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Le Manoir du diable

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Le Manoir du diable
Le Manoir du diable
O Solar do Diabo (bra)
Fotograma do filme: o senhor enfrenta as criaturas convocadas por Satan
Título em inglês (EUA)'The Haunted Castle'
Título em inglês (Reino Unido)'The Devil's Castle'
França
1896–1897 •  preto e branco •  aprox. 3 minutos (60 metros) min 
Gênerofilme de truques
DireçãoGeorges Méliès
ProduçãoGeorges Méliès
RoteiroGeorges Méliès
ElencoJehanne d'Alcy
Jules-Eugène Legris[nota 1]
CinematografiaGeorges Méliès
Efeitos especiaisStop trick
Companhia produtoraStar Film
DistribuiçãoStar Film
Lançamentofim de 1896 ou início de 1897[nota 2]
Idiomamudo
Cronologia
Les ivrognes(#77)

Le Manoir du diable (em português: O Solar do Diabo) é um curta-metragem mudo francês de 18961897, dirigido e produzido por Georges Méliès e lançado pela Star Film. Registrado sob os números 78–80 do catálogo Star Film,[1] o filme narra um encontro com Satan num castelo medieval, com uma sucessão de transformações, aparições e truques de câmera. É o primeiro filme de Méliès com três rolos, correspondendo a aproximadamente três minutos de projeção.[2] O filme é frequentemente classificado retroativamente como o primeiro filme de terror da história — classificação que os historiadores do cinema contestam, uma vez que Méliès o concebeu como espetáculo de trucagem e fantasia cômica, na tradição do teatro de magia, e não com intenção de provocar medo no espectador.[3] A transformação de um morcego em Satan levou alguns observadores a sugerir que o filme poderia ser considerado também o primeiro filme de vampiro — hipótese contestável, uma vez que o personagem é explicitamente identificado como Satan/Mefistófeles, figura do imaginário cristão sem relação direta com a tradição vampírica.[4] O filme foi considerado perdido por décadas, até que uma cópia foi localizada na Nova Zelândia em 1988.[2]

O texto explicativo do próprio catálogo de Méliès (1901) descreve o filme nos seguintes termos:[2]

Citação: Esta cena representa a sala de um antigo castelo. Satan passeia sozinho e faz aparecer uma enorme marmita de onde sai uma jovem mulher, depois sobe do chão um gnomo com um grande livro sobre o qual Satan escreve suas ordens. Desaparecimento do gnomo e da marmita. Ouvindo um barulho, Satan se retira. Chegada de um senhor e de seu criado; este último, apavorado, foge. E o senhor, ficando sozinho, tem de lutar contra um morcego que se transforma em Satan; fadas, bruxas, fantasmas, etc. O senhor, avistando uma cruz, apodera-se dela e expulsa Satan, que desaparece numa nuvem de fumaça. escreveu: «Catálogo Méliès, 1901, pp. 2–3, reproduzido em Malthête & Mannoni (2008), p. 90»

A observação direta do filme — disponível em domínio público — permite detalhar a sequência de ações:[nota 3] um morcego gigante entra voando pelo castelo e se transforma em Satan (Mefistófeles). Satan conjura um caldeirão do qual emerge uma jovem mulher (Jehanne d'Alcy), depois faz surgir do chão um gnomo carregando um livro. Ambos desaparecem. Dois cavaleiros entram no castelo — o criado foge apavorado, deixando o senhor sozinho. Satan prega-lhe uma série de peças: móveis se movem sozinhos, um esqueleto aparece sentado numa cadeira, espectros atacam o cavaleiro. A mulher do caldeirão reaparece mas se transforma em velha. O segundo cavaleiro retorna brevemente e foge saltando pela balaustrada. Finalmente, confrontado diretamente por Satan, o cavaleiro avista uma grande cruz, apossa-se dela e a brande contra o Diabo, que desaparece numa nuvem de fumaça.

