Lygia Fagundes Telles

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Lygia Fagundes Telles Gold Medal.svg Academia Brasileira de Letras
Lygia em 2011, durante reunião no Ministério da Cultura.
Nome completo Lygia de Azevedo Fagundes
Nascimento 19 de abril de 1923 (94 anos)
São Paulo, Brasil
Nacionalidade brasileira
Ocupação Escritora e jurista
Prémios Prémio Jabuti (1966)

Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1973, 1980)
(1974)
Prémio Camões (2005)
Prêmio Juca Pato (2008)

Magnum opus Ciranda de Pedra (1955)
As Meninas
As Horas Nuas

Lygia Fagundes Telles, nascida Lygia de Azevedo Fagundes ComIH (São Paulo, 19 de abril de 1923), é uma escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das maiores escritoras da história da literatura brasileira.[1][2][3][4][5] Além de escritora, é também romancista e contista, tendo grande representação no movimento pós-modernismo, e suas obras retratam os temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.[6]

Nascida na cidade de São Paulo, cresceu em Sertãozinho e outras pequenas cidades do interior paulista, e desde pequena demostrou interesse pelas letras. Aos oitos anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, permanecendo lá por cinco anos. De volta a São Paulo, matriculou-se no Instituto de Educação Caetano de Campos e passou a se interessar por literatura, sendo sua estreia literária com o livro de contos Porões e sobrados (1938), que foi bem recebido pela crítica. O sucesso se repetiria com Praia viva (1944). Após concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1946, onde conhecera Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros, integra a Academia de Letras da Faculdade e colabora com os jornais Arcádia e A Balança. Seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho, publicado três anos depois, recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Teve seus livros traduzidos para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, além de inúmeras edições em Portugal.[7]

Após publicar sucessos, como Antes do Baile Verde (1970), As Meninas (1973) e Seminário dos Ratos (1977), pelos quais ganhou o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o Pen Club do Brasil, respectivamente, ingressou na Academia Paulista de Letras, em 1982, e, em 1985, ocupou a cadeira de número dezesseis da Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 12 de maio de 1987, e nesse mesmo ano, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa. Seus outros sucessos incluem: Ciranda de Pedra (1954), Verão no Aquário (1964), Mistérios (1981), As horas nuas (1989) e Meus contos esquecidos (2005). Na 17ª edição do Prêmio Camões, maior láurea concedida a escritores de países com o português como a língua oficial, ocorrida em 2005, Fagundes Telles foi anunciada a vencedora.[8][9] Em 2016, aos 92 anos, a escritora tornou-se a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura.[10]

Início de vida, família e educação[editar | editar código-fonte]

Lygia Fagundes nasceu em 19 de abril de 1923 em São Paulo. Filha de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, conhecida como Zazita, uma pianista, e Durval de Azevedo Fagundes, procurador e promotor público, que também trabalhou como advogado distrital, comissário de polícia e juiz. Em função do trabalho do pai, a família mudou-se muitas vezes para várias cidades do estado, vivendo em Apiaí, Assis, Itatinga e Sertãozinho.[11] Quando tinha oito anos, Fagundes mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro, onde permaneceram por cinco anos. Após a separação de seus pais, em 1936, retornou a São Paulo, onde matriculou-se na Escola Caetano de Campos e passou a se interessar por literatura, formando-se em 1937. Com 15 anos, financiada pelo pai, publicou seu primeiro livro, Porão e Sobrado (1938), que foi bem recebido pela crítica.[12]

Cursou, em 1939, o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). Começou a participar ativamente nos debates literários, onde conheceu Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros nomes da cena literária brasileira. Fez parte da Academia de Letras da Faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Em 1941, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sendo uma das seis mulheres em uma classe com mais de cem homens; lá, conheceu a poeta Hilda Hilst, que veio a ser a sua melhor amiga.[7][11] Para custear os estudos, começou a trabalhar na Secretaria de Agricultura. Seu segundo livro, Praia Viva, saiu em 1944, um ano antes de seu bacharelado.[11] Em 1947, casou-se com Gofredo Telles Jr. (filho de Gofredo da Silva Telles), seu professor de direito internacional privado, de quem herdou o sobrenome. Fagundes Telles exerceu a profissão na Secretaria de Agricultura durante algum tempo, mas a abandonou pelas letras, tornando-se colaboradora do jornal carioca A Manhã, para o qual escreveu uma coluna de crônicas semanal.[13]

