria mais aceita é de que, há menos de 9 mil anos, na revolução neolítica quando se iniciou a domesticação dos animais, os seres humanos começaram a ingerir o leite das vacas. Apesar da maior parte dos humanos serem incapazes de digerir a lactose, ocorreu uma mutação em um indivíduo que deu a ele a capacidade de produzir a enzima lactase. Assim, ele absorvia mais nutrientes do leite da vaca, e tinha uma vantagem evolutiva sobre os demais. Essa característica genética foi sendo passada aos seus descendentes, até que grande parte da população humana atual tenha esse gene mutante.[5][6][7]

Prevalência[editar | editar código-fonte]

Culturas que bebem leite há muito tempo acabam tendo menor índice de intolerância à lactose, pois a seleção natural favorece os indivíduos que são tolerantes à substância. Por isso, em países nórdicos possuem pouca incidência de intolerância à lactose. [8][9][10]

Cerca de 90% da população mundial adulta sofre de intolerância a lactose. Sendo que apenas 2% dos afetados de fato possuem sintomas extremamente nocivos a saúde necessitando assim de uma alimentação diferenciada. Esta parcela possui o transtorno desde sua infância onde ocorreu a troca do leite materno pelo convencional. A hipolactasia pode ser tratada pelos demais evitando o consumo de lácteos.

No Brasil chega a atingir 40% da população.[11] Em Portugal afeta cerca de 33% da população.[12]

Algumas mulheres recuperam a capacidade de consumir lactose durante a gravidez.

Distribuição[editar | editar código-fonte]

População Indivíduos examinados Intolerancia (%) Reference Frequência alélica[13]
Neerlandeses N/A 1 [14] N/A
Dinamarqueses N/A 4 [15] N/A
Australianos brancos 160 4 [16] 0.20
Suecos 129 5-7 [17][18] N/A
Bascos 85 8.3 [19] N/A
Britânicos N/A 5–15 [20] 0.184-0.302[21]
Alemães 1805 6-23 [22] N/A
Suiços N/A 10 [16] 0.316
Norte-americans brancos 245 12 [16] 0.346
Tuaregues N/A 13 [20] N/A
Finlandeses N/A 14-23 [23] N/A
Bielorrussos N/A 15 [24] N/A
Russos N/A 16 [24] N/A
Ucranianos N/A 13 [24] N/A
Austríacos N/A 15–20 [20] N/A
Espanhóis (não-bascos) N/A 15 [25] N/A
Franceses do Norte N/A 17 [20] N/A
Italianos do Centro 65 19 [26] N/A
Mexicanos (a nível nacional) N/A 16 - 33 [27] N/A
Indianos N/A 20 [28][29] N/A
Tutsis N/A 20 [16] 0.447
Fulani N/A 23 [16] 0.48
Beduínos N/A 25 [20] N/A
Portugueses adultos 102 35 [30] N/A
Italianos do Sul 51 41 [26] N/A
Crianças afro-americanas N/A 45 [28] N/A
Lapões (Rússia e Finlândia) N/A 25–60 [31] N/A
Italianos do Norte 89 52 [26] N/A
Norte-americanos hispânicos N/A 53 [20] N/A
Balcânicos N/A 55 [20] N/A
Homens mexicano-americanos N/A 55 [28][29] N/A
Cretenses N/A 56 [28] N/A
Maasai 21 62 [32] N/A
Franceses do Sul N/A 65 [20] N/A
Cipriotas gregos N/A 66 [28][29] N/A
Judeus, Mizrahi (Iraque, Irão, etc.) N/A 85 [33] N/A
Judeus Asquenazes N/A 68.8 [28][29] N/A
Judeus Sefarditas N/A 62 [33] N/A
Judeus do Iêmen N/A 44 [33] N/A
Sicilianos 100 71 [34][35] N/A
Mestiços do Peru N/A >90 [20] N/A
Mexicanos rurais N/A 73.8 [28][29] N/A
Afro-americanos 20 75 [16] 0.87
Libaneses 75 78 [36] N/A
Inuit do Alasca N/A 80 [28][29] N/A
Aborígenes australianos 44 85 [16] 0.922
Africanos Bantu 59 89 [16] 0.943
Asiático-Americanos N/A 90 [28][29] N/A
Chineses Han do Nordeste 248 92.3 [37]
Chineses 71 95 [16] 0.964
Sueste da Ásia N/A 98 [28][29] N/A
Tailandeses 134 98 [16] 0.99
Americanos nativos nos Estados Unidos 24 100 [16] 1.00

A significância estátistica deste números varia bastante de acordo com a dimensão da amostra.

