João de Camargo
| João de Camargo Barros | |
|---|---|
| Pseudônimo(s) | João de Camargo |
| Nascimento | 16 de maio de 1858 |
| Morte | 28 de setembro de 1942 (84 anos) |
| Nacionalidade | |
| Ocupação | Líder religioso e milagreiro |
| Principais trabalhos | Associação Espírita e Beneficente Capela do Senhor do Bonfim e Igreja do Bom Jesus do Bonfim das Águas Vermelhas |
| Religião | Sincrética |
| Website | http://www.joaodecamargo.com.br |
João de Camargo Barros, mais conhecido como João de Camargo (Sarapuí, 16 de maio de 1858 — Sorocaba, 28 de setembro de 1942),[1][2] foi um líder religioso negro, ligado à religiões de matriz africana de origem banto[3], também considerado santo popular, milagreiro e preto-velho.
Trajetória
[editar | editar código]Nascido em Sarapui, na condição de escravizado, João de Camargo teve contato desde cedo com a espiritualidade por meio de sua mãe, Francisca, conhecida como Nhá Chica, que lhe transmitiu conhecimentos de ervas e rezas, e do catolicismo imposto pelos seus proprietários, Luís de Camargo Barros e Ana Teresa de Barros, de quem recebeu seus sobrenomes.[3]
No contexto da abolição da escravidão, percorreu o interior de São Paulo, em cidades como Pilar do Sul e Salto de Pirapora, até se fixar definitivamente em Sorocaba no fim do século XIX[3], no contexto das epidemias de febre amarela que assolaram a cidade. Foi caso por um curto período de tempo com Escolástica do Espírito Santo, uma mulher branca.
Em seus caminhos pela cidade, João de Camargo fazia paradas frequentes na Cruz de Alfredinho, construída após um trágico acidente de cavalo que matou um menino de 14 anos. Foi em um dia de chuva, na Cruz que ficava à beira do Córrego da Água Vermelha, em uma de suas paradas para preces, que Nhô João teve uma visão com o menino Alfredinho, Nossa Senhora Aparecida e Monsenhor João Soares – padre católico de Sorocaba, atuante durante o período da febre amarela – , que revelaram sua missão: fundar a Igreja Negra e Misteriosa da Água Vermelha, no bairro de mesmo nome[4], que começou a construir em 1907. Hoje a igreja é chamada de Igreja do Senhor do Bonfim ou, simplesmente, Capela de João de Camargo.

A partir da construção da Capela, Nhô João ganhou notoriedade nacional, recebendo fieis de todo o país e sendo conhecido, inclusive como o “Papa Negro de Sorocaba”[5]. Contrariando os interesses da elite sorocabana, que desejava uma cidade conhecida pelo progresso e modernidade, João de Camargo chegou a ser preso em 1913, acusado de pratica de curandeirismo. Nesse sentido, para garantir a existência de sua Capela e suas práticas religiosas, ele se aproxima da prática do espiritismo, que, de origem branca e europeia, seria melhor aceita no território.
Para garantir o acesso de todos os fiéis, a Capela passou por adequações em 1910, quando novos cômodos foram construídos; já na década de 1920, passou de Igreja Negra e Misteriosa da Água Vermelha até se tornar Associação Espírita e Beneficente Capela Nosso Senhor do Bonfim, em fevereiro de 1921 – configuração que permanece até hoje[6][7][8].
Em sua atuação, Nhô João também contribuiu para a criação de bandas, como o Grupo Musical São Luís, em 1915, que participavam das festas na Capela e eventos da cidade – fundamental para empregar a população negra sem espaço nos empregos formais na cidade; e, mesmo analfabeto, oferecia educação escolar a outros negros e pobres, crianças e adultos que não eram aceitos no sistema educacional da época.
Nhô João faleceu em 28 de setembro de 1942 e seu corpo foi levado em procissão pela cidade da Capela até o Cemitério da Saudade. No caminho, seus fieis desejavam levar seu corpo à Catedral de Nossa Senhora da Ponte, mas encontram suas portas fechadas e o reconhecimento de Nhô João negado.
