José Fontana

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José Fontana
Nascimento 28 de outubro de 1840
Cabbio
Morte 2 de setembro de 1876 (35 anos)
Lisboa
Ocupação político

José Fontana (Cabbio, Ticino, Suíça, 28 de outubro de 1840[1]Lisboa, 2 de setembro de 1876),[2] de seu nome completo Giuseppe Silo Domenico Fontana, foi um publicista, intelectual e activista cujo idealismo romântico entusiasmava multidões. Foi um dos organizadores das Conferências do Casino e um dos fundadores do Partido Socialista Português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

José Fontana era suíço, nascido e criado em Valle di Muggio, um vale perdido do Cantão de Ticino, no sul do território suíço, na actual fronteira com a Itália. Ainda muito jovem, veio para Portugal e fixou-se em Lisboa onde, em 1854, já aparece como relojoeiro.[2]

Sendo operário, foi um dos defensores das classes trabalhadoras, tornando-se propagandista e dedicando-se à propagação dos ideais do Socialismo e do Associativismo.[2] Destacou-se na luta pela melhoria das condições de vida e trabalho do operariado, promovendo o associativismo e o cooperativismo. Influenciado pelas ideias de Bakunine, em 1872 redigiu os estatutos da Associação Fraternidade Operária, organismo que impulsionou o movimento operário português e que, mais tarde, daria origem ao Partido Socialista Português, do qual é considerado um dos fundadores e do qual foi Primeiro Secretário.[2] Grande amigo de Antero de Quental, colaborou na redacção dos estatutos do Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas. José Fontana participou na comissão nomeada no Centro Promotor para apoiar a greve de Oeiras de 1871.[3]

Ainda com este esteve ligado à fundação da Cooperativa do Povo Portuense, actualmente, Cooperativa de Solidariedade Social do Povo Portuense - onde actualmente se conserva uma fotografia sua, ao lado de Antero de Quental.

José Fontana foi um dos principais impulsionadores da cooperativa Indústria Social e aproveitou os canais privados de comunicação da Internacional para pedir ajuda e influência junto ao Conselho Geral, nomeadamente, Engels.[4]

Escreveu em vários jornais operários, colaborou assiduamente nos periódicos socialistas "O Pensamento Social", de 1872 a 1873, e "O Protesto", de 1875 a 1876,[2] e dirigiu cartas a Karl Marx e a Friedrich Engels. Segundo os relatórios de um agente de segurança pública da República Francesa, José Fontana era apelidado como o "Karl Marx português" e era na sua casa que ocorriam as reuniões da Internacional.[5]

Em 1964 o intelectual Vasco Magalhães-Vilhena vai inaugurar uma polémica em torno da "dupla existência" de José Fontana, frisando que Fontana foi um dos primeiros dirigentes do Conselho Geral da Internacional juntamente com Marx e Engels. A novidade apresentada consiste no facto de José Fontana ser na verdade G.P. Fontana, um dos oitos signatários de um dos mais importantes documentos da história da Internacional: Inaugural Address of the Working Men´s International Association. Alguns historiadores concordam com a tese de Magalhães-Vilhena, caso de Carlos da Fonseca, Jacinto Rodrigues, Joaquim Palminha Silva, Alberto Vilaça e André Costa, ao passo que João Arsénio Nunes, Fernando Piteira Santos, António Silva Leal e João Lázaro questionam a tese. [6]

Nos últimos anos da sua vida filiou-se na Maçonaria. Foi iniciado em data e em Loja afecta ao Grande Oriente Lusitano desconhecidas e com nome simbólico desconhecido, sabendo-se que, pouco antes de morrer, frequentava uma Loja cujas sessões tinham lugar na zona do Jardim do Regedor, em Lisboa.[2]

Quem o conheceu descreveu-o como bom, sensível, de uma inteligência brilhante, com um poder de comunicação e de persuasão invulgares, notável como orador, sagaz como analista das situações, dotado de uma intuição fora do comum….[7] Um contemporâneo escreveu: As Conferências do Casino, aquelas célebres conferências que iniciaram o movimento democrático em Portugal, foram obra sua e de Antero de Quental […]. No Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas eclipsava Fontana os maiores oradores do seu tempo.[8]

Antero de Quental, seu amigo inseparável, escreveu: A Revolução convivia no Cenáculo. E em meio àquele punhado de revolucionários utópicos, contava-se José Fontana, empregado da Livraria Bertrand, muito alto, muito magro, sempre vestido de preto..[9]

Atormentado pela tuberculose, suicidou-se a 2 de setembro de 1876. Com apenas 35 anos de idade, era sócio-gerente da Livraria Bertrand, onde tinha começado a sua vida profissional como empregado em meados da década de 1860, primeiro como encadernador e depois caixeiro de livraria.[10][2]

O seu funeral teve a participação de uma enorme multidão, perante a qual discursaram Eduardo Maia e Azedo Gneco.

