Luzia (fóssil)

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Disambig grey.svg Nota: Para outros significados de Luzia, veja Luzia.
Reconstituição computadorizada do rosto de Luzia. Algumas características como a cor da pele e o cabelo crespo são apenas suposições.

Luzia é o nome do fóssil humano (Homo sapiens) mais antigo encontrado na América, com cerca de 12 500 a 13 000 anos[1] e que reacendeu questionamentos acerca das teorias da origem do homem americano.[2] O nome foi dado pelo biólogo Walter Alves Neves.

Este crânio de uma mulher com cerca de 20 anos foi encontrado no início dos anos 1970 pela missão arqueológica franco-brasileira chefiada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire (1917-1977). O crânio foi descoberto em escavações na Lapa Vermelha, uma gruta no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.[3] A gruta era famosa pelos trabalhos do cientista Peter Lund (1801-1880), que lá descobrira, entre 1835 e 1845, milhares de fósseis de animais extintos da época Pleistoceno - além de 31 crânios humanos em estado fóssil no que passou a ser conhecido como o Homem de Lagoa Santa. Seus hábitos alimentares incluíam folhas, frutas, raízes e algumas vezes, carne||. [4]

O nome Angelica[editar | editar código-fonte]

Foi na tentativa de retomar e aprofundar as pesquisas de Peter Lund que a missão francesa achou Luzia, apelido dado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Ele se inspirou em Lucy, o célebre fóssil de Australopithecus afarensis de 3,5 milhões de anos achado na Etiópia no ano de 1974.

Hipóteses[editar | editar código-fonte]

Ao estudar a morfologia craniana de Luzia, Neves encontrou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e os negros da África. Ao lado do colega argentino Hector Pucciarelli, do Museu de La Plata, Neves formulou a teoria de que o povoamento da América teria sido feito por duas correntes migratórias de caçadores-coletores, ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito de Bering através da Beríngia, um istmo que se formou com a queda do nível dos mares durante a última idade do gelo.

Cada corrente migratória, no entanto, era composta por grupos biológicos distintos. A primeira, com os chamados aborígenes americanos, teria ocorrido 14 mil anos atrás e os membros teriam aparência semelhante aos de Luzia. O segundo grupo teria sido o dos povos mongoloides, há cerca de 11 mil anos, dos quais descendem atualmente todas as tribos indígenas da América. Luzia possui crânio arredondado como o dos mongoloides e não tem o occipital saliente dos negro-ides, tal como tem leve braquicefalia como os mongoloides. Assim, Luzia parece um tipo intermediário entre pigmoides e mongoloides, do mesmo modo que os australopiteco são a fusão de vários elementos do paleolítico superior e inferior; mesmo os congoides de crânio arredondado possuem influências residuais mongoloides de possíveis contatos pelo Índico com navegadores antigos asiáticos que inclusive colonizaram Madagascar a partir da costa leste africana, sendo fácil notar mongolização em povos da África Oriental e mesmo de outras regiões via repasse autossómico indireto. Do mesmo modo, na América do Norte, foram encontrados povos tais como o de Kenewiki que possuem feições intermediárias entre mongoloides e caucasoides, tão ou mais antigos que Luzia. O que indica que a maré mongoloide mais recente deve ter extinto estes povos anteriores de feições caucionardes e mongopigmoides em algum momento do paleolítico superior final.

A maior dificuldade hoje em analisar o DNA dos ameríndios é que muitos povos, por mais isolados que aparentem estar atualmente, durante os séculos da colônia, foram, muitas vezes, contatados por expedições de bandeiras espanholas, portuguesas e de colonos independentes que levavam, às vezes, escravos, a exemplo de um pequeno quilombo no Mato Grosso da época da mineração, o que indica que os luso-paulistas bandeirantes não usavam apenas mão de obra ameríndia, mas também mista, o que de facto compromete muito das analises genômicas, já que estas podem estar anacronicamente não mais puras como o eram antes de tais entradas aos Sertões do interior sul-americano.

As conclusões de Neves foram desafiadas por pesquisas feitas pelos antropólogos Rolando González-José, Frank Williams e William Arme lagos, que mostraram, em seus estudos, que a variabilidade craniofacial poderia ser apenas devido à deriva genética e outros fatores que afetam a plasticidade craniofacial em Nativos americanos.[5] [6] [7]

A comparação em 2005 das espécimes de Lagoa Santa com os modernos Botocudos da mesma região também mostrou afinidades fortes, levando Neves a classificar os Botocudos como paleoíndios.[8]

Um estudo genético de 2015 também realizou análises quanto à morfologia craniana de Luzia e, ao contrário da hipótese anterior, foi verificado que seu perfil se encaixa no perfil de populações do Ártico e do Leste da Ásia.[9] A sequência genética de paleo-índios da Patagônia revelou que os paleo-índios têm perfil genético similar ao dos indígenas americanos.[10]

Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Luzia (fóssil)

Referências

  1. Feathers, James; R. Kipnis; L. Piló; M. Arroyo & D. Coblentz (2010) "How old is Luzia? Luminescence dating and stratigraphic integrity at Lapa Vermelha, Lagoa Santa, Brazil"; Geoarchaeology 25 (4): 395–436.
  2. http://veja.abril.com.br/250899/p_080.html
  3. C. Smith (1999). «Luzia Woman». Discovery Communications Inc. Consultado em 2007-12-21. 
  4. http://www.comciencia.br/reportagens/arqueologia/arq12.shtml
  5. van Vark GN, Kuizenga D, Williams FL (June 2003). «Kennewick and Luzia: lessons from the European Upper Paleolithic». American Journal of Physical Anthropology [S.l.: s.n.] 121 (2): 181–4; discussion 185–8. doi:10.1002/ajpa.10176. PMID 12740961. 
  6. Fiedel, Stuart J. (2004). «The Kennewick Follies: 'New' Theories about the Peopling of the Americas». Journal of Anthropological Research [S.l.: s.n.] 60 (1): 75–110. JSTOR 3631009. 
  7. González-José R, Bortolini MC, Santos FR, Bonatto SL (October 2008). «The peopling of America: craniofacial shape variation on a continental scale and its interpretation from an interdisciplinary view». American Journal of Physical Anthropology [S.l.: s.n.] 137 (2): 175–87. doi:10.1002/ajpa.20854. PMID 18481303. 
  8. Lopes, Reinaldo José (10 Oct 2005). «Os sobreviventes: Crânios de índios extintos do Brasil Central indicam elo com primeiros povoadores da América» [Survivors: skulls of extinct Indians of Central Brazil indicate link with the first settlers of America]. Jornal da Ciência (em Portuguese) [S.l.: s.n.] Consultado em 2008-02-15. 
  9. http://www.sciencemag.org/content/early/2015/07/20/science.aab3884.full.pdf
  10. http://www.sciencemag.org/content/early/2015/07/20/science.aab3884.full.pdf
  • Neves, Walter Alves e Luís Beethoven Pio, O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. Editora Globo, 2008 ISBN 9788525044181

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Baci-4s.jpg Este artigo se refere a arqueológico (arte rupestre brasileira) de interesse histórico e turístico!