Lúcio Júnio Bruto
| Lúcio Júnio Bruto | |
|---|---|
| Cônsul da República Romana | |
| Busto nos Museus Capitolinos tradicionalmente identificado como Bruto | |
| Consulado | 509 a.C. |
| Morte | 509 a.C.[1] |
Lúcio Júnio Bruto (em latim: Lucius Iunius Brutus) foi um dos quatro líderes da revolução que derrubou a monarquia romana[2] e um dos dois primeiros cônsules de Roma, em 509 a.C, juntamente com Lúcio Tarquínio Colatino[3].
Antes da fundação da República Romana, Roma era governada por reis. Bruto liderou a revolta que derrubou o último deles, Lúcio Tarquínio Soberbo, depois do estupro da nobre (e parente de Bruto) Lucrécia pelas mãos do príncipe Sexto Tarquínio. A história foi contada por Lívio em sua obra "Ab Urbe Condita" e trata-se de um período da história de Roma para o qual não sobreviveram registros históricos confiáveis, uma vez que virtualmente todos os registros foram destruídos pelos gauleses durante o saque de Roma por Breno em 390 ou 387 a.C. ou se perderam com o tempo.
Índice
Família[editar | editar código-fonte]
Seu pai era Marco Júnio (Marcus Iunius), descendente de um dos colonos que vieram com Eneias depois da Guerra de Troia, e sua mãe era Tarquínia, filha do quinto rei de Roma, Lúcio Tarquínio Prisco[4] e irmã do sétimo, Tarquínio Soberbo. É considerado um ancestral da gente Júnia, que incluía Bruto e Décimo Júnio Bruto, dois dos conspiradores responsáveis pelo assassinato de César em 44 a.C., o evento que desencadeou as guerras que acabaram com a República, e parente de Lucrécia, a nobre que foi estuprada pelo rei Sexto Tarquínio e o estopim da revolução.
Contexto[editar | editar código-fonte]
Durante o tempo dos Tarquínios, o reino estendera-se até atingir cerca de 800 km², e a cidade tinha uns 35 mil habitantes. As cidades latinas reconheciam a força do rei romano e eram-lhe servis. Contudo, o ambiente em Roma não era amigável para estes reis etruscos. Em anos anteriores os reis convidaram as famílias nobres da cidade para que o aconselhassem, numa reunião chamada senado. Quando faleceu Sérvio Túlio, o novo rei Tarquínio recusou convocar estes nobres, e estes ofenderam-se. Nesta época foi-lhe dado o apelido de Soberbo (Superbus).
Queda da monarquia romana[editar | editar código-fonte]
Segundo Lívio, Bruto tinha muitas reservas em relação ao seu tio rei, entre elas o fato de Tarquínio ter condenado à morte vários dos mais proeminentes romanos, incluindo seu irmão. Ele próprio evitou a desconfiança da família de Tarquínio fingindo ser lento no pensamento[5] (a palavra latina "brutus" significa "bronco")[6].
Ele acompanhou os filhos de Tarquínio numa visita ao Oráculo de Delfos. Eles perguntaram ao oráculo quem seria o próximo rei de Roma e receberam a resposta que seria a próxima pessoa a beijar "sua mãe". Bruto interpretou "mãe" como sendo a "Terra" e fingiu tropeçar para poder beijar o chão[7]. Bruto, juntamente com Espúrio Lucrécio Tricipitino, Públio Valério Publícola e Lúcio Tarquínio Colatino, foi convocado por Lucrécia a Collatia depois de ter sido estuprada por Sexto Tarquínio, o filho do rei. Lucrécia, acreditando que o crime desonrava a ela própria e a sua família, se matou esfaqueando a si própria com uma adaga depois de contar ao grupo o que havia acontecido. Segundo a lenda, Bruto, ao tirar a adaga do peito de Lucrécia depois de sua morte, imediatamente clamou pela queda dos Tarquínios[8].
