João Manuel de Castela

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Retrato de João Manuel de Castela, Príncipe de Vilhena
Extensão do Senhorio de Vilhena em 1340.

João Manuel de Castela (em espanhol: Don Juan Manuel; Escalona, 5 de maio de 1282Peñafiel, 13 de junho de 1348)[1] foi um príncipe, político e escritor de língua castelhana, um dos principais representantes da prosa medieval, graças à sua principal obra El conde Lucanor,[2] um conjunto de exempla, contos moralistas.[3]

Biografía[editar | editar código-fonte]

Era filho do infante Manuel de Castela, senhor de Escalona e de Penafiel, e de Beatriz de Sabóia, e sobrinho do rei Afonso X de Leão e Castela e neto de Fernando III.[1] De seu pai herdou o senhorio de Villena, Escalona e Peñafiel, e posteriormente em 1330 o título de príncipe de Villena do Afonso IV de Aragão.

Educado como um nobre perdeu os seus pais aos oito anos de idade pelo que desde muito cedo dispôs do património familiar , participando, com doze anos, na guerra contra os mouros do Reino de Granada e do Reino de Múrcia, converteu-se num dos homens mais ricos e poderosos da sua época.

 As primeiras iniciativas políticas do jovem filho do infante Dom Manuel correspondem aos primeiros anos da minoridade de Fernando IV, quando, desprovido do apoio militar das tropas castelhanas diante de invasão aragonesa, toma a decisão de entregar o reino de Múrcia a Jaime II de Aragão, preservando, no entanto, o cargo de Adelantado maior de Múrcia, delegado agora pelo rei aragonês. Consciente da predominância política e militar de Aragão em relação aos outros reinos peninsulares neste período, Dom João contrai matrimônio com uma das filhas de Jaime II, conseguindo deste modo o principal aliado para os seus empreendimentos futuros[4].

Dom João Manuel teve confrontos constantes com os reis de Castela seus contemporâneos:Fernando IV e Afonso XI.

Chegando ao auge de seu poder como tutor régio durante a minoridade de Alfonso XI e depois como sogro do jovem rei, inesperadamente se encontra traído e humilhado pelo desprezo do rei, que tranca sua filha Constança Manuel no castelo de Toro e arranja um novo matrimônio com a infanta portuguesa. Um dos mais poderosos homens de Castela reage rebelando-se contra seu rei, para defender a sua honra e manter a dignidade do seu estado de filho de um infante. Ele declara guerra a seu senhor natural, arrasa os territórios cristãos e faz o acordo com o rei mouro de Granada. Submetido e expulso do âmbito político, Dom Jõao se dedica à produção letrada que acabou se tornando a maior representação nobiliária do século XIV[4].

Dada a necessidade de paz interna para fazer face às ameaças dos mouros de Marrocos, foram celebradas tréguas entre Afonso XI e João Manuel, por mediação de Joana Núñez (sogra do infante pelo seu terceiro matrimónio) conseguindo que o rei devolve-se os bens e honrarias anteriormente confiscados e a autorização real para o casamento português de D. Constança, permitindo a aliança castelhano-portuguesa que venceu os mouros na Batalha do Salado e posteior conquista de Algeciras.

Após estes acontecimentos, o infante João Manuel deixou a vida política e retirou-se para Múrcia, onde passou os últimos anos entregue à literatura.

Literatura[editar | editar código-fonte]

De João Manuel de Castela conservaram-se oito obras:

  • Crónica abreviada (anterior a 1325).
  • Libro de la caça (1325/26).
  • Libro del cavallero et del escudero (1326/28).
  • Libro de los estados (1330).
  • El Libro del conde Lucanor (1335).
  • Tractado de la Asunción de la Virgen María (posterior a 1335).
  • Libro de las armas (posterior a 1337).
  • Libro de castigos et de consejos (1336/37).

Sabe-se ainda que foram perdidas cinco obras.

A produção de D. João Manuel classifica-se em três etapas:

  • Na primeira, a sua obra é claramente influenciada pelo trabalho conjunto com seu tio, o rei Afonso X de Castela, seguindo D. João Manuel nesta etapa os modelos genéricos afonsinos: historiografia, assuntos cinegéticos, disposições jurídicas sobre cavalaria, etc.
  • Na etapa seguinte, a sua criação torna-se pessoal, com o fim de utilizá-la para reclamar a sua categoria social, posta em causa pelas confrontações com o rei. O primeiro exemplo é o "Libro del cavallero et del escudero", cujas preocupações didácticas assentam numa estrutura dialogada, e aqui também se inclui a célebre obra "El conde Lucanor".
  • Por último, a partir de 1337 as suas obras são têm uma origem puramente literária, deixando atitudes excessivamente exemplificantes.

