Jorge Vieira (artista plástico)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Jorge Vieira
Nascimento 1922
Lisboa
Morte 1998 (76 anos)
Évora
Nacionalidade Portugal portuguesa
Área Escultura

Jorge Ricardo da Conceição Vieira ( Lisboa, 16 de Novembro de 1922 — Évora, 1998) foi um escultor e professor português.

Pertence à terceira geração de artistas modernistas portugueses, onde ocupa um lugar de destaque. É considerado por José Augusto França como o mais importante escultor português da década de 1950.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Escultura, c. 1961, granito, 141 cm (1º Prémio de Escultura, II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, 1961)

Filho de Anibal Vieira e Alice Vieira, nasceu na Rua Dr. Teófilo Braga, em Lisboa.

Frequentou a Liceu Passos Manuel, Lisboa. Em 1941 o pai o matriculou-o na Escola de Belas-Artes de Lisboa; de início frequentou o curso de arquitetura e, mais tarde, o de escultura, que termina em 1953. Foi aluno de Leopoldo de Almeida.[2]

Trabalhou nos ateliês de António Duarte e Francisco Franco e também no de António da Rocha Correia, onde aprendeu a técnica da terracota e o seu tratamento cromático por engobes.[2]

Ainda estudante, participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas de 1947 e 1951.[3]

Expõe individualmente pela primeira vez em 1949 na SNBA. Em 1953 concorre ao Concurso Internacional de Escultura promovido pelo Institute of Contemporary Arts, Londres, O Prisioneiro Político Desconhecido, onde é premiado (projeto para o Monumento ao prisioneiro político desconhecido, 1953). Essa obra é exposta na Tate Gallery e, mais tarde, na II Bienal de S. Paulo, Brasil.[4][2]

Ao longo desses anos de formação viaja até Paris e Londres (1948); percorre a Espanha, Sul da França e Itália na companhia de Duarte Castel-Branco e Sá Nogueira (1951). Aprofunda amizade com Lagoa Henriques, José Dias Coelho, João Abel Manta e com os surrealistas Pedro Oom, Cruzeiro Seixas ou Mário-Henrique Leiria.[2]

Entre 1954 e 1956 frequenta a Slade School of Fine Arts, Londres, onde é aluno de Henry Moore e Reg Butler. De regresso a Portugal, retoma a atividade docente no ensino secundário (tinha ensinado nas Caldas da Rainha e ingressaria agora na António Arroio); colabora com os arquitetos Frederico George e Francisco da Conceição Silva realizando relevos ou esculturas para vários edifícios. Em 1957 cria dois grupos escultóricos para o Pavilhão Português do Comptoir Suisse de Lausanne e, no ano seguinte, participa na Feira Internacional de Bruxelas, sendo selecionado para figurar na exposição 50 ans d’Art Moderne , onde vence uma medalha de prata (será único escultor português presente na exposição).[3][2]

Em 1957 colabora com o arquitecto Jorge Ferreira Chaves executando uma escultura/anúncio representando uma rã, para a fachada da loja Palissi Galvani na Rua Serpa Pinto, no Chiado. A obra esteve em exposição até à demolição da loja, em 2009.

Vence o 2º Prémio de Escultura na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, 1957, e o 1º Prémio de Escultura na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, 1961.[4]

Sem título, 1948, terracota, 7 x 19,5 x 7,5 cm

Em 1964, integrado como escultor na equipa dirigida pelo Arq. Francisco da Conceição Silva, obtêm o 1º Prémio no concurso para a valorização plástica do maciço de amarração norte da Ponte sobre o Tejo. Neste ano é afastado do Gabinete Técnico da Habitação (por motivos de ordem política) e não é admitido como docente na Escola de Belas-Artes de Lisboa (por razões idênticas).[2]

Em 1976, dois anos depois do 25 de Abril ingressa como 1º Assistente na ESBAP. No ano de 1981 transita para a ESBAL, onde jubila como Professor de Escultura em 1992.[2]

Adquire uma casa nos arredores de Estremoz em 1982, onde irá trabalhar largas temporadas.

Em 1994 é inaugurado em Beja o Monumento ao Prisioneiro Político Desconhecido. Realiza um Grupo Escultórico que será instalado na Avenida dos Descobrimentos em Lagos, Algarve (junto ao edifício dos CTT / Correios de Portugal). Em 1995 o Museu do Chiado organiza uma exposição retrospetiva da a sua obra. Em 1997-98 é autor da escultura Homem Sol para a EXPO 98 (Parque das Nações, Lisboa, 1997-98) e de uma outra para a Ponte Vasco da Gama (1998).[2]

Falece em 1998 em Estremoz. Dois anos depois é inaugurado o Monumento ao Mármore, concebido em 1996 e oferecido ao município de Estremoz. Desenhos e esculturas de sua autoria são integrados na homenagem a Mário Cesariny, Museu Municipal de Estremoz, 2007.

No 10º aniversário do seu falecimento é inaugurada na Galeria Artecontempo a exposição Cada Desenho um Amigo (2008), realizada em parceria com a Câmara Municipal de Estremoz, através do Museu Municipal.

Em homenagem ao escultor, em 1995 o município de Beja adquiriu um edifício que desde esse ano alberga o Museu Jorge Vieira – Casa das Artes. No primeiro piso é apresentada a colecção oferecida pelo escultor (desenho e escultura); o piso inferior destina-se a exposições temporárias, performances, instalações, conferências e debates, ateliers de artes plásticas, etc.[5]

Jorge Vieira está representado em inúmeras coleções , públicas e privadas, nomeadamente: Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Lisboa; Museu do Chiado, Lisboa; etc.