Carreira[editar | editar código-fonte]

Após retornar à cidade de São Paulo, em 1938, a escritora publicou sua primeira obra literária, o livro de contos Porões e sobrados. No entanto, sua estreia oficial na literatura deu-se em 1944, com o volume de contos Praia Viva, que recebeu avaliações positivas dos críticos literários.[12] Em 1949, três anos depois do término do curso de Direito, a escritora publica, pela editora Mérito, seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho, que recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.[3] Após seu casamento com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., seu professor na Faculdade de Direito que, na ocasião, 1950, era deputado federal, muda-se, em virtude desse fato, para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.[13]

"Fico aflita só de pensar nas novas gerações lendo esses meus livros (os dois primeiros) que não têm importância. Eu não quero que os jovens percam tempo com eles. Quero que conheçam o melhor de mim mesma, o melhor que eu pude fazer, dentro das minhas possibilidades".

Fagundes Telles sobre Ciranda de Pedra.[7]

Com seu retorno à capital paulista, em 1952, começa a escrever seu primeiro romance, Ciranda de pedra (1954), que a tornou conhecida nacionalmente.[14] Na fazenda Santo Antônio, em Araras - SP, de propriedade da avó de seu marido, para onde viajava constantemente, escreveu várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de 20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos. O crítico Antonio Cândido o considera o marco de sua maioridade como escritora, e ela própria, crítica severa de seus primeiros escritos, gosta de assinalar a publicação deste romance como sua estreia como escritora.[7] O livro foi adaptado com sucesso pela Rede Globo para a televisão em duas ocasiões: a primeira em 1981 e a segunda em 2008.[12][15] Em 1958, publicou Histórias do Desencontro, que ganhou o Prêmio Artur Azevedo, do Instituto Nacional do Livro. Em 1960, Telles se divorciou e, no ano seguinte, começou a trabalhar como advogada no Instituto de Providência do Estado de São Paulo. Ela trabalharia neste escritório e continuaria suas publicações simultaneamente até 1991.[11] O segundo romance da escritora foi Verão no Aquário, lançado em 1963, que novamente foi bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Nesse mesmo ano, casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, com quem escreve o roteiro para cinema Capitu (1968), inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Esse roteiro, que fora encomenda de Paulo César Saraceni, recebeu o Prêmio Candango, concedido ao Melhor Roteiro Cinematográfico.[11] Ainda em 1963, Telles começa a escrever o romance As meninas, inspirado no momento político por que passa o país. Em 1964 e 1965 são publicados seus livros de contos Histórias Escolhidas e O jardim Selvagem, respectivamente.[13]

Embora tenha estreado na década de 1940, foi apenas da década de 1970 que Lygia alcança a plena maturidade de seus meios de expressão e marca o início da sua consagração na carreira, tornando-se um nome fundamental na ficção brasileira contemporânea.[16] Lygia publicou, então, alguns de seus livros mais importantes. Antes do Baile Verde (1970), cujo conto que dá título ao livro foi um sucesso internacional, recebendo o Grande Prêmio no Concurso Internacional de Escritoras, na França. Em 1973, Lygia ganhou ainda vários e importantes prêmios brasileiros com o romance As Meninas, publicado em Nova Iorque em 1982, com o título de The girl in the photograph.[17] O romance recebeu o Prêmio Jabuti; o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras e o prêmio de Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.[13][9] Ele conta a história de três jovens no início da década de 1970, um momento difícil na história política do Brasil devido à repressão da ditadura militar. A escritora estava entre os intelectuais que foram para Brasília em 1977, para entregar o "Manifesto dos Intelectuais". O protesto foi a maior manifestação de intelectuais, desde 1968, contra o regime militar e censura da imprensa, implantada há 30 anos no dia 31 de março. O manifesto foi entregue no Ministério da Justiça. O ministro era Armando Falcão. Além de Lygia, compunham a comissão o historiador Hélio Silva e os escritores Nélida Piñon e Jefferson Ribeiro de Andrade. Segundo a escritora, o manifesto, apoiado por nomes como Jorge Amado, Antonio Cândido, Otto Maria Carpeaux e Carlos Drummond de Andrade, contribuiu para frear o ímpeto dos censores daquele momento em diante, e completou que os intelectuais já vinham "conspirando" desde um congresso de escritores realizado em Belo Horizonte em outubro de 1976.

