Lavre

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Portugal Lavre  
—  freguesia portuguesa extinta  —
Concelho primitivo Montemor-o-Novo
Extinção 28 de janeiro de 2013
Área
 - Total 116,40 km²
Orago Nossa Senhora da Assunção

Lavre é uma antiga freguesia portuguesa do concelho de Montemor-o-Novo na região Alentejo, com 116,40 km² de área e 740 habitantes (2011). A sua densidade populacional era 6,4 h/km².
Foi extinta (agregada) pela reorganização administrativa de 2012/2013,[1] sendo o seu território integrado na União de Freguesias de Cortiçadas de Lavre e Lavre.

Foi vila e sede de concelho entre 1304 e 1834. Era constituído pelas freguesias de Lavre e São Lourenço e tinha, em 1801, 1131 habitantes.

População[editar | editar código-fonte]

População da freguesia de Lavre [2]
1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 2011
1 224 1 249 1 540 1 896 2 469 3 081 3 720 4 393 5 156 4 949 3 791 3 571 919 887 740

Com lugares desta freguesia foi criada, pela Lei nº 63/88, de 23 de Maio, a freguesia de Cortiçadas

História[editar | editar código-fonte]

A região de Lavre é ocupada desde os primórdios da humanidade. No território que envolve a vila têm-se registado numerosos achados arqueológicos de diversos períodos; Paleolítico Inferior (atestado por artefactos líticos no leito e margens da ribeira de Lavre), Calcolítico, et aI., cujo levantamento e estudo sistemáticos urge encetar.

Na margem esquerda da ribeira de Lavre, junto à localidade, detectaram-se recentemente vestígios romanos que poderão apontar para a existência de uma villa no local. Apesar da tradição popular e literária aludir à existência de uma povoação muçulmana, denominada Lavar ou Lavay, onde hoje se ergue a vila de Lavre, faltam-nos dados concludentes que o comprovem. A mais antiga referência conhecida ao topónimo Lavar data de 1186. Na doação do Castelo de Palmela à Ordem de Santiago diz-se que os seus domínios chegavam «à foz de Lavar». Embora essa primeira alusão se refira à ribeira de Lavre e não propriamente à povoação homónima, pode inferir-se a existência da povoação já naquela data, dado o costume ancestral de designar os cursos de água com o mesmo nome da principal localidade por onde passam.

Em 1203, data da atribuição do primeiro foral a Montemor-o-Novo, as terras de Lavar surgem incluídas no termo daquela vila. Outras referências surgem em documentos do século XIII: as cimalias de Lavar extremavam em 1217 a herdade do bispo D. Soeiro. D. Afonso II doou uma herdade em Lavar ao seu falcoeiro Mendo Gomes, em 1220. O prior da igreja de São Pedro, de Coruche vendeu aos religiosos de Avis uma herdade em Lavar.

Numa carta de doação ao rei D. Dinis da herdade pertencente à Ordem de Avis, surge a primeira alusão conhecida à fortificação de Lavar: tal herdade situava-se «a par da Torre de Lavar» (provavelmente pertencente ao Castelo de Lavar a que aludiremos adiante), ainda existente no princípio do século XIII e provavelmente demolida pelo terramoto de 1755.

Pelo foral de D. Dinis, de 13 de fevereiro de 1304 constitui-se o concelho de Lavre, através da desanexação de terras do termo de Montemor. Nesse diploma, para além da habitual enumeração de deveres e privilégios dos moradores, procedeu-se a uma primeira delimitação territorial do novo concelho.

Lavre e o seu concelho terão permanecido na posse da Coroa até 1430, ano em que D. João I, porventura querendo reanimar o povoamento da região, fez doação do castelo de Lavar ao alemão Lambert de Horques, nomeando-o alcaide-mor da fortaleza, ao mesmo tempo que lhe atribuía a tutela de um vasto território que ultrapassava em muito os limites tradicionais do concelho, prolongando-se por terras hoje pertencentes aos concelhos de Coruche e Arraiolos. Foi efémera a presença dos povoadores germânicos nestas paragens, já que em 1437 o filho de Lamberto de Horques, João Lamberto, renunciou ao senhorio de Lavre.

