Lávvu
O lávvu (em lapão setentrional: lávvu, em lapão escolto: kååvas, em finlandês: kota ou umpilaavu, em norueguês: lavvo ou sametelt, e em sueco: kåta) é um tipo de habitação temporária usada pelos povos Sámi dos extremos circumboreais da Europa Setentrional. O lávvu tem uma forma semelhante à da tenda indígena americana, mas é menos vertical e mais robusta face a rajadas de vento, comuns nas regiões do Ártico. O lávvu tem sido usado pelos pastores semi-nomadas, indígenas dos planaltos desabrigados do norte da Escandinávia e do alto Ártico da Eurásia. Estes percorrem longas distâncias sazonalmente, acompanhando os seus rebanhos de renas nas migrações naturais dos animais entre o interior e a costa do Mar da Noruega. Continua a ser usado pelos Sámi e, cada vez mais, por turistas como tenda de acampamento.
Definição histórica
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Várias referências históricas descrevem a estrutura do lávvu usada pelos Sámi. Estas estruturas têm os seguintes pontos comuns:
- O lávvu é sustentado por três ou mais postes bifurcados ou entalhados, espaçados de forma uniforme criando um tripé.
- Há mais de dez postes direitos, não fixos que são colocados contra o tripé e dão forma à estrutura.
- O lávvu não requere estacas, cabos de sustentação ou cordas para dar forma ou estabilidade à estrutura.
- A forma e volume do lávvu são estabelecidos pelo tamanho e quantidade de postes utilizados na estrutura.
- Este tipo de estrutura não requere um poste central funcionando como suporte à tenda.
Não existem registos históricos relativos aos lávvus dum único mastro, nem qualquer cognato nas línguas escandinavas que derive do termo Sámi. A definição e descrição desta estrutura têm sido consistentes desde o século XVII, e possivelmente existiam muitos séculos antes disso.
O goahti, também usado pelos Sámi, tem uma configuração de mastro diferente e é uma estrutura mais permanente. Embora as árvores adequadas aos postes do lávvu sejam fáceis de encontrar, e com frequência deixadas no local para uso posterior, os quatro postes curvos do goahti têm que ser carregados. A não confundir o lávvu com o laavu finlandês que também é diferente.
Simbolismo
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O lávvu foi – e continua a ser– um forte símbolo para os Sámi enquanto referência cultural. O lávvu desempenhou um papel importante em dois acontecimentos durante o século XX, sendo mais do que um simples abrigo. A primeira foi no final da Segunda Guerra Mundial durante o inverno de 1944/45, quando as tropas alemãs recuaram para oeste através do norte da Noruega, queimando a maioria das habitações nos condados de Finnmark e leste de Troms antes do Exército Vermelho russo. Por causa desta destruição, muitos Sámi foram forçados a viver em lávvus durante muitos anos depois, por causa da falta de habitação e do desemprego deste período. [1] Alguns destes Sámi ainda hoje são vivos, nasceram nestes lavvus e têm boas recordações deles.[2][3][4] A ironia não passou despercebida quando a polícia de Oslo destruiu o lávvu durante o protesto.[5] Este conflito deu origem ao Comité dos Direitos Sami, que consolidou os direitos legais dos Sámi na Noruega, resultando na Lei Sami de 1987. Este, entretanto, tornou-se a base para o Sámediggi (Parlamento Sámi da Noruega), um órgão democraticamente eleito para os Sámi na Noruega em 1989, e para a Lei de Finnmark de 2005.
O forte simbolismo do lávvu foi também demonstrado na sua forma pictórica como o brasão do Município de Guovdageainnu (Kautokeino) e na forma física do edifício do Sámediggi (Parlamento Sámi da Noruega), cujo design foi inspirado no lávvu.
Lávvu tradicional e moderno
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O lávvu tradicional consiste em dois tipos de postes de madeira: 1) três ou mais postes bifurcados e; 2) vários postes direitos. Os paus bifurcados têm uma forquilha de duas hastes na extremidade superior. Estes polos são interligados de modo a formar um tripé. Após a montagem dos postes bifurcados, os postes direitos são dispostos de forma oblíqua vertical, formando um círculo aberto (buraco) no topo do lávvu, uma "chaminé" natural por onde o fumo sobe ao céu aberto, e luz direta entra no interior.
Peles de rena eram usadas como cobertura até meados do século XIX, quando grandes quantidades de tecidos britânicos a preços baixos foram disponibilizados aos Sámi.
Os lávvus tradicionais continuam a ser usados, mas para facilitar o transporte, designs modernos substituíram os postes de madeira por alumínio e tecidos mais leves como toldo ou lona, em vez dos antigos, mais pesados, tendem a ser preferíveis. Além disso, em vez do fogo aberto, hoje em dia fornos são também utilizados, reduzindo o fumo e faíscas mas pondo o ambiente interior na penumbra. Um lávvu deste tipo é mais fácil de transportar e é uma alternativa comum às tendas usadas para acampar.
Existem também lávvus enormes, com espaço suficiente para albergar dezenas de pessoas simultaneamente. Estes são normalmente usados por famílias numerosas ou acampamentos onde o lávvu funciona como ponto de encontro.
Referências
[editar | editar código]- ↑ Manker, Ernst e Vorren, Ørnulv. Vida e costumes lapões: uma pesquisa., Trad. Kathleen McFarlane, Oxford University Press Londres, 1962, p. 154
- ↑ Kitti, Anja. (Sami Elder; ex-presidente, Sami Siida of North America, Toronto, Canadá), entrevista. Julho de 1995/Nov. de 2007. O segundo acontecimento foi o uso do lávvu durante a controvérsia de Alta na Noruega, de 1979 a 1981. Um lávvu foi erguido em frente ao Storting (Edifício do Parlamento Norueguês), tornando-se um ponto focal internacional, com vários Sámi em greve da fome para protestar contra o projeto de barragem proposto, que teria destruído os pastos de renas dos pastores Sámi na região e inundado a aldeia Sámi de Mázi. Este lávvu tornou-se o centro da atençao na luta política pelos direitos indígenas Sámi.<ref>Somby, Ande. http://somban.com/nealg06.html Arquivado em 2012-02-09 no Wayback Machine. Consultado em 05/11/2007
- ↑ Norwegian Broadcasting Corporation, Ville bruke soldater i Alta-aksjon; «Ville bruke soldater i Alta-aksjon - Innenriks - NRK Nyheter». Cópia arquivada em 7 de agosto de 2007 Parâmetro desconhecido
|data de acesso=ignorado (ajuda) Consultado em: 11/7/2007 - ↑ Eidheim, Harald. "Desenvolvimento Etno-Político entre os Sami após a Segunda Guerra Mundial", Cultura Sami numa Nova Era: A Experiência Sami Norueguesa, Gaski, H. ed. (1997) p.49
- ↑ Somby, Ande. http://somban.com/nealg09.html Arquivado em 2012-02-09 no Wayback Machine. Consultado em 05/11/2007