A censura vinha exorbitando em relação ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, livros e jornais. Nós fomos nos sentindo frágeis. É bonito isso, o sentimento do homem fragilizado politicamente, a sua vontade de se reunir, de formar seus círculos. Em 1976, jovens escritores em Belo Horizonte, em mesas de bar, já estavam se levantando, tentando também armar não se sabe bem o quê, não se sabe se um manifesto ou um memorial. As ações estavam coincidindo, embora não houvesse ainda entre nós contato mais profundo. O movimento de Belo Horizonte acabou liderando grupos esparsos de São Paulo e do Rio, que tinha à frente Rubem Fonseca e José Louzeiro. Eu me sentia dentro de uma nova inconfidência, de origem mineira e âmbito nacional.[18]
Lygia falando sobre o motivo do manifesto

Em 1977, foi galardoada pelo Pen Club do Brasil, pela sua coletânea Seminário dos Ratos,[19] que foi elogiada por Hélio Pólvora, que ressaltou que a escritora começa a projetar dimensões supra-reais, considerando a obra uma reunião de contos "fantásticos ou quase".[3] Nesse ano participa da coletânea Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema, livro organizado por Osman Lins a partir do conto clássico de Machado de Assis. Integra o corpo de jurados do Concurso Unibanco de Literatura, ao lado dos escritores e críticos literários Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio Ferreira Filho, Antônio Houaiss e Geraldo Galvão Ferraz.[13] Em setembro do mesmo ano, falece Paulo Emílio Salles Gomes. A escritora assume, face ao ocorrido, a presidência da Cinemateca Brasileira, que Paulo Emílio ajudara a fundar.[11]

No ano de 1978, a editora Cultura lança Filhos Pródigos. Essa coletânea de contos seria republicada com o título de um de seus contos A Estrutura da Bolha de Sabão (1991). A Rede Globo leva ao ar um Caso Especial baseado no conto "O jardim selvagem".[9] Sua próxima publicação, A Disciplina do Amor (1980), foi bem recebida pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti e o Troféu APCA da Associação Paulista de Críticos de Arte.[20] O jornalista e autor Wladir Dupont escreveu que A Disciplina do Amor trata-se de "um conjunto de contos de estranho e belo mosaico, de fragmentos aparentemente desconexos".[3] Ele considerou que a escritora atravessa muito bem a fronteira entre o sonho e a realidade, sendo a condição humana o tema que privilegia no livro. Fábio Lucas ressaltou que afloram mais contundentemente neste livro as reivindicações feministas que apareciam brandas nas [publicações da escritora] anteriores.[3] Dupont ainda faz um paralelo de Lygia com Hilda Hilst, Adélia Prado, Rachel Jardim, Nélida Piñon e Lya Luft: "vigorosas em estilos heterogêneos", chamando a atenção para essas literaturas femininas e singulares. Ele sublinha que, já nos primeiros passos de sua carreira e na análise do contexto intelectual em que Lygia se situava, percebia o embrião da grande escritora que ela seria.[3] Em uma entrevista, Lygia afirmou que "A Disciplina do Amor é meu melhor livro".[21][22]

