Lyudmila Pavlichenko
| Lyudmila Mikhailovna Pavlichenko Людми́ла Миха́йловна Павличе́нко | |
|---|---|
Lyudmila Pavlichenko, pouco antes de ser condecorada com o título de Heroína da União Soviética, 1943. | |
| Nascimento | 12 de julho de 1916 |
| Morte | 10 de outubro de 1974 (58 anos) |
| Nacionalidade | Ucraniana |
| Ocupação | Franco-atiradora |
| Serviço militar | |
| País | União Soviética |
| Serviço | |
| Anos de serviço | 1941 – 1953 |
| Patente | Major |
| Conflitos | Segunda Guerra Mundial |
| Condecorações | |
Lyudmila Mikhailovna Pavlichenko (nascida Belova; Bila Tserkva, 12 de julho de 1916 — Moscou, 10 de outubro de 1974) foi uma atiradora de elite da 25ª Divisão de Fuzileiros “Chapaev” do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial. Recebeu o título de Heroína da União Soviética em 1943.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, serviu até 1956 como oficial do Estado-Maior Principal da Marinha da URSS, entre 1950 e 1953, no Estado-Maior Naval, com a patente de major do serviço costeiro.
Durante o cerco da Crimeia, na primavera de 1942, Pavlichenko atuou em Sevastopol e, até o momento em que foi ferida, já havia abatido mais de 300 soldados inimigos. Depois disso, foi convidada pelo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, para participar de uma recepção oficial e discursar diante de membros do Congresso norte-americano.
Considerada a mulher atiradora de elite mais bem-sucedida da história, ela contabilizou 309 soldados e oficiais inimigos mortos. A imprensa americana passou a chamá-la de “Lady Death” (“Senhora da Morte”). No entanto, esse apelido foi usado apenas pela mídia dos Estados Unidos e da Europa, já que na União Soviética sua imagem pública não foi construída com esse enfoque. Lá, ela era retratada sobretudo como uma heroína condecorada e veterana de guerra.[1][2]
Biografia
[editar | editar código]Ludmila Belova nasceu em 12 de julho de 1916, na cidade de Bila Tserkva, na província de Kiev, então parte do Império Russo. Era filha de Mikhail Ivanovich Belov, mecânico de Petrogrado que mais tarde se tornou comissário de regimento durante a Guerra Civil Russa e funcionário do NKVD, e de Elena Trofimovna Belova (1897–1972), professora.[3]
Até os 14 anos, Ludmila estudou na Escola Secundária nº 3 de Bila Tserkva. Depois, mudou-se com a família para Kiev. Ao concluir o nono ano, passou a trabalhar como operária, atuava como lixadora na fábrica Arsenal, e, ao mesmo tempo, cursava o décimo ano, finalizando o ensino médio. Em 1932, casou-se com Aleksei Bogdanovich Pavlichenko e teve um filho, Rostislav (1932–2007). No entanto, o casamento foi desfeito pouco tempo depois, e Ludmila voltou a morar com os pais.[4]
Em 1937, ingressou na Faculdade de História da Universidade Estatal de Kiev Taras Shevchenko. Durante o período como estudante, praticou esportes como voo a vela e tiro esportivo. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ela estava em Odessa fazendo seu estágio de conclusão de curso. Desde os primeiros dias do conflito, apresentou-se como voluntária para o front, e antes mesmo da guerra, já havia feito um curso rápido de atiradora de elite.[5]
Segunda Guerra
[editar | editar código]Em 22 de junho de 1941, dia da invasão alemã à União Soviética, Pavlichenko estava em Odessa. No dia seguinte, apresentou-se como voluntária para ingressar no Exército Vermelho, mas foi recusada pelo funcionário responsável pelo recrutamento, aparentemente por ser mulher.[6]
Determinada, no dia seguinte ela foi até o comissariado militar do distrito. O funcionário que a atendeu foi mais receptivo e, ao verificar seus documentos que comprovavam sua formação como atiradora de elite, aceitou seu alistamento no Exército Vermelho. Ela passou a integrar o 54º Regimento de Fuzileiros “Stepan Razin”, pertencente à 25ª Divisão de Fuzileiros Chapáyev, nomeada em homenagem a Vasili Chapáyev, célebre soldado russo e comandante do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa.[6][7]
