Caganato de Rus

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O Caganato de Rus foi uma cidade-estado que floresceu durante um período pouco documentado da história da Europa Oriental (final do século VIII e início do IX]]).[1] O caganato é visto por muitos historiadores como um predecessor da Rússia de Quieve. A população da cidade-Estado nessa época era composta de etnias eslava, Finlandesa e Norueguesa, entre os quais o grupo dominante era o dos Rus'.

De acordo com fontes contemporâneas, o monarca ou monarcas da cidade-estado podem ter utilizado o título de cagano, da língua turcomana antiga.[2][3][4] A questão da localização da cidade-estado ainda está aberta.

Evidência documental[editar | editar código-fonte]

Hóspedes de além-mar, um quadro pintado em 1899 por Nicholas Roerich mostrando as primeiras aventuras varangianas na Rússia

O líder dos Rus' é chamado pelo título de "cagano" em diversas fontes históricas: a maioria, textos estrangeiros do século IX. Existem outras fontes eslavas dos séculos XI e XII.

A mais antiga referência europeia ao caganato vem dos Anais de São Bertin, em francônio. Os Anais mencionam um grupo de Viquingues, que se auto-denominavam Rhos (qi se, id est gentem suam, Rhos vocari dicebant) e visitaram Constantinopla por volta do ano 838.[5] Temendo retornar para a terra natal pelas estepes, que os deixariam vulneráveis a ataques dos Magiares, estes Rhos viajaram através da Alemanha acompanhados de embaixadores grego enviados pelo imperador bizantino Teófilo. Quando questionados pelo imperador franco Luís I, o Piedoso em Ingelheim, eles informaram que seu líder era conhecido como chacanus (a palavra latina para "cagano")[6] e que eles viviam no norte da Rússia, mas o imperador descobriu que a terra natal dos viajantes era na Suécia (comperit eos gentis esse sueonum).[7]

Trinta anos mais tarde, na primavera de 871, os imperadores do Oriente e do Ocidente, Basílio I e Luís II, disputaram o controle de Bari, que havia sido conquistada conjuntamente das mãos dos árabes. O Imperador Bizantino enviou uma carta furiosa ao seu colega ocidental o repreendendo por usurpar o título de Imperador. Ele argumentou que os líderes francos eram simples reges, enquanto o título imperial aplicava apenas ao líder supremo dos Romanos, ou seja, ao próprio Basílio. Também afirmou que cada nação possuía um título próprio para seu líder: por exemplo, o título de chaganus aos líderes dos ávaros, cazares (Gazari), e "nórdicos" (Nortmanno). A este argumento, Louis respondeu que conhecia apenas os caganos ávaros, mas não tinha informações sobre os caganos dos cazares e dos nórdicos .[8] O conteúdo da carta de Basílio, desaparecida, é reconstruído da resposta de Luís, reproduzida inteiramente no Crônica de Salerno.[9] Isto indica que pelo menos um grupo de Escandinavos possuía um líder com o título de "cagano".

Amade ibne Rusta, um geógrafo muçulmano da Pérsia, escreveu que o cagano dos Rus' ("khaqan rus") vivia numa ilha em um lago.[2][10] Constantine Zuckerman comenta que ibne Rusta, utilizando um texto de autoria anônima dos anos 870, tentou organizar com precisão os títulos de todos os governantes descritos pelo seu autor, o que torna a evidência ainda mais preciosa.[11] O geógrafo muçulmano menciona que apenas dois caganos em seu tratado — o da Cazária e o dos Rus. Uma outra evidência quase contemporânea aos Rus' vem de Iacubi, que escreveu em 889 ou 890 que montanhistas do Cáucaso, quando sitiados pelos Árabes em 854, pediram ajuda aos líderes (sahib) de Arrum (Bizâncio), Cazária, e al-Saqaliba (Eslavos).[12] Hudude Alalam, um texto geográfico de autoria anônima escrito no fim do século X, se refere a rei dos Rus como "rus-khaqan".[13] Como o autor desconhecido de Hudude Alalam se baseava em numerosas fontes do século IX, incluindo ibn Khordadbeh, é possível a referência ao cagano dos Rus' foi copiada de textos mais antigos, pre-ruríquida, ao invés de refletir a realidade da época.[14] Finalmente, um geógrafo persa do século XI, Gardizi menciona "khaqan-i rus" na sua obra Zayn al-Akbar. Como outros geógrafos muçulmanos, Gardizi se baseava em tradições datando do século IX.[15]