EM 1981, a escritora lança Mistérios, uma coletânea de dezenove contos fantásticos antigos e atuais, originada de uma edição na Alemanha, publicada sob o título Contos Fantásticos. Em 1982, foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, por 32 votos a 7, foi eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon, tomando posse em 12 de maio de 1987.[13]

"Às vezes, a esperança. O homem vai sobreviver, e essa certeza me vem quando vejo o mar, um mar que talhou com tanta poluição, embora! mas resistindo. Contemplo as montanhas e fico maravilhada porque elas ainda estão vivas. Sei que é preciso apostar e de aposta em aposta cheguei a esta Casa para a harmoniosa convivência com aqueles que apostam na palavra."

— Trecho do "Discurso de Posse", 1987.[23]

A 26 de Novembro de 1987 foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.[24]

Em 1995 Emiliano Ribeiro apresentou o filme As Meninas, baseado no romance da escritora. Em 2001 voltou a receber o Prêmio Jabuti, na categoria de ficção, pelo seu livro Invenção e Memória. Em março de 2001 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília.[25]

Em 2001, a escritora foi agraciada com o título de "Doutora Honoris Causa" pela Universidade de Brasília (UnB). No mesmo ano, recebeu o Prêmio Jabuti com seu livro "Invenção e Memória".[23]

Em 13 de maio de 2005 recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto da obra,[11] distinguida pelo júri composto por Antônio Carlos Sussekind (Brasil), Ivan Junqueira (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Vasco Graça Moura (Portugal), Germano de Almeida (Cabo Verde) e José Eduardo Agualusa (Angola).[26]

Em fevereiro de 2016 foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores.[27]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Em 1954, nasceu seu único filho Goffredo da Silva Telles Neto.[11]

E também o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, com quem se casaria em 1962, depois de separar-se do primeiro marido. Foi um escândalo: embora oficialmente continuasse casada (a lei brasileira não admitia o divórcio) com Goffredo da Silva Telles, ela juntou-se com Paulo Emílio, enfrentando a maledicência da sociedade da época. Viveram juntos até a morte do escritor, em 1977.[14][7]

Obra[editar | editar código-fonte]

Estilo de escrita[editar | editar código-fonte]

Com Clarice Lispector, a obra de Lygia estabeleceu um interessante diálogo, pois ambas exploraram, de maneira inédita até então, o universo feminino sob uma perspectiva moderna, rompendo com o moralismo social que deixava a mulher sempre à margem da figura masculina. Traçou o de suas personagens através das técnicas do fluxo de consciência e do monólogo interior, alçando-as ao posto de protagonista de suas histórias.[4] Além de abordar intensamente a temática feminina, Lygia abriu espaço em sua obra para temas como a vida nas grandes cidades, assim como os problemas sociais e outros temas polêmicos, como drogas, adultério e o amor. Enquanto seus romances ganharam ares de literatura realista, nos contos, Lygia transgrediu o real, deixando clara a influência do norte-americano Edgar Allan Poe, que trilhou, em sua Literatura, por veredas fantásticas. Lygia fez a fusão do fantástico à realidade do espaço urbano, incorporando em seus contos muitos elementos modernos, como os contos A caçada, Venha ver o pôr do sol e As formigas.[4]

Temática[editar | editar código-fonte]

Na ficção de Lygia, predomina quase sempre o retrato da dimensão psicológica dos personagens. Os recursos tradicionais da narrativa são manipulados de acordo com a inclinação para investigar os efeitos das relações entre os sujeitos e dos sujeitos com o mundo sobre o que há de mais íntimo no ser humano. Devido a isso, ganham relevo dois modos principais de tratar a realidade: aspectos da sociedade - mais evidentes nos romances, como é o caso das referências à ditadura militar em As Meninas (1973) - são enfocados de modo subjetivo. Já os contos, sobretudo os reunidos em Mistérios (1981), realizam incursões pelo fantástico como modo de ressignificar o real.[28]

