Lemúria (festival)

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Lemúria ou Lemurália era um festival da Roma Antiga destinado ao culto aos mortos, celebrado nos dias 9, 11 e 13 de maio. Tratava-se de festividade essencialmente doméstica, que enfocava os ancestrais familiares. A maior parte das fontes escritas que remetem às ideias romanas sobre a vida após a morte advém do século I a.C. a V a.C. As Lemúrias ocorriam à noite e serviam para aplacar os lêmures, espíritos errantes e malfazejos para os vivos, com o fim de torná-los manes silenciosos.[1]

Origem[editar | editar código-fonte]

Poeta Ovídio

De acordo com o poeta Ovídio (43 a.C.18 d.C.), membro de uma antiga e rica família de equestres, em sua obra Fastos (poema que foi escrito em versos elegíacos), o calendário era dividido nos dias em que as pessoas atuavam com justiça (dias, portanto, abençoados pelos deuses), os Fastos, e nos outros dias em que os homens não tinham a graça dos deuses para realizar seus empreendimentos e deveriam se resguardar, ou seja, os "dias nefastos".[2]

Ovídio remonta o festival da Lemúria à fundação de Roma, com a história de Rômulo e Remo. Na versão escrita por Ovídio, Rômulo é inocentado pelo espectro de Remo, que aparece num sonho aos seus pais adotivos, Fáustulo e Aca Laurência: Meu irmão não quis isso – igual amor é o dele: o que pode me deu: chorou meu fado. Por vosso pranto e vosso pão, rogai a ele que as honras me consagre este dia. Ao saber do sonho, Rômulo acata o pedido do falecido irmão e denomina Remuria o nome do festival que aconteceria no dia da morte de Remo. O autor ainda explica a troca da letra ‘R’ por ‘L’: Rômulo acata e de Remúria chama o dia em que os avós se levam oferendas. No longo tempo, foi mudada em branda a rude letra que aquele nome começava. Logo, de lêmure chamou a alma dos mortos: esse é o sentido e a força da palavra.[3]

Ritual[editar | editar código-fonte]

Os lêmures voltavam para visitar as casas que haviam habitado e precisavam ser afastados de uma forma amigável. Assim, nas noites dos dias 9, 11 e 13 de maio, o pater familias levantava à meia noite, no silêncio total, quando todos já estavam dormindo, para realizar o ritual. De pés descalços entrava nas casas estalando os dedos para evitar que um fantasma se aproximasse. Lavava as mãos três vezes com água de uma fonte, e em seguida, se virava de costas, colocava três feijões negros na boca, que logo jogava para trás de si, dizendo: Eu atiro esses feijões! Por eles eu salvo a mim mesmo e os meus!. O pater familias repetia essa fala nove vezes seguidas, sem olhar para trás, porque pensava que a sombra o seguia. Lavava novamente as mãos na água da fonte, pegava um objeto de bronze e chacoalhando-o invocava, também por nove vezes, as almas a saírem da casa: Manes de meus pais, saiam. Dessa forma, o pater familias podia voltar tranquilo, sabendo que o ritual havia apaziguado a alma dos antepassados. Durante esses três dias os templos permaneciam fechados e não era conveniente que fossem celebrados casamentos, pois acreditava-se que não teriam bom termo.[4]

Tipos de espíritos[editar | editar código-fonte]

Manes[editar | editar código-fonte]

Estudiosos contemporâneos consideram que na Roma Antiga os mortos encontravam-se em uma categoria intermediária entre homens e deuses. Eram cultuados em festivais não como indivíduos, mas na condição de um grupo denominado dii manes ou diui parentes (“os deuses manes” ou “os ancestrais divinizados”). Os mortos eram tidos como uma coletividade divina a ser venerada como ancestrais de forma genérica. Os rituais funerários consistiam no último ritual de passagem do membro familiar, mas os cuidados com os mortos não se findavam com o fim do luto. No altar das casas, os antepassados (manes) eram honrados com oferendas e lâmpadas, nas calendas, nos idos e nas nonas do mês. Ao longo do ano, havia festejos sobre o túmulo na data do aniversário (dies natalis) e nos festivais anuais como as Parentália.[5]

