Luzia (fóssil)

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Luzia (fóssil)
Luzia (fóssil)
Número de catálogo Lapa Vermelha IV Hominídeo 1
Nome popular Luzia
Espécie Homo sapiens paleoamericano
Idade 11,243–11,710 anos
Local da descoberta Lapa Vermelha, Pedro Leopoldo (MG)
Data da descoberta 1975
Descoberto por Annette Laming-Emperaire

Luzia é o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca de 12 500 a 13 000 anos[1] que reacendeu questionamentos acerca das teorias da origem do homem americano.[2] O fóssil pertenceu a uma mulher que morreu entre seus 20 a 24 anos de idade[3] e foi considerado como parte da primeira população humana que entrou no continente americano.[3][4]

O esqueleto foi descoberto nos anos 1970 em escavações na Lapa Vermelha, uma gruta no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.[5] Em 2018, o fóssil foi queimado e quase destruído no incêndio do Museu Nacional.[6] Em 19 de outubro de 2018, o museu anunciou que conseguiu recuperar até 80% dos fragmentos e poderá reconstruir o esqueleto.[7]

Fóssil

Origem do nome

Formalmente, o esqueleto se chama "Lapa Vermelha IV Hominídeo 1".[8] "Luzia" é um apelido dado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Ele se inspirou em Lucy, o célebre fóssil de Australopithecus afarensis de 3,5 milhões de anos achado na Etiópia no ano de 1974.[carece de fontes?]

Condição

Além de "fóssil", Luzia é também referida simplesmente como um "esqueleto" de hominídio. Os ossos não apresentam "sinais clássicos de fossilização",[9] logo, segundo a definição de certos autores, poderiam ser chamados de "subfósseis". Entretanto, atualmente, muitos paleontólogos desconsideram a necessidade de alteração química (fossilização, ou diagênese) para a classificação de um resto biológico como fóssil, em sentido amplo.[10]

Descoberta

O esqueleto foi encontrado no início dos anos 1970, pela missão arqueológica franco-brasileira chefiada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire (1917-1977), em escavações na Lapa Vermelha, uma gruta no município de Pedro Leopoldo (MG).[11] A gruta era famosa pelos trabalhos do cientista Peter Lund (1801-1880), que lá descobrira, entre 1835 e 1845, milhares de fósseis de animais extintos da época do Pleistoceno e 31 crânios humanos em estado fóssil do que passou a ser conhecido como o Homem de Lagoa Santa. Seus hábitos alimentares incluíam folhas, frutas, raízes e algumas vezes, carne.[12]

Inicialmente, Emperaire, acreditava que haviam na verdade dois esqueletos diferentes no local do sítio arqueológico: um mais recente, datado em 11 mil anos, e outro localizado um metro abaixo, datado em 12 mil anos, o qual seria da cultura Clóvis e ao qual pertenceria o crânio de Luzia. Entretanto, análises posteriores pelo arqueólogo francês André Prous revelaram que ambos os restos encontrados pertenciam a um mesmo indivíduo, datado em 11 mil anos – como o crânio havio rolado para longe do resto do esqueleto, Emperaire fizera uma interpretação errônea dos achados.[13][14]

Povoamento das Américas

Ver artigo principal: Povoamento da América

Teoria alternativa

Modelo 3D gerado a partir de fotogrametria
Reconstituição facial de Luzia.
Reconstituição computadorizada do rosto de Luzia. Algumas características como a cor da pele e o cabelo crespo são apenas suposições.

Em 1989, Walter Neves, ao lado do colega argentino Héctor Pucciarelli, do Museu de La Plata, formulou a teoria de que o povoamento da América teria sido feito por duas correntes migratórias de caçadores-coletores, ambas vindas da Ásia provavelmente pelo estreito de Bering, através de um istmo que se formou com a queda do nível dos mares durante a última idade do gelo. A primeira leva migratória seria composta por populações com traços negroides, tendo ocorrido há 14 mil anos e não possuiria representantes atuais entre os povos ameríndios. Já a segunda leva seria formada por indivíduos com aparência mais próxima à mongoloide, e teria ocorrido há 12 mil anos. Esta teoria alternativa contrapunha-se à teoria convencional de que teria havido três ondas migratórias, via estreito de Bering, iniciadas há cerca de 13 mil anos, de populações com traços somente mongoloides.[15][16]

