Lei e Evangelho

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Luteranismo
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Selo de Lutero
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No cristianismo protestante, a relação entre Lei e Evangelho — a Lei de Deus e o Evangelho de Jesus Cristo — é importante tópico na teologia luterana e reformada. Nestas tradições, a distinção entre as doutrinas da Lei, que exige obediência aos desígnios éticos de Deus, e o Evangelho, que promete o perdão dos pecado por meio da pessoa e da obra de Jesus Cristo, é crítica. Ela é utilizada como um princípio hermenêutico na interpretação bíblica e um princípio orientador na homilética (a composição de sermões) e na atividade pastoral. Esta relação trata da supersessão da Antiga Aliança (incluindo a lei judaica, a halacá) pela Nova Aliança e pela teologia cristã.

Outros grupos cristãos também tem suas doutrinas sobre o assunto ou, de forma mais geral, visões sobre a Antiga Aliança, embora este não seja geralmente um tema intensamente debatido ou rigorosamente definido como é o caso nas tradições luteranas e reformadas.

Por vezes o assunto é discutido no contexto das relações entre "Lei e Graça", "Pecado e Graça", "Espírito e Letra da lei" e "ministério (em grego antigo: διακονíα, diakonia) da morte/condenação" e "ministério do Espírito/justiça".[1]

Luteranismo[editar | editar código-fonte]

"Lei e Evangelho"
1540. Por Franz Timmermann, atualmente no Wallraf-Richartz Museum.

Martinho Lutero e teólogos luteranos[editar | editar código-fonte]

Uma formulação específica da distinção entre Lei e Evangelho foi proposta pela primeira vez na Igreja cristã por Martinho Lutero e estabelecida como a fundação da exegese bíblica evangélica luterana e foi exposta no artigo 4 da "Apologia da Confissão de Augsburgo" (1531): "Todas as Escrituras deveriam ser distribuídas nestes dois tópicos, a Lei e as promessas. Pois em alguns lugares elas apresentam a Lei e em outros, a promessa a respeito de Cristo, nomeadamente, seja quando [no Antigo Testamento] elas prometem que Cristo virá e oferece, em Seu nome, a remissão dos pecados, a justificação e a vida eterna, seja quando, no Evangelho [no Novo Testamento], o próprio Cristo, já presente, promete a remissão dos pecados, a justificação e a vida eterna".[2] A Fórmula de Concórdia, da mesma forma, afirmou esta distinção em seu artigo V, que diz: "Nós acreditamos, ensinamos e confessamos que a distinção entre a Lei e o Evangelho deve ser mantido na Igreja com grande diligência...".[3]

Martinho Lutero escreveu: "Assim, quem quer que conheça bem esta arte de distinguir entre Lei e Evangelho, coloquem-no à frente e o chamem de doutor das Sagradas Escrituras".[4] Por toda a Era da ortodoxia luterana (1580-1713) esta disciplina hermenêutica era considerada fundamental e importantíssima para os teólogos luteranos.

Esta distinção é também o primeiro artigo em "Patrick's Places" (1528), de Patrick Hamilton[5].

Livro de Concórdia[editar | editar código-fonte]

A Fórmula de Concórdia distingue três usos ou propósitos na Lei no artigo VI. "A Lei foi dada aos homens por três motivos [...][6][7][8]:"

  1. Conter – através do medo da punição, a Lei mantém a natureza pecaminosa de cristãos e não-cristãos em cheque. Isto não é suficiente para interromper o pecado, uma vez que o pecado já foi cometido quando o coração deseja fazer o que é errado, mas ela pode interromper a realização aberta do pecado que pode provocar ainda mais estragos. Para que "desta forma a disciplina exterior possa ser mantida contra homens selvagens, desobedientes [e para que homens selvagens e intratáveis possam ser contidos como se fossem certas barras [de uma cela]";
  2. Espelhar – A Lei serve como um perfeito reflexo do motivo pelo qual Deus criou a vida e o coração humano. Ela mostra que qualquer um que compare sua vida ao requisito de perfeição de Deus é pecador. Para que "os homens, desta forma, possam ser levados a conhecer seus próprios pecados";
  3. Guiar – este uso da lei se aplica apenas aos cristãos. A lei se transforma num ajudante do fiel. Empoderado pelo evangelho de verdade e perdão em Cristo, o novo fiel deseja ardentemente viver para agradar o Deus Triuno. Para que "depois que eles estiverem regenerados ... eles possam ... ter uma regra fixa segundo a qual eles deverão regular e dirigir suas vidas inteiras".