Lêmures e Larvae[editar | editar código-fonte]

Os lêmures eram os insepultos que não tiveram rituais fúnebres e os mortos prematuros, crianças, mulheres grávidas e parturientes. As larvae, consideradas ainda mais maléficas, provinham daqueles que morreram violentamente, os suicidas e vítimas de acidentes. As definições específicas do que seriam lêmure e larvae não são exatas, porém há indícios que se tratava para os romanos de espíritos nocivos e temerosos em contraposição aos manes, que poderiam ser considerados espíritos bons.[1]

No poema de Horácio, o personagem Porphyrio afirma que eram espíritos vagantes da noite de pessoas que foram mortas prematuramente e que deveriam ser temidos pela sua infelicidade e consequentemente suas ações maliciosas. Acro, em seu Escólio, os vê de outra forma. Para ele são sombras de pessoas que tiveram uma morte violenta e por isso ficaram presas no limbo da eternidade. No texto de Ovídio, é passada a impressão de que os rituais praticados eram hostis a esses espíritos, porém o autor utiliza lêmures e manes como sinônimos.[1]

Os romanos tinham o costume de cuidar de seus mortos rotineiramente, sempre levando oferendas, velas e flores. Aqueles que não tinham família ou possuíam uma família negligente também poderiam se tornar espíritos errantes.

Religiosidade[editar | editar código-fonte]

Os romanos conferiam grande importância à observância dos ritos religiosos. A religião era tanto um elo entre homens e deuses (comunidade com os deuses) como também um sistema de obrigações para manter a pax deorum ("paz com os deuses"). O descumprimento das obrigações religiosas acarretaria o desequilíbrio da ordem do mundo ao causar a cólera divina. As celebrações religiosas aconteciam em diversas fases da vida de um romano, como nascimento, casamento e morte.[4]

Os romanos rendiam culto a seus mortos com oferendas, flores e orações, não apenas no dia do óbito, mas também ao longo do ano, através de diversas celebrações, situadas nos meses de fevereiro e maio. Os festivais em homenagem aos mortos consistiam basicamente na Parentália, na Lupercália, na Lemúria e na Agonia de Veiovis. [4].

Culto aos mortos[editar | editar código-fonte]

A importância dos ritos fúnebres devia-se à crença de que, na sua segunda existência, após a morte, a alma permaneceria ligada ao corpo, e assim permaneceriam no túmulo.[6]

Ao final da cerimônia fúnebre, chamava-se a alma do morto, pelo nome que tivera em vida, três vezes, desejando-lhe votos de uma existência debaixo da terra, pois acreditava-se que o ser ali continuaria vivendo. Dessa crença decorreu a necessidade do sepultamento. A fixação da alma à morada subterrânea exigia que o corpo fosse coberto por terra. Se a alma não tivesse túmulo, não teria morada, seria errante, estaria condenada a vaguear eternamente, sob a forma de larva ou de fantasma, sem receber oferendas ou alimentos. Infeliz, a alma se tornaria maléfica e atormentaria os vivos, forçando-os a proceder ao sepultamento do seu corpo.[6]

Não bastava enterrar o corpo, sendo necessário cumprir ritos tradicionais e pronunciar fórmulas específicas, a fim de fixar as almas aos túmulos, evitando que permanecessem errantes. Na sepultura residiam o repouso e a felicidade eterna. O ser humano vivia no túmulo e sua alma não se separava do corpo. O ser que vivia sob a terra não estava totalmente desligado do humano e por isso em certos dias do ano os vivos levavam-lhe alimentos.[6]