Os quatro juntaram os jovens de Collatia e foram para Roma, onde Bruto, que era, na época, tribuno dos céleres (em latim: tribunus Celerum), convocou o povo até o Fórum Romano e exortou-os a se revoltar contra o rei. O povo votou pela deposição de Tarquínio e pelo banimento da família real[9]. Bruto, depois de deixar Lucrécio no comando da cidade, seguiu, acompanhado por homens armados, até o acampamento do exército romano que ficava em Ardea. O rei, que estava lá, soube dos eventos em Roma e deixou o acampamento para tentar chegar em Roma antes da chegada de Bruto. O exército recebeu Bruto como um herói e os filhos do rei foram expulsos. Soberbo, enquanto isso, não recebeu permissão para entrar em Roma e acabou fugindo com sua família para o exílio[10]
Juramento de Bruto[editar | editar código-fonte]
Segundo Lívio, o primeiro ato depois da expulsão de Soberbo foi juntar o povo para que fosse realizado um juramento coletivo no qual os cidadãos romanos jamais permitiriam que uma pessoa reinasse sobre Roma novamente[11].
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Este juramento foi, fundamentalmente, uma nova versão do "juramento privado" realizado pelos conspiradores[12].
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Não existe consenso acadêmico sobre a veracidade histórica deste juramento; ele é relatado, de forma diferente, por Plutarco ("Poplicola", 2) e Apiano (Guerras Civis 2.119). Porém, é inegável que o espírito presente no juramento inspirou os romanos em diversas ocasiões, incluindo Marco Júnio Bruto, seu descendente e um dos assassinos de César.
Consulado e morte[editar | editar código-fonte]
Bruto e o enlutado marido de Lucrécia, Lúcio Tarquínio Colatino, foram eleitos como os primeiros cônsules de Roma no mesmo ano, 509 a.C.. Bruto, porém, insistiu que Colatino renunciasse sob o pretexto de que ele era um Tarquínio e Roma não seria livre até a expulsão todos os Tarquínios. Colatino viu-se pressionado e renunciou, exilando-se na povoação latina de Lanúvio. Depois o senado decretou que todos os Tarquínios deviam exilar-se, e o povo escolheu Públio Valério Publícola amigo de Bruto, como novo cônsul. Aparentemente, ninguém reparou no fato de Bruto ser um parente mais próximo dos reis que o exilado Colatino (embora Bruto não portasse o nome Tarquínio). Depois do juramento, Bruto repôs o número de senadores para 300 escolhendo entre os mais proeminentes homens da ordem equestre. Os novos cônsules também criaram o novo cargo de rex sacrorum para realizar as tarefas religiosas que eram realizadas antes pelos reis[13].
Durante seu consulado, a família real tentou reconquistar o trono, primeiro enviando embaixadores numa tentativa de subverter alguns dos mais importantes cidadãos romanos, o que ficou conhecido como Conspiração Tarquiniana. Entre os conspiradores estavam dois irmãos da esposa de Bruto, Vitélia, e dois de seus filhos, Tito Júnio Bruto e Tibério Júnio Bruto. A conspiração foi descoberta e os cônsules determinaram a pena de morte aos envolvidos. Bruto ganhou muito respeito entre seus concidadãos pelo sua postura estóica ao assistir a execução de seus próprios filhos, mesmo tendo revelado sua tristeza durante o ato[14].
Tarquínio tentou novamente recuperar o trono logo depois da Batalha de Silva Arsia, liderado as forças da cidade etrusca de Tarquinia e de Veios . A cavalaria se juntou à batalha e os rebeldes, percebendo a presença de lictores, confirmaram que um cônsul estava presente. Logo depois, confirmaram que o próprio Bruto comandava o ataque. Bruto e Arruns Tarquínio, filho de Tarquínio Soberbo, que eram primos, atacaram um ao outro e se feriram mutuamente de morte com suas lanças. A infantaria logo entrou no combate, cujo resultado ficou incerto por algum tempo. A ala direita de cada um dos exércitos triunfou, com o exército de Tarquinia forçando o recuo dos romanos e os veios sendo completamente aniquilados. Porém, as forças etruscas acabaram fugindo do campo de batalha, entregando a vitória aos romanos[15].
