Língua guarani mbiá
| Guarani mbyá Mbya ayvu | ||
|---|---|---|
| Pronúncia: | [mbɨ.a.aɨ.ˈʋu] | |
| Outros nomes: | Mbyá guarani, dialeto mbiá, variedade mbyá | |
| Falado(a) em: | Brasil, Paraguai e Argentina | |
| Região: | Sul da costa brasileira e fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina | |
| Total de falantes: | c. 49 mil[nota 1][1][2][3] | |
| Família: | Tupi Tupi-guarani Guarani Guarani mbyá | |
| Escrita: | Alfabeto latino | |
| Estatuto oficial | ||
| Língua oficial de: | Paraguai[4] | |
| Códigos de língua | ||
| ISO 639-1: | -- | |
| ISO 639-2: | --- | |
| ISO 639-3: | gun
| |
| Glottolog: | mbya1239
| |
O guarani mbyá é classificado como língua vulnerável segundo o Atlas Mundial das Línguas em Perigo (2010) da UNESCO | ||
O guarani mbiá (em guarani mbiá: mbya ayvu, AFI: [mbɨ.a.aɨ.ˈʋu]), também conhecido como mbyá guarani, dialeto mbiá ou variedade mbyá é uma das variedades da língua guarani, parte da família tupi-guarani. É falado pelo povo mbyá, grupo guarani que habita a região fronteiriça entre Brasil, Paraguai e Argentina, e o litoral brasileiro entre os estados de Rio Grande do Sul e Espírito Santo. Há, ainda, diásporas mbyá no Tocantins, no Pará e no Centro-Oeste. Segundo a UNESCO, o guarani mbiá encontra-se em risco de extinção, sendo classificado como língua "vulnerável".[5]
Os censos demográficos dos países com presença mbyá indicam que há aproximadamente 49 mil falantes da língua. No Paraguai, em que é língua oficial desde 1992, há 28.988 falantes. Na Argentina, em que é oficial na província de Corrientes, há 11.014 falantes. No Brasil, há 9.373 falantes do guarani mbiá, além de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC).[6] O guarani é, ainda, oficial em Tacuru e Coronel Sapucaia, no Mato Grosso, mas nenhum dos municípios apresenta população mbyá significativa. Desde 2006, o guarani é também língua oficial do Mercosul.[7]
O guarani é estudado desde o século XVI, com os primeiros contatos da Coroa Espanhola com falantes das variedades guaranis. A formação da Companhia de Jesus na América, por meio das reduções guarani-jesuíticas, levou a um maior estudo da língua, com a elaboração das primeiras gramáticas de variedades guaranis a partir do século XVII.[8] Com as missões jesuíticas, foi introduzido o alfabeto latino para grafar a língua, com Robert Dooley, pesquisador do grupo evangélico Summer Institute of Linguistics, propondo uma das ortografias mais empregadas para a língua em 1982.[9]
O guarani mbiá apresenta uma morfologia aglutinante complexa, na qual palavras são formadas pela adição de afixos, com pouco nível de fusão (cada afixo adiciona um único significado à palavra). A língua possui notável flexibilidade de função sintática, havendo palavras que mudam de função a depender do contexto, a exemplo de substantivos agindo como verbos. Além disso, o espalhamento do traço nasal (ou harmonia nasal) é um fenômeno fonológico comum na língua.[10]
Etimologia
[editar | editar código]O termo "mbyá", derivado de mbya, "gente", na própria língua guarani mbiá, é empregado por esse povo como autodenominação.[11] Em guarani mbiá, uma forma comum para referir-se à língua é mbya ayvu, que significa "língua dos mbyá" (lit. "fala de muita gente").[12][13] Além disso, o termo guarani, "guerreiro", é um exônimo atribuído pelos colonizadores espanhóis, sendo usado para referir-se às diversas comunidades guaranis.[14]
Existe também a autodenominação ñandeva, que significa "quem somos" ou "o que é nosso", utilizada por todos os grupos guaranis, mas esta é usualmente empregada em contextos acadêmicos para referir-se especificamente ao grupo nhandeva.[15] Os mbyá possuem também a autodenominação jeguakava tenonde porangue’í, a qual significa "os primeiros homens escolhidos que levarão o adorno de plumas", utilizada em contextos religiosos, como rituais.[16][17]
Antes de "mbyá" consolidar-se como etnônimo, foram usados exônimos como kainguá ou kaiuá, derivados de kaỹngua, "gente do mato". Alguns outros termos, utilizados pelos nhandevas, são tambéaópé, "chiripá largo" (relativo ao chiripá que os mbyá usam entre as pernas), e txeirũ (ou naneirũ), "meus (ou nossos) amigos". Existe, ainda, o termo apytere, mas os mbyá rejeitam este, por ser depreciativo.[11]
Distribuição
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O guarani mbiá é falado predominantemente na região fronteiriça entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai, também chamada de Tríplice Fronteira do Iguaçu, estando presente também na parte meridional da costa brasileira, com a presença de aldeias mbyá desde o estado do Espírito Santo até o estado do Rio Grande do Sul.[18] Existem, ainda, diásporas mbyá no estado do Pará, no estado do Tocantins e na região Centro-Oeste.[19]
As populações de comunidades mbyá no Paraguai, na Argentina e no Brasil, segundo os censos demográficos dos respectivos países em 2022, são:
Paraguai: 28.988 membros de comunidades mbyá;[1]
Argentina: 11.014 membros de comunidades mbyá;[2]
Brasil: 9.373 membros de comunidades mbyá.[3]
O domínio do guarani mbyá por membros de comunidades mbyá é alto, por volta de 98% no Brasil, com poucos indivíduos nas aldeias que não possuem fluência na língua. Há, também, uma parcela significativa da população mbyá falante de outras línguas, mais comumente o português e o espanhol, com uma taxa de plurilinguismo de aproximadamente 17%.[20]
Contudo, determinar a quantidade exata de falantes do guarani mbyá (ou de qualquer outra variedade guarani) apresenta alta complexidade, visto que a mobilidade nos grupos guaranis é frequente, devido tanto a lógicas cosmológicas guaranis (a busca da Terra sem Males) quanto a questões territoriais de cunho conjuntural e pragmático. Há, ainda, uma parcela significativa da população que migra devido a questões políticas e humanitárias, como a busca desses povos por ter controle sobre a terra em que habitam e a busca por autonomia. Com isso, a população dos povoamentos guaranis é bastante mutável, fator que dificulta assegurar quantitativamente a população falante de forma precisa.[21][22]
Ainda, o reconhecimento do guarani e suas variedades ocorre em diferentes proporções, a depender da região. No Paraguai, o guarani foi reconhecido como "língua nacional" em 1967,[23] mas sem status oficial, que só foi concedido com a Constituição Paraguaia de 1992.[4] Em 2010, o governo paraguaio promulgou a Ley de Lenguas ("lei de línguas"), que detalhou as modalidades oficiais de utilização do guarani, garantiu os direitos linguísticos individuais e coletivos dos cidadãos paraguaios e proibiu a discriminação linguística contra falantes do guarani e de outras línguas indígenas.[24] Por ser língua oficial do Paraguai, o guarani é, ainda, língua oficial do Mercosul, desde 2006.[25]
Em 2004, o guarani foi reconhecido como língua oficial na província argentina de Corrientes, localizada na região fronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai, com a elaboração de uma lei provincial que instituiu o uso do guarani como língua oficial alternativa e promoveu a preservação e valorização da língua guarani.[26]