Existe um embasamento sólido para acreditar que o título de "cagano" ainda era lembrado pela Rússia de Quieve no período cristão. O Metropolita Hilário de Quieve aplicou o título de "cagano" a Vladimir I de Quieve e Jaroslau I, o Sábio no exemplar mais antigo, ainda sobrevivente, da literatura russa antiga, Slovo o Zakone i Blagodati ("Sermão em Lei e Graça"), escrito por volta de 1050.[16] Em um grafito na galeria norte da Catedral de Santa Sofia de Quieve, lê-se: "Ó Deus, salve nosso cagano", aparentemente em referência a Esvetoslau II de Quieve (1073–1076).[17] Até o final do século XII, O conto da campanha de Igor menciona de passagem "kogan Oleg",[15] tradicionalmente identificado a Olegue I de Czernicóvia.[18]

Período[editar | editar código-fonte]

A pedra de Kälvesten data do século IX e é a pedra mais antiga conhecida que fala das expedições no este

Fontes primárias ainda existentes tornam plausível acreditar que o título de cagano foi aplicado aos líderes dos Rus' durante um curto período, entre a missão a Constantinopla (838) e a carta de Basílio I (871). Todas as fontes bizantinas após Basílio I se referem aos líderes dos Rus' como arcontes. Mais tarde, os autores quievanos, mencionados anteriormente, parecem ter ressuscitado o termo "cagano" mais como alternativa a cnezo do que como um termo político real.[19]

A datação da existência do caganato tem sido matéria de debate entre estudiosos e ainda não é precisa. Omeljan Pritsak determina a fundação do caganato entre 830–840. Nos anos 1920, o historiador Russo Pavel Smirnov sugeriu que o caganato dos Rus' existiu apenas temporariamente por volta de 830 e foi logo destruído pela migração das tribos dos federadas Magiares-Cabares em direção aos Cárpatos.[20] Qualquer que seja a precisão destas estimativas, não existem fontes primárias que mencionam os Rus' ou seus caganos antes dos anos 830.[21]

Tão beligerante tem sido a discussão sobre a desintegração do caganato. O título de cagano não é mencionado nos Tratados entre Rus' e bizantinos (907, 911, 944), ou em Sobre as Cerimônias, um tratado de cerimoniais documentando os títulos de líderes estrangeiros, quando a recepção a Olga na corte de Constantino VII em 945. Além disso, Amade ibne Fadalane, em sua descrição detalhada dos Rus' (922), designou seu líder supremo como malik ("rei"). A partir desse fato, Peter Golden concluiu, por um argumentum ex silentio, que o caganato entrou em colapso entre 871 e 922.[22] Zuckerman, ao mesmo tempo, argumenta que a ausência da referência ao título de "cagano" no tratado de 911 prova que o caganato já havia sido dissolvido em 911.[11]

Notas

  1. e.g., Christian 338.
  2. a b Christian 338.
  3. Franklin and Shepard 33–36.
  4. Dolukhanov 187.
  5. Jones, Gwyn. A History of the Vikings. 2ª edição London: Oxford Univ. Press, 1984. pp249–250.
  6. Haquino (Håkan ou Haakon) era um nome utilizados entre os Escandinavos do período, e se pensou que era possível que os Rhos descritos nos Anais se referiam a seu rei por esse nome.
  7. Bertin 19–20; Jones 249–250.
  8. Monumenta Germaniae 385–394.
  9. Dolger T. 59, №487.
  10. Brøndsted (1965), pp. 267–268
  11. a b Zuckerman, "Deux étapes" 96.
  12. Laurent and Canard 490. De acordo com Zuckerman, Ibn Khordadbeh e outros autores árabes frequentemente confundiam os termos Rus e Sacaliba quando descrevendo as expedições dos Rus ao mar Cáspio nos séculos IX e X. Dessa maneira, "o governante de al-Saqualiba" em 852 se referia provavelmente a mesma pessoa que o cagano dos Rus.
  13. Minorsky 159.
  14. See, e.g., Minorsky xvi.
  15. a b "Rus", Encyclopaedia of Islam
  16. Ilarion, "Sermon on Law and Grace" 3, 17, 18, 26; para discussão, veja Brook 154. Ilarion se referiu a Vladimir como "o grande cagano de nossa terra" e a Jaroslau como "nosso devoto cagano."
  17. Noonan, "Khazar" 91–92.
  18. A maioria dos críticos segue a interpretação de Dmitry Likhachev. Tamatarcha era uma antiga possessão cazar e as tradições cazares podem ter ali persistido por um longo período. É sabido que, enquanto reinava em Tamatarcha, Olegue assumiu o título de "arconte de toda a Cazária". Outros candidatos incluem Olegue de Novogárdia e Igor I de Novogárdia Sevéria. Veja: Zenkovsky 160; Encyclopaedia of The Lay 3–4.
  19. Brook 154.
  20. Smirnov 132–45
  21. Pritsak, Origin of Rus' passim.
  22. Golden 87, 97.