Mário Ferreira dos Santos

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Mário Ferreira dos Santos
Filosofia do século XX
Mário Ferreira dos Santos
Nome completo Mário Ferreira dos Santos
Escola/Tradição: Filosofia Concreta (fundador), Tomismo, Platonismo, Pitagorismo, Aristotelismo
Data de nascimento: 3 de janeiro de 1907
Local: Tietê, Brasil
Data de falecimento 11 de abril de 1968 (61 anos)
Local: São Paulo, Brasil
Principais interesses: Filosofia, economia, história, política, teoria social, psicologia, teologia, oratória, retórica, epistemologia, gnoseologia, ontologia, Filosofia da matemática, religiões comparadas
Ideias notáveis Filosofia Concreta
Trabalhos notáveis Filosofia Concreta, A Sabedoria das Leis Eternas
Influenciado por: Platão, Aristóteles, Pitágoras, Nietzsche, Kant, Pascal, Tomás de Aquino, Duns Scott, Raimundo Lúlio, Henri-Frédéric Amiel, Walt Whitman, Pierre-Joseph Proudhon[1]
Influências: Stanislavs Ladusãns, Olavo de Carvalho, Tito Livio Ferreira, Rodrigo Gurgel, Bruno Garschagen, Martim Vasques da Cunha, Vicente Ferreira da Silva, Carlos Aurélio Mota de Souza, Luis Mauro Sá Martino, Luiz Felipe Pondé, Ives Gandra Martins

Mário Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 190711 de abril de 1968) foi um filósofo brasileiro, criador de um sistema filosófico a que