Venha Ver o Pôr do Sol é a história de crime passional. Retrata um personagem sombrio, cuja humanidade ambígua provoca a reflexão sobre a natureza do sentimento amoroso. Já no caso de Seminário dos Ratos, o flerte com o implausível leva a uma alegoria em que homens e ratos se invertem. Escrito sob o signo da ditadura, o conto reconfigura a realidade, elaborando uma referência cifrada à condição então vivida pelo Brasil.[28] No que diz respeito à importância atribuída à interioridade dos personagens, a principal consequência para os escritos de Lygia talvez seja a configuração do narrador. Em tramas confessionais que objetivam revelar a verdade do protagonista, o foco é em primeira pessoa. Em Nortuno Amarelo, outro representante das incursões pelo fantástico, é um longo e improvável passeio pelo âmbito do sonho que leva a narradora-protagonista a tomar consciência de sua condição real, concentrando o texto nos devaneios de Laura.[28]

Já Ana Clara, coprotagonista do romance As Meninas - em que o manejo do foco narrativo adquire a mais alta complexidade na obra da autora -, revela-se dividida entre o amor verdadeiro e o anseio de bens materiais. Ao lado dessa jovem, estão Lorena, da alta burguesia, e Lião, ativista de esquerda que se dedica à atividade política clandestina. Trata-se, aqui, de quatro narradores: as três meninas se alternam, assumindo a primeira pessoa, e a elas se soma outra voz, onisciente. Com mudanças deliberadas e não assinaladas no fluxo narrativo, articulam-se o discurso indireto livre, o monólogo interior e o discurso direto. Os recursos terminam por oferecer diferentes pontos de vista a respeito de uma mesma situação, em trechos que eventualmente recuperam um único episódio.[28]

“Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia. É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três 'Is'.”

— Lygia a falar sobre escrita.[6]

O tempo nas narrativas de Lygia é sempre breve, também em consequência do preponderante retrato dos conflitos internos. No caso dos contos, pode-se tratar de um rápido encontro entre personagens ou de instantes de reflexão. Em um escrito de mais fôlego, como é o caso de As Meninas, o recorte objetivo é também diminuto: o período de uma greve estudantil, em que as protagonistas, livres dos estudos por alguns dias, dedicam-se às próprias questões e aos momentos que passam juntas no pensionato onde moram. É o tempo subjetivo, dos analepse, portanto, que sustenta a narrativa. Com lembranças recentes ou longínquas, a maior parte dos personagens, seja nos contos, seja nos romances, traz à tona acontecimentos passados com forte consequência para sua configuração presente.[28]

No que diz respeito ao espaço, embora a cidade de São Paulo seja o ambiente preferencial da autora, todos os dados objetivos são convocados como correlatos do estado de fragilidade emocional dos personagens. Mesmo em um conto como Pomba Enamorada ou uma História de Amor, centrado em uma ajudante de cabeleireiro, as referências concretas à periferia da cidade tornam-se índices irônicos de sua condição. O clube São Paulo Chique, onde ela conhece o bruto homem por quem permanece apaixonada, sugere, por exemplo, não apenas a precariedade em que vivem os trabalhadores de baixa renda, como também a ingenuidade ordinária em que consiste a crença no "amor verdadeiro", conforme retratam as novelas a que assiste a protagonista.[28]

Os relacionamentos amorosos, aliás, são tema privilegiado na obra da autora - sempre conduzidos à frustração dos sujeitos ou ao retrato da hipocrisia. O primeiro caso é mais frequente quando se trata de protagonistas femininas: oprimidas pelas dificuldades da autoafirmação ou da realização de desejos, as mulheres encontram a impossibilidade de idealização. No que concerne aos homens, o conto Eu Era Mudo e Só é exemplar: integrando o que considera uma realidade de "cartão-postal", o protagonista abre mão de suas aspirações por uma família de aparências perfeitas e alto padrão de vida.[28]