No Brasil, o guarani mbyá é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC) como patrimônio cultural imaterial brasileiro desde 2011, medida que visava valorizar e promover a pesquisa e a preservação tanto da língua guarani mbyá como de outras línguas indígenas.[27] O guarani é também oficial nos municípios matogrossenses de Tacuru, desde 2010,[28] e em Coronel Sapucaia, desde 2022.[29] No entanto, nenhuma das duas cidades apresenta população significativa de falantes do guarani mbyá.[18]
Línguas relacionadas e variedades guaranis
[editar | editar código]O guarani é parte da família tupi-guarani, pertencente à família linguística tupi, junto a línguas como o sirionó, o tupinambá e o kamaiurá. A família tupi-guarani apresenta subgrupos, com o guarani usualmente pertencendo ao subgrupo I, com línguas como o aché e o xetá. A classificação da família tupi-guarani e de seus subgrupos, no entanto, é alvo de discordâncias entre os acadêmicos. Uma das divisões da família tupi-guarani em subgrupos, proposta por Antônio Mello em 2002, é como segue:[30]

- Tupi-guarani
- Subgrupo I
- Aché (ou guayaki)
- Guarani
- Guarani avañe'ẽ (guarani paraguaio)
- Guarani oriental boliviano
- Xetá
- Subgrupo II
- Subgrupo III
- Subgrupo IV
- Subgrupo V
- Subgrupo VI
- Subgrupo VII
- Subgrupo VIII
- Subgrupo IX
- Subgrupo I
Ainda, devido à grande extensão territorial dos povoamentos e da frequente mobilidade dos grupos guaranis, a língua guarani apresenta variação significativa entre diferentes grupos, a qual foi estudada a partir do século XVI. Desde esse período, as províncias guaranis já apresentavam diferenças culturais e linguísticas significativas, entendidas hoje como predecessoras das variedades guaranis.[31]
As três variedades modernas do guarani são o guarani mbyá, o guarani nhandeva (também guarani chiripá ou ava guarani) e o guarani kaiowá. Enquanto os kaiowás declaram serem distintos dos outros grupos guaranis (tanto linguisticamente quanto culturalmente), os mbyá e os nhandevas declaram serem parcialidades[nota 2] de uma única cultura e língua guarani.[32] Existe, ainda, o guarani avañe'ẽ, ou guarani paraguaio, considerado distinto das variedades devido ao seu processo de formação política e histórica, mas que é frequentemente estudado e comparado com as variedades guaranis.[33]
As variedades guaranis apresentam distinções gramaticais, lexicais e até fonológicas notáveis. Um exemplo é a variação entre a africada [tʃ], presente no mbyá, e a fricativa [s], presente no avañe'ẽ, no kaiowá e no nhandeva,[nota 3] ambas derivadas do fonema */tʃ/, reconstruído do proto-tupi-guarani:[34][35]
| Proto-tupi-guarani | Guarani mbyá | Guarani avañe'ẽ | Guarani kaiowá | Guarani nhandeva | Significado |
|---|---|---|---|---|---|
| *tʃɨ | chy | sy | sy | tsy/sy | mãe |
| *tʃu'u | chu'u | su'u | su'u | tsu'u/su'u | morder |
| *tʃam | chã | sã | sã | ytsã | corda |
| *tʃɨrɨk | chyry | syry | syry | tsýi/sỹi | correr, escorregar |
| *a-ʧem | a-chẽ | a-sẽ | a-sẽ | a-tsẽ/a-sẽ | saí, sair |
| *jaʧɨ | jachy | jasy | jasy | jatsy/jasy | lua |
| *ʦ-aʧɨ | ø-achy | h-asy | h-asy | ø-atsy/ø-asy | dói |
| *a-ʧ-aʧaβ | a-acha | a-hasa | a-hasa | a-atsa/a-asa | passar |
História
[editar | editar código]História da língua e documentação
[editar | editar código]A história guarani no período pré-colonial foi pautada por um processo de expansão e de migração significativos, com os indícios arqueológicos mais antigos indicando que a região ocupada inicialmente pelos guarani foi somente a região próxima à Tríplice Fronteira do Iguaçu. Por volta do século V, o processo migratório passou a ocorrer de forma mais intensa, com os guaranis expandindo seu território para regiões como a bacia do rio Uruguai, e a região onde hoje se encontra estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul.[36]
No período que precedeu a ocupação territorial das potências coloniais, os guaranis apresentavam unidade cultural e linguística significativa, porém havia intensa fragmentação quanto à organização política e territorial desses povos, resultado do seu comportamento migratório notável. Como consequência, o contato entre os colonizadores (espanhóis em sua maioria, em virtude do Tratado de Tordesilhas) e os guaranis ocorreu de forma gradual, motivando reações variadas à ocupação territorial europeia.[8]

Inicialmente, os guaranis apresentaram posicionamento de resistência e evasão ao colonialismo europeu, buscando subterfúgios às tentativas coloniais de subjugar os guaranis. A formação da Companhia de Jesus e a adoção pelos guaranis de uma política de aliança com os colonizadores, serviu para amenizar as tensões na região, além de gerar espaços de trocas linguísticas frequentes, como as reduções guarani-jesuíticas.[8]
Apesar do contato com outras crenças nas reduções, os guarani mbyá perpetuaram a estrutura religiosa e a cosmologia guarani, transmitindo o Tekó, "vida, costume, sistema", parte integral da religiosidade guarani, aos seus descendentes. O Tekó conecta as comunidades guaranis, contribuindo a um senso de comunidade que transcendia às fronteiras políticas impostas pelos colonizadores.[37] Contribui, ainda, para o valor cultural do "movimento" dos mbyá, entendido simultaneamente como lógica cosmológica (a busca por Yvy Mara E'ỹ, a Terra sem Males) e como forma de resistência política. Assim, os deslocamentos e as migrações dos guarani foram extremamente frequentes também durante o período colonial, contribuindo tanto para a sua espiritualidade como para a preservação da autonomia política, da cultura e da língua guarani, a despeito das tentativas de assimilação pelos colonizadores.[38]
Contudo, o contexto de interação intensa entre falantes de guarani e de espanhol foi um desdobramento decisivo para a diferenciação dos dialetos guaranis da época colonial: o guarani criollo, resultado da interação entre guaranis e espanhóis fora do contexto das reduções; o guarani jesuítico, resultado da interação linguística nas reduções; e o kayngua, falado pelos guaranis que mantiveram contato menos intenso com os espanhóis, como os guarani mbyá. A partir do contato entre os povos, os jesuítas empreenderam também processos de documentação da língua guarani, com a elaboração das primeiras gramáticas descritivas por missionários do guarani. Essas descrições tinham fins catequizantes, buscando permitir a comunicação com os guaranis para convertê-los ao cristianismo, mas serviram também papéis importantes para o estudo dialetológico e diacrônico do guarani.[8]
A divisão do guarani nas três variedades modernas pelos acadêmicos ocorre a partir do final do século XIX e do início do século XX, com pesquisadores como Curt Nimuendajú e Franz Müller demonstrando as diferenças entre as variedades guaranis por meio de indícios culturais e linguísticos.[39] O kayngua, dialeto que apresentava menor influência do espanhol, foi identificado como o dialeto que originou o guarani mbyá (e também as outras variedades guaranis modernas), enquanto os dialetos criollo e jesuítico originaram outras apresentações do guarani, como o guarani paraguaio e o jopará.[8]