Fisiopatologia[editar | editar código-fonte]

Bactérias do intestino grosso são capazes de consumir parte da lactose, liberando metano no processo, o que gera flatulência, dor e inchaço. Quanto mais dessas bactérias e quanto maior e mais frequente o consumo de lactose piores são os sintomas. Nas fezes a lactose aumenta o acúmulo de água tornando-as aquosas.

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

Os sintomas mais comuns incluem dor abdominal, diarreia, flatulência, cãimbras, gases, assaduras, inchaço abdominal, náusea e vômito. Os sintomas aparecem entre 30 minutos a 2 horas após a ingestão dos derivados do leite, que contém lactose.[5]

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

O teste laboratorial utilizado na prática clínica para o diagnóstico de intolerância à lactose é o teste de tolerância à lactose que consiste em monitorar a glicose sanguínea após uma dose oral de lactose. O teste é considerado positivo se as medidas de glicemia não demonstrarem uma elevação de 18 mg/dL entre a glicemia de jejum inicial e as glicemias consecutivas realizadas 20, 40 e 60 minutos.[38]

É possível realizar um exame genético para verificar se a pessoa possui a mutação que a torna tolerante à lactose, com uma simples coleta de sangue.[6]

Tratamento[editar | editar código-fonte]

Mudanças na dieta para evitar lactose e consumo de lactase costumam ser suficientes. Casos mais severos podem exigir eliminar a lactose da dieta por vários anos. Nesses casos é recomendado a substituição das fontes de cálcio.

Projeto de Lei - "Lei da Lactose"[editar | editar código-fonte]

No Brasil, ainda não existe uma lei que obrigue os fabricantes de alimentos a identificar nas embalagens a presença ou ausência de lactose, como existe com o glúten, em que todos os rótulos de alimento possuem os dizeres "possui glúten" ou "não possui glúten". O Projeto de Lei 2663/2003 "obriga os fabricantes de produtos que contenham lactose a informar essa característica, no rótulo ou embalagem" e está em votação na Câmara dos Deputados há mais de 10 anos.[39]

Referências

  1. «Lactose Intolerance» (em inglês). MedicineNet. 
  2. James Randerson (14 de janeiro de 2002). «Genetic basis for lactose intolerance revealed» (em inglês). Consultado em 1 de abril de 2014. 
  3. «Digestive Disorders Health Center - Lactose Intolerance» (em inglês). WebMD. 
  4. «Professor da UFMG explica sobre produção de leite sem lactose, intolerância e alergia ao leite». Milkpoint. 24/09/2013. Consultado em 31 de março de 2014. 
  5. a b «Cientistas identificam mutação genética que causa intolerância à lactose». UOL - Emedix. janeiro de 2002. Consultado em 31 de março de 2014. 
  6. a b «Pesquisa genética desvenda intolerância à lactose». UFRGS - Jornal da Universidade. julho de 2011. Consultado em 31 de março de 2014. 
  7. Daniela Oliveira (19/03/2012). «Entre a biologia e a cultura». Consultado em 31 de março de 2014. 
  8. Kretchmer N (1972). «Lactose and lactase». Scientific American [S.l.: s.n.] 227 (4): 71–8. PMID 4672311. 
  9. ADILAC. «La intolerancia» (em espanhol). Consultado em 22 de outubro de 2011. 
  10. Galacto-oligossacarídeos (GOS) e seus efeitos prebióticos e bifidogênicos (3.1 Intolerância à lactose)
  11. Aline Leal e Heloisa Cristaldo. «Cerca de 40% da população brasileira têm intolerância à lactose». Agência Brasil. 
  12. «Intolerância à Lactose». Site da marca de laticínios Mimosa. 
  13. para o alelo C (não-persitência à lactoses)
  14. Flatz G (1987). «Genetics of lactose digestion in humans». Adv. Hum. Genet. [S.l.: s.n.] 16: 1–77. doi:10.1007/978-1-4757-0620-8_1. PMID 3105269. 
  15. Timo Sahi. «Genetics and epidemiology of adult-type hypolactasia with emphasis on the situation in Europe» Scandinavian Journal of Nutrition/Naringsforskning [S.l.] 
  16. a b c d e f g h i j k Kretchmer N (1972). «Lactose and lactase». Sci. Am. [S.l.: s.n.] 227 (4): 71–8. doi:10.1038/scientificamerican1072-70. PMID 4672311. 
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