As relações familiares, a partir das quais se retratam a culpa e o peso das expectativas sociais, tendem com frequência ao trágico, cujo exemplo máximo talvez esteja em Ciranda de Pedra (1954) - livro com o qual a autora atinge, segundo Antonio Candido, a maturidade literária.[7] A narrativa se centra em dois momentos da trajetória de Virgínia: a infância solitária, dividida entre pais separados, e a volta da jovem à casa do pai. Preconceito contra filhos de casais divorciados, saúde mental, suicídio, homossexualidade e falsa paternidade são algumas das dificuldades que a protagonista deve enfrentar em seu crescimento.[28]

Questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão, este último tema caro à ficcionista, estão presentes no romance As horas nuas, de 1989, em que o leitor segue o desnudamento da personagem Rosa Ambrósio, com suas frustrações expostas nas memórias que ela dita num gravador.[17] O foco das atenções da autora, portanto, faz com que um trecho do conto Verde Lagarto Amarelo se torne emblemático com relação ao conjunto dessa obra: "Assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".[28]

Crítica literária[editar | editar código-fonte]

Segundo o crítico José Castello, Lygia "é uma escritora que se dedica aos temas universais: a loucura, o amor, a paixão, o medo, a morte".[6]  

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

Romances[editar | editar código-fonte]

Livros de contos[editar | editar código-fonte]

Antologias[editar | editar código-fonte]

  • Seleta, 1971 (organização, estudos e notas de Nelly Novaes Coelho)
  • Lygia Fagundes Telles, 1980 (organização de Leonardo Monteiro)
  • Os melhores contos de Lygia F. Telles, 1984 (seleção de Eduardo Portella)
  • Venha ver o pôr-do-sol, 1988 (seleção dos editores - Ática)
  • A confissão de Leontina e fragmentos, 1996 (seleção de Maura Sardinha)
  • Oito contos de amor, 1997 (seleção de Pedro Paulo de Sena Madureira)
  • Pomba enamorada, 1999 (seleção de Léa Masima).

Participações em coletâneas[editar | editar código-fonte]

  • Gaby, 1964 (novela - in Os sete pecados capitais - Civilização Brasileira)
  • Trilogia da confissão, 1968 (Verde lagarto amarelo, Apenas um saxofone e Helga - in Os 18 melhores contos do Brasil - Bloch Editores)
  • Missa do galo, 1977 (in Missa do galo: variações sobre o mesmo tema - Summus)
  • O muro, 1978 (in Lições de casa - exercícios de imaginação - Cultura)
  • As formigas, 1978 (in O conto da mulher brasileira - Vertente)
  • Pomba enamorada, 1979 (in O papel do amor - Cultura)
  • Negra jogada amarela, 1979 (conto infanto-juvenil - in Criança brinca, não brinca? - Cultura)
  • As cerejas, 1993 (in As cerejas - Atual)
  • A caçada, 1994 (in Contos brasileiros contemporâneos - Moderna)
  • A estrutura da bolha de sabão e As cerejas, s.d. (in O conto brasileiro contemporâneo - Cultrix)

Crônicas publicadas na imprensa[editar | editar código-fonte]

  • Não vou ceder. Até quando?. O Estado de S. Paulo - 6 de janeiro de 1992
  • Pindura com um anjo. Jornal da Tarde - 11 de agosto de 1996

Traduções e adaptações[editar | editar código-fonte]