História do ensino no Brasil
[editar | editar código]O ensino do guarani mbyá no Brasil, bem como o ensino de outras línguas indígenas, é dividido em três períodos históricos principais. Primeiramente, houve a chamada "educação indígena", anterior à colonização do Brasil, a qual configurava uma educação da cultura e dos valores e conhecimentos tradicionais dos indígenas. Em seguida, houve a "educação para índio", desenvolvida durante o período colonial e que durou até meados do século XX, configurando uma educação "civilizatória", que buscava integrar os indígenas à sociedade ocidentalizada.[40]

Em 1991, inicia-se o terceiro período no Brasil: a Educação Escolar Indígena, um modelo de ensino moderno que busca preservar a cultura e o modo de viver dos indígenas. Esse sistema pôde ser efetivado somente a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, que garantiu aos povos indígenas brasileiros a liberdade de manter sua cultura e modo de viver, levando as comunidades indígenas a reivindicar autonomia na educação e no ensino de sua língua.[40]
Junto a essa mobilização, os mbyá buscaram também protagonizar a construção do ensino nas aldeias mbyá, mobilizando a comunidade para a formação de professores e para contribuírem à criação de uma educação "do jeito indígena". Ainda, os mbyá, em conjunto com as outras parcialidades (ou grupos) guaranis, traçaram encaminhamentos essenciais para a educação escolar nas aldeias, resumidos nos seguintes tópicos:[41]
- Os professores devem ser escolhidos pela comunidade guarani;
- O reconhecimento oficial das escolas indígenas;
- A educação deve ser planejada com a comunidade e as lideranças indígenas;
- Os professores devem ter contato com as lideranças indígenas e a comunidade;
- A necessidade de acompanhamento de uma assessoria para a educação indígena;
- A educação deve ser bilíngue e a alfabetização em guarani;
- A escola guarani deve ser diferente da municipal, ensinando as tradições e os costumes dos guarani.[41]
A partir dessas estipulações, a implementação da Educação Escolar Indígena passa a ganhar força, havendo inclusive, no estado do Rio de Janeiro, a criação do curso de Magistério Indígena Diferenciado para os guarani em 1996, além da mobilização contínua dos mbyá na busca da autonomia sobre o ensino de sua língua e sua cultura.[41]
Fonologia
[editar | editar código]Consoantes
[editar | editar código]Não há consenso entre os estudiosos do guarani mbyá acerca do inventário consonantal da língua. A alofonia consonantal é um processo extremamente comum na língua guarani, dificultando a identificação dos fonemas propriamente ditos. Há, ainda, discordâncias sobre a realização de parte significativa dos fones da língua. As duas principais análises fonológicas das consoantes do guarani mbyá são o estudo realizado por Robert Dooley em 2006 e a tese de doutorado de Ivana Ivo, de 2018.[42][43]
Robert Dooley foi um dos primeiros linguistas modernos a estudar o guarani mbyá, ao fazer parte de uma missão do Summer Institute of Linguistics, grupo evangélico que tem por objetivo estudar línguas para expandir a evangelização.[9] Em 2006, Dooley publicou, juntamente ao seu léxico da variedade mbyá do guarani, uma introdução que informava as suas descobertas sobre a língua, inclusive a fonologia e o inventário consonantal da língua.[44]
| Labial | Coronal | Velar | Glotal | |||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| não labializada | labializada | |||||||
| Oclusiva | surda | p | t | ts ~ tʃ | k | kʷ | ʔ | |
| sonora | g | |||||||
| pré-nasalizada | m ~ ᵐb | n ~ ⁿd | ɲ ~ dʒ | ŋ ~ ᵑɡ | ŋʷ ~ ɡʷ | |||
| Nasal | ||||||||
| Fricativa | β ~ v ~ w | h | ||||||
| Aproximante | j | w | ||||||
| Vibrante simples | ɾ | |||||||
Em sua introdução, Dooley relatou os seguintes processos:
- Há alofonia entre nasais e plosivas (as quais são sonoras e pré-nasalizadas, exceto [ɲ], cujo alofone é [dʒ], e [ŋʷ], cujo alofone é [ɡʷ]), com as plosivas ocorrendo antes de vogais orais, e as nasais antes de vogais nasais.
- Existe alofonia entre as africadas [ts] e [tʃ], com a primeira ocorrendo antes de /a/, /ɛ/ ou /i/, e a segunda ocorrendo antes de /o/, /u/ ou /ɨ/
- Há alofonia acerca da soante labial, variando entre os fones [β], [v] e [w]. Contudo, não se sabe com exatidão os mecanismos que promovem essa alternância.[44]
Dooley sugeriu também a existência de uma fricativa glotal surda, /h/, de uso restrito, assinalando a "ausência de uma consoante inicial", e de uma oclusiva velar sonora /g/, com poucos usos registrados, sendo esses em empréstimos de outras línguas. Indicou, ainda, a existência das semivogais palatal /j/ e labiovelar /w/, em codas silábicas. Ao todo, Dooley identificou 25 fones e 17 fonemas consonantais.[44]
Em 2018, Ivana Ivo, pesquisadora das variedades da língua guarani, com destaque ao guarani mbyá, publicou sua tese de doutorado, Características fonéticas e fonologia do guarani no Brasil, com análises fonética e fonológica do guarani. Nessa abordagem, obteve uma interpretação distinta de Dooley acerca das consoantes da variedade mbyá.[43]
| Labial | Coronal | Velar | Glotal | |||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| não labializada | labializada | |||||||
| Obstruintes | [- contínuas] | p | t | ts ~ tʃ | k | kʷ | ʔ ~ h ~ ɦ | |
| Soantes | [- contínuas] | m ~ ᵐb | n ~ ⁿd ~ dz | ɲ ~ ɲdʒ ~ dʒ | ŋ ~ ᵑɡ | ŋʷ ~ ᵑɡʷ ~ ɡʷ | ||
| [+ contínuas] | ʋ ~ w | ɾ | j | ɰ | ||||
Em sua tese, Ivo interpretou as consoantes como divididas entre obstruintes não contínuas (efetivamente plosivas e africadas), soantes não-contínuas e soantes contínuas. Ivo observou, assim como Dooley, a alofonia entre nasais e oclusivas pré-nasalizadas, mas interpretou diferentemente múltiplos outros processos:[43]
- O fonema /n/ apresenta o alofone [dz], que ocorre antes de /i/, quando oral.[45]
- A nasal velar [ŋ] não ocorre como fonema propriamente dito, mas como uma realização fonética inconsistente, ou seja, não ocorre de forma padronizada ou previsível na fala.[46]
- Os fonemas /ɲ/ e /ŋʷ/ apresentam, além dos alofones [dʒ] e [ɡʷ], respectivamente, os alofones pré-nasalizados [ɲdʒ] e [ᵑɡʷ], semelhantemente a outras soantes não-contínuas, como /m/ e /n/.[47]
- As consoantes glotais são parte de um mesmo fonema, variando entre a pausa glotal [ʔ], em sílabas tônicas, e as fricativas glotais surda [h] e sonora [ɦ], que ocorrem nas sílabas átonas.[48]
- A soante labial contínua é realizada como aproximante labiodental [ʋ] ou como aproximante labiovelar [w] (ocorrendo próxima a vogais posteriores), mas nunca como fricativa bilabial [β] ou fricativa labiodental [v].[49]
Ivo identificou, ainda, a existência da aproximante velar /ɰ/, em sílabas tônicas.[50] Ao todo, Ivo identificou 27 fones e 15 fonemas consonantais.[43]
Vogais