Em 24 de junho de 1941, Pavlichenko e os demais recrutas embarcaram em um trem militar que os levou a uma floresta na Bessarábia, onde sua unidade estava posicionada. Ali receberam uniformes e equipamentos e permaneceram por alguns dias antes de serem enviados ao combate contra as tropas romenas aliadas da Alemanha nazista.[6][7]
Nos primeiros dias da invasão, as forças soviéticas conseguiram manter suas posições ao longo do rio Prut. No início de julho, porém, após combates sangrentos, os romenos romperam as linhas defensivas soviéticas e avançaram profundamente na retaguarda, forçando a divisão da qual ela fazia parte a iniciar uma difícil retirada que só terminou em Odessa.[7][8]
Como atiradora de elite, Pavlichenko fez suas duas primeiras baixas perto da localidade de Beliayevka, a cerca de 40 quilômetros de Odessa, em 8 de agosto de 1941. Nesse mesmo dia teve início oficialmente o Cerco de Odessa. Naquele momento, as unidades da 25ª Divisão de Fuzileiros Chapáyev, sob o comando do coronel A. S. Zajarenko, defendiam a linha Beliayevka–Mangueim–Brinovka, que constituía a primeira das três linhas defensivas da cidade sitiada, um perímetro de cerca de 80 quilômetros de extensão e 3,5 quilômetros de largura.[7][8]
Em 19 de agosto, ela foi ferida quando um projétil de morteiro atingiu o parapeito de sua trincheira. Foi evacuada para um hospital em Odessa, onde permaneceu internada até 30 de agosto, quando retornou à sua unidade. Ao regressar, foi informada por seu oficial comandante de que havia sido promovida a cabo e recebeu a missão de treinar os recrutas mais promissores de sua unidade como atiradores de elite.[8]
A cabo Pavlichenko combateu por cerca de dois meses e meio nas proximidades de Odessa. Nesse período, contabilizou 187 baixas inimigas das forças do Eixo (alemães e romenos) e foi ferida duas vezes, a última pouco antes de ser evacuada.[8]
Em 14 de outubro de 1941, as tropas soviéticas deixaram o porto de Odessa. A invasão da península da Crimeia pelo 11º Exército alemão, comandado pelo general Erich von Manstein, tornava impossível manter a defesa da cidade. Diante disso, o Alto Comando soviético ordenou a retirada para o porto de Sevastopol, na Crimeia, com o objetivo de reforçar as defesas locais contra a ofensiva alemã que se aproximava. A retirada ocorreu de maneira organizada e com poucas perdas.[8]
Em 17 de outubro, o comboio que transportava Pavlichenko chegou a Sevastopol às sete da noite e ancorou na baía de Strelets, iniciando imediatamente o desembarque. As tropas da 25ª Divisão de Fuzileiros receberam alguns dias de descanso antes de serem enviadas, em 21 de outubro, de trem para o norte da Crimeia, onde deveriam conter o avanço alemão nas linhas defensivas de Ishum. Pavlichenko permaneceu em Sevastopol por mais alguns dias, recuperando-se dos ferimentos.[8]
Em 4 de novembro, ela se reuniu com o major-general Ivan Petrov, então comandante do Exército Costeiro Independente, responsável pela defesa de Sevastopol. Ele comunicou sua promoção a sargento-chefe e informou que ela deveria assumir o comando de um pelotão de atiradores de elite, que ela mesma selecionaria e treinaria. Finalmente, em 9 de novembro, Ludmila voltou à sua unidade, que naquele momento ocupava posições defensivas nas colinas de Mekenzi, entre os rios Belbek e Chornaya, a cerca de 25 quilômetros da cidade.[8]
Em dezembro de 1941, perto de Sevastopol, ela conheceu o subtenente Aleksei “Lionia” Arkadievich Kitsenko, recém-nomeado comandante da 2ª Companhia do regimento em que ela servia. Pouco depois, os dois solicitaram autorização ao comando para se casar.[1][3]
