Fissura labiopalatal

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Fissura labiopalatal
Fenda labiopalatal esquerda
Classificação e recursos externos
CID-10 Q35-Q37
CID-9 749
DiseasesDB 29604 29414
MedlinePlus 001051
eMedicine ped/2679

As fissuras orofaciais (FO), conhecidas por fenda labial ou fenda palatina (cientificamente fissura labiopalatal) envolve um grupo de condições que implicam o lábio fendido, o palato fendido ou ambos[1][2]. Uma fenda labial consiste numa fissura no lábio superior que pode estender-se à base do nariz. A fissura pode ocorrer num só lado, nos dois ou no meio. Uma fenda palatal consiste numa perfuração no céu da boca, em que é possível observar o septo nasal, bem como as conchas inferiores e pode atingir o palato duro e o palato mole. Estas malformações podem causar problemas de alimentação, problemas de fala, problemas de audição e amiúde infecções nos ouvidos. Geralmente esta condição está associada a outras doenças.[1]

A fissura labial e a fissura palatina devem-se à má oclusão dos tecidos do rosto durante a formação e desenvolvimento. Como tal, tratam-se dum tipo de malformação congénita. A causa é desconhecida na maioria dos casos.[1] Os factores de risco podem estar associados ao tabagismo durante a gravidez, diabetes, obesidade, idade materna avançada e a uma certa medicação (como a utilizada para o tratamento de convulsões).[1][2] Normalmente, a fenda labial e a fenda palatina podem ser diagnosticadas durante a gravidez com um exame de ultra-som.[1]

O lábio ou o palato fendidos podem ser curados com recurso a cirurgia. Isto costuma ser feito nos primeiros meses de vida nas fissuras labiais e antes dos dezoito meses nas fissuras palatinas. Poderão ser necessários cuidados fonoaudiológicos e odontológicos. Com o tratamento adequado é possível obter bons resultados.[1]

A fissura labial e a fissura palatina afectam entre uma a duas crianças em cada mil nascimentos no mundo desenvolvido.[2] A ocorrência da fenda labial é cerca de duas vezes mais comum em homens do que em mulheres, enquanto que a fissura palatina sem lábio fendido é mais comum em mulheres.[2] Em 2013 esta patologia provocou cerca de 3 300 mortes em todo o mundo, abaixo das 7 600 mortes em 1990.[3] Esta patologia é popularmente conhecida como lábio leporino devido à semelhança deste com o focinho fendido duma lebre; não obstante, o termo é geralmente considerado pejorativo.[4]

Tipos de fissuras[editar | editar código-fonte]

Menina de seis meses com fissura labiopalatal
A mesma menina com 5 anos e meio após cirurgia reparadora

As fissuras podem ser: unilaterais (atingem somente um lado do lábio) ou bilaterais (fendas dos dois lados do lábio), completas (quando atingem o lábio e o palato), ou incompletas (quando atingem somente uma dessas estruturas), além de atípicas assim variando desde formas mais leves, como cicatriz labial e o úvula bífida (quando a úvula aparece partida em duas), até formas mais graves, como as fissuras amplas de lábio e palato. As fissuras labiopalatais também podem se associar a outras malformações sejam elas de face ou de outras regiões do corpo. As fissuras de palato deixam o canal oral em contato com o nasal.

Incidência[editar | editar código-fonte]

Os caucasianos têm uma incidência estimada em 1,84/1000 nascimentos, sendo maior entre os amarelos e menor nos negroides (negros).

Sua incidência com a presença de familiares fissurados nas seguintes proporções:

a) pais normais = 0,1% de chance de ter um filho fissurado
b) pais normais e um filho fissurado = 4,5% de chance de ter outro filho fissurado
c) um dos pais e um filho fissurado = 15% de chance de ter outro filho fissurado

Fatores[editar | editar código-fonte]

No Brasil, estima-se que a cada 650 nascimentos, uma criança nasce com fissura labiopalatal. Existem vários fatores que tem sido implicados no seu aparecimento, tais como o uso de álcool ou cigarros, a realização de raios X na região abdominal, a ingestão de medicamentos, como anticonvulsivantes ou corticóide, durante o primeiro trimestre gestacional, deficiências nutricionais, infecções, além da hereditariedade. A única forma de corrigi-los é através de cirurgia.

Detecção e correção[editar | editar código-fonte]

Atualmente, graças ao aperfeiçoamento do ultrassom, o lábio leporino pode ser diagnosticado antes mesmo do parto. Isso permite que, logo após o nascimento, a cirurgia corretiva seja realizada. Hoje já existem técnicas que permitem a realização da cirurgia precoce, até 1 semana de vida.