[editar | editar código]O guarani mbyá apresenta 12 fonemas vocálicos (as seis vogais /i/, /ɛ/, /a/, /ɨ/, /u/ e /o/ e suas versões nasais).[51] Todas as vogais anteriores e centrais são não-arredondadas, enquanto todas as vogais posteriores são arredondadas. O fonema /o/ apresenta variação alofônica entre os fones [o] e [ɔ], que se encontram em distribuição complementar, na qual o fonema /o/ é realizado como [o] em sílabas átonas e [ɔ] em sílabas tônicas. O mesmo fenônemo de alofonia ocorre também com /õ/, a versão nasal do fonema.[52]
Há, portanto, 14 fones vocálicos ao todo na língua.[51]
| Anterior | Central | Posterior | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Oral | Nasal | Oral | Nasal | Oral | Nasal | |
| Fechada | i | ĩ | ɨ | ɨ̃ | u | ũ |
| Média | ɛ | ɛ̃ | o ~ ɔ | õ ~ ɔ̃ | ||
| Aberta | a | ã | ||||
Estrutura silábica e tonicidade
[editar | editar código]A estrutura silábica do guarani mbyá é restrita às construções com vogal simples (V) ou com consoante seguida de vogal (CV). Existem, ainda, casos raros de contrações que fogem do padrão silábico, em que uma sílaba do tipo ʔV é reduzida para ʔ somente. Na maioria dos casos, essas contrações ocorrem quando V é a vogal /e/.[53]
No guarani mbyá, a sílaba tônica (representada, no AFI, por um traço alto ˈ que a antecede) é, usualmente, a última, configurando um padrão de tonicidade oxítona. Existem poucas palavras paroxítonas ou proparoxítonas, das quais a maioria são empréstimos do português, como epéko [ɛ.ˈpɛ.ko], "espelho", e káuxa [ˈka.u.tsa], "causa". Ainda, a sílaba tônica é realizada a cada "grupo tonal" (correspondente aproximadamente a cada sintagma), e não a cada palavra individualmente. Por exemplo, o sintagma kova'e oo porã, "esta casa bonita", é realizado como [ko.βa.ʔɛ.o.ɔ.po.ˈɾã],[nota 4] e não como [ko.ˈβa.ʔɛ.o.ˈɔ.po.ˈpɨ].[53]
Existem também palavras átonas, como algumas posposições e partículas de tempo, aspecto ou modo, que nunca recebem a sílaba tônica. Por exemplo, o sintagma kova'e oo porã py, "nesta casa bonita", em que py pode ser traduzido como "em", é realizado como [ko.βa.ʔɛ.o.ɔ.po.ˈɾã.pɨ], e não como [ko.βa.ʔɛ.o.ɔ.po.ɾã.ˈpɨ], visto que py é uma posposição átona.[53]
Dentro de um grupo tonal, pode ocorrer também o fenômeno de tonicidade secundária (representada por um traço baixo ˌ que a antecede), mais fraca que a tonicidade principal (ou primária). Ela tende a ocorrer em alternação com sílabas átonas até chegar na sílaba tônica, mas geralmente não ocorre na primeira ou segunda sílaba. Por exemplo, incluída a tonicidade secundária, kova'e oo porã py é pronunciado como [ko.βa.ˌʔɛ.o.ˌɔ.po.ˈɾã.pɨ].[53]
Fonotática
[editar | editar código]Devido à estrutura silábica restrita, a fonotática do guarani mbyá é bastante livre, apresentando poucas limitações quanto a combinações de consoantes e vogais ou a sequências de sons na língua. A prinicipal restrição é referente às vogais /i/ e /u/, que não ocorrem após outras vogais, sendo transformadas nas semivogais /j/ e /w/, exceto se essa transformação tornaria a palavra monossílaba. Por exemplo, oi, "destacou-se", é pronunciado como [o.i], e não como [oj].[54]
Além disso, a língua evita a existência de palavras monossílabas que compõem um grupo tonal, realizando o processo de geminação vocálica para torná-las dissílabas. Por exemplo, a palavra o, "casa" quando realizada sem a adição de algum prefixo de posse (que a tornaria dissílaba ou trissílaba), é prounciada [o.'ɔ], com a geminação do fonema /o/, que torna-se [o] na primeira sílaba, átona, e [ɔ] na segunda sílaba, tônica. As únicas palavras monossílabas da língua são palavras que não ocorrem como grupo tonal, a exemplo das posposições py, que significa "em", e gui, que significa "de".[54]
Há, ainda, uma regra que impede vogais idênticas de ocorrerem em seguida quando são parte de morfemas diferentes: por exemplo, a adição do prefixo pe- (2PL) ao radical exa, "ver", gera o termo pexa [pɛ.tsa], "(vocês) veem", e não peexa [pɛ.ɛ.tsa]. No entanto, devido ao fato de ocorrer a partir de um processo morfológico, essa é uma regra entendida tipicamente como morfofonológica, e não fonotática.[54]
Harmonia nasal
[editar | editar código]O guarani mbyá apresenta o fenômeno da harmonia nasal (ou o espalhamento do traço nasal), em que um fonema nasal leva à nasalização de outros fonemas. No caso do guarani mbyá, a harmonia nasal é predominantemente regressiva, isto é, um som nasal gera a nasalização dos sons anteriores. Os sons que motivam a harmonia nasal são as vogais nasais, as consoantes nasais e as consoantes pré-nasalizadas, e são também esses sons que são afetados por ela. As consoantes plosivas surdas não são afetadas pela harmonia nasal, sendo chamadas de consoantes "transparentes" a esse fenômeno. A língua não apresenta consoantes que bloqueiam a harmonia nasal (também chamadas de consoantes "opacas").[55]
A harmonia nasal motivada por vogais nasais ocorre de forma consistente, nasalizando todos os sons anteriores que podem receber a nasalização. A palavra yakã, "rio", por exemplo, ao apresentar uma vogal nasal, é pronunciada como [ɨ̃.ã.kã], ao invés de [ɨ.a.kã], visto que a harmonia nasal leva à nasalização das vogais anteriores. Nota-se que o fonema /k/, por ser transparente a essa nasalização, não sofre alteração.[53]
A harmonia nasal motivada por consoantes é mais complexa, havendo diferenças no seu funcionamento a depender do tipo de consoante: a nasalização motivada pelas nasais inclui a sílaba da consoante nasal, enquanto isso não ocorre na nasalização motivada pelas plosivas pré-nasalizadas. Isso pode ser visto ao comparar omano, "morreu", com omondo, "enviou-o":[53]
- A palavra omano é realizada como [õ.mã.nɔ̃], com a nasalização incluindo a sílaba da consoante /n/.
- A palavra omondo é realizada como [õ.mõ.ⁿdɔ], sem a nasalização da sílaba da consoante /ⁿd/.
Nota-se, ainda, que o fonema /m/ está realizado, em ambos os casos, na sua forma nasal, [m], e não sua forma oral, [ᵐb], indicando que é um som afetado pela nasalização.[53]
Existe, ainda, a harmonia nasal progressiva, em que a nasalidade é espalhada para os sons que sucedem o motivador da harmonia nasal, mas ela ocorre em situações mais específicas e com efeitos menores que a nasalização regressiva. Por exemplo, no verbo anhotỹ'i, "plantei um pouco", realizado como [ã.ɲõ.tɨ̃.ʔĩ], o sufixo diminutivo 'i é nasalizado progressivamente por seguir a vogal nasal ỹ. A harmonia nasal progressiva também pode acometer consoantes: no verbo oma'ẽ ngatu, "olhou fixamente", o modificador katu tem sua primeira consoante nasalizada, tornando-se ngatu. Assim, a harmonia nasal progressiva faz oma'ẽ ngatu ser realizado como [õ.mã.ʔẽ.ᵑga.tu], e não como [õ.mã.ʔẽ.ka.tu].[53]
Ortografia
[editar | editar código]Consoantes e vogais
[editar | editar código]O guarani mbyá é grafado com o alfabeto latino, no sentido horizontal, da esquerda para a direita. O alfabeto latino foi introduzido com o processo de colonização da América por Portugal e pela Espanha. No entanto, a ortografia do guarani mbyá não é padronizada, apresentando variações regionais. Uma das ortografias mais difundidas é a ortografia proposta por Robert Dooley, pesquisador do guarani mbyá. Nela, são representados, geralmente, os fones realizados em cada palavra, com grafias diferentes para o mesmo fonema a depender de sua realização, a exemplo do fonema /m/ que apresenta duas grafias, ⟨m⟩ e ⟨mb⟩.[52]