  • Para o alemão:
    • Filhos pródigos, 1983
    • As horas nuas, 1994
    • Missa do galo, 1994
  • Para o espanhol:
    • As meninas, 1973
    • As horas nuas, 1991
  • Para o francês:
    • Filhos pródigos, 1986
    • Antes do baile verde, 1989
    • As horas nuas, 1996
    • W. M., 199
    • As meninas 2005 (Les pensionnaires, Brésil 70, un rêve de liberté)
  • Para o inglês:
    • As meninas, 1982
    • Seminário dos ratos, 1986
    • Ciranda de pedra, 1986
  • Para o italiano:
    • As pérolas, 1961
    • As horas nuas, 1993
  • Para o polaco:
    • A chave, 1977
    • Ciranda de pedra, 1990 (traduzido também para o chinês e espanhol).
  • Para o sueco:
    • As horas nuas, 1991
  • Para o tcheco:
    • Antes do baile verde, s.d. (traduzido também para russo)
  • Edições em Portugal:
    • Antes do baile verde, 1971
    • A disciplina do amor, 1980
    • A noite escura e mais eu, 1996
    • As meninas, s.d.
  • Para o cinema:
    • Capitu (roteiro); parceria com Paulo Emílio Salles Gomes, 1993 (Siciliano).
    • As meninas (adaptação), 1996
  • Para o teatro:
    • As meninas, 1988 e 1998
  • Para a televisão:
    • O jardim selvagem, 1978 (Caso especial - TV Globo)
    • Ciranda de pedra, 1981 e 2008 (Novela - TV Globo)
    • Era uma vez Valdete, 1993 (Retratos de mulher - TV Globo)

Prêmios[editar | editar código-fonte]

Reconhecimento e honras[editar | editar código-fonte]

Medalha Mário de Andrade – Governo do Estado de São Paulo; Medalha Mérito Cívico e Cultural – da Sociedade Brasileira de Heráldica de São Paulo; Medalha do Grande Prêmio Literário de Cannes, categoria contos (1969); Medalha do Prêmio Imperatriz Leopoldina, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1969); Ordem do Rio Branco, Comendador (1985); título Personalidade Literária do Ano de 1987, conferido pela Câmara Brasileira do Livro; medalha Ordre des Arts et des Lettres, Ministério da Cultura da França (1998) e Ordem al Mérito Docente y Cultural Gabriela Mistral, Gran Oficial (Chile). Agraciada, em março de 2001, com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB).[29]

Lygia tem participado de feiras de livros e congressos realizados não só no Brasil, mas também em Portugal, Espanha, Itália, México, Estados Unidos, França, Alemanha, República Tcheca, Canadá e Suécia, países nos quais foram publicados seus contos e romances.

Referências

  1. «10 Grandes escritoras brasileiras do século XX». Homo Literatus 
  2. Saraiva, Livraria. «DEZ romancistas feministas importantes na história da Literatura». SaraivaConteudo 
  3. a b c d e f Lamas, Berenice Sica (2004). O duplo em Lygia Fagundes Telles: um estudo em literatura e psicologia. [S.l.]: EDIPUCRS. ISBN 9788574304397 
  4. a b c «Realismo e fantasia: O universo de Lygia Fagundes Telles - Mundo Educação». Mundo Educação. Consultado em 3 de outubro de 2017 
  5. «Lygia Fagundes Telles - Brasil Escola». Vestibular Brasil Escola 
  6. a b c «Lygia Fagundes Telles, testemunha literária - Cultura - Estadão». Estadão 
  7. a b c d e f «Lygia Fagundes Telles: escrever é meu ofício - CULTURA - Sermos Galiza - Diario de intereses galegos». 20 de abril de 2013 
  8. «Lygia Fagundes Telles vence o Prêmio Camões de 2005». Academia Brasileira de Letras. Consultado em 10 de setembro de 2017 
  9. a b c «Lygia Fagundes Telles | Academia Brasileira de Letras» 
  10. «Lygia Fagundes Telles é indicada ao Nobel de Literatura». Pop & Arte. 3 de fevereiro de 2016 
  11. a b c d e f g h "Dossiê: O Tempo de Lygia" – Revista Entre Livros. edição 20. Pgs. 21-26. Editora Duetto. São Paulo (2007)]
  12. a b c «Biografia de Lygia Fagundes Telles». biografias.netsaber.com.br 
  13. a b c d e f Jr, Arnaldo Nogueira. «Lygia Fagundes Telles». www.releituras.com 
  14. a b «Ciranda de Pedra - Lygia Fagundes Telles». InfoEscola 
  15. «Lygia Fagundes Telles aprova adaptação de "Ciranda de Pedra" - BOL Notícias». noticias.bol.uol.com.br 
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