O estilo de D. João Manuel de Castela caracteriza-se pela sobriedade e precisão, que ele mesmo definia desta forma "…todas las razones son dichas por muy buenas palabras et por los más fermosos latines que yo nunca oí decir en libro que fuese fecho en romance".

Matrimónios e descendência[editar | editar código-fonte]

João Manuel de Castela casou três vezes, escolhendo sempre alianças por conveniência política e económica. Também para os seus filhos procurou casamentos em casas reais:

O primeiro casamento foi em Perpignan no dia 29 de novembro de 1299 com Isabel de Maiorca, filha de Jaime II de Maiorca, sem geração.[1]

O segundo casamento foi em Jativa no mês de abril de 1303 com Constança de Aragão, infanta de Aragão e filha de Jaime II de Aragão[1][5]

O terceiro casamento foi em Lerma no mês de janeiro de 1329 com Branca Nunes de Lara, filha do infante Fernando de La Cerda (filho de Afonso X), de quem teve dois filhos:

Fora do casamento teve dois filhos ilegítimos de Inês de Castanheda:[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i Herrera Casado 1993, p. 11–28.
  2. Vicedo 2004.
  3. Bravo 2000, p. 303-327.
  4. a b Pisnitchenko, Olga (31 de julho de 2017). «MODELO CAVALEIRESCO DE DOM JUAN MANUEL E CAVALARIA CASTELHANO-LEONESA NA PASSAGEM DO SÉCULO XIII PARA XIV». SIGNUM - Revista da ABREM. 18 (1): 6–29. ISSN 2177-7306 
  5. Salazar y Acha 2000, p. 384.
  6. a b Moxó y de Monteliu 1997, p. 137.
  7. Moxó y de Monteliu 1997, p. 177.
  8. Braamcamp Freire 1930, p. 6.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ayerbe-Chaux, Reinaldo. El Conde Lucanor: Materia tradicional y originalidad creadora. Madrid: J. Porrúa Turanzas, 1975.
  • Biglieri, Aníbal A. Hacia una poética del relato didáctico: Ocho estúdios sobre El conde Lucanor. Chapel Hill: UNC Dept. of Romance Languages, 1989.
  • Braamcamp Freire, Anselmo (1930). Livro terceiro dos Brasões de Sintra. Coimbra: Imprenta da Universidade. OCLC 794223590 
  • Bravo, Federico (2000). «Arte de enseñar, arte de contar: en torno al exemplum medieval. La enseñanza en la Edad Media». Biblioteca Gonzalo de Berceo (em espanhol). Consultado em 23 de abril de 2015 
  • Flory, David. El Conde Lucanor: Don Juan Manuel en su contexto histórico. Madrid: Pliegos, 1995.
  • Giménez Soler, Andrés. Don Juan Manuel. Biografía y estúdio crítico. Zaragoza: F. Martínez, 1932.
  • Hammer, Michael Floyd. "Framing the Reader: Exemplarity and Ethics in the Manuscripts of the 'Conde Lucanor'." Ph.D. University of California at Los Angeles, 2004.
  • Herrera Casado, Antonio (1993). «El Estado itinerante de don Juan Manuel». Actas del Primer Congreso de Caminería Hispánica (em espanhol). Guadalajara: AACHE. pp. 11–28. ISBN 84-87743-25-0 
  • Lida de Malkiel, María Rosa. "Tres notas sobre don Juan Manuel." Romance Philology 4.2-3 (1950): 155-94.
  • Moxó y de Montoliu, Francisco (1997). Estudios sobre las relaciones entre Aragón y Castilla (SS. XIII-XV) (em espanhol). Zaragoza: Institución "Fernando el Católico". ISBN 84-7820-387-7 
  • Salazar y Acha, Jaime de (2000). La casa del Rey de Castilla y León en la Edad Media (em espanhol). Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales. ISBN 84-259-1128-1 
  • Vicedo, Juan (2004). «Introducción a "El conde Lucanor"». Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes (em espanhol). Consultado em 23 de abril de 2015 
  • Wacks, David A. "Don Yllán and the Egyptian Sorceror: Vernacular commonality and literary diversity in medieval Castile." Sefarad 65.2 (2005): 413-33.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]