Em 3 de março de 1942, a posição ocupada pelos atiradores de elite ficou sob fogo direto de morteiro, e o subtenente Kitsenko foi gravemente ferido. A própria Pavlichenko, com a ajuda de outro atirador de seu pelotão, retirou-o do campo de batalha em uma maca e o levou ao hospital de campanha. Lá, ele teve a mão amputada e três dos sete estilhaços que o atingiram foram removidos. Apesar dos esforços da equipe médica, Kitsenko morreu em consequência dos ferimentos no dia 4 de março.[9][4]
Em maio de 1942, já com a patente de tenente, Pavlichenko foi mencionada pelo Conselho Militar da Frente Sul por ter abatido 257 soldados alemães. Ela chegou a encontrar o caderno de anotações de um dos atiradores de elite alemães que havia eliminado e descobriu que ele era responsável pela morte de mais de duzentos soldados soviéticos.[9][8]
Em junho de 1942, Pavlichenko já somava 309 mortes confirmadas de soldados e oficiais inimigos, incluindo 36 atiradores de elite. Além disso, durante o período das batalhas defensivas, treinou numerosos novos atiradores, transmitindo sua experiência aos combatentes da linha de frente.[9] Nessa época, o serviço de inteligência nazista já conhecia sua atuação e incluiu seu nome em uma lista de alvos a serem eliminados. Oficiais da SS alemã passaram a procurá-la, enviando missões especiais de atiradores com o objetivo de matá-la.[10]
Os nazistas chegaram a transmitir mensagens por rádio dizendo:
| “ | Ludmila Pavlichenko, venha para o nosso lado. Nós lhe daremos muitos chocolates e a tornaremos oficial alemã [...] Se a capturarmos, vamos despedaçá-la em 309 partes e espalhá-las ao vento! | ” |
Ao ouvir essas ameaças, Pavlichenko declarou ter ficado satisfeita ao saber que o inimigo conhecia com precisão seu número de baixas.[9]
Em 18 de junho de 1942, durante o terceiro assalto a Sevastopol, ela sofreu um ferimento na cabeça e uma concussão quando um projétil de morteiro atingiu diretamente o abrigo do quartel-general. No dia seguinte, 19 de junho, foi evacuada de submarino para Novorossisk, no Cáucaso. Lá, foi hospitalizada e, posteriormente, retirada definitivamente do combate na linha de frente, sendo enviada a Moscou.[9][10]
| “ | Um estilhaço abriu um corte profundo na minha maçã do rosto direita, arrancou o lóbulo da minha orelha direita e, por causa da onda de choque, houve lesão no tímpano e uma concussão geral. Fui levada ao nosso batalhão médico divisionário nº 47. O excelente doutor Pishel-Gaek mais uma vez suturou meu ferimento de guerra. No dia seguinte, chegou ao batalhão a ordem para preparar um grupo de feridos para evacuação para Novorossiysk, e o cirurgião considerou que meu estado era adequado para essa viagem.[10] | ” |
Na capital, encontrou-se com Josef Stalin, que lhe designou uma nova função: instrutora em uma escola de atiradores de elite e conferencista, com a patente de major. Com a ocupação de Sevastopol pelos alemães, a 25ª Divisão de Fuzileiros foi completamente destruída. Seus últimos combatentes afundaram os estandartes da divisão no mar Negro para que não caíssem nas mãos do inimigo.[11][10]
Em seguida, foi enviada com uma delegação da juventude soviética ao Canadá e aos Estados Unidos. Durante a visita à América do Norte, Ludmila , ao lado do secretário do comitê da juventude comunista de Moscou, Nikolai Krasavchenko, e do atirador de elite Vladimir Pchelintsev, participou de uma recepção com o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt. A convite da primeira-dama, Eleanor Roosevelt, os integrantes da delegação soviética passaram algum tempo hospedados na Casa Branca. Mais tarde, Eleanor organizou uma viagem pelo país para que os representantes soviéticos conhecessem diferentes regiões.[10][11]
Nos Estados Unidos, Ludmila recebeu de presente uma pistola Colt; no Canadá, ganhou um rifle Winchester. A pistola está exposta no Museu Central das Forças Armadas da Federação Russa, em Moscou. O cantor norte-americano de música country Woody Guthrie compôs em sua homenagem a canção “Miss Pavlichenko”. No Canadá, a delegação soviética foi recebida por milhares de pessoas reunidas na Union Station, em Toronto.[12]