Obra[editar | editar código-fonte]

Sem título, 1957, bronze (escultura para o Comptoir Suisse, Lausanne)

Para Jorge Vieira, desenho e escultura foram meios expressivos de eleição. Se os trabalhos sobre papel percorrem os seus vários modos e períodos, na escultura optou por técnicas diferenciadas, num cuidadoso entrosamento entre o material e os objetivos e condicionantes específicos de cada obra. Utilizou bronze, pedra ou madeira, de modo seguro mas relativamente circunscrito, e empenhou-se sobretudo no ferro e terracota, que lhe serviram de veículo par obras de cariz diverso (ferro em trabalhos de grande dimensão, por vezes em espaço público; terracota na sua vasta produção de pequeno formato).

Alheio às tradicionais formulações da escultura como monumento[3], distanciando-se desde o início dos seus mestres em terra lusa, o escultor oscilará livremente entre pulsões complementares, senão contrárias: diferentes graus de subversão das figuras; pendor trágico ou irónico; figuração / abstração; cheio / vazio; masculino / feminino; humano / animal; forma / informal; etc.).[2]

A obra de Jorge Vieira emerge a partir de meados da década de 1940, no momento em que as fraturas entre neorrealismo e surrealismo, por um lado, e figuração e abstração, por outro, dividem a cena artística nacional. Sem se vincular a qualquer grupo ou tendência, a sua primeira mostra individual irá integrar "esculturas abstratas, de sentido orgânico, a par de outras surrealizantes"[6] (veja-se, por exemplo, sem título, 1948).

Através da assimilação de um vocabulário primitivista, sincrético, a metamorfose e a transfiguração das formas em que trabalha encontra uma expressão "consentânea com as práticas surrealistas. No entanto Jorge Vieira não pode definir-se apenas como escultor surrealista: já em 1948, realizou um conjunto de trabalhos em barro […] no qual evidenciava o seu interesse pela redução da figura a um núcleo orgânico, sinal elementar traduzido no movimento ondulante do volume polido da terracota".[3]

sem título, 1971 terracota com engobes, 30,5 x 34,5 x 18,5 cm

O seu Monumento ao prisioneiro político desconhecido (maqueta inicial, em bronze, datada de 1953; concretização em tamanho real em 1994, instalado em Beja) "tem particular acutilância no contexto cultural repressivo em que foi realizada". Evitando o caráter óbvio de uma solução ilustrativa tradicional, Jorge Vieira optou por uma "plena invenção abstrata em que duas elipses entrelaçadas articulam uma memória antropológica com meios exclusivamente plásticos". A sucessão de espaços abertos e vazios "afirma a escultura como fundadora de um real outro, abstrato mas percorrido de intencionalidade figural". [6]

A influência de Henry Moore e Reg Butler far-se-á sentir sobretudo a partir da ida para Londres. Em alguns trabalhos desta época o escultor retoma temas animalistas e humanos abordados anteriormente, "seguindo um formulário de simplificação da figura". Noutros casos a referência antropomórfica dissolve-se em estruturas verticais, numa articulação dinâmica de linhas e planos. As obras realizadas para o Comptoir Suisse e para a exposição de Bruxelas "tornam explícito este entendimento da escultura como forma aberta no espaço".[3]

Nas décadas de 1960 e 1970 alguns dos seus trabalhos orientam-se para uma conceção de teor construtivo onde se acentua um sentido dinâmico, presente em anteriores obras em barro. Mais tarde irá recuperar a figura humana, de novo numa dimensão onírica e surreal, criando combinações insólitas, em várias peças, onde os corpos se desmultiplicam, sobrepõem, desmembram ou mutilam.[3]

Jorge Vieira opera uma acentuada hibridização desses personagens em que todos os elementos parecem permutáveis: "troncos que se tornam cabeças [...], chifres que se transformam em braços [...] pescoços que desaparecem e braços que se transformam em patas de animais [...], pernas isoladas com uma sorridente cabeça sobreposta [...]... A lista é virtualmente interminável" (ver por exemplo, sem título, 1971).[2]

Esculturas para o Comptoir Suisse, 1957, bronze[editar | editar código-fonte]

Touro, 1996, ferro, 170 x 186 x 62 cm[editar | editar código-fonte]

Gradeamento, Largo do Município, Lisboa, 1997, ferro[editar | editar código-fonte]

Homem Sol, 1998, ferro[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. França, José-AugustoA arte em Portugal no século XX [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 434.
  2. a b c d e f g h i j Oliveira, Luísa Soares de – Jorge Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 1997. ISBN 978-972-21-1848-4
  3. a b c d e f Candeias, Ana Filipa – "Jorge Vieira". In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 92, 93. ISBN 972-635-155-3
  4. a b A.A.V.V. – II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1961.
  5. Câmara Municipal de Beja. «Museu Jorge Vieira – Casa das Artes». Consultado em 18 de maio de 2013 
  6. a b Silva, Raquel Henriques da – "Jorge Vieira – Grupo, 1957". In: A.A.V.V. – Museu do Chiado: Arte portuguesa 1850-1950. Lisboa: Museu do Chiado; Instituto Português de Museus, 1994, p. 325, 356. ISBN 972-8137-02-8.