Inicia-se em 1483 a ligação histórica entre a família Mascarenhas, futuros condes de Santa Cruz e marqueses de Gouveia, e a vila de Lavre. Nesse ano, fazendo jus à influência que detinha junto do rei D. João II, Fernão Martins de Mascarenhas acrescentou aos cargos de capitão de ginetes, alcaide-mor de Montemor e Alcácer do Sal e comendador de Mértola, o senhorio de Lavre. Os condes de Santa Cruz mantiveram a donataria de Lavre até 1759, ano em que, por alegado envolvimento no atentado contra a pessoa do rei, D. José de Mascarenhas (8.º duque de Aveiro, 5.º marquês de Gouveia, 8.º conde de Santa Cruz, 14.º senhor de Lavre e 14.° alcaide-mor de Montemor-o-Novo) é levado a julgamento, juntamente com os Távoras, no patíbulo de Belém. A partir daquela data a donataria de Lavre regressaria à Coroa.

Apesar de estar por fazer um levantamento sistemático da documentação histórica dos séculos XVI e XVII, relativa a Lavre e ao seu concelho, conhecem-se algumas referências que levam a concluir sobre um relativo crescimento da vila e seu termo até à primeira metade do século XVIII.

No Numeramento de 1527 a vila e seu termo teria aproximadamente 360 habitantes, dos quais 110 na sede. Das visitações ordenadas pelos cardeais-infantes D. Afonso e D. Henrique às igrejas de Lavre, respectivamente em 1534 e 1542, infere-se da existência de um assinalável património artístico-religioso nas duas paróquias do Concelho (Matriz da Vila e S. Lourenço no termo) já no século XVI.

Ainda no mesmo século e tirando partido das deslocações frequentes da corte entre o Alentejo e o Ribatejo e do comércio recoveiro que se fazia entre os portos do Tejo e Sorraia e o interior alentejano, terá sido construída a ponte sobre a ribeira de Lavre, cujas ruínas ainda hoje se observam a poucos quilómetros para sudeste da vila. Nos séculos XVII e XVIII novos edifícios engrandeceram Lavre: as ermidas de Santo António, S. Sebastião, S. Pedro e S. Miguel, a igreja e hospital da Misericórdia de Lavre, os Paços do Concelho e provavelmente a ermida de Santa Comba; de cuja estrutura nada resta à superfície. Em 1708, segundo o padre Carvalho da Costa, a vila tinha já cerca de 1000 habitantes, contando o seu termo cerca de 400. Ainda segundo aquele autor, a edificação mais vistosa da vila era a Torre do Relógio (quiçá a Torre de Lavar a que aludimos anteriormente), do cimo da qual se avistava Montemor.

Foi basicamente aquela a povoação que o terramoto de 1755 destruiu. Seguindo a Memória Paroquial, escrita pelo padre Matias Vieira Leitão em 1758, atesta-se a destruição provocada por aquele sismo nas igrejas e noutros edifícios de Lavre. Assim, exceptuando pequenos danos na igreja da Santa Casa da Misericórdia e nas ermidas de S. Sebastião e Santo António, quase todos os edifícios foram gravemente afectados.

A grande destruição provocada pelo terramoto 1755, terá contribuído decisivamente para o início de um declínio acentuado nas décadas seguintes. Em 1801 viviam na freguesia-sede 940 habitantes e no termo 161, o que traduz uma redução populacional em relação ao século anterior.

A ruína da Ponte da Ribeira em 1804 deverá ter sido nefasta para as comunicações da vila com as outras terras do Alentejo, principalmente quando as invernias não permitiam passar a vau a ribeira.

A situação de isolamento da vila terá levado provavelmente os vereadores do Concelho a pedirem ajuda ao poder central, uma vez que em 1806 foi expedida uma provisão do Desembargo do Paço em que se ordenava o concerto da referida ponte, a expensas de uma derrama a lançar sobre a população. Contudo, devido ao estado de guerra em que o Reino se viu envolvida a partir de 1807, jamais se procedeu a tal reconstrução.

O concelho de Lavre tinha uma área territorial que não seria desprezível em termos Comparativos: se considerarmos que a superfície média dos concelhos do Pais seria no final do Antigo Regime de 100 km², e a média dos concelhos do Alentejo e Algarve de 300 km², a sua área territorial suposta deveria rondar os 280 km². Apesar disso, a concelho de Lavre enfrentou sempre grandes dificuldades de subsistência.

Exceptuando o vale de Simarros, onde a horticultura era possível, os o1ivais que rodeavam a vila e algumas vinhas, a produção agrícola era escassa. As principais fontes de rendimento do Concelho provinham das sobras dos impostos, das rendas de pequenas herdades concelhias (que por vezes ficavam por arrematar), das coimas e licenças passadas a artesãos e comerciantes.