O outro cônsul, Valério Publícola, depois de celebrar um triunfo pela vitória, realizou um magnífico funeral para Bruto. As nobres romanas vestiram o luto por um ano para relembrar a violação de Lucrécia[16]
Brutus in literature and art[editar | editar código-fonte]
Lúcio Júnio Bruto é citado na peça "Júlio César", de Shakespeare ("Cássio a Marco Bruto, ato 1, cena 2)[17]. Uma das principais acusações da facção senatorial que conspirou contra Júlio César depois que ele forçou o Senado Romano a declará-lo ditador perpétuo foi de que ele estaria tentando se fazer rei e um co-conspirador, Cássio, instigou Marco Júnio Bruto, um pretenso descendente de Lúcio Júnio Bruto, a se juntar à conspiração fazendo referência ao seu ancestral:
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Além disto, Lúcio aparece ainda em outra peça de Shakespeare, como personagem principal em "The Rape of Lucrece", e na tragédia da época da Restauração (1680) "Lucius Junius Brutus; Father of his Country", de Nathaniel Lee.
Bruto foi também um herói do republicanismo na época do Iluminismo e do neoclassicismo. Em 1789, às vésperas da Revolução Francesa, o pintor Jacques-Louis David exibiu uma obra de forte carga política, "Os Lictores Levando a Bruto os Corpos de seus Filhos", causando grande controvérsia[18].
Ver também[editar | editar código-fonte]
| Cônsul da República Romana |
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| Precedido por: Não existia |
Lúcio Júnio Bruto 509 a.C. com Lúcio Tarquínio Colatino |
Sucedido por: Públio Valério Publícola II com Tito Lucrécio Tricipitino |
Referências
- ↑ Matyszak, pp. 14, 43
- ↑ Eutrópio, Breviarium ab Urbe condita, I, 8.
- ↑ Eutrópio, Breviarium ab Urbe condita, I, 9.
- ↑ Dionísio de Halicarnasso, Das antiguidades romanas, IV, 68.1
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, I, 56
- ↑ «Lúcio Júnio Bruto» (em inglês). Livius.org.
- ↑ Davies, Norman ([1996]1998) Europe. New York NY, Harper Perennial ISBN 0-06-097468-0 pg. 113 (em inglês)
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, I, 58-59
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, I, 59
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, I, 59-60
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, II, 1.9.
- ↑ Lívio, Ab urbe condita I, 59.1.
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, II, 1-2
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, II 3-4
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, II 6-7
- ↑ Lívio, Ab urbe condita, II, 7
- ↑ Shakespeare. «Júlio César». Ebooks Brasil.
- ↑ Brookner, Anita (1980). Jacques-Louis David (em inglês) (New York: Harper & Row). p. 90. ISBN 0-06-430507-4.
Bibliografia[editar | editar código-fonte]
- Broughton, T. Robert S. (1951). The Magistrates Of The Roman Republic. Vol. 1: 509 B.C. - 100 B.C.. (em inglês) (Cleveland, Ohio: Case Western Reserve University Press).
- Bowder, Diana - "Quem foi quem na Roma Antiga", São Paulo, Art Editora/Círculo do Livro S/A,s/d
- (em alemão) Annette Simonis, Linda Simonis: Brutus (Lucius). In: Der Neue Pauly (DNP). Volume Suppl. 8, Metzler, Stuttgart 1996–2003, ISBN 3-476-01470-3, Pg. 187–192.
Ligações externas[editar | editar código-fonte]
- «Lúcio Júnio Bruto» (em inglês). Livius.org.
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