Ivan Turguêniev

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Ivan Turguêniev
Nascimento 9 de novembro de 1818
Oriol
Morte 3 de setembro de 1883 (64 anos)
Bougival
Residência Berlim (1841), França (abril 1850), São Petersburgo
Sepultamento Literatorskie mostki
Cidadania Império Russo
Etnia Russos
Alma mater Universidade Estatal de Moscou (1841)
Ocupação escritor, poeta, dramaturgo, romancista, tradutor, prosista, dramaturgo
Empregador Academia Russa de Ciências
Magnum opus Pais e Filhos
Movimento estético realismo literário
Assinatura
Ivan Sergeevich Turgenev Signature.svg

Ivan Sergeiévitch Turguêniev (em russo: Иван Сергеевич Тургенев; Oriol, 9 de novembro de 1818Bougival, 3 de setembro de 1883) foi um romancista, poeta, escritor de contos e novelas, tradutor, dramaturgo e divulgador da literatura russa no Ocidente.

Sua primeira grande publicação, uma coletânea de contos intitulada Memórias de um caçador (1852), foi um marco do realismo russo, e seu romance Pais e Filhos é considerado uma das obras mestras da ficção russa do século XIX.[1]

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Oriundos de uma família de proprietários rurais abastados, Ivan e seus irmãos Nikolai e Serguéi, foram criados por sua mãe, uma mulher muito educada, mas autoritária, na propriedade da família, Spasskóie-Lutovinovo, que foi concedida ao seu ancestral Ivan Ivánovitch Lutovinov por Ivan, o Terrível.[2]

Spasskóie-Lutovinovo, a propriedade rural de Ivan Turguêniev.

Em 1827, a família mudou para Moscovo, onde o jovem Ivan estudou, acabando por ingressar na Universidade de São Petersburgo, na época a mais conceituada do império russo, no ano de 1834. Lá cursou filosofia e, por altura da precoce obtenção do seu bacharelato, aos dezanove anos de idade, publicou uma primeira colectânea de poemas.[1]

Partiu então para a Alemanha, com o intuito de prosseguir os seus estudos na Universidade de Berlim, onde permaneceu até 1841, tendo debatido sobretudo com as ideias de Hegel, professor e reitor daquela universidade. Regressou depois à Rússia e, após ter obtido a licenciatura pela Universidade de Moscovo, ocupou um cargo junto do Ministério da Administração Interna.

Em 1843 publicou o primeiro livro digno de atenção por parte da crítica, Parasha, e conheceu o grande amor da sua vida, uma cantora de ópera de nacionalidade espanhola, casada, de nome Pauline Viardot.[1] O relacionamento entre ambos prolongou-se até à velhice, com o consentimento e a cumplicidade do marido da solista.

Após o aparecimento de obras como Razgovor (1843), Pomeshchik (1846) e Dnevnik Lishnego Cheloveka (1850), Turguêniev estabeleceu definitivamente a sua reputação como escritor em 1852, ao publicar Zapiski Okhotnika (Memórias de um caçador)[1] Composta por vários contos, a obra girava em torno de um jovem aristocrata que vai descobrindo a verdade e a sabedoria na vida dos camponeses que trabalham na sua propriedade. Conta-se que o livro contribuiu grandemente para que o Czar Alexandre II da Rússia tomasse a decisão de libertar os servos por toda a Rússia e que, antes dele, o próprio Turgenev o havia feito nos seus domínios, desobrigando cerca de cinco mil servos.

Tornou-se o primeiro escritor russo a celebrizar-se na Europa Ocidental, também graças ao aparecimento dos romances Rúdin (1856), Ninho de nobres (1859) e Na véspera (1860), obras que reflectiam de sobremaneira o seu amor por Pauline, muitas vezes idealizando o desejo de uma união mais completa, outras repensando o limiar do triângulo amoroso.

A publicação de Ottsy i Deti (Pais e filhos), em 1862, romance que relatava o conflito de um jovem estudante de Medicina, Evguêni Bazárov, que recusa tanto o conservadorismo das gerações mais velhas, como o radicalismo desenfreado da juventude. Turguêniev apodou o protagonista de "nihilista", cunhando assim o termo.

Ivan Turguêniev caçando (1879), pot Nikolai Dmitriev-Orenburgsky.

O aparecimento da obra deu origem a grande controvérsia, o que fez com que o autor preferisse abandonar a Rússia. Partiu para a Alemanha, passou por Londres, e acabou por se estabelecer em Bougival, nos arredores Paris, junto do casal Viardot, onde veio a falecer.

Em meados da década de 1860, Turguêniev foi colaborador da revista literária Época e também se encontra colaboração da sua autoria na revista A Leitura[3] (1894-1896).

Turguêniev nunca se casou, mas teve alguns casos com servas de sua família, um dos quais resultou no nascimento de sua filha ilegítima, Paulinette.

