Luís Otávio Burnier

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Luís Otávio Burnier
Nascimento 25 de dezembro de 1956
São Paulo
Morte 13 de fevereiro de 1995 (38 anos)
Campinas
Nacionalidade brasileira
Ocupação mímico, pesquisador, ator, diretor de teatro

Luís Otávio Sartori Burnier Pessôa de Mello (São Paulo, 25 de dezembro de 1956Campinas, 13 de fevereiro de 1995), mais conhecido como Luís Otávio Burnier, foi um ator, mímico, tradutor, pesquisador e diretor de teatro brasileiro. Foi um dos fundadores e esteve a frente do grupo LUME até seu falecimento. Em 1993 foi agraciado com a Medalha Carlos Gomes pela Câmara Municipal de Campinas[1] e, desde 1996, dá nome ao mais importante teatro da cidade e sede da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas.[2][3][4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Luís Otávio Burnier morou na cidade de Campinas, onde passou a infância e os primeiros anos de sua adolescência ligado às Artes Plásticas, conhecendo o teatro de forma amadora, participando de algumas montagens e entra no Curso Livre de Teatro do Conservatório Musical Carlos Gomes, neste período conhece a arte de Marcel Marceau, entusiasmado pelo que vira, Burnier passa meses ensaiando frente ao espelho, copiando cada movimento, cena a cena, as fitas de VHS com quadros do mímico, que conseguia emprestado com o Aliança Francesa de Campinas; em 1973 viaja para os Estados Unidos da América, num estágio de seis meses em teatro. Volta com o diploma de Mime Lecture. Com 17 anos faz os testes admissionais da EAD. Surpreendendo os jurados e os professores, fica em primeiro lugar entre os 140 inscritos, e ganha uma bolsa de estudos para o Mime Mouvement Théâtre, de Jacques Lecoq, em Paris, França.[5]

Em Paris, desestimulado e triste, decide procurar por Marceau, encontra-se com Jean-Louis Barrault, que o convence a desistir disto e o leva para conhecer Étienne Decroux. Durante três anos, Burnier pratica ma École de Mime Etienne Decroux e estuda às tardes no Institut d’Etudes Théâtrales da Université de La Sorbone Nouvelle – Paris III. Às noites, estuda francês e assiste muitos espetáculos.[6]

Em 1976, vem ao Brasil, de férias e com um espetáculo pronto: Curriculum – espetáculo de Mímica Corporal Dramática, que junto com o mimo israelense Giora Seeliger, apresentava uma adaptação da história de Caim e Abel, colocando-os dentro da sociedade de consumo. Em 1977, é contratado pelo próprio Decroux para ser monitor em suas aulas. Em 1983, volta definitivamente para o Brasil, depois de ter passado dois anos percorrendo a América do Sul, pesquisando seu novo espetáculo: Macário, inspirado num conto do autor mexicano Juan Rulfo, apresentando-o no Brasil, França, Peru e Argentina.

Em 1984, é convidado a ministrar a disciplina Treinamento de Ator, no então, Curso de Teatro da Unicamp; e casa-se com Denise Garcia, musicista, com quem irá desenvolver muitos trabalhos; e também, com quem, junto com Carlos Simioni, funda o LUME, em 1985. No mesmo ano é convidado a participar da 3ª edição da ISTA na França, e também participa da 6ª edição, em 1987, na Itália.

Em 1988, apresenta ao público as possibilidades do uso do holograma em cena, em parceria com o Professor J.J. Lunazi e seus estudos sobre tecnologia óptica. Em 1989 é tema e ator do primeiro filme 3D realizado no Brasil: Mímicas por Luís Otávio Burnier.[7]

Em 1994, ele organiza a 8ª edição da ISTA na cidade de Londrina, Paraná. Sendo a única sessão realizada nas Américas até hoje.[8]

Em 1995, apresentando há 10 dias o sintoma de uma dor intensa, e sendo diagnosticado com uma hérnia de disco, Luís Otávio Burnier morre, com 38 anos de hepatite B, segundo os laudos médicos.[9] Luis Otávio era irmão mais velho do Jornalista José Roberto Burnier.

Pesquisas[editar | editar código-fonte]

Pesquisando diversas manifestações teatrais como a Ópera de Pequim e conhecendo in loco os trabalhos de Grotowski, Eugenio Barba e outros artistas; ao retornar ao Brasil, se empenha em desenvolver uma técnica corpórea de encenação baseada na fisicalidade das manifestações populares. Redireciona seus estudos para a criação de uma técnica pessoal de representação que pudesse ser retransmitida, o que o leva a fundar o LUME. Suas novas pesquisas o levam a desenvolver as bases do que chamou de “A arte de ator”: Dança pessoal, Mímesis corpórea e Clown. Que foram minuciosamente explicadas na sua tese de doutorado: “Elaboração, codificação e sistematização de técnicas corpóreas e vocais de representação para o ator.”:

Dança Pessoal[editar | editar código-fonte]

Resultado do treinamento energético, que visa dinamizar as potencialidades do ator.[10] A sua eficácia foi comprovada nos espetáculos:

  • Kelbilim, o cão da divindade[11]
  • Cnossos, inspirado no mito do Minotauro, se trata de uma representação de um labirinto de memórias.[12]

Mímesis Corpórea[editar | editar código-fonte]

Ato do ator de re-criar e re-apresentar com o seu próprio corpo, as in-tensões, élan, impulsos, movimentos e seu ritmo, além das qualidades e níveis de energia e da organicidade das ações físicas executadas por outrem.[13] Foi utilizada para a construção dos espetáculos:

Clown[editar | editar código-fonte]

Expressão e exposição das fraquezas, do ridículo e patético de cada um.[15]

Segundo o Lume[16] o clown é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. Burnier [16] esclarece que o clown não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transforma-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de clown, com caracteristicas particulares e individuais.

Esta pesquisa foi apresentada ao público na forma dos espetáculos

  • Valef Ormos (1992).
  • Mixórdia em Marcha-Ré Menor (1995)
  • Cravo, Lírio e Rosa (1996)

LUME[editar | editar código-fonte]

Em 1985, Luís Otávio Burnier, já como docente do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, funda o LUME – Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão. Inicialmente havia apenas um ator: Carlos Simioni. Em 1988 apresentam o seu primeiro resultado cênico: Kelbilin, e o ator Ricardo Puccetti inicia seu treinamento e trás para o grupo sua pesquisa sobre a arte do palhaço. Em 1992 apresentam o primeiro trabalho a partir desta pesquisa: Valef Ormos. Em 1993, o LUME é convidado a orientar a turma de formandos em artes cênicas da Unicamp, desses 11 alunos, alguns passam a estagiar no grupo, iniciando seus treinamentos pessoais. Em 1994 o LUME é reconhecido como Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp. Em 1995, após a morte de Burnier, os estagiários são aceitos como membros, são eles:: Ana Cristina Colla, Ana Elvira Wuo, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini; e Ricardo Puccetti estréia seu primeiro trabalho solo: Cnossos. Dando continuidade a pesquisa sobre o Sentido Cômico, Simioni e Puccetti estréiam Cravo, Lírio e Rosa em 1996. Decididos a manterem suas pesquisas individuais e a trabalharem com diretores convidados, em 1997 trabalham com a mestra de Butoh Anzu Furukawa, e apresentam o espetáculo Afastem-se Vacas que a Vida é Curta, inspirado na obra Cem Anos de Solidão de Garcia Marques. No mesmo ano, Puccetti estréia La Scarpetta (Spettacolo Artístico), dirigido pelo mestre italiano Nani Colombaioni, e a atriz Ana Elvira Wuo deixa o grupo. Em 1998, a atriz inglesa Naomi Silman entra no grupo, e com esta formação o grupo apresenta no mesmo ano o espetáculo Parada de Rua, com direção de Kai Bredholt, ator do Odin Teatret da Dinamarca. O grupo mantém a mesma formação até o presente momento.[17] Para comemorar os 25 anos de fundação, em 2010, o LUME convida parceiros, discípulos e amigos para uma montagem coletiva, sob a direção de Ricardo Puccetti e Naomi Silman: Sonho de Ícaro, sendo apresentado em duas sessões para um público de mais de 1 mil pessoas. com mais de 70 artistas em cena.
Trabalhando com diretores convidados, ou sendo dirigidos por membros internos, o LUME mantém-se ativo, apresentando e estreando diversos espetáculos. Seus cursos e oficinas, oferecidos anualmente, são procurados por pessoas do mundo todo. Cada um dos 07 atores do LUME desenvolve suas próprias pesquisas pessoais e mantém as pesquisas cênicas coletivas.[18]

Espetáculos[editar | editar código-fonte]

Durante sua existência, o Lume criou os seguintes espetáculos: [16]

Macário (1985), dir. Luis Otávio Burnier.
Duo para Piano e Mímica (1985), dir. Luis Otávio Burnier
Guarani (1986), dir. Luis Otávio Burnier.
Kelbilim, o cão da divindade (1988), dir. Luis Otávio Burnier
H2 Olos (1988), dir. Luis Otávio Burnier
Nostos (1990), dir. Luis Otávio Burnier
Wolzen (1991), dir. Luis Otávio Burnier
Sleep e Reincarnation from the Empty Land (1991), dir. Natsu Nakajima
Valef Ormos (1992), dir. Luis Otávio Burnier
Taucoauaa Panhé Mondo Pé (1993), dir. Luis Otávio Burnier
Anoné (1995), dir. Carlos Simioni
Mixórdia em Marcha-Ré Menor (1995), dir. Ricardo Puccetti
Cnossos (1995), dir. Luis Otávio Burnier
Contadores de Estórias (1995), dir. Ricardo Puccetti
Cravo, Lírio e Rosa (1996), dir. Carlos Simioni e Ricardo Puccetti
Afastem-se Vacas que a Vida é Curta (1997), dir. Anzu Furukawa
La Scarpetta (1997), dir. Nani Colombaioni e Ricardo Puccetti
Parada de Rua (1998), dir. Kai Bredholt e LUME
Café com Queijo (1999), dir. LUME
Um Dia... (2000), dir. Naomi Silman
Shi-Zen, 7 Cuias (2004), dir. Tadashi Endo
O não lugar de Ágada Tchainik (2004) dir. Sue Morisson
O que seria de nós sem as coisas que não existem (2006) dir.Norberto Presta
Sopro (2006) dir. Tadashi Endo
Kavka - Agarrado num traço a lápis (2007) dir. Naomi Silman
Você (2009) dir. Tadashi Endo
Sonho de Ícaro (2010)
Os Bem Intencionados (2012) dir. Grace Passô

Alphonsus (2013) dir. Ana Cristina Colla


Livros[editar | editar código-fonte]

Ele traduziu e foi editor responsável pela publicação no Brasil, de dois livros de Eugênio Barba:

  • Além das Ilhas Flutuantes
  • A Arte Secreta do Ator - dicionário de antropologia teatral

E teve sua tese de doutorado publicada, atualmente na segunda edição, após seu falecimento:

  • A arte de ator: Da técnica à representação

Referências

  1. «Burnier, Luis Otávio (1956 - 1995)». Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro. Consultado em 31 de julho de 2012 
  2. «Sala Luís Otávio Burnier: Casa da Sinfônica». Notas Musicais – Informativo eletrônico da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. Consultado em 31 de julho de 2012 
  3. «A Sinfônica». Orquestra Sinfônica municipal de Campinas. Consultado em 31 de julho de 2012 
  4. Dini, Alberto (10 de novembro de 2006). «OSMC volta ao Convivência neste final de semana». Prefeitura Municipal de Campinas – Notícias. Consultado em 31 de julho de 2012 
  5. Cafiero, Carlota. «Luís Otávio Burnier - Os movimentos de um realizador de sonhos». LUME Teatro - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  6. «Mímica Contemporânea no Brasil: Denise Stoklos e Luis Otávio Burnier». Cia. Luis Louis de Teatro. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  7. «Exposição de Holografia Prof. José J. Lunazzi». Laboratório de Óptica do Instituto de Física-UNICAMP. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  8. Furtado, Patrícia. «Odin Teatret em Mato Grosso: pensar e fazer teatro». Governo do Estado de Mato Grosso. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  9. Cafiero, Carlota. «Luís Otávio Burnier: nota biográfica» (PDF). Sala Preta. Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA-USP. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  10. «Linha de pesquisa: Dança Pessoal». Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil - CNPq. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  11. «Kelbilim, O *Cão da Divindade». LUME Teatro. Consultado em 31 de julho de 2012 
  12. «Cnossos». LUME Teatro. Consultado em 31 de julho de 2012 
  13. Colla, Ana Cristina; Ferracini, Renato. «Ator: um olhar poético para a imagem». LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais - UNICAMP. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  14. «Café com Queijo». LUME Teatro. Consultado em 31 de julho de 2012 
  15. Burnier, Luís Otávio. «O clown». Grupo Tempo - Textos. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  16. a b c FERRACINI, Renato. A Arte de Não Interpretar Como Poesia Corpórea do Ator. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. 3000 p.
  17. «LUME - Histórico». Enciclopédia Itau Cultural - Teatro. Consultado em 3 de agosto de 2012 
  18. Filho, Manuel Alves (4 de abril de 2005). «LUME, 20 anos». Jornal da Unicamp. Consultado em 3 de agosto de 2012 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Cafiero, Carlota, A Arte de Luís Otávio Burnier. Revista do Lume, n°5, COCEN Unicamp 2003. ISSN 1518-2800
  • Burnier, Luís Otávio. Aarte de ator: da técinica à represerntação / Luís Otávio Burnier – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2001 ISBN 85-268-0542-8
  • Silman, Naomi (org), "Lume Teatro 25 anos" Editora da Unicamp, Campinas, SP. 2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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