| Grafia | Fonema | Fone | Aproximações |
|---|---|---|---|
| ⟨p⟩ | /p/ | [p] | pular |
| ⟨t⟩ | /t/ | [t] | tocar |
| ⟨k⟩ | /k/ | [k] | cair |
| ⟨ku⟩ | /kʷ/ | [kʷ] | quando |
| ⟨m⟩ | /m/ | [m] | mês |
| ⟨mb⟩ | [ᵐb] | lombo | |
| ⟨n⟩ | /n/ | [n] | não |
| ⟨nd⟩ | [ⁿd] | andar | |
| ⟨nh⟩ | /ɲ/ | [ɲ] | ninho |
| ⟨j⟩ | [dʒ] | dia (no sotaque carioca) | |
| ⟨ng⟩ | /ŋ/ | [ŋ] | long (no inglês) |
| ⟨ng⟩ | [ᵑɡ] | manga | |
| ⟨gu⟩ ou ⟨ngu⟩ | /ŋʷ/ | [ŋʷ] | long way (no inglês) |
| ⟨gu⟩ | [ɡʷ] | unguento | |
| ⟨x⟩ | /ts/ | [ts] | pizza |
| ⟨x⟩ | [tʃ] | tchau | |
| ⟨g⟩ | /g/ | [g] | logo |
| ⟨v⟩ | /β/ | [β] ~ [v] ~ [w] | vela/woman (no inglês) |
| ⟨r⟩ | /ɾ/ | [ɾ] | agora |
| ⟨i⟩ | /j/ | [j] | oi |
| ⟨u⟩ | /w/ | [w] | ou |
| ⟨'⟩ | /ʔ/ | [ʔ] | arco-íris (na fala devagar) |
| ⟨h⟩ | /h/ | [h] | rua (no sotaque baiano) |
| ⟨a⟩ | /a/ | [a] | pá |
| ⟨ã⟩ | /ã/ | [ã] | manhã |
| ⟨e⟩ | /ɛ/ | [ɛ] | pé |
| ⟨ẽ⟩ | /ɛ̃/ | [ɛ̃] | quem |
| ⟨i⟩ | /i/ | [i] | grilo |
| ⟨ĩ⟩ | /ĩ/ | [ĩ] | brincar |
| ⟨y⟩ | /ɨ/ | [ɨ] | parte (no português europeu) |
| ⟨ỹ⟩ | /ɨ̃/ | [ɨ̃] | mamãe |
| ⟨u⟩ | /u/ | [u] | cru |
| ⟨ũ⟩ | /ũ/ | [ũ] | unha |
| ⟨o⟩ | /o/ | [o] ~ [ɔ] | avô/avó |
| ⟨õ⟩ | /õ/ | [õ] ~ [ɔ̃] | champ (no francês) |
Acento tônico e nasalidade
[editar | editar código]Em virtude da tonicidade ser, usualmente, oxítona, marca-se a sílaba tônica somente quando o termo em questão desvia do padrão, empregando o acento agudo ⟨´⟩. Por exemplo, a palavra oxítona mbya [mbɨ.ˈa], "gente'', não recebe acento, enquanto os termos ára [ˈa.ɾa], "dia", e kóropi [ˈkɔ.ɾo.pi], "por aqui", recebem acento tônico, por serem paroxítona e proparoxítona, respectivamente. A única exceção é o termo paroxítono kuery [ˈkʷɛ.ɾɨ], "conjunto de animais ou pessoas", cuja grafia sem marcação tônica foi convencionada, visto que kuery é uma palavra de uso recorrente na língua.[56]
A marcação da nasalidade é relativamente complexa, ocorrendo somente em casos restritos, com o caráter nasal das sílabas sendo, muitas vezes, inferido pela grafia da palavra, sem a necessidade de marcação distinta. O sinal diacrítico til ⟨~⟩ é empregado somente para marcar a última vogal nasal de uma palavra, uma vez que, pela harmonia nasal regressiva, infere-se que as vogais que a precedem também são nasais. Por exemplo, em oinupã [õ.ĩ.nũ.ˈpã], "bateu nele", somente a última sílaba recebe o til. [57]
No caso de nasalização motivada por consoantes nasais ou pré-nasalizadas, não é necessário marcar a nasalidade regressiva, que pode ser inferida pela presença dessas consoantes. Em omombo [õ.mõ.ˈᵐbɔ], "jogou-o", o til não é empregado, visto que a nasalidade pode ser inferida pela consoante ⟨mb⟩. A vogal que sucede uma consoante nasal também nunca é marcada com o til, pois ela é, necessariamente, uma vogal nasal. Por exemplo, em omano [õ.mã.ˈnɔ̃], "morreu", o til não é empregado, visto que a nasalidade da vogal [ɔ̃] pode ser inferida pela presença da consoante ⟨n⟩.[57]
Gramática
[editar | editar código]Sentença
[editar | editar código]A ordem dos constituintes padrão no guarani mbyá é a ordem sujeito-verbo-objeto (ou SVO), a qual é pragmaticamente neutra, isso é, não enfatiza nenhum dos sintagmas da sentença. No entanto, a ordem dos constituintes na língua é bastante variável, com os sintagmas podendo assumir diferentes ordens a depender do termo que o falante deseja enfatizar, com todas as seis ordens possíveis dos constiuíntes sendo válidas na língua (SVO, SOV, VSO, VOS, OSV e OVS).[58][59]
A variação de ordem dos sintagmas é parte integrante da construção das estruturas de foco da língua. As duas principais estruturas de foco do guarani mbyá são a tópico-comentário, em que indica-se o assunto e depois comenta-se sobre dele, sendo a estrutura de foco "padrão", e a estrutura foco-pressuposto, em que um sintagma em foco é sucedido por um pressuposto acerca dele. Em todas as estruturas, prevalece a ordem tema-rema, mesmo que a ordem dos constituintes se altere. A ordem tema-rema pode ser vista nos exemplos a seguir, que incluem uma tradução do "foco" do guarani mbyá para o português:[58]
- Sujeito em foco: poryko ae oẽ va'ekue, "foi o porco mesmo que saiu";
- Predicação em foco: oẽ ete poryko, "o porco saiu mesmo";
- Objeto em foco: poryko ae amombe'u, "é sobre o porco mesmo que estou contando".[58]
Alinhamento morfossintático
[editar | editar código]O guarani mbyá apresenta, ainda, um sistema de alinhamento morfossintático complexo, com fenômenos de três sistemas ocorrendo em alguma medida na língua. O alinhamento mais utilizado (e entendido como "padrão") é o alinhamento nominativo-acusativo, em que o sujeito de verbo intransitivo e o sujeito de verbo transitivo não são marcados usualmente, havendo marcação distinta para o objeto (acusativo) em alguns casos, por meio do prefixo embi- (ou emi-, antes de radicais nasais) ou do sufixo -py.[60]
Existem também estruturas que sugerem a existência parcial do sistema ergativo-absolutivo, ou a existência completa desse sistema em um período anterior. Exemplos são a formação de nomes deverbais (nomes formados a partir de verbos), que são marcados somente para sujeitos de verbos transitivos (por meio do sufixo -a, ergativo), e algumas estruturas que recebem marcações idênticas para sujeitos de verbos intransitivos e objetos, como as estruturas com o intensificador avei ou com o verbo suplementar -kuapy, "agir todos juntos", absolutivas.[60]
Ainda, os paradigmas de flexão (ou séries de marcadores de pessoa e número) podem ser analisados como estruturas de um sistema ativo-inativo parcial, com a série 1 (ou flexão a-) correspondendo ao ativo, e a série 2 (ou flexão xe-) correspondendo ao inativo.[60]
Flexibilidade de função sintática
[editar | editar código]No guarani mbyá, grande parte dos radicais ocorrem em múltiplas funções sintáticas, as quais são empregadas a depender do significado exato que o falante deseja transmitir. Esses significados podem ser divididos em três grandes grupos (ou "funções comunicativas básicas"): referência, compreendendo usualmente nomes; predicação, compreendendo usualmente verbos; e modificação, compreendendo uma série de classes lexicais, como adjetivos, no caso da modificação de um nome, e advérbios, no caso da modificação de um verbo.[61]
Assim, o mesmo radical pode assumir diferentes classes gramaticais e funções sintáticas, a depender da função comunicativa básica que o falante deseja empregar. O radical para, relacionado ao conceito de "enfeite", por exemplo, apresenta diferentes funções a depender do significado exato desejado:[62]
- Referência: em guyrapa para, "o trançado do arco", para assume o significado "(o) trançado".
- Predicação: em guyrapa iparapa ma, "o arco já está completamente enfeitado", para assume o significado "estar enfeitado".
- Modificação: em kuaxia para, "papel enfeitado", para assume o significado "enfeitado".[62]

Bastões de comando guarani mbyá, expostos pela Fundação Cartier, em Paris.