Produção

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Poster de anuncio do filme

O espetáculo de magia como matriz

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Le Manoir du diable parte de uma tradição bem estabelecida no teatro de variedades europeu: a pantomima fantástica com personagens sobrenaturais, inspirada nas representações de Fausto e nas figuras do diabo e de Mefistófeles que circulavam nos palcos desde o século XVIII. Méliès, como proprietário e diretor do Théâtre Robert-Houdin desde 1888, conhecia esse repertório de dentro — e o filme retoma diretamente o título e a sucessão de quadros de um espetáculo encenado no próprio Robert-Houdin, com os mesmos figurinos e acessórios.[3] Ao transpô-lo para a película, Méliès não estava criando um novo gênero, mas continuando e expandindo um espetáculo que seu público já conhecia do palco.[2]

O stop trick a serviço da fantasia

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O filme utiliza sistematicamente o stop trick — técnica de interrupção e retomada da filmagem descoberta por Méliès durante filmagens de atualidade em 1896 e aplicada pela primeira vez com fins mágicos no filme #70 (O desaparecimento de uma dama no Robert-Houdin). Em Le Manoir du diable, o stop trick é empregado em múltiplas transformações ao longo dos três rolos: o morcego que vira Satan, a jovem que vira velha, o esqueleto que reaparece, os espectros que desaparecem. A multiplicação e encadeamento de truques ao longo de um filme mais longo representam um avanço em relação aos filmes anteriores, que empregavam o recurso de forma mais isolada.[2][5]

A marca Star Film

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Logo da marca Star Film, registrada no Tribunal Comercial do Sena em 1896.

Le Manoir du diable é o primeiro filme de Méliès a exibir no cenário a marca Star Film — uma estrela de cinco pontas com o nome "Méliès Star Film".[6] A marca não correspondia a uma empresa formalmente constituída, mas a uma marca registrada — funcionando de forma análoga ao que hoje são marcas tecnológicas como o Technicolor ou o THX — que identificava e autenticava as produções de Méliès.[nota 4] O registro foi feito em duas etapas: um primeiro pedido por Lucien Reulos, sócio de Méliès, em 20 de novembro de 1896 (nº 51790), seguido do registro formal em 2 de dezembro de 1896 — e posteriormente renovado por Méliès em 27 de dezembro de 1902 (nº 77627).[6][7] A presença da marca no décor deste filme é um dos elementos que permite situá-lo após novembro de 1896.[7] O nome "Star Film" deriva diretamente do símbolo: a estrela de cinco pontas — étoile em francês, star em inglês.

Local de filmagem e elenco

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O filme foi rodado ao ar livre no jardim da propriedade de Méliès em Montreuil-sous-Bois, diante de um décor pintado representando a sala de um castelo medieval.[2] Jehanne d'Alcy interpreta a jovem mulher que sai da marmita — papel confirmado por M&M com base em foto de plateau.[2] A identificação do intérprete de Satan como Jules-Eugène Legris, mágico do Robert-Houdin que viria a aparecer mais tarde em Viagem à Lua (1902), é uma hipótese do historiador Georges Sadoul, baseada em anotações manuscritas por ele em fotos de plateau da Cinémathèque française.[2]

"Primeiro filme de terror": uma classificação retroativa

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A designação de Le Manoir du diable como "primeiro filme de terror da história" é frequentemente repetida, mas não corresponde à intenção original nem à recepção contemporânea do filme. O historiador Frédéric Tabet argumenta que Méliès, inserido na rede dos prestidigitadores profissionais e atento às tentativas de renovação do gênero, apoiava-se na tradição mágica para propor uma nova via — ao mesmo tempo no palco do Robert-Houdin e nas telas do cinema —, sem qualquer objetivo de provocar terror.[3] A categoria "filme de terror" é uma classificação genérica posterior, criada retrospectivamente pela historiografia cinematográfica do século XX para organizar uma produção que, no momento de sua criação, pertencia ao universo do espetáculo de trucagem e da fantasia cômica.[8]