Seu amigo literário mais próximo era Gustave Flaubert, com quem compartilhava idéias sociais e estéticas similares. Ambos rejeitaram as visões políticas extremistas de direita e esquerda, e tinham uma visão de mundo sem julgamento, embora um pouco pessimista. Suas relações com Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski foram muitas vezes tensas, pois os dois, por várias razões, ficaram desanimados com a aparente preferência de Turgenev pela Europa Ocidental.

Turguêniev recebe doutorado honorário em Oxford, 1879.

Turguêniev, ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele foi considerado agnóstico.[4]

Dostoiévski parodiou Turguêniev em seu romance Os demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se tornar um jovem radical. No entanto, em 1880, o discurso de Dostoiévski na inauguração do monumento a Púchkin provocou uma espécie de reconciliação com Turguêniev, que, como muitos na plateia, foi levado às lágrimas pelo eloquente tributo de seu rival ao espírito russo.

Em 1879, foi-lhe conferido o grau honorário de Doutor em Direito Civil  pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Em janeiro de 1883, um agressivo tumor maligno (lipossarcoma) foi removido de sua região suprapúbica, mas nessa época o tumor apresentava metástase em sua medula espinhal, causando-lhe intensa dor nos últimos meses de vida. Em 3 de setembro de 1883, Turgenev morreu de um abscesso espinhal, uma complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo, em São Petersburgo.

Ivan Turguêniev, foto de Félix Nadar (1820-1910).

Algumas obras[editar | editar código-fonte]

Romances[editar | editar código-fonte]

  • 1857 - Рудин (Rudin) - Rúdin
  • 1859 - Дворянское гнездо (Dvoryanskoye Gnezdo) - Um ninho de nobres
  • 1860 - Накануне (Nakanune) - Na véspera
  • 1862 - Отцы и дети (Ottsy i Deti) - Pais e filhos
  • 1867 - Дым (Dym) - Fumo (Lisboa, Relógio D'Água , 2009), ou Fumaça
  • 1877 - Новь - Terras Virgens

Contos e Novelas[editar | editar código-fonte]

  • 1846 - Жид (O judeu)
  • 1850 - Дневник лишнего человека (Dnevnik Lishnego Cheloveka) - O diário de um homem supérfluo
  • 1852 - Записки охотника (Zapiski Okhotnika) - Memórias de um caçador
  • 1854 - Муму - Mumu
  • 1855 - Яков Пасынков - Yakov Pasynkov
  • 1855 - Фауст - Fausto
  • 1858 - Ася - Ássia
  • 1860 - Первая любовь (Pervaia Liubov) - O Primeiro Amor (Lisboa, Relógio D'Água, 2008)
  • 1866 - Собака (O cão fantasma)
  • 1868 - Бригадир - O brigadeiro
  • 1868 - История лейтенанта Ергунова - A história do tenente Ergunov
  • 1870 - Странная история - Uma história estranha
  • 1870 - Степной король Лир (Stepnoy Korol' Lir) - O rei Lear da estepe
  • 1871 - Стук... Стук... Стук!.. - Toc... toc... toc!..
  • 1872 - Вешние воды (Veshinye Vody) - Águas da Primavera (Lisboa, Relógio D'Água , 2010)
  • 1874 - Пунин и Бабурин - Punin e Baburin
  • 1876 - Часы - O relógio
  • 1877 - Рассказ отца Алексея - A história do padre Alexei
  • 1881 - Песнь Торжествующей Любви (Pesn' Torzhestvuiushchei Liubvi) - O Canto do Amor Triunfante
  • 1882 - Клара Милич - Clara Militch

Peças[editar | editar código-fonte]

  • 1843 - Неосторожность - Imprudência
  • 1845 – Безденежье (Bezdenezhye) - Sem dinheiro
  • 1846 – Завтрак у предводителя (Zavtrak u predvoditelya) - Café da manhã com os líderes
  • 1847 - Где тонко, там и рвется
  • 1848 – Нахлебник (Nakhlebnik) - O comensal
  • 1849 - Холостяк
  • 1850 – Разговор на большой дороге (Razgovor na bolshoy doroge) - Uma conversa na estrada
  • 1850 – Провинциалка (Provintsialka) - A provinciana
  • 1850 - Месяц в деревне (Mesiats v Derevne) - Um mês no campo
  • 1852 – Вечер в Сорренто (Vecher v Sorrento) - Uma noite em Sorrento

Poesia[editar | editar código-fonte]

  • 1843 - Параша - Parasha
  • 1844 - Поп - O pope
  • 1845 - Разговор - Conversa
  • 1845 - Графиня Донато - Condessa Donato
  • 1845 - Андрей - Andrei
  • 1846 - Помещик - O proprietário
  • 1847 - Филиппо Стродзи - Filippo Strodzi
  • 1850 - Кнут - Cnute
Foto de Turguêniev

Legado[editar | editar código-fonte]