Hoje a memória de Nhô João é mantida por seus inúmeros fiéis e materializada em sua Capela, que resiste ao crescimento vertiginoso da cidade. Desde 1995, a Capela é patrimônio tombado pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Paisagístico de Sorocaba (CMDP), pelo processo n. 19.298/1995.[9]
Legado e pesquisas
[editar | editar código]Sobre sua vida e legado, foram publicadas várias biografias e pesquisas científicas, como os livros João de Camargo e seus milagres, de Genésio Machado (1928), O mistério da Água Vermelha, de Antonio Francisco Gaspar (1935), O solitário da Água Vermelha, de Fernando Lomardo e Sonia Castro (1995), João de Camargo de Sorocaba: o nascimento de uma religião, de Carlos de Campos e Adolfo Frioli[10], João de Camargo, o Homem da Água Vermelha, de Carlos Carvalho Cavalheiro e o capítulo "O Papa Negro de Sorocaba: João de Camargo entre disputas e memórias", escrito por Wellington Ataíde e publicado no livro Pensar e Repensar Sorocaba[3].[11] Em 1995, a Cia. de Lendas e a Oficina das Artes apresentaram, no Teatro Municipal Teotônio Vilela de Sorocaba/SP, o espetáculo O solitário da Água Vermelha, com dramaturgia e direção de Fernando Lomardo, produção de Nanaia de Simas, música original de André Tavares e Carlos Alves e o cantor Cassiano de Moraes no papel de Nhô João. O espetáculo contou também com a participação da cantora lírica Maria Aparecida Lopes de Oliveira, interpretando a música-tema do espetáculo em uma gravação produzida especialmente para o evento. Em 2003, foi homenageado no enredo da escola de samba paulistana Império de Casa Verde. O desfile contou com a participação do ator Paulo Betti, que é devoto de Nhô João e produziu o filme Cafundó. Desde 2024, a Comissão de Trabalho Mista Viva Nhô João de Camargo, fundada em Sorocaba, se dedica à luta pela memória e patrimônio de Nhô João e para fiscalizar as ações que ocorrem na Capela.
Vídeos e documentários
[editar | editar código]- «No tempo de João de Camargo»
- «Pai João de Camargo - Igreja da Água Vermelha»
- «Cerimônia religiosa lembra 70 anos da morte de João de Camargo»
- O filme de longa metragem Cafundó (2005), livremente baseado em sua vida e na Sorocaba da época. Dirigido por Paulo Betti, conta com Lazaro Ramos, Francisco Cuoco, Luis Mello, Leona Cavalli, Renato Consorte, Chica Lopes, Abrahão Farc e muitos outros excelentes atores e atrizes. O filme foi produzido e dirigido por Paulo Betti. A direção Betti dividiu com Clovis Bueno, que junto com Vera Hamburguer a direção de arte. O filme ganhou 17 prêmios internacionais, sendo 5 em Gramado.
Ligações externas
[editar | editar código]Referências
- ↑ http://www.sorocaba.com.br/enciclopediasorocabana/index.php?local=titulos&tipo=verbetes&ler=1093482867 acessada em 6 de Novembro de 2007
- ↑ Campos, Carlos de; Frioli, Adolfo (1999). João de Camargo de Sorocaba: o nascimento de uma religião. São Paulo, SP: Editora SENAC São Paulo
- ↑ a b c d Bengozi, Bruna; Santos, Cícero; Carvalho, Pedro, eds. (15 de agosto de 2024). Pensar e repensar Sorocaba: Uma visita crítica à história da cidade. Sorocaba, SP: Cubile Editorial
- ↑ Pai Joaquim. «João de Camargo». Consultado em 28 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 28 de outubro de 2017
- ↑ «Folha de S.Paulo - Paulo Betti redescobre mito do início do século - 17/1/1996». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 7 de novembro de 2025
- ↑ Amaral, Fundação Ubaldino do. «De escravo a missionário da fé». Jornal Cruzeiro do Sul
- ↑ «João de Camargo e a Igreja da Água Vermelha » Perdido em Pensamentos». perdido.co. Consultado em 21 de janeiro de 2018
- ↑ Amaral, Fundação Ubaldino do. «Igreja lembra os 70 anos da morte de João de Camargo». Jornal Cruzeiro do Sul
- ↑ «Lista de Bens Tombados». Patrimônio Histórico. Consultado em 7 de novembro de 2025
- ↑ Campos Sobrinho, Jose Carlos De (19 de julho de 1999). Joao De Camargo De Sorocaba: O Nascimento De Uma Religiao. Adolfo Frioli. [S.l.]: Editora SENAC São Paulo
- ↑ SCIEZ, Oscar Calavia. João de Camargo: sincretismo e identidades. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, v.16 n.24, p.138-153, out. 1998.