Le Manoir du diable (1896), de Georges Méliès — versão disponível no Wikimedia Commons, domínio público
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Registrado sob os números 78–80 do catálogo da Star Film, Le Manoir du diable é precedido por Les ivrognes (#77) e seguido por Chicot, dentiste américain (#81).[1] Com 60 metros distribuídos em três rolos, é o primeiro filme de Méliès a ocupar mais de um número de catálogo com uma narrativa única e contínua — convenção que a Star Film adotaria progressivamente nos anos seguintes para produções mais ambiciosas.[2] O filme integra o grupo de produções do inverno de 1896–1897, identificado por Malthête e Mannoni como o período que inclui também Chicot, dentiste américain e Le Cauchemar.[9]

Preservação

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O filme foi considerado perdido por décadas. A única cópia conhecida foi adquirida numa loja de usados em Christchurch, Nova Zelândia, provavelmente nos anos 1930 ou 1940, sem que seu valor histórico fosse reconhecido na época. A identificação do filme data de 1985, e a cópia foi incorporada ao acervo do Ngā Taonga Sound & Vision em 1988.[10]

  1. A identificação de Jules-Eugène Legris como o intérprete de Satan é uma hipótese do historiador Georges Sadoul (1904–1967), baseada em anotações manuscritas deixadas por ele em fotos de plateau da Cinémathèque française. Não há confirmação documental independente.
  2. O Ngā Taonga Sound & Vision, arquivo que detém a única cópia sobrevivente, indica a data de estreia de 24 de dezembro de 1896 no Théâtre Robert-Houdin. Malthête e Mannoni (2008, p. 25) situam o filme apenas em "fin 1896–début 1897", sem precisar a data.
  3. A descrição detalhada do enredo baseia-se na observação direta do filme, disponível em domínio público no Wikimedia Commons e no Internet Archive, complementada pelo texto explicativo do catálogo de Méliès (1901) reproduzido em Malthête & Mannoni (2008), p. 90.
  4. O estúdio de Méliès nunca recebeu oficialmente o nome "Star Film Company". A denominação consolidou-se pelo uso da marca "Star Film" nos catálogos e materiais de distribuição. A formalização como empresa só ocorreu no ramo americano, quando Gaston Méliès constituiu juridicamente a Star Film Company nos Estados Unidos em 1902.

Ver também

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Referências

  1. 1 2 Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 337. ISBN 9782732437323
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 90. ISBN 9782732437323
  3. 1 2 3 Tabet, Frédéric (2014). «Méliès et les artistes magiciens: Éléments de lecture d'une écriture magique virtuose». In: Malthête, Jacques; Gaudreault, André; Le Forestier, Laurent. Méliès, carrefour des attractions; suivi de Correspondances de Georges Méliès (1904-1937). Rennes: Presses universitaires de Rennes. pp. 89–92
  4. Solomon, Matthew (2011). Fantastic Voyages of the Cinematic Imagination. Albany: State University of New York Press. p. 2. ISBN 9781438434001
  5. Hammond, Paul (1974). Marvellous Méliès. Londres: Gordon Fraser. pp. 135–136. ISBN 0900406380
  6. 1 2 Archives de Paris (8 de dezembro de 2025). «164e anniversaire de la naissance de Georges Méliès» (em francês). Archives de Paris. Consultado em 24 de maio de 2026
  7. 1 2 Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 25. ISBN 9782732437323
  8. Ezra, Elizabeth (2000). Georges Méliès: The Birth of the Auteur. Manchester: Manchester University Press. p. 13. ISBN 9780719053962
  9. Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 30. ISBN 9782732437323
  10. «LE MANOIR DU DIABLE». Ngā Taonga Sound & Vision. Consultado em 23 de maio de 2026

Ligações externas

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