Em 1995, Neves teve acesso ao "esqueleto da Lapa Vermelha IV" ou "Lapa Vermelha IV Hominídeo 1", localizado no Museu Nacional, o qual apresentava traços negroides. O esqueleto foi renomeado por ele como "Luzia",[13] e se tornou a principal evidência de sua teoria alternativa sobre o povoamento da América.[16] Ao estudar a morfologia craniana de Luzia, Neves encontrou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e os negros da África.[8]

As populações da primeira onda migratória da teoria de Neves, foram chamadas de aborígenes americanos, sendo semelhates a Luzia. No entanto, Luzia possui crânio arredondado como o dos mongoloides e não tem o occipital saliente dos negroides, tal como tem leve braquicefalia como os mongoloides. Assim, Luzia parece um tipo intermediário entre pigmoides e mongoloides, do mesmo modo que os australoides são a fusão de vários elementos do paleolítico superior e inferior; mesmo os congoides de crânio arredondado possuem influências residuais mongoloides de possíveis contatos pelo Índico com navegadores antigos asiáticos que inclusive colonizaram Madagascar a partir da costa leste africana, sendo fácil notar mongolização em povos da África Oriental e mesmo de outras regiões via repasse autossómico indireto. Do mesmo modo, na América do Norte, foram encontrados povos, tais como o de Kennewick que possuem feições intermediárias entre mongoloides e caucasoides, tão ou mais antigos que Luzia. O que indica que a maré mongoloide mais recente deve ter extinto estes povos anteriores de feições caucasoides e mongopigmoides em algum momento do paleolítico superior final.[carece de fontes?]

A maior dificuldade hoje em analisar o DNA dos ameríndios é que muitos povos, por mais isolados que aparentem estar atualmente, durante os séculos da colônia, foram, muitas vezes, contatados por expedições de bandeiras espanholas, portuguesas e de colonos independentes que levavam, às vezes, escravos, a exemplo de um pequeno quilombo no Mato Grosso da época da mineração, o que indica que os luso-paulistas bandeirantes não usavam apenas mão de obra ameríndia, mas também mista, o que de facto compromete muito das analises genômicas, já que estas podem estar anacronicamente não mais puras como o eram antes de tais entradas aos Sertões do interior sul-americano.[carece de fontes?]

As conclusões de Neves foram desafiadas por pesquisas feitas pelos antropólogos Rolando González-José, Frank Williams e William Armelagos, que mostraram, em seus estudos, que a variabilidade craniofacial poderia ser apenas devido à deriva genética e outros fatores que afetam a plasticidade craniofacial em Nativos americanos.[17][18][19]

A comparação em 2005 das espécimes de Lagoa Santa com os modernos Botocudos da mesma região também mostrou afinidades fortes, levando Neves a classificar os Botocudos como paleoíndios.[20]

Um estudo genético de 2015, com dados de populações ameríndias atuais e passadas, corrobora a hipótese de uma única onda migracional de povos da Sibéria, ocorrida entre 23 mil a 8 mil anos, pela Beríngia. As semelhanças de parte dos atuais ameríndios com os atuais australoides seriam indiretas, resultado de deriva genética e não de descendência.[21] A sequência genética de paleo-índios da Patagônia revelou que os paleo-índios têm perfil genético similar ao dos indígenas americanos.[21]

Teoria de 2018

O crânio de Luzia exposto no Museu Nacional do Brasil

Pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade de Harvard divulgaram uma descoberta que contradiz a principal teoria do povoamento da América. Com ajuda da extração de DNA de fósseis enterrados por mais de dez mil anos, eles puderam avaliar o código genético dos fósseis para descobrir quem são nossos antepassados[22].

O trabalho foi feito em conjunto pela USP, pela Universidade Harvard e pelo Instituto Max Planck, da Alemanha. Os cientistas estudaram nove ossadas humanas da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Dos mesmos sítios arqueológicos de Luzia, a ossada de uma mulher que teria vivido há mais de 11 mil anos e é considerada a primeira brasileira[23].

Existem duas teorias para a chegada dos seres humanos aos continentes americanos:

  1. A primeira diz que somos descendentes de populações do leste asiático, que atravessaram o estreito de bering - na época, ele ainda se conectava à América do Norte - e desceram até chegar à América do Sul.
  1. Mas, na década de 1990, foi criada um nova teoria. A de que os territórios americanos também foram povoados por humanos mais antigos ainda, os primeiros que já tinham saído da África, cruzado a Ásia e que teriam vindo direto para as Américas, até chegar ao Brasil. A ideia surgiu porque os pesquisadores estudaram as medidas do crânio de Luzia e acharam que ele era mais largo do que os dos indígenas e mais parecido com o dos africanos.