Relacionalidade, posse e flexão relacional
[editar | editar código]A variação de função sintática ocorre frequentemente como resultado da "relacionalidade" do termo em questão, isto é, a necessidade do radical de estar relacionado a um argumento. Por exemplo, enquanto predicações relacionais, como "comer" ou "estar enfeitado" requerem um sujeito, existem também predicações não-relacionais, que não requerem sujeito, como verbos relativos a fenômenos da natureza. Essas predicações não-relacionais são formadas usualmente a partir da mudança de função sintática de um nome para a função predicativa, como em oky, "chuva", que é usado também para o verbo "chover".[63]
Do mesmo modo, os nomes também variam entre relacionais e não-relacionais, sendo frequentemente flexionados com o prefixo relacional r- para indicar a relacionalidade do nome. No entanto, isso não ocorre sempre, havendo muitos nomes relacionais que não recebem o prefixo relacional. Ainda, essa relacionalidade pode ser entendida, por vezes, como um signficado de posse, com a relacionalidade indicando ora que dois radicais estão relacionados, ora que um radical possui o outro, como no exemplo que segue:[63][64]
- tape rupi (caminho REL-pelo) "pelo caminho"
- xero (1SG-REL-casa) "minha casa"[64]
Enquanto o prefixo relacional foi usado na primeira situação para indicar a relação entre "pelo" e "caminho", na segunda ele foi usado para indicar a posse da primeira pessoa do singular sobre a "casa". Essa variação entre relação e posse pode ser vista, ainda, em uma única locução, que pode assumir sentido ora relacional, ora possessivo, como em xepuku (1S-altura/alto), que não recebe o prefixo r-, podendo significar tanto "sou alto" como "minha altura", variando de significado e de função sintática a depender do seu uso pelo falante. Assim, a relacionalidade é parte fundamental na construção das formações predicativas, que ocorrem a partir da flexão relacional, não existindo verbos de ligação que relacionem nomes a predicativos (ou características).[64]
Marcação de pessoa e número
[editar | editar código]Pronomes pessoais
[editar | editar código]Os pronomes pessoais no guarani mbyá são livres, isso é, não são afixados a um predicado. Além disso, o guarani mbyá é uma língua pro-drop, em que os pronomes pessoais são frequentemente omitidos na maioria dos casos, devido à existência de prefixos de marcação de pessoa e número. No guarani mbyá, é feita a distinção entre a primeira pessoa do plural inclusiva, a qual inclui o interlocutor, e a primeira pessoa do plural exclusiva, a qual não inclui o interlocutor, havendo pronomes pessoais distintos para os dois casos.[65]
| Pessoa e número | Pronome |
|---|---|
| 1a pessoa do singular | xee |
| 2a pessoa do singular | ndee |
| 3a pessoa do singular | ha'e |
| 1a pessoa do plural (inclusiva) | nhande (kuery) |
| 1a pessoa do plural (exclusiva) | ore (kuery) |
| 2a pessoa do plural | pende (kuery) |
| 3a pessoa do plural | ha'e kuery |
O termo kuery, um marcador de coletivo, além de ser empregado para indicar a terceira pessoa do plural, pode ser empregado também com os outros pronomes plurais. Nesses casos, indica geralmente um grupo de pessoas que vai além dos interlocutores do enunciado, isto é, que não está "participando" do diálogo em questão.[66]
Prefixos de marcação
[editar | editar código]No guarani mbyá, além dos pronomes, há diferentes séries (ou flexões) de morfemas prefixais marcadores de pessoa e número gramatical nos verbos. Esses marcadores podem indicar tanto relações de posse como conjugações (ou concordâncias) entre o sujeito e o verbo, a depender da série do marcador e da função sintática do radical. Não há diferença entre a marcação da terceira pessoa do singular e da terceira pessoa do plural em nenhuma das séries. Ainda, de forma semelhante aos pronomes, há prefixos de marcação diferentes para o "nós inclusivo" e o "nós exclusivo".[64]
As séries de marcadores são divididas em série 1 (ou flexão a-) e série 2 (ou flexão xe-), que por sua vez é distinta entre o grupos dos radicais que recebem o prefixo relacional r- (classe I) e o grupo daqueles que não o recebem (classe II). Os pronomes pessoais do guarani mbyá correspondem em sua maioria aos prefixos de marcação da série 2 (sofrendo inclusive do processo de geminação vocálica, em alguns casos), a exemplo de xee, "eu", forma semelhante ao marcador xe-.[64][67]
| Pessoa e número | Série 1 (flexão a-) | Série 2 (flexão xe-) | Pronomes equivalentes | ||
|---|---|---|---|---|---|
| Classe I | Classe II | ||||
| 1a pessoa do singular | a- | xe- | xe- | xee | |
| 2a pessoa do singular | re- ~ ere- | nde- (ou ne-) | nde- (ou ne-) | ndee | |
| 3a pessoa do singular | o- | i- ~ ij- (ou inh-) | h- | ha'e | |
| 1a pessoa do plural | inclusiva | ja- (ou nha-) | nhande- (ou nhane-) | nhande- (ou nhane-) | nhande |
| exclusiva | ro- ~ oro- | ore- | ore- | ore | |
| 2a pessoa do plural | pe- | pende- (ou pene-) | pende- (ou pene-) | pende | |
| 3a pessoa do plural | o- | i- ~ ij- (ou inh-) | h- | ha'e | |
Os marcadores re- e ro- apresentam, respectivamente, as variantes ere- e oro-, que ocorrem em variação livre. Ademais, o marcador i- apresenta a forma ij-, que ocorre antes de consoantes.[68] Ainda, parte significativa das consoantes varia a depender da nasalidade do termo anterior, com a variação entre alofones de consoantes nasais e plosivas. Por exemplo, a variação entre ja- e nha- é fruto da alofonia entre [dʒ] e [ɲ], com o primeiro ocorrendo antes de uma sílaba não nasalizada, e o segundo ocorrendo antes de uma sílaba nasalizada.[67]
A série 1 (ou flexão a-, chamada assim devido ao primeiro marcador da série) ocorre usualmente com lexemas que marcam ações ou processos, como em aguata, "eu caminhei", compreendendo os verbos usualmente chamados de verbos de ação, usualmente transitivos. A série 2 (ou flexão xe-) compreende uma variedade maior de funções sintáticas, incluindo objetos e seres diversos. Pode ser usada para marcar posses, como em xepo, "minha mão"; relações entre nomes e adjetivos, como em kunha ipuku, "a mulher alta"; ou, ainda, para indicar nomes em função predicativa, como em kunha ipuku, que pode ser entendido também como "a mulher é alta".[64]
| Função sintática | Série empregada |
|---|---|
| Sujeito de verbo transitivo direto | Série 1 |
| Sujeito de verbo intransitivo ou transitivo indireto | Série 1 ou série 2 |
| Objeto direto | Série 2 |
| Nome relacional flexionável | Série 2 |
| Posposição flexionável | Série 2 |
A diferença entre as séries pode, ainda, ser entendida como uma divisão entre relações de pertencimento e relações de não-pertencimento. Enquanto a série 1 compreende processos e ações, nas quais não há valor semântico de pertencimento, a série 2 compreende posses (que possuem valor de pertencimento intrínseco), além de estados e qualidades, que podem ser também relacionados ao pertencimento.[64]
Conjugação de tempo, aspecto e modalidade
[editar | editar código]A construção da temporalidade das predicações do guarani mbyá é construída por meio da adição de afixos e partículas aos predicados verbais, que marcam aspecto e modalidade verbais, não existindo marcadores específicos para a conjugação de tempo verbal. Desse modo, a temporalidade de um evento é transmitida pelo falante por meio da articulação de conceitos como "estado", "evento" e "processo", com ênfase significativa em fatores como a completude de uma situação e a distinção entre eventos realizados e não-realizados.[69]
A ideia cronológica de "tempo", ao invés de ser construída por uma construção morfológica explícita (como ocorre com várias línguas indo-europeias), pode ser entendida como realizada na interseção entre as marcações de aspecto e de modalidade e a ideia de cronologia. Assim, os marcadores de aspecto podem ser analisados como marcadores de "tempo e aspecto", e os marcadores de modo podem ser analisados como marcadores de "tempo e modo".[69]
Aspecto verbal