A primeira cirurgia de lábio é realizada normalmente aos três meses de idade, quando a criança já deve ter 5 kg. Já a cirurgia de palato duro é realizada apenas aos doze meses de idade. Para uma boa alimentação e a criança não refluir alimento pelo nariz até a cirurgia do palato duro, são desenvolvidas técnicas de amamentação sendo a persistência da mãe fator fundamental para seu sucesso. Se mesmo assim a mãe não consegue amamentar, ela é orientada a fazer a ordenha e dar o leite materno na mamadeira, pois a preocupação é que mamando mal o bebê terá pouco ganho de peso. Alguns autores advogam o uso de placas palatinas pré-moldadas, de fácil manejo para ajudar na amamentação.

Alimentação[editar | editar código-fonte]

No caso da fenda se estender até o palato, há maior risco das crianças aspirarem o alimento provocando infeções como otites e pneumonias. As otites podem causar prejuízos no desenvolvimento da fala e linguagem. As anemias também são frequentes nas fissuras labiopalatais normalmente solucionáveis com uma dieta balanceada e sulfato ferroso. O aleitamento materno é indicado para evitar infecções, combater a anemia e fortalecer a musculatura da face e boca, além de manter a produção de leite da mãe. Quando o nenê não ganha peso suficiente, recorre-se à complementação alimentar, mas sem suspender a amamentação, pois o ato de sucção faz com que haja aumento no vínculo entre mãe e bebê.

Amamentação[editar | editar código-fonte]

  • Segurar o bebê em posição vertical, de modo que o nariz e a boca fiquem mais altos que o peito;
  • Preencher a abertura do lábio leporino com o seio (pode-se usar a placa dentária especial - obturador - para cobrir a fenda palatal);
  • Estimular e ajudar a mãe, orientando-a que se faz necessário "fechar a fissura" para que o bebê possa mamar bem, e apoiando-a, pois as mamadas costumam ser longas;
  • Alguns bebês necessitam ser alimentados por sonda orogástrica, copinho, mamadeira, colherzinha, o que o bebê adaptar melhor.

Sequelas[editar | editar código-fonte]

Sem o devido tratamento, as fissuras podem provocar sequelas graves, como a perda da audição, problemas de fala e deficit nutricional, além do sofrimento com o preconceito. É possível a total reabilitação do paciente com fissura labiopalatal. Quanto mais cedo a intervenção, melhor. O tratamento é longo,mas vale a pena, tem início desde o nascimento até a fase adulta, passando por várias cirurgias corretivas e estéticas.

Reabilitação[editar | editar código-fonte]

Uma equipe multidisciplinar deve estar envolvida nessa reabilitação, como médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas, odontólogos, psicólogos, farmacêuticos e assistente social. A troca de informações entre os profissionais é fundamental para o tratamento da criança, pois um fator interfere diretamente no outro, no que diz respeito aos dentes, à fala, à face, às funções alimentares e ao desenvolvimento psicossocial.

Os pais que descobrirem seu filho com fissura labiopalatal devem procurar todos os tipos de orientações para possibilitarem a total reabilitação do seu filho. É indicado que os pais permaneçam tranquilos, pois a rejeição, negação e sentimento de culpa podem ser considerados normais no primeiro momento, mas com ajuda profissional, tanto os pais quanto o bebê poderão ter uma vida saudável e feliz.

Existem diversos centros cirúrgicos no Brasil com especialistas qualificados e competentes no atendimento de pacientes com fissuras labiopalatais pelo SUS, privados e filantrópicos.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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  1. a b c d e f «Facts about Cleft Lip and Cleft Palate». October 20, 2014. Consultado em 8 May 2015. 
  2. a b c d Watkins, SE; Meyer, RE; Strauss, RP; Aylsworth, AS (Abril de 2014). «Classification, epidemiology, and genetics of orofacial clefts.». Clinics in plastic surgery [S.l.: s.n.] 41 (2): 149–63. doi:10.1016/j.cps.2013.12.003. PMID 24607185. 
  3. GBD 2013 Mortality and Causes of Death, Collaborators (17 de Dezembro de 2014). «Global, regional, and national age-sex specific all-cause and cause-specific mortality for 240 causes of death, 1990-2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013.». Lancet [S.l.: s.n.] 385: 117–71. doi:10.1016/S0140-6736(14)61682-2. PMC 4340604. PMID 25530442. 
  4. Boklage, Charles E. (2010). How new humans are made cells and embryos, twins and chimeras, left and right, mind/selfsoul, sex, and schizophrenia (Singapore: World Scientific). p. 283. ISBN 9789812835147.