O abastecimento de cereais constituiu um problema ancestral da povoação, a que se procurou responder, quer por via de posturas concelhias extremamente rígidas quanto à saída de cereais e farinhas para fora, quer pela imposição regular de termos de fiança a padeiras, maquilões e moleiros (alguns das quais exercendo a sua actividade fora dos limites do Concelho).

As dificuldades de auto-sustentação da edilidade local, a par do declínio notório da localidade no princípio do século XIX, condenaram o concelho à extinção. Desse modo, no âmbito da reorganização administrativa do país decretada por Passos Manuel, é ordenada a 6 de novembro de 1836 a extinção do concelho de Lavre e a sua integração no concelho de Montemor-o-Novo.

Apesar da extinção do concelho e da sua constituição numa Junta de Paróquia, a paróquia de São Lourenço continua anexada a Lavre, pelo menos até 1850, ano em que é anexada à de São Geraldo e em que é lavrado o seu último assento de nascimento. Por uma nota de 1866 a vila e freguesia de Lavre, juntamente com metade da de São Lourenço anexa, contava cerca de 1130 habitantes.

Na segunda metade do século XIX, acompanhando o crescente interesse dos grandes proprietários pela cortiça e pela suinicultura, e a procura crescente de lenha para abastecer a indústria e os caminhos-de-ferro, assiste-se à substituição de extensos matagais por montados de sobro e azinho nas herdades da zona. Data dessa época o crescimento de uma outra localidade dentro da freguesia: Cortiçadas de Lavre, hoje freguesia autónoma.

A extracção de cortiça, mais do que as culturas agrícolas tradicionais, ou a plantação de arroz tomaram-se a principal fonte de rendimento de várias famílias de proprietários. Entre estes destacam-se as famílias Frade e Veiga, precursores na introdução de máquinas na agricultura, moagem e lagaragem da freguesia.

Entre as figuras principais de Lavre de finais do século XIX e da primeira metade do século XX, destacou-se mestre Simão Luís da Veiga, pintor da escola de Malhoa, cavaleiro tauromáquico e proprietário da Herdade do Pedrógão. Figura ainda hoje muito recordada pelos lavrenses mais velhos, pelas suas qualidades humanas, placidez e simplicidade, relacionava-se com a família real, tendo a vila assistido por diversas vezes à passagem de el-rei D. Carlos na sua companhia, com destino ao Pedrógão. Em 1949 seria a vez de o rei Humberto II de Itália e da princesa D. Maria Pia de Sabóia visitarem os campos de Lavre e a Herdade do Pedrógão. Exaltando a natural aficción das gentes de Lavre, destacou-se ainda o seu filho Simão da Veiga Júnior, considerado, a par de João Branco Núncio, o melhor cavaleiro tauromáquico da segunda metade do século XX, também ele muito acarinhado pelos lavrenses, pela sua participação em benfeitorias na povoação.

O escritor português, nobel da literatura, José Saramago, residiu algum tempo nesta vila alentejana, no final dos anos 70. A experiência por que passou aquando da sua estadia, serviu-lhe de inspiração para o romance Levantado do Chão, publicado em 1980

Lugares[editar | editar código-fonte]

  • Casal de São José
  • Courelas de Caneira
  • Courelas de Santa Comba
  • Herdade do Carrascal
  • Lavre
  • Moinho da Ponte
  • Moinho do Vale do Porco
  • Monte Chapelar
  • Monte da Caneira 1
  • Monte da Caneira 2
  • Monte da Cruz
  • Monte da Ladeira de Cima
  • Monte das Barrosas
  • Monte das Várzeas
  • Monte do Cantinho
  • Monte do Carvalheiro
  • Monte do Castanheiro
  • Monte do Godial
  • Monte do Pedrógão
  • Monte do Ramal Pedrógão
  • Monte dos Arneiros
  • Monte dos Cimarros
  • Monte Patamario de Cima
  • Quinta da Courela da Mata
  • Quinta da Courela de Guarita
  • Sesmaria da Asneira
  • Sesmaria da Cascata
  • Sesmaria dos Cativos
  • Sesmarias Novas
  • Vale da Chama
  • Vale da Pedreira
  • Vale do Porco
  • Vinha das Canas

Património[editar | editar código-fonte]

Personalidades Ilustres[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Lei n.º 11-A/2013, de 28 de janeiro: Reorganização administrativa do território das freguesias. Anexo I. Diário da República, 1.ª Série, n.º 19, Suplemento, de 28/01/2013.
  2. Instituto Nacional de Estatística (Recenseamentos Gerais da População) - https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes