Ludwik Fleck

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Ludwik Fleck
Nascimento 11 de julho de 1896
Lviv
Morte 5 de junho de 1961 (64 anos)
Ness Ziona
Cidadania Polónia
Alma mater
Ocupação biólogo, imunologista, médico, sociólogo(a), filósofo, professor(a) universitário(a), escritor, microbiologista
Prêmios
  • Oficial da Ordem da Polônia Restituta
Empregador Universidade de Lviv
Causa da morte enfarte agudo do miocárdio

Ludwik Fleck, por vezes grafado como Ludwig (Leópolis, 31 de Julho de 1896 — Ness-Ziona, Israel, 5 de Julho de 1961) foi um médico e biólogo polaco, que criou na década de 1930 o conceito de «pensamento colectivo». O conceito é importante em história, filosofia e sociologia da ciência pois ajuda a compreender como as ideias científicas se modificam ao longo do tempo. Este conceito é semelhante e precursor das noções posteriores de paradigma (de Thomas Kuhn) e de épistème (de Michel Foucault).

Vida[editar | editar código-fonte]

Fleck nasceu em Leópolis, actualmente pertencente à Ucrânia, e cresceu na província austríaca de Galícia. Concluiu os estudos no liceu polaco em 1914 e inscreveu-se na Universidade Jan Kazimierz de Leópolis, onde concluiu a licenciatura em medicina. Em 1920, tornou-se assistente do famoso especialista em febre tifóide Rudolf Weigl, nomeado para a cátedra de Biologia na Universidade de Leópolis em 1921. De 1923 a 1935, ele trabalhou, primeiro no Departamento de Medicina Interna do Hospital Geral de Leópolis e, depois, tornou-se Director do Laboratório Bacteriológico da autoridade local de segurança social. Desde 1935, trabalhou no laboratóro bacteriológico privado que tinha fundado anteriormente.

Com a ocupação de Leópolis pela Alemanha nazi, Fleck foi deportado com a sua mulher, Ernestina Waldman, e o filho Ryszard para o gueto judeu da cidade. Continuou a sua pesquisa no hospital e desenvolveu um novo processo para obter uma vacina a partir da urina dos doentes com tifo. Quando os alemães souberam do seu trabalho, Fleck e a sua família foram presos, em Dezembro de 1942, e deportados para a Laokoon-Pharmazeutische Fabrik para produzir soro anti-tifo. A 7 de Fevereiro de 1943, foram novamente presos e enviados para o campo de concentração de Auschwitz. A sua tarefa consistia em diagnosticar sífilis, tifo e outras doenças, utilizando testes serológicos. Fleck esteve preso no campo de concentração de Buchenwald, desde Dezembro de 1943 até à libertação da Polónia, em 11 de Abril de 1945.

Entre 1945 e 1952, dirigiu o Instituto de Microbiologia da Escola de Medicina da Universidade Maria Sklodowska-Curie de Lublin. Em 1952, mudou-se para Varsóvia, para se tornar director do Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto Estatal Materno-Infantil. Em 1954, foi eleito membro da Academia das Ciências da Polónia. A pesquisa de Fleck, durante esses anos, centrou-se no comportamento dos leucócitos em situações de infecção e de stress. Entre 1946 e 1957, publicou 87 artigos médicos e científicos em revistas polacas, francesas, inglesas e suíças. Em 1951, Fleck recebeu o Prémio Nacional por Realizações Científicas e, em 1955, a Cruz de Oficial da Ordem do Renascimento da Polónia.

Em 1956, depois de um ataque cardíaco e de descobrir que sofria de um linfoma, Fleck emigrou para Israel, onde lhe criaram um lugar no Instituto Israelita para a Pesquisa Biológica. Morreu em 1961, com um segundo ataque cardíaco. Tinha 64 anos de idade.

Para além do seu trabalho no âmbito da microbiologia, Fleck escreveu o livro Génese e desenvolvimento de um facto científico. Para ele, em ciência, a verdade é um ideal impossível de atingir, porque os investigadores se encontram presos em pensamentos colectivos (ou estilos de pensamento). Ele considerou que o desenvolvimento das ideias científicas não é unidireccional e não consiste na mera acumulação de nova informação, mas também na derrubada das ideias antigas. Esta abordagem é actualmente conhecida por "construtivismo social". O Prémio Ludwig Fleck, criado em 1992 pela Society for Social Studies of Science (4S), é atribuído anualmente ao melhor livro no âmbito dos estudos sobre a ciência e a tecnologia.

Influência na epistemologia[editar | editar código-fonte]

Seminário acadêmico sobre as relações entre o pensamento de Ludwik Fleck e o pensamento de Mikhail Bakhtin.[1]

As ideias de Fleck a cerca do conhecimento são utilizadas em alguns trabalhos como referencial teórico para a pesquisa no ensino na área de saúde[2], sobre a natureza da ciência[3] e suas contribuições também abarcam análises históricas sobre a produção técnico-científica de cientistas.[4] É possível ainda estabelecer algumas relações de seu pensamento com outros autores como por exemplo Mikhail Bakhtin.

Principais publicações[editar | editar código-fonte]

  • On the crisis of ‘reality’ [1929]. Cognition and fact. Springer, Dordrecht, 1986. 47-57.[1]
  • The Genesis and Development of a Scientific Fact (editado por T.J. Trenn e R.K. Merton,com prefácio de Thomas Kuhn). Chicago: University of Chicago Press, 1979. Esta é a primeira tradução para inglês do seu livro Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache. Einführung in die Lehre vom Denkstil und Denkkollektiv. Basel: Schwabe und Co., Verlagsbuchhandlung, 1935.
  • Gênese e desenvolvimento de um fato científico (Prefácio Mauro L. Condé. Trad. George Otte e Mariana Oliveira). Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010. Esta é a tradução para português de Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache. Einführung in die Lehre vom Denkstil und Denkkollektiv.
  • Denkstile und Tatsachen. Gesammelte Schriften und Zeugnisse. Hrsg. v. Sylwia Werner, Claus Zittel, Frankfurt am Main 2011

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Grupo Fluxo - UFSC, Grupo Fluxo - UFSC (17 de setembro de 2020). «"Relações entre a epistemolgia de L. Fleck e a teoria da enunciação de Bakhtin"». Grupo Fluxo - UFSC. Consultado em 21 de setembro de 2020 
  2. Pfuetzenreiter, Márcia Regina. «A epistemologia de Ludwik Fleck como referencial para a pesquisa no ensino na área de saúde». Ciência & Educação (Bauru) (2): 147–159. ISSN 1516-7313. doi:10.1590/S1516-73132002000200001. Consultado em 19 de setembro de 2020 
  3. Massoni, Neusa Teresinha; Moreira, Marco Antonio (19 de maio de 2015). «A epistemologia de Fleck: uma contribuição ao debate sobre a natureza da ciência». Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia (1): 237–264. ISSN 1982-5153. doi:10.5007/1982-5153.2015v8n1p237. Consultado em 19 de setembro de 2020 
  4. Queirós, Wellington Pereira de [UNESP; Nardi, Roberto [UNESP; Delizoicov, Demétrio (2014). «A produção técnico-científica de James Precott Joule: uma leitura a partir da epistemologia de Ludwig Fleck». Investigações em Ensino de Ciências. 99 páginas. ISSN 1518-8795. Consultado em 19 de setembro de 2020 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • The Problem of Epistemology [1936]. In R.S. Cohen and T. Schnelle (eds.), Cognition and Fact - Materials on Ludwik Fleck. Dordrecht: Reidel, 1986.
  • Löwy, Ilana. "Ludwik Fleck on the social construction of medical knowledge". Sociology of Health and Illness 10,2(1988)133-55.
  • Löwy, Ilana. "Fleck e a Historiografia Recente da Pesquisa Biomédica" In Filosofia, História e Sociologia das Ciências. 2ª reimpressão. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002. 269p.
  • Condé, Mauro L. (Org.) Ludwik Fleck: estilos de pensamento na ciência. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012.
  • Claus Zittel, "Ludwik Fleck and the concept of style in the natural sciences", in: Studies in East European Thought, Vol. 64, No. 1/2, Origins of Social Theories of Knowledge (May 2012), pp. 53-79
  • Delizoicov, Demétrio, et al. "Sociogênese do conhecimento e pesquisa em ensino: contribuições a partir do referencial fleckiano." Caderno Brasileiro de Ensino de Física 19 (2002): 52-69.[2]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]