Rituais funerários[editar | editar código-fonte]

Vestígios de um cemitério romano da antiguidade, em Escupi, próximo a Escópia, República da Macedônia

Não se tem conhecimento amplo a respeito dos motivos que condicionavam as tendências das cerimônias fúnebres.[7] Na época arcaica, em um primeiro momento adotou-se a incineração e, a partir do século, VI a.C. prevaleceu a inumação. No século I a.C., a incineração novamente foi adotada até ser retomada a prática da inumação, na segunda metade do século II,[5] o que se atribui à influência do cristianismo. Na incineração, os corpos eram queimados e suas cinzas eram colocadas em memoriais.[5] Não havia uma crença específica que justificasse essas alterações. Mesmo no caso da incineração, os restos do corpo eram inumados para que a sepultura existisse segundo o direito sagrado. O que sofreu alterações ao longo do tempo foi apenas o modo de destruição e de transformação do cadáver, tarefa confiada ao fogo ou à terra. De todo modo, incinerado ou não, o cadáver haveria de se submeter ao rito dos funerais para se reunir à comunidade dos manes.[5]

Depois, com a influência do cristianismo, os corpos passaram a ser enterrados.[5] De todo modo, o cadáver era transformado em defunto pelo rito dos funerais, reunindo-se à comunidade dos manes. Os mortos cujos enterros não seguiam as regras, ou aqueles que não eram enterrados de modo completo eram considerados perigosos, sendo necessário apaziguá-los. Assim, apesar de ser um ritual funerário doméstico, a celebração da Lemúria interessava a toda a comunidade.[5]

Os rituais funerários perpassavam o período de luto e eram praticados continuamente pelas famílias. Há relatos de pessoas que deixavam uma quantia em seu testamento especificamente para auxiliar a família a manter seu túmulo com oferendas, flores, etc.[5]

Culto doméstico[editar | editar código-fonte]

A religião doméstica não oferecia um único deus à adoração dos homens, como também cada deus não era acessível a todos, mas somente poderia ser adorado por uma família.[6]

O culto aos mortos apenas poderia ser prestado pela família a que pertencesse o morto. Os funerais deveriam ser realizados religiosamente pelo parente mais próximo. Acreditava-se que o morto só aceitaria a oferenda entregue por seus parentes e só desejava ser cultuado por seus descendentes. A presença de um estranho perturbava o repouso dos manes. O filho era obrigado a fazer libações e sacrifícios aos manes do pai e de todos os seus ancestrais.[6]

Havia uma permanente troca de favores entre os vivos e os mortos de cada família, que os unificava em um só corpo, inseparável. O antepassado recebia dos descendentes os prazeres de que podia desfrutar na segunda vida; os descendentes recebiam do antepassado ajuda e força de que precisavam.[6]

As famílias tinham seus túmulos, onde todos os membros da família repousariam. Ali eram comemorados aniversários e outras cerimônias.[6]

Cada Lar protegia os seus. Toda essa religião ficava limitada ao interior da casa, razão pela qual o culto não era público. Os ritos, orações e cantos da religião doméstica eram propriedade sagrada e exclusiva de determinada família, propagando-se de geração em geração, através da linhagem masculina. Assim, o culto doméstico era sempre transmitido de homem para homem, e as mulheres somente participavam do culto por meio do pai ou do marido.[6]

Numerologia sagrada[editar | editar código-fonte]

Calendário romano de festivais

As lemúrias eram celebradas no início do verão, em 9, 11 e 13 de maio, datas ímpares, separados pelo intervalo de um dia.[5]

No calendário romano, os dias ímpares normalmente eram os dias de festa, quando aconteciam grandes sacrifícios, frequentemente associados ao espiritual e ao divino, enquanto os dias pares eram associados ao material e humano.[5]

No ritual, destaca-se a repetição do número três, considerado sagrado. Essa repetição pode ser verificada nas seguintes situações: três dias ímpares consecutivos para as cerimônias, quando a estrela Vesper (estrela da noite) surgia três vezes e Febo (Sol) se punha três vezes; durante o ritual, repetia-se nove vezes (três multiplicado por três) uma frase ao jogar os feijões, buscando expulsar os lêmures).[5]

O número três e seus múltiplos são a expressão da sensação de tempo da cultura lunar, significado que pode ter surgido das fases da lua ou da tríade da família (pai/mãe/filho).