A preocupação primordial era manter que a Lei deveria continuar a ser utilizada pelos cristãos depois de terem sido regenerados pelo Espírito Santo através do Evangelho para conter a doutrina de Johannes Agricola, que ensinava que a Lei não era mais necessária pelos cristãos regenerados.[6][9] O luteranismo confessional ensina que a Lei não pode ser utilizada para negar o Evangelho e nem o Evangelho pode ser utilizado para negar a Lei de Deus.[10]

Igreja Reformada (calvinista)[editar | editar código-fonte]

"Lei e Evangelho".
1529. Por Lucas Cranach, o Velho, na Galeria Nacional de Praga.

A distinção entre Lei e Evangelho é a formulação padrão na teologia reformada, apesar de, em anos recentes, alguns estudiosos a tenham caracterizado como sendo caracteristicamente luterana.[11] Zacharias Ursinus propôs uma clara distinção entre Lei e Evangelho como sendo a "principal e mais geral divisão das Sagradas Escrituras" em seu comentário sobre o "Catecismo de Heidelberg".[12] Louis Berkhof chamou a Lei e o Evangelho "as duas partes da Palavra de Deus e meios de graça". Lei e Evangelho são encontrados em ambos os testamentos.[13]

Em sua obra "Institutos da Religião Cristã", o reformador João Calvino distinguiu três usos para a Lei: "Para tornar o assunto todo mais claro, vamos analisar brevemente a função e o uso da chamada «lei moral». Assim, da forma como eu compreendo, ela consiste em três partes:"

  1. "Ao revelar a justiça de Deus [...] ela alerta, informa, julga e condena todos os homens com base em sua própria justiça [ou retidão]" (2.7.6);
  2. Serve "pelo temor das punições para conter alguns homens intocados por qualquer cuidado pelo que é justo e reto exceto quando compelidos ao ouvirem as duras ameaças da Lei" (2.7.10);
  3. "Ela admoesta os crentes e urge que eles façam o bem" (2.7.12-13).

Este esquema é similar ao da Fórmula de Concórdia, com a exceção de que o primeiro e o segundo usos estão invertidos.

No escolasticismo reformado, posterior, a ordem é a mesma dos luteranos. Os três usos são chamados de[14]:

  1. O usus politicus sive civilis ("uso político ou civil") é uma contenção ao pecado e difere da obra de salvação. É parte da revelação geral de Deus (graça comum) para crentes e não crentes;
  2. O usus elenchticus sive paedagogicus ("uso refutativo ou pedagógico"), que confronta o pecado e nos dirige a Cristo;
  3. O usus didacticus sive normativus ("uso didático ou normativo"), restrito aos crentes. Ele ensina o caminho da justiça (retidão), mas sem poder de condenar.

Diferenças entre as doutrinas luterana e calvinista[editar | editar código-fonte]

Teólogos escolásticos luteranos e reformados discordam principalmente na forma pela qual o terceiro uso da Lei funciona entre os crentes. Os reformados enfatizam o terceiro uso por que espera-se que os redimidos realizem boas obras. Alguns luteranos enxergam nisso o perigo da justiça (retidão) baseada em obras e argumentam que o terceiro uso deve sempre retornar os fieis ao segundo uso, de volta para Cristo, ao invés de se tornar a normativa final.[14]