Entre 1977 e junho de 2008, o Partido Socialista teve uma instituição denominada Fundação José Fontana[11] com a finalidade promover o desenvolvimento do associativismo e do sindicalismo e em particular à formação de quadros sindicais. A Fundação José Fontana foi o embrião da UGT, que teria o seu primeiro congresso na cidade do Porto, em janeiro de 1979. A extinção das fundações Antero de Quental e José Fontana, em junho de 2008, deu lugar à criação da Fundação Res Publica.

Tendo como tema a vida de Fontana foi publicada em 2011 a obra La prossima settimana, forse (tr. por Simonetta Neto,"Na próxima semana, talvez", BERTRAND ED.), um romance histórico da autoria do escritor suíço Alberto Nessi.

José Fontana é lembrado na toponímia de Lisboa, onde a Praça José Fontana marca o lugar onde esteve prevista a construção de um monumento desenhado por Azedo Gneco que nunca chegou a materializar-se. Outras povoações também o lembram nas suas ruas e praças, nomeadamente Vila Nova de Gaia, Oeiras, Cascais, Loures, Almada, Moita, Setúbal e Sintra.

Referências

  1. A maioria das biografias dão-o, erradamente, como nascido em 1841. Cf. «Cenni biografici su José Fontana» (PDF). www.fpct.ch. Consultado em 7 de novembro de 2008 [ligação inativa]  |arquivourl= é mal formado: timestamp (ajuda).
  2. a b c d e f g António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques. Dicionário de Maçonaria Portuguesa. [S.l.: s.n.] pp. Volume I. Coluna 599 
  3. Lázaro, João (2022). O Movimento Operário na Monarquia Constitucional: do debate público à mobilização política (1865-1877). Lisboa: ISCTE-IUL. p. 74 
  4. Lázaro, João (2021). «A Cooperativa Indústria Social». Centro de História da Sociedade e da Cultura. Revista de História da Sociedade e da Cultura. 21 (21): 43. Consultado em 5 de junho de 2022 
  5. Lázaro, João (2021). O Movimento Operário na Monarquia Constitucional: do debate público à mobilização política (1865-1877). Lisboa: ISCTE. pp. 197–198 
  6. Lázaro, João (2021). O Movimento Operário na Monarquia Constitucional: do debate público à mobilização política (1865-1877). Lisboa: ISCTE. pp. 177–201 
  7. Maria Manuela Cruzeiro, Vida e acção de José Fontana, Lisboa: Fundação José Fontana, 1990, p. 16.
  8. Luís de Figueiredo, Almanaque José Fontana, Lisboa, 1855.
  9. In Memoriam de Antero de Quental, Lisboa, 1896.
  10. https://aviagemdosargonautas.net/2013/08/09/jose-fontana-1-historias-de-suicidios-famosos-em-portugal-por-jose-brandao/
  11. A Fundação foi constituída em Outubro de 1977, por 25 fundadores, com um capital inicial de 1000 contos. Dirigida por Maldonado Gonelha, recebeu vultosas ajudas financeiras oriundas de partidos e organizações sindicais da Alemanha, Suécia, Noruega e Estados Unidos. Foi apoiada pela federação sindical americana AFL/CIO.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Lázaro, João. Associação Internacional dos Trabalhadores em Portugal (1871–1873). Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 11, p. 1-19, 2019.
  • Lázaro, João (2021). «A Cooperativa Indústria Social». Centro de História da Sociedade e da Cultura. Revista de História da Sociedade e da Cultura, 2021.
  • Carvalho, J. L. C. D. de. O Movimento Operário na Monarquia Constitucional: do debate público à mobilização política (1865-1877) [Tese de doutoramento, Iscte - Instituto Universitário de Lisboa], 2021.
  • Luís de Figueiredo, em "Almanaque José Fontana", Lisboa, ano 1885.
  • Maria Manuela Cruzeiro, Vida e acção de José Fontana, Lisboa: Fundação José Fontana, 1990.
  • Maria Manuela Cruzeiro, Um republicano chamado José Fontana, Lisboa: Fonte da Palavra e Associação Cedro, 2011.
  • Gabriele Rossi, José Fontana en Suisse, Bellinzona, Fondazione Pellegrini-Canevascini, 1990.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]