Milarepa

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Milarepa
རྗེ་བཙུན་མི་ལ་རས་པ
Estátua de Milarepa num mosteiro budista de Helambu, Nepal
Outros nomes • Jetsün Milarépa
• U-Jetsun Milarepa Mila
• Rje-btsun Mi-la-ras-pa
• Mila Thö-pa-Ga
Nascimento 1040
Kyansa-Tsa, Ngari, Tibete
Morte 1123 (83 anos)
Etnia tibetana
Religião budista

Jetsün Milarepa ou U-Jetsün Milarepa (em tibetano: རྗེ་བཙུན་མི་ལ་རས་པ; Wylie: Rje-btsun Mi-la-ras-pa; n Kyansa-Tsa, Ngari, 1040 — m. 1123), [nt 1] mais conhecido simplesmente como Milarepa, nascido Mila Thöpaga ou Mila Thö-pa-Ga,[nt 2] foi um mágico, iogue, poeta tibetano, um mestre do budismo tibetano. Juntamente com Padmasambhava, outro mestre tibetano do século VIII, é um dos santos budistas mais venerados pelos tibetanos.

Foi discípulo Marpa, o Lotsawa,[nt 3] que por sua vez foi discípulo de Naropa. No século XI, Marpa foi uma figura central na segunda e mais importante difusão do budismo no Tibete (Sarma-pa) e Milarepa é considerado um dos principais mestres históricos da tradição Kagyüpa, que ainda hoje inclui numerosas linhagens espirituais tibetanas. Os seus discípulos mais célebres são Gampopa (também conhecido como Dhagpo Lhaje, Dhakpo Rinpoche e Sönam Rinchen) e Rechungpa (também conhecido como Rechung Dorje Dragpa e Rechung Dorje Drakpa). No Tibete, é o padroeiro dos atores e saltimbancos ambulantes.

A sua vida e ensinamentos são relatados no Namtar ("Vida de Milarepa") e no Gourbum ("Cem Mil Cânticos"), duas hagiografias em forma de lendas cuja importância para o budismo tibetano as faz comparar aos evangelhos cristãos.

Milarepa na cultura tibetana[editar | editar código-fonte]

No budismo tibetano, Milarepa é considerado um grande iogue, poeta e santo do Tibete. Segundo alguns relatos que constam nas suas biografias, ele aprendeu feitiçaria na juventude e, por vingança, usava magia negra contra os seus inimigos. No entanto, impulsionado pelos remorsos e purificado pelas provas impostas por Marpa, a quem pediu para ser discípulo, conseguiu atingir a iluminação graças aos ensinamentos recebidos e a uma vida de eremita. O seu percurso de vida inspirou numerosas pessoas ao longo dos séculos.[7][8]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Milarepa é conhecido no Ocidente principalmente através de várias traduções de duas obras reputadas: o Namtar ("Vida de Milarepa"), datado de 1488 e o Gurbum ("Cem Mil Cânticos"). No entanto, há outros documentos tibetanos com valor histórico aos quais alguns estudos fazem referência. Há ainda uma tradição oral, que foi iniciada no Tibete por Marpa e o seu discípulo Milarepa, a qual se trata de um conjunto de ensinamentos espirituais, doutrinários e técnicos, considerados esotéricos, nos quais as informações são raras.[9]

O Namtar ou "Vida de Milarepa"[editar | editar código-fonte]

O Namtar ou Rnam-thar "a mais célebre das Vidas de Milarepa"[3] é a principal fonte biográfica escrita publicada no Ociente. A tradução do seu nome varia conforme os autores: "a vida", "a biografoa" ou "a história duma vida"[nt 4] O seu sentido exato é "completa realização", que significa que uma vida exemplar e completa leva a uma realização espiritual total.[nt 5] O Namtar de Milarepa é por vezes chamado Jetsum Kabhum ("As Cem Mil Palavras do Venerável [Milarepa]"), da mesma forma que os "Cem Mil Cantos" (Gurbum ou mGur-'gum) é o título da recolha dos poemas de Milarepa.[3][nt 6]

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

O Namtar de Milarepa discorre sobretudo sobre a infância, a busca espiritual e à morte de Milarepa. Os últimos trinta anos da sua vida, passado a ensinar, só são abordados num único capítulo. Essa fase da biografia é o tema principal dos Cem Mil Cantos. O Namtar está dividido num prólogo e duas partes, que compreendem doze "Grandes Atos" ou "Altos Feitos". Desta forma é criado um paralelo com o relato da vida do Buda histórico[nt 7] A primeira parte tem três atos: nascimento, juventude e vingança. A segunda parte está dividida em nove atos; sete discorrem sobre o seu arrependimento, as provações e as "terríveis austeridades" a que ele se sujeitou para obter a iluminação; o oitavo informa, sob a forma de enumeração, os locais (grutas e eremitérios) onde durante trinta anos ele conhece, converte os seus discípulos[nt 8] e prepara o Gurbum. Por fim, o último ato, o 12.º do Namtar e 9.º da segunda parte, diz respeito à morte e ao nirvana de Milarepa.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Segundo o calendário tibetano, Milarepa nasceu no "ano do dragão macho de ferro" e morreu no "ano da lebre aquática fêmea", correspondentes, respetivamente, a 1040 e 1123 no calendário gregoriano.[1][2][3][4]
  2. Thö-pa-ga significa "boa nova"[5] ou "aquele que se ouve com prazer".[6] As datas frequentemente apontadas de 1052 e 1135 são as que constam no Namtar (biografia espiritual ou hagiografia tibetana) e não são registadas pelas fontes mais fiáveis históricas ou enciclopédicas.
  3. Lotsawa ("tradutor" em tibetano) é um título dado aos tradutores para tibetano das escrituras sagradas budistas indianas, dos quais o expoente máximo foi Marpa.
  4. Estas designações, que se aplicam a uma biografia em geral, correspondem a um género literário tradicional do Tibete. Marpa Lotsawa escreveu um Namtar de Tilopa[10] e Jacques Bacot fala do Namtar de Marpa (escrito por Tsang Nyön Heruka).[11] Este género é comparado ao das hagiografias no Ocidente.
  5. «O foco principal duma biografia (tibetana) é a sua qualidade libertadora. Porque o Namtar expõe sempre uma prática ligada à experiência budista». Marie-José Lamothe[12]
  6. "Cem mil" não se refere a um número preciso, antes pretende salinetar a imensa importância e o alcance metafísico desses textos.
  7. A propósito deste paralelismo, Marie-José Lamothe escreve: «O Buda histórico, Shakyamuni, nasceu na Índia. Representativo da Índia, o seu percurso espiritual é um arquétipo da Índia. Milarepa encarna o Buda tibetano. A sua história, o seu caminho para a iluminação, a sua iluminação em si mesma, não poderiam ter-se passado noutro local que não fosse o Tibete.».[13]
  8. É o Ato pelo qual se tornou útil aos seres e à Doutrina graças ao fruto da sua meditação mística, segundo o colofão da obra.[14]

Referências

  1. Gö Lotsawa Zhönnu Pel 2007, pp. 427, 436
  2. Chang 1962, p. 690, nota 2
  3. a b c Spanien 1982, p. 247
  4. «Milarépa», Encyclopædia Britannica, Encyclopædia Universalis (em inglês), 2009 
  5. Tsang Nyön Heruka & Bacot 1925, p. 43
  6. Tsang Nyön Heruka et al. 1928, p. 87
  7. Sogyal Rinpoche, p. 139
  8. Lamothe 2001.
  9. Tiso 2014.
  10. Marpa Lotsawa 2010
  11. Bacot 1937
  12. Lamothe 2006, Cap. Préface au Namthar, Un seul corps, une seule vie
  13. Lamothe 2006, Cap. Préface au Gourboum, Quand chante Milarépa, sec. 3
  14. Spanien 1982, p. 248

Bibligrafia[editar | editar código-fonte]

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