[editar | editar código]Há uma série de marcadores aspectuais no guarani mbyá, os quais indicam conceitos como progressividade, permansividade e estatividade. O guarani mbyá possui, ao todo, 11 marcadores de aspecto, os quais são divididos em quatro focos aspectuais principais: o foco processual, o foco de completude, o foco de pluralidade e o foco estativo.[70]
| Foco aspectual | Marcador | Aspecto |
|---|---|---|
| Processual | wy | progressivo |
| iny | permansivo/continuativo | |
| Completude | -pa/-mba | completivo |
| teri | incompletivo | |
| Pluralidade | -ju | repetitivo |
| jepi | frequentativo | |
| -we | aditivo | |
| reduplicação | ação plural | |
| Estativo | -iny | estativo [+dinâmico] |
| -iko | estativo [+dinâmico] (somente sujeitos animados) | |
| -ĩ | estativo [-dinâmico] |
Foco processual
[editar | editar código]O foco processual destaca o desenvolvimento de uma ação e a sua estabilidade temporal, ocorrendo de duas formas no guarani mbyá: o aspecto progressivo e o aspecto permansivo (ou continuativo), ambos os quais são marcados por partículas que sucedem os predicados que modificam. O aspecto progressivo, marcado pela partícula wy, indica um processo, evento ou estado temporalmente estável. O aspecto permansivo, marcado por iny, possui semântica similar, mas marca especificamente o intervalo temporal contínuo em que ocorre tal evento ou processo. Quando adicionado a predicações nominais, iny contribui com a ideia de um atributo estável, raramente alterado.[71]
Foco de completude
[editar | editar código]O foco de completude abrange duas marcações aspectuais opostas: o aspecto completivo, marcado pelo sufixo -pa (ou -mba), e o aspecto incompletivo, marcado pela partícula teri, posposta ao verbo. O aspecto completivo marca um evento ou processo como completado em sua totalidade, correspondendo a uma ideia realizada. O aspecto incompletivo marca que o evento ou processo em questão está em andamento, sem ter ainda atingido o fim. O incompletivo se aproxima dos aspectos progressivo e permansivo ao transmitir a ideia de ação em curso, mas se diferencia deles ao não carregar necessariamente a ideia de estabilidade temporal.[72]
Foco de pluralidade
[editar | editar código]O foco de pluralidade compreende aspectos relacionados a uma ação frequente ou repetida, mesmo que instável ou inconstante, compreendendo quatro aspectos: o aspecto repetitivo, o aspecto frequentativo, o aspecto aditivo e o aspecto de ação plural.[73]
O aspecto repetitivo, marcado pelo sufixo -dju, e o aspecto frequentativo, marcado pela partícula posposta djepĩ, são mutuamente exclusivos, não podendo ocorrer ao mesmo tempo. Enquanto o aspecto repetitivo carrega uma ideia de um evento que ocorre repetidamente com certa constância, o aspecto frequentativo carrega um ideia de um processo que ocorre frequentemente, mas sem constância ou repetitividade previsível.[73]
O aspecto aditivo, marcado pelo sufixo -we, indica que um processo ou evento é a extensão de outro processo ou evento distinto, isso é, uma "adição" à ação anterior. Pode assumir, também, a ideia de não adição (como em "não falar mais" ou "não responder mais"), se receber um marcador de negação. O aspecto de ação plural indica que uma ação ocorre múltiplas vezes, sendo realizada por um coletivo (ou uma pluralidade). É marcado por meio da reduplicação do radical do verbo, como no exemplo a seguir:[73]
- owãe wy je oxĩupiupi okuapy
- Todos os netos chegaram, contam, com seus narizes levantados (farejando).[73]
Nesse enunciado, o radical upi, "levantar", foi reduplicado para indicar a pluralidade da ação, que foi realizada múltiplas vezes (por "todos os netos").[73]
Foco estativo
[editar | editar código]O foco estativo apresenta três aspectos: o estativo não-dinâmico, marcado com o sufixo -ĩ, o estativo dinâmico com o sufixo -iny (ou estativo dinâmico 1) e o estativo dinâmico com o sufixo -iko (ou estativo dinâmico 2). O marcador estativo não-dinâmico é empregado tanto com predicações referentes a seres animados como inanimados, e indica que o estado em questão é estático durante o espaço temporal marcado pela predicação.[74]
Ambos os marcadores estativos dinâmicos qualificam a temporalidade de um estado como dinâmica, marcando que o estado em questão é processual e iterativo, ao invés de estático, durante o espaço temporal demarcado pela predicação. Entretanto, os marcadores estativos dinâmicos diferem quanto ao uso: o sufixo -iko só pode ser usado em predicações referentes a seres animados, diferentemente do sufixo -iny, que pode ser usado em quaisquer casos. O sufixo -iko pode, ainda, co-ocorrer com a partícula aspectual progressiva wy, sem mudança significativa de sentido.[74]
Modalidade verbal
[editar | editar código]O guarani mbyá apresenta 10 marcadores de "modalidade", a qual pode ser entendida como a articulação entre os conceitos de modo verbal e de evidencialidade. Há três grandes modalidades, que englobam as modalidades marcadas no guarani mbyá: deôntica, empatica e epistêmica. A língua apresenta, ainda, o modo indicativo, que não é marcado por nenhuma partícula. [75]
As modalidades deôntica e empática podem ser entendidas como próximas aos modos irrealis, enquanto a modalidade epistêmica possui característica diferente, visto que informa a fonte da informação declarada pelo falante, se aproximando de marcadores de evidencialidade.[75]
| Modalidade | Marcador | Ideia expressada | ||
|---|---|---|---|---|
| Deôntica | permissiva | ta- | permissão, conselho ou obrigatoriedade | |
| projetiva | rã | previsão futura ou hipótese | ||
| potencial | ta | potencialidade de realização de um evento | ||
| Empática | desiderativa | ke | desejo ou objetivo | |
| Epistêmica | reportiva | dje | fato oriundo de conhecimento coletivo | |
| de evidência sonora | aipo | fato ouvido pelo falante | ||
| atestada pelo falante | recentemente | kuri | informação obtida recentemente pelo falante | |
| remotamente | karamboae | informação obtida remotamente pelo falante | ||
| atestada por outro | recentemente | ra'e | informação obtida recentemente por outrém | |
| remotamente | araka'e | informação obtida remotamente por outrém | ||
Todos os marcadores precedem as predicações a que se referem, e todos são partículas livres, exceto a modalidade deôntica permissiva, que é marcada pelo uso do prefixo ta-.[75]
Negação verbal e nominal
[editar | editar código]A negação no guarani mbyá é complexa, podendo ser formada de múltiplas formas a depender do contexto. A forma de negação mais comum, chamada de negação afixal, ocorre por meio do circunfixo de negação nda-...-i (ou na-...-i, no caso de um radical nasal), o qual é empregado com predicações no modo indicativo, ocorrendo inclusive em predicações complexas, com mais de uma palavra. Nesses casos, o a parte prefixal do circunfixo (nda-) é adicionada à primeira palavra da predicação, e a parte sufixal (i-) é adicionada à última palavra.[76]
A parte prefixal do circumfixo apresenta também as variações j- (ou nh-) e nd- (ou n-), que ocorrem antes da vogal /i/ e antes das demais vogais, respectivamente.[76]
| Variante | Ocorrência | Tipo de vogal | Exemplo | Significado |
|---|---|---|---|---|
| nda-...-i | antes de consoante | oral | ndaetai | "não são muitos" |
| na-...-i | nasal | na'iporãi | "não é bom" | |
| j-...-i | antes da vogal /i/ | oral | jijayvuvei | "não falou mais" |
| nh-...-i | nasal | nhinhakã porãi | "não tem cabeça boa" | |
| nd-...-i | antes das demais vogais | oral | nda'evei | "não dá", "é impossível" |
| n-...-i | nasal | nonhavei | "não correu mais (depois de cair)" |
A negação verbal nos outros modos verbais ocorre pelo uso da partícula de negação eme, que sucede a predicação em questão. Ainda, a negação de termos não-predicadores (isso é, sujeitos, objetos e orações adverbiais) ocorre por meio da partícula de negação e'ỹ, que sucede o termo em questão. A partícula e'ỹ também ocorre com formações predicativas (que atribuem características a um sujeito), podendo ocorrer com nomes relacionais, nomes não-relacionais, pronomes ou nominalizações.[76] Exemplos são:
- Nome relacional: peva'e ma xera'y e'ỹ, "aquele que não é um filho meu".
- Nome não-relacional: peva'e ma oky e'ỹ, "aquilo não é a chuva".
- Pronome: peva'e ma ha'e e'ỹ, "aquilo não é ele".
