Locomotiva Maria Fumaça

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Conhecida popularmente na cidade por Maria Fumaça, a locomotiva a vapor n° 325, construída pela "Baldwin Locomotive Works" em 1911, foi tombada em 2003 por iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da cidade de Bom Despacho, no Brasil.[1]

A Rede Ferroviária[editar | editar código-fonte]

No ano de 1921, Bom Despacho recebeu a Estrada de Ferro Paracatu. Esta, por sua vez, foi uma substituição das estradas de ferro que ligariam Curvelo a Serra das Araras e de Pitangui a Patos. Esta estrada deveria cobrir o trecho que passa por Martinho Campos, Velho da Taipa, Bom Despacho, Dores do Indaiá, Carmo do Paranaíba, Patos, Alegre (no município de Paracatu), finalizando na Serra das Araras, na divisa com Minas e Goiás.[2] A concessão desta estrada foi realizada através de um contrato datado em 31 de janeiro de 1912, firmado entre o governo e a Companhia Norte de Minas, empresa encarregada de executar a obra de construção da ferrovia. No entanto, as partes entraram em litígio e, em 1920, o Estado declarou caducidade da concessão, o que resultou na anulação do contrato. Para sanar a questão, firmou-se um acordo, pelo qual o Estado adquiriu todo o patrimônio relativo à Estrada de Ferro Paracatu, pagando a Companhia Norte de Minas um valor baseado em avaliação feita na época. Desta forma, as obras que estavam interrompidas foram retomadas no início da década de 20. Para contribuir com a construção da ferrovia, o governo estadual incentivou a formação de colônias de imigrantes, principalmente alemães. Portanto, neste momento, foram criadas as colônias de Álvaro da Silveira e David Campista. A construção da ferrovia seguiu seu curso. De maneira sucessiva vários trechos e estações foram inaugurados. Em 1922 foi estreada a de Dores do Indaiá, seguida, em 1925 pela de Melo Viana. Todavia, ao atingir a Serra da Saudade, em 1927, concluiu-se que, devido a topografia local, a construção deste trecho seria mais dispendiosa, uma vez que exigiria a abertura de diversos túneis e grande movimentação de terra. No inicio da década de vinte, a situação financeira do estado não era boa, da mesma forma acontecia com as ferroviais mineiras. Fato agravado com o advento da quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Neste contexto, a crise financeira atingiu o Brasil, baixando a produtividade, diminuindo o escoamento de mercadorias e, portanto, afetando o faturamento das empresas. Logo, surge no âmbito governamental a ideia de se unificar as administrações das companhias ferroviárias atuantes em Minas Gerais. Em 1931, através de um contrato firmado entre Governo Federal e Governo de Minas Gerais, a Estrada de Ferro Oeste de Minas foi arrendada. Ficou decidido que a Oeste de Minas seria explorada técnica e financeiramente dentro de um aglomerado composto por três ferrovias: a Estrada de Ferro Paracatu; a Rede de Viação Sul Mineira e a própria Oeste de Minas. Tal união foi denominada Rede Mineira de Viação. A partir daí, a Estrada de Ferro Paracatu se tornou Ramal de Paracatu. Em 1937, o trecho entre Melo Viana e a estação Barra do Funchal foi aberto. Este seria o último, pois a construção da ferrovia foi paralisada neste ponto e nunca mais foi retomada. O objetivo de chegar até a cidade de Paracatu nunca foi concluído. Em 1957, foi consolidado o processo de federalização ferroviária no Brasil. Formou-se a Rede Ferroviária Federal S. A – RFFSA, que encampou, entre outras, a Rede Mineira de Viação.

A Estação Ferroviária[editar | editar código-fonte]

Estação Ferroviária foi inaugurada em 21 de outubro de 1921 na Vila de Bom Despacho. Funcionou por vário anos na cidade. Atuou no transporte de cargas mas, principalmente, no embarque e desembarque de passageiros. Os anos vinte do século passado testemunharam o desenvolvimento experimentado na região, graças à ferrovia. Na mesma época foram construídos o Escritório Central da Estrada de Ferro Paracatu, galpões para alojamento de funcionários e oficinas de reparo das locomotivas, além da Vila Operária. O trecho correspondente ao Ramal Paracatu continuou a ser bastante utilizado, mesmo após a interrupção da construção da linha férrea.[3] Na década de 1960, a antiga estação, de arquitetura representativa das construções ferroviárias do início do século XX, foi demolida para dar lugar ao atual prédio da estação, mais moderno. A antiga cobertura de duas águas foi substituída pela laje plana. Sobre a plataforma, o telhado cerâmico sustentado por mãos francesas deu lugar à laje em balanço e diversas modificações foram feitas. Segundo relatos do ex-ferroviário, Sr. Manoel Werneck, a circulação de locomotivas permaneceu na Estação de Bom Despacho, por onde passaram várias máquinas movidas a vapor.[4] A Estrada de Ferro Paracatu foi de extrema importância para o desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural da cidade. À título de exemplo, é interessante citar que vários congadeiros chegaram ao município através da estrada de ferro. Para a população local, foi motivo de muita alegria a chegada da Estrada. Em 10 de junho de 1920, o “Minas Gerais”, órgão oficial do Governo de Minas, publicou a seguinte notícia: “Em solenidade popular bastante concorrida foi feita a demarcação do local onde sera construída a Estrada de Ferro Paracatu (...). Houve um jogo de futebol (...). Apos o jogo o povo seguiu a cavalo para a fazenda do Sr. Francisco Marques Gontijo, para um jantar e um copo de cerveja”.

A Maria Fumaça[editar | editar código-fonte]

De modelo “Pacific”, a locomotiva Maria Fumaça foi construída pela “Baldwin Locomotive Works”, em 1911. Foi importada dos Estados Unidos em 1918 com numeração 80 e circulava nas estações de Pitangui, Velho da Taipa e, posteriormente, em Bom Despacho. Segundo o ex-ferroviário Sr. Werneck, a locomotiva foi importada por ser uma possante movida a lenha, carvão e água e atender ao crescente transporte de cargas e de passageiros. A numeração que era 80 foi alterada para 151, e sua rota transferida para Ribeirão Vermelho, Lavras e Três Corações. Posteriormente, a E. F. Oeste de Minas adquiriu novas locomotivas e, por isso, segundo o Sr. Manoel Werneck, a numeração da Maria Fumaça foi modificada novamente, para n° 325, uma vez que as locomotivas mais possantes deveriam ter maior numeração. Em 1977, contudo, a locomotiva n° 325 parou de circular, sendo substituída, como todas as outras, pelas de diesel-elétricas, mais potentes e econômicas. Diante disto, por vários anos a locomotiva ficou estacionada num galpão em Ribeirão Vermelho. Após grande período de chuvas na década de 1980, a Maria Fumaça, abandonada, ficou praticamente coberta pela água. O ferroviário Sr. Manoel Werneck, antigo responsável pelo Museu Ferroviário de Bom Despacho, tentou resgatar a memória da Estrada de Ferro Paracatu. Seus esforços, somados a ajuda da Prefeitura, foram suficientes para trazer a locomotiva a vapor n° 325 de volta a plataforma da Estação Ferroviária de Bom Despacho.[5] Em 1996 foi firmado um convênio entre a Prefeitura Municipal de Bom Despacho e a RFFSA, estabelecendo empréstimo da locomotiva para fins culturais. Esta foi rebocada em um cargueiro de Três Corações a Divinópolis, com o objetivo de ser reformada nas oficinas da RFFSA. A restauração foi dirigida cautelosamente pelo Sr. Werneck, em Divinópolis. A reforma durou 6 meses e contou com o envolvimento de vários profissionais da Rede, sendo algumas peças doadas pela própria RFFSA de Divinopólis. O restante dos gastos foram financiados pela Prefeitura Municipal de Bom Despacho. Apos a restauração, em 1997, a locomotiva foi transportada para Bom Despacho e encontra-se estacionada junto a plataforma da Estação Ferroviária, fazendo parte do acervo do Museu Ferroviário da cidade.[6]

Referências