Além disto, alguns teólogos sugeriram que o terceiro uso da Lei não aparece em nenhum lugar na obra de Lutero e é integralmente uma contribuição de Melanchthon. Embora alguns luteranos tenham rejeitado essa hipótese,[15] ela fez com que outros colocassem em disputa a validade deste terceiro uso. Paul Althaus, por exemplo, escreveu em seu tratado sobre Lei e Evangelho: "Este guia [ético] pelo Espírito Santo implica que o mandamento concreto de Deus não pode ser lido de um documento escrito, um esquema da Lei herdado. Preciso aprender de novo todos os dias o que Deus quer de mim. Pois o mandamento de Deus tem uma característica especial para cada indivíduo: é sempre contemporâneo, sempre novo. Deus me comanda (e cada pessoa) de forma particular, num jeito diferente do que comanda outros [...] O caráter vivo e espiritual do conhecimento do que Deus requer dos homens no momento presente não deve ser destruído por regras e regulamentos".[16] Estes teólogos acreditam que o terceiro uso leva ou encoraja uma forma de legalismo e é, possivelmente, uma negação implícita da sola fide. Por outro lado, os cristãos reformados acreditam que este esquema de uso duplo de alguns luteranos como conducente a uma forma de antinomianismo (negação da validade da Lei diante do Evangelho).

Segundo John Warwick Montgomery, "para Lutero, o uso pedagógico da Lei era primário enquanto que para Calvino, este terceiro uso, o didático, era o principal; apesar disso, [historicamente] tanto as tradições luteranas quanto as reformadas mantiveram esta conceituação tripartite".[15]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. 2 Cor. 3:6-9.
  2. F. Bente and W.H.T. Dau, ed. and trans. Triglot Concordia: The Symbolical Books of the Evangelical Lutheran Church, (St. Louis: Concordia Publishing House, 1921), Apology IV (II).5, p. 135
  3. Triglot Concordia, FC Epitome V, (II).1, p. 503ff
  4. Martin Luther, Dr. Martin Luthers Sämmtliche Schriften, St. Louis ed. (St. Louis: Concordia Publishing House, N.D.), vol. 9, col. 802.
  5. Patrick`s Places (1528)[1]
  6. a b Triglot Concordia, Formula of Concord, Epitome VI.1
  7. «Uses Of The Law». WELS Topical Q&A (em inglês). Wisconsin Evangelical Lutheran Synod. Arquivado do original em 1 de abril de 2008 
  8. «Third use of the Law». WELS Topical Q&A (em inglês). Wisconsin Evangelical Lutheran Synod. Arquivado do original em 2 de janeiro de 2008 
  9. F. Bente, Historical Introductions to the Symbolical Books of the Evangelical Lutheran Church, chapter XVII: The Antinomistic Controversy, (St. Louis, MO: CPH, 1921), 161-172, cf. p. 169.
  10. Bichholz, Jon D. «Jesus canceled your debt!» (PDF) (em inglês). Wisconsin Lutheran Seminary 
  11. Horton, Michael (2010). «The Distinction between Law and Gospel in Reformed Faith and Practice». Modern Reformation (em inglês). 19 (5): 12–14 
  12. Ursinus, Zacharias (1888). The commentary of Dr. Zacharias Ursinus on the Heidelberg catechism 4 ed. [S.l.]: Elm Street Printing Co. p. 2 
  13. Berkhof, Louis (1979). Systematic Theology (em inglês). Grand Rapids, MI: Eerdmans. 612 páginas 
  14. a b Muller, Richard A. (2006). Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally from Protestant Scholastic Theology 1st ed. [S.l.]: Baker Book House. pp. 320–321. ISBN 978-0801020643 
  15. a b "The Third Use of Law" by John Warwick Montgomery in Present Truth, vol. 7
  16. Paul Althaus, The Divine Command, pp. 43, 45

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Luterana[editar | editar código-fonte]

  • Althaus, Paul (1966). Sherman, Franklin, ed. The Divine Command: a New Perspective on Law and Gospel (em inglês). Philadelphia: Fortress Press 
  • Bente, F.; Dau, W.H.T., eds. (1921). Triglot Concordia: The Symbolical Books of the Evangelical Lutheran Church (em inglês). St. Louis: Concordia Publishing House 
  • Elert, Werner (1967). Schroeder, Edward H., ed. Law and Gospel (em inglês). Philadelphia: Fortress Press 
  • Walther, C. F. W. The Proper Distinction Between LAW AND GOSPEL (1986). (em inglês). St. Louis, MO: Concordia Publishing House  Em falta ou vazio |título= (ajuda)

Reformada[editar | editar código-fonte]

External links[editar | editar código-fonte]

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