- Nominalização: ha'e va'e mboapy ma ijypy va'ekue e'ỹ, "aqueles três não foram os primeiros".[76]
Vocabulário
[editar | editar código]Termos de parentesco
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Os termos de parentesco no guarani mbyá são bastante complexos, existindo diferentes termos a depender da geração, do gênero e da idade (no caso de parentes da mesma geração) do parente. Para os termos de parentes da mesma geração ou de gerações ascendentes, há também diferenças nos termos de parentesco baseadas no gênero do falante (chamado de "ego").[78]
Notavelmente, para referir-se a primos, os mbyá empregam os mesmos termos que para irmãos, seguindo as diferenças de ego, gênero do parente e idade do parente. O ego feminino emprega, ainda, o termo para "filha", xememby, para referir aos filhos e filhas de uma irmã, mas emprega o termo xepẽ para referir aos filhos e filhas de um irmão. Outra distinção notável é a distinção feita por egos masculinos entre xerembirenko, "minha esposa (sem filhos), minha namorada" e xera'y xy, "minha esposa (com filhos)". Seguem alguns dos principais termos de parentesco no guarani mbyá, flexionados na primeira pessoa do singular (flexão xe-):[78]
| Parentesco | Ego feminino | Ego masculino | |
|---|---|---|---|
| 2a geração ascendente | meu avô | xeramõi | |
| minha avó | xeraryi | ||
| irmão do meu avô/avó | xeramõi'ĩ | ||
| irmã do meu avô/avó | xeraryi'i | ||
| 1a geração ascendente | meu pai | xeru | |
| minha mãe | xexy ou ha'i | ||
| meu tio paterno | xeruvy'i | ||
| minha tia paterna | xejaixe | ||
| meu tio materno | xetuty | ||
| minha tia materna | xexy'y | ||
| Geração do falante | meu cônjuge (sem filhos) | xeme | xerembireko |
| meu cônjuge (com filhos) | xera'y xy | ||
| meu irmão mais velho | xekyvy tuja | xeryke'y | |
| meu irmão mais novo | xekyvy kurĩ | xeryvy | |
| minha irmã mais velha | xeryke | xereindy guainguĩ | |
| minha irmã mais nova | xekypy'y | xereindy kyrĩ | |
| 1a geração descendente | meu filho | xepi'a | xera'y |
| minha filha | xememby | xerajy | |
| 2a geração descendente | meu neto | xeremiarirõ | xeramyminõ |
| minha neta | |||
Cânticos religiosos
[editar | editar código]A religiosidade guarani é frequentemente expressada por meio da musicalidade, com instruções sobre a vida e a educação religiosa sendo recorrentes nos hinos e músicas mbyá. A seguir, parte de um hino mbyá que aborda o Tekó guarani (presente no texto como reko, devido ao prefixo relacional r-, e traduzido como "comportamento") e trechos do cântico religioso Orema Rorejure Araguyje ve'i ma, "Nós rezamos durante vários anos", do CD Ñande Arandu Pygua, do grupo musical Takuá Verá:[79]
| Guarani mbyá | Português |
|---|---|
| Aipóke, Ore Ru Tenondegua
ndee rangẽgatúma ore reko kuaaa tenondei i [...] Ndee rangẽgatúma, Karai Ru etérã i, re'ãramo a'e va'ere ima'endu'a porãngue i ropyta i va'e roãme a'évare ore, yvýpy ropyta va'e taore py'a guachu torãme |
Oh, nosso primeiro pai!
Foi você quem concebeu normas para o nosso comportamento antes do começo [...] Por você ter sido o primeiro, Pai excelso dos Karaí, a erguer-se, a nós, que lembramos de ti erguidos; por isso, para aqueles de nós que permanecem erguidos na terra, faz com que nos ergamos com grandeza de coração. |
| Guarani mbyá | Português |
|---|---|
| Orema rorejure
Peteĩ, mokõi, mboapy Araguyje ve'y ma Jaje'oi joupive'i Jaguata javy Tape mirim rupy Xondaro'i, xondaria'i Neeĩ katu Jajopy kayu Jaxapukai Nhanderu ambare meme ngatu Pavẽ'i katu Jaguau javy Jaguau javy |
Nós rezamos durante
Um, dois, três Vários anos Vamos todos juntos Seguir Pelo caminho sagrado Guardiões, guardiãs Vamos De mãos dadas Elevamos nossa voz em direção à morada de nosso Pai Supremo Todos reunidos Cantando o canto sagrado Cantando o canto sagrado |
Diálogo entre um xondaro ruvixa e um jovem mbyá
[editar | editar código]O xondaro é uma dança tradicional guarani realizada com percussão rítmica, com instrumentos tradicionais como o mbaraka mirĩ (também conhecido como maracá) e o angu'apu. Tem importante valor cultural para os mbyá, contribuindo à ideia do "movimento" essencial para os guarani por meio da esquiva realizada durante a dança. O xondaro é composto por "desafios" como abaixar, pular ou esquivar-se lateralmente, apresentando traços de luta semelhantes a outras danças rítmicas, como a capoeira angola. Ainda, existe a posição do xondaro ruvixa, um ancião que orienta os dançarinos, servindo como mentor para os jovens e como participante importante da dança. A seguir, um diálogo entre um xondaro ruvixa e um jovem mbyá que indagava sobre o xondaro:[80]
| Falante | Guarani mbyá | Português |
|---|---|---|
| Jovem mbyá | — Havy merami mbyte py reno'e petei xondaro, ha'e va'e py reikuaa nhia'ã mba'exa pa rea'ã, peixa,mba'exa reiko xy nandejoui rã? Ha'ei'i rupi reiko rã tarã mombyry rupi reikorã pa nandejoui rã? Mba'exa tu jajeavyukakuaave? | — Quando você chama um xondaro[nota 6] para o centro da roda, nesse momento você sabe como testá-lo para que ele não te atinja? Você tem que ficar perto ou longe para que ele não te atinja? Como você faz para conseguir esquivar mais? |
| Xondaro ruvixa | — Ha'e py xe aikuaa ramo peixa mbyte reno'e ha'egui ma rembojaru-jaru'i reiko vy ma, xee aikuaa ramo nhande jeroky ete'i py peixa reiko vy reomanhã aguã rami e'ỹ py reiko rã. Aỹ'i pa xee heta'i mavi aexa nhaneirũ'i kuery itangara'i va'e kuery joguereko vy nda'evei avi peixa remonhã ratã aguã peixa aiko-iko aiko vy ambojaru-jaru'i aiko vy vy py peixa ojei porã'i aguã rami teko xee aiko ha'e va'e py ha'evea rami ajapo. Ha'e rami rive ju gua'u xee aikuaa. | — Quando você chama alguém no centro para desafiar, o que sei é que no nosso modo de dança você não pode ficar empurrando, não deve fazer dessa maneira. Até agora eu já vi muita coisa entre nossos companheiros na hora da dança, não pode ficar empurrando com agressividade, por isso quando eu danço não faço para derrubar de verdade, faço de maneira que eles consigam se desviar, pelo menos no meu conhecimento é assim. |
| Jovem mbyá | — Havy peixa nera'ãa ramo, nembojarua ramo, mba'exa nha mombyry rei nhea'ã reiko nera'ãa rã tarã hexeverei reiko rã nandejoui rã? | — E quando alguém te desafia, como você faz, você fica longe ou fica mais perto dele para não ser atingido no momento em que é desafiado? |
| Xondaro ruvixa | — Ha'e v'e ndee peixa nera'ã va'e oiko rã ja hexeverei ma avi reiko rã, renhentende rã py ou rã varã rejei aguã pono ndejou, ha'e ndee rã ha'e py rejeprocura'i reiko vy renhemboveveui ha'e rami pono ndejou. | — Se alguém te desafia, no momento dessa prova, você deve ficar perto dele, porque você deve entender isso para conseguir desviar e não ser atingido e nisso você deve buscar em si a leveza para dessa forma não ser atingido. |
| Jovem mbyá | — Xevy pe omombe'ua kará nembojarua ramo hexeverei reiko ramo nandejouetei, ha'e rã peixa rejeavy uka vy, mombyry'i reo rã katu, ndejou pojavave, he'i xevy pe. | — Contaram para mim que, se alguém te chamar para desafiar, se você ficar perto dele, é mais difícil para ele te atingir, agora se você se afastar muito para se esquivar, você será atingido mais rapidamente. |
| Xondaro ruvixa | — Ha'e rami ae tu'avy. | — É assim mesmo. |
Notas
- ↑ Soma das populações guarani mbyá registradas nos censos demográficos mais recentes (2022) no Brasil, no Paraguai e na Argentina. A saber:
- ↑ Terminologia derivada de guara, palavra guarani que significa "parcialidade, grupo, bando".
- ↑ Existem, ainda, os nhandewa, um subgrupo da parcialidade nhandeva que vive em regiões próximas aos mbyá e apresenta também a africada [tʃ], ao invés da fricativa.
- ↑ Segundo a interpretação de Dooley do inventário consonantal do guarani mbyá.
- ↑ Ortografia criada a partir da interpretação de Dooley do inventário fonético do guarani mbyá. Portanto, alguns fones identificados por Ivo, como [ɦ], não estão incluídos.
- ↑ A palavra xondaro refere-se tanto à dança como aos dançarinos.
Referências
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