A pureza artística de Turguêniev fez dele um dos favoritos de romancistas da mesma geração, como Henry James e Joseph Conrad, que preferiam Turguêniev a Tolstói e Dostoiévski. James, que escreveu nada menos que cinco ensaios críticos sobre o trabalho do escritor russo, afirmou que "seu mérito da forma é de primeira ordem" (1873) e elogiou sua "delicadeza requintada", que "faz com que muitos de seus rivais pareçam nos deter, em comparação, por meios violentos, e nos apresentar, em comparação, coisas vulgares" (1896).[5] Vladimir Nabokov, famoso por seu afastamento casual de muitos dos grandes escritores, elogiou a "prosa musical fluida" de Turguêniev, mas criticou seus "epílogos" e "o tratamento banal de enredos". Nabokov afirmou que Turguêniev "não é um grande escritor, embora agradável", e o classificou em quarto lugar entre os escritores russos do século XIX, atrás de Tolstói, Gógol e Tchekhov, mas à frente de Dostoiévski.[6]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Maurice Partuier - Une amitie' litteraire: Prosper Merimee et Ivan Tourgueniev. (Hachette ed., 1952).
  • Henri Troyat - Tourgueniev. (Flammarion Ed., 1985).
  • Turgenev and Russian Culture; ed. por J. Andrew, D. Offord, R. Reid (2008).
  • The Novels of Ivan Turgenev: Symbols and Emblems by Richard Peace.
  • ALLEN, Elizabeth. Beyond Realism: Turgenev’s Poetics of Secular Salvation. California: Stanford University Press, 1992.
  • ANTONIASSE, S. "Aspectos da tradução de Diário de um homem supérfluo". Tradterm, v. 28 (2016): Literatura russa em tradução. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/tradterm/article/view/125551/122480
  • ANTONIASSE, S. "O duelo nas obras de Turguêniev e Flaubert." RUS - Revista de Literatura e Cultura Russa, v. 6, n.6 (2015).Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rus/article/view/108327/106631
  • BRIGGS, Anthony D. "Ivan Turgenev and the workings of coincidence". In: The Slavonic and East European Review, vol. 58. N. 2 (Apr. 1980), pp. 195-211.
  • CECIL, David. “Turgenev”. In: Poets and story-tellers. New York: The Macmillan Company, 1949, pp. 123-138.
  • COSTLOW, Jane Tussey. Worlds within worlds: the novels of Ivan Turgenev. Princeton: Princeton University Press, 1990.
  • FARJADO, J. "Questões culturais e lexicais na tradução de Ivan Turguêniev". Tradterm, v. 28 (2016): Literatura russa em tradução.Disponível em: http://www.revistas.usp.br/tradterm/article/view/125550/122479
  • FINCH, Chauncey E. “Turgenev as a Student of the Classics.” The Classical Journal, vol. 49, no. 3, 1953, pp. 117–122. Disponível em: www.jstor.org/stable/3293365.
  • FREEBORN, Richard. Turgenev: the novelist's novelist. London: Oxford University Press, 1960.
  • HODGE, Thomas P. “The ‘Hunter in Terror of Hunters’: A Cynegetic Reading of Turgenev's ‘Fathers and Children.’” The Slavic and East European Journal, vol. 51, no. 3, 2007, pp. 453–473. Disponível em: www.jstor.org/stable/20459522.
  • LO GATTO, E. La literatura rusa moderna. Buenos Aires: Editorial Losada, 1972. MAGARSHACK, David. Turgenev: a life. London: Faber & Faber, 1954.
  • PHELPS, William Lyon. “Turgenev”. In: Essays on russian novelists. New York: The Macmillan Company, 1911.
  • SANTOS, Vitor Cei. "Nietzsche e Turguêniev: para uma genealogia do niilismo". REEL - Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, s. 2, ano 7, n. 9, p. 1-12, 2011.Disponível em: http://periodicos.ufes.br/reel/article/view/3725
  • TURGUÊNIEV, I. Pais e filhos . São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
  • WILSON, Edmund. "Turguêniev e a gota vivificante". In: Onze ensaios: literatura, política, história. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 220- 265.
  • WOODWARD, James B. “Typical images in the later tales of Turgenev”. The slavic and east european journal, vol. 17, No. 1 (Spring, 1973), pp. 18-32. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/i213476
  • ZÚÑIGA, J. E. Las inciertas passiones de Iván Turguéniev. Madrid: Alfaguara, 1996.
  • Zviguilsky, Alexandre. Gustave Flaubert - Ivan Tourguéniev: correspondance. Paris: Flammarion, 1989.

Referências

  1. a b c d «Ivan Turguêniev». UOL - Educação. Consultado em 9 de novembro de 2012. 
  2. Brasão de armas de Lutovinov por Todos armoriais russos de Casas Nobres do Império Russo. Parte 8, 25 de janeiro de 1807 (em russo).
  3. A Leitura: magazine litterario (1894-1896) [cópia digital, Hemeroteca Digital]
  4. Harold., Bloom, (2003). Ivan Turgenev. Philadelphia: Chelsea House Publishers. pp. 95 – 96. ISBN 9780791073995. OCLC 50906104 
  5. James, Henry (1984). European Writers & The Prefaces. New York: The Library of America 
  6. Nabokov, Vladimir (1981). Lectures on Russian Literature. San Diego: HBJ 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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