Em um dos encontros com jornalistas, após repetidas perguntas sobre os detalhes da vida cotidiana de uma mulher no front, Ludmila respondeu com uma frase que se tornaria lendária:
| “ | Tenho 25 anos. No front, já eliminei 309 invasores fascistas. Não lhes parece, cavalheiros, que vocês estão se escondendo atrás das minhas costas há tempo demais?[10] | ” |
Essa frase arrancou aplausos e ajudou a aproximar a opinião pública norte-americana da realidade do que acontecia na Frente Oriental, reforçando a necessidade da abertura de um segundo front na Europa.[12]
Em 25 de outubro de 1943, Ludmila Pavlichenko recebeu o título de Heroína da União Soviética.[10]
Pós-guerra
[editar | editar código]Após o fim da guerra, Ludmila concluiu o curso na Universidade de Kiev e passou a trabalhar como pesquisadora sênior no Estado-Maior Principal da Marinha da URSS. Em 1956, deixou o cargo e passou a atuar na organização social “Comitê Soviético dos Veteranos de Guerra”.[10]
Em 1957, reencontrou-se com Eleanor Roosevelt durante a visita da ex-primeira-dama à União Soviética. Em 1961, foi operada pela terceira vez por seu amigo, o cirurgião militar e coronel do Exército Popular da Tchecoslováquia, V. Pishel-Gaek. Em 1973, foi gravado um programa no qual Ludmila falava sobre os atiradores de elite da Segunda Guerra Mundial. A produção foi exibida em 1975 pela redação principal de programas científicos, educativos e de divulgação do conhecimento da Televisão Central da URSS.[10]
Morte
[editar | editar código]Ludmila faleceu em 27 de outubro de 1974, em Moscou, vítima de um acidente vascular cerebral. A urna com suas cinzas foi depositada no columbário do Cemitério Novodevichy, na mesma sepultura que guarda as cinzas do marido, da mãe e do filho.[10]
Dois anos depois um navio cargueiro ucraniano seria batizado com seu nome.[13]
Ver também
[editar | editar código]- União Soviética na Segunda Guerra Mundial
- Lista de Heroínas da União Soviética
- Juba
- Roza Shanina
- Simo Häyhä
Referências
- ↑ a b «Os mitos que cercam a franco-atiradora que mais matou soldados alemães na 2ª Guerra». BBC. Consultado em 2 de julho de 2019
- ↑ Sakaida, Henry (2012). Heroines of the Soviet Union 1941–45. [S.l.]: Bloomsbury Publishing. ISBN 978-1841765983
- ↑ a b Alex Q. Arbuckle (ed.). «Soviet women snipers». Mashable. Consultado em 2 de julho de 2019
- ↑ a b JACINTO ANTÓN (ed.). «As meninas soviéticas que estouravam os miolos dos nazistas». El País Brasil. Consultado em 2 de julho de 2019
- ↑ «Os mitos que cercam a franco-atiradora que mais matou soldados nazistas na 2ª Guerra». Bol Notícias. Consultado em 15 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c «Army & Navy - Lady Sniper» (em inglês). Time. 28 de setembro de 1942. ISSN 0040-781X. Consultado em 15 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d «Liudmila Pavlishenko, la francotiradora más letal de la historia» (em espanhol). National Geographic. Consultado em 15 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f g h Vinogradova, Lyuba (2017). Avenging Angels: Young Women of the Soviet Union's WWII Sniper Corps (em inglês). [S.l.]: Quercus. pp. 37–47. ISBN 9781681442839
- ↑ a b c d e Lockie, Alex. «Meet the world's deadliest female sniper who terrorized Hitler's Nazi army». Business Insider. Consultado em 15 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f g h i j Павличенко Л. М. (2015). Я — снайпер. В боях за Севастополь и Одессу. Col: Военные мемуары, 1941–1942. Мoscou: Вече. 381 páginas
- ↑ a b Pavlichenko, Liudmila (2019). La francotiradora de Stalin 1.ª ed. [S.l.]: Editorial Crítica. ISBN 978-84-9199-077-2. OCLC 1091853974
- ↑ a b Farey, Pat; Spicer, Mark. Sniping: An Illustrated History (em inglês). [S.l.]: Voyageur Press. p. 129. ISBN 9780760337172
- ↑ «Lyudmila Pavlichenko». Consultado em 22 de janeiro de 2010. Arquivado do original em 5 de janeiro de 2010