Entretanto, o resultado do estudo mostrou que a Luzia vai precisar de um rosto novo. O atual, com nariz e lábios mais grossos, foi feito com base na ideia de que ela descendia de povos africanos. Contudo, a análise do DNA mostrou que o código genético do povo de Lagoa Santa é semelhante ao de todos os povos indígenas da América e, neste caso, as feições seriam outras. Com essa comprovação, a teoria de que duas populações teriam povoado as Américas não faz mais sentido. O povo de Luzia chegou à América junto com todas as demais populações que vieram do continente asiático[24].

Ver também

Referências

  1. Feathers, James; R. Kipnis; L. Piló; M. Arroyo & D. Coblentz (2010) "How old is Luzia? Luminescence dating and stratigraphic integrity at Lapa Vermelha, Lagoa Santa, Brazil"; Geoarchaeology 25 (4): 395–436.
  2. «Poucas e Boas - Isabela Boscov». Revista Veja 
  3. a b «Folha de S.Paulo - A primeira brasileira não era uma índia (com foto) - 05/04/98». Folha de S. Paulo. Consultado em 11 de outubro de 2017. 
  4. «'Jornada da Vida' mostra origem dos brasileiros há 13 mil anos». Fantástico. 14 de dezembro de 2014 
  5. C. Smith (1999). «Luzia Woman». Discovery Communications Inc. Consultado em 21 de dezembro de 2007. 
  6. Lucas Ferreira (3 de setembro de 2018). «Especialista compara perda do fóssil Luzia com destruição da Mona Lisa». R7. Consultado em 3 de setembro de 2018. 
  7. Patrícia Teixeira (19 de outubro de 2018). «Fóssil de Luiza é encontrado». G 1. Consultado em 19 de outubro de 2018. 
  8. a b NEVES, Walter A. Lapa Vermelha IV Hominid 1: Morphological Affinities of the Earliest Known American. In: Genetics and Molecular Biology, v. 22, p. 461-469, 1999. link.
  9. Mendonça de Souza, S.; Rodrigues-Carvalho, C.; Silva, H.P. & Locks, M. Revisitando a discussão sobre o quaternário de Lagoa Santa e o povoamento das Américas: 160 anos de debates científicos. In: H.P. Silva & C. Rodrigues-Carvalho. (orgs.). Nossa Origem. Rio de Janeiro: Vieria & Lentz, 2006. p. 19-43. link.
  10. TOMASSI, H. Z.; ALMEIDA, C. M. O que é fóssil? Diferentes conceitos na Paleontologia. In: XXII Congresso Brasileiro de Paleontologia, Natal. Atas..., p. 143-147. 2011. link.
  11. C. Smith (1999). «Luzia Woman». Discovery Communications Inc. Consultado em 21 de dezembro de 2007. 
  12. «Com Ciência - Arqueologia e Sítios Arqueológicos». www.comciencia.br 
  13. a b PIVETTA, Marcos; ZORZETTO, Ricardo. Walter Neves: O pai de Luzia. Pesquisa Fapesp, n. 195, p. 26-31, mai. 2012. [1].
  14. Prous, A. "Archeological missions to the Lagoa Santa region in the second half of the 20th century". In: Da-Gloria, Pedro, Walter A. Neves, and Mark Hubbe, eds. Archaeological and Paleontological Research in Lagoa Santa: A Quest for the First Americans. New York: Springer, 2017. link.
  15. NEVES, W. A. e PUCCIARELLI, H M. Extra-continental biological relationships of early South American human remains: a multivariate analysis. Ciência e Cultura, v. 41, p. 566-75, 1989. link.
  16. a b PIVETTA, Marcos. A América de Luzia. Pesquisa Fapesp, Especial 50 anos, p. 234,239, mai. 2012. link.
  17. van Vark GN, Kuizenga D, Williams FL (junho de 2003). «Kennewick and Luzia: lessons from the European Upper Paleolithic». American Journal of Physical Anthropology. 121 (2): 181–4; discussion 185–8. PMID 12740961. doi:10.1002/ajpa.10176 