Laços familiares[editar | editar código-fonte]

O princípio da família na Roma Antiga não era unicamente a geração, tampouco os laços de afeto. O que unia os membros de uma família era o culto aos lares e aos antepassados. A religião fazia da família um só corpo, unindo as duas vidas.[6]

A religião doméstica constituía o parentesco. Dois homens seriam parentes quando tivessem os mesmos deuses, o mesmo Lar e o mesmo túmulo. Como a veneração aos lares e o culto aos mortos somente se relacionava aos homens, ninguém poderia ser parente pela linha materna.[6]

Assim, o princípio do parentesco estava no culto, e a compreensão dos romanos antigos sobre a agnação resolve-se mediante sua confrontação com a religião doméstica. Uma vez que a religião só se transmitia pela linhagem masculina, dois homens apenas poderiam ser agnatos entre si se tivessem antepassados comuns também na linhagem masculina. A regra para agnação, ou seja, para o parentesco, era a mesma utilizada para o culto. Parentes eram aqueles que praticavam o mesmo culto doméstico.[6]

Posteriormente, o culto doméstico não foi mais o único critério a definir o parentesco, que passou a ser reconhecido também pelo nascimento. Os romanos denominavam cognatio o parentesco que independia das regras da religião doméstica. A leitura de jurisconsultos, de Cícero a Justiniano, revela que os dois sistemas de parentesco influenciam o direito. Contudo, no tempo das Doze Tábuas apenas era conhecido o parentesco por agnação.[6]

Pietas[editar | editar código-fonte]

O culto doméstico era baseado na pietas, sentimento de obrigação, devoção e lealdade voltado àqueles que se ligam ao homem por natureza, ou seja, por laços familiares. A pietas ligava entre si membro da comunidade familiar, projetada no passado pelo culto aos ancestrais, e estava firmada na religiosidade dos romanos, que acreditavam na proteção dos manes, lares e penates. Assim, a pietas estabelecia um vínculo afetivo, entre os membros de uma família e estendia-se à divindade, abarcando também as relações com o Estado.[5]

Referências

  1. a b c THANIEL, George (1973). «Lemures and Larvae». The American Journal of Philology. The Johns Hopkins University Press. 
  2. Norma Musco Mendes; Airan dos Santos Borges. (2008). "[revistas.ufpr.br/historia/article/download/15295/10286 Os Calendários Romanos como Expressão de Etnicidade]". História: Questões e Debates. Curitiba: UFPR.
  3. OVÍDIO (2015). «Livro V». Fastos. Clássica Autêntica [S.l.] 
  4. a b c MARTÍNEZ, Sonia Maria García (1998). «Lemuria: Festividad Religiosa o Antropónimo, Según La Inscripción Romana de S. Justo de La Vega (Léon)» (PDF). Universidade de Léon, Departamento de Estudos Clássicos. 
  5. a b c d e f g h i j k BUSTAMANTE, Regina Maria da Cunha (2011). «Festa das Lemuria: os mortos e a religiosidade na Roma Antiga» (PDF). São Paulo: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH. 
  6. a b c d e f g h i j k l COULANGES, Fustel de (2003). A Cidade Antiga (Rio de Janeiro: Ediouro). p. 55. 
  7. BRAGA, Cristina Maria Vilas Boas (2010). «Rituais funerários em Bracara Augusta : o novo núcleo de necrópole da Via XVII». Minho: Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais. 
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