  18. Fiedel, Stuart J. (2004). «The Kennewick Follies: 'New' Theories about the Peopling of the Americas». Journal of Anthropological Research. 60 (1): 75-110. JSTOR 3631009 
  19. González-José R, Bortolini MC, Santos FR, Bonatto SL (outubro de 2008). «The peopling of America: craniofacial shape variation on a continental scale and its interpretation from an interdisciplinary view». American Journal of Physical Anthropology. 137 (2): 175–87. PMID 18481303. doi:10.1002/ajpa.20854 
  20. Lopes, Reinaldo José (10 de outubro de 2005). «Os sobreviventes: Crânios de índios extintos do Brasil Central indicam elo com primeiros povoadores da América» [Survivors: skulls of extinct Indians of Central Brazil indicate link with the first settlers of America]. Jornal da Ciência. Consultado em 15 de fevereiro de 2008. 
  21. a b Raghavan, Maanasa; Steinrücken, Matthias; Harris, Kelley; Schiffels, Stephan; Rasmussen, Simon; DeGiorgio, Michael; Albrechtsen, Anders; Valdiosera, Cristina; Ávila-Arcos, María C.; Malaspinas, Anna-Sapfo; Eriksson, Anders; Moltke, Ida; Metspalu, Mait; Homburger, Julian R.; Wall, Jeff; Cornejo, Omar E.; Moreno-Mayar, J. Víctor; Korneliussen, Thorfinn S.; Pierre, Tracey; Rasmussen, Morten; Campos, Paula F.; Damgaard, Peter de Barros; Allentoft, Morten E.; Lindo, John; Metspalu, Ene; Rodríguez-Varela, Ricardo; Mansilla, Josefina; Henrickson, Celeste; Seguin-Orlando, Andaine; Malmström, Helena; Stafford, Thomas; Shringarpure, Suyash S.; Moreno-Estrada, Andrés; Karmin, Monika; Tambets, Kristiina; Bergström, Anders; Xue, Yali; Warmuth, Vera; Friend, Andrew D.; Singarayer, Joy; Valdes, Paul; Balloux, Francois; Leboreiro, Ilán; Vera, Jose Luis; Rangel-Villalobos, Hector; Pettener, Davide; Luiselli, Donata; Davis, Loren G.; Heyer, Evelyne; Zollikofer, Christoph P. E.; León, Marcia S. Ponce de; Smith, Colin I.; Grimes, Vaughan; Pike, Kelly-Anne; Deal, Michael; Fuller, Benjamin T.; Arriaza, Bernardo; Standen, Vivien; Luz, Maria F.; Ricaut, Francois; Guidon, Niede; Osipova, Ludmila; Voevoda, Mikhail I.; Posukh, Olga L.; Balanovsky, Oleg; Lavryashina, Maria; Bogunov, Yuri; Khusnutdinova, Elza; Gubina, Marina; Balanovska, Elena; Fedorova, Sardana; Litvinov, Sergey; Malyarchuk, Boris; Derenko, Miroslava; Mosher, M. J.; Archer, David; Cybulski, Jerome; Petzelt, Barbara; Mitchell, Joycelynn; Worl, Rosita; Norman, Paul J.; Parham, Peter; Kemp, Brian M.; Kivisild, Toomas; Tyler-Smith, Chris; Sandhu, Manjinder S.; Crawford, Michael; Villems, Richard; Smith, David Glenn; Waters, Michael R.; Goebel, Ted; Johnson, John R.; Malhi, Ripan S.; Jakobsson, Mattias; Meltzer, David J.; Manica, Andrea; Durbin, Richard; Bustamante, Carlos D.; Song, Yun S.; Nielsen, Rasmus; Willerslev, Eske (21 de julho de 2015). «Genomic evidence for the Pleistocene and recent population history of Native Americans». Science: aab3884. PMID 26198033. doi:10.1126/science.aab3884 – via science.sciencemag.org 
  22. «Estudo contradiz teoria de povoamento da América e sugere que rosto de Luzia era diferente do que se pensava». G1 
  23. «Estudo contradiz teoria de povoamento da América e sugere que rosto de Luzia era diferente do que se pensava». G1 
  24. «Estudo contradiz teoria de povoamento da América e sugere que rosto de Luzia era diferente do que se pensava». G1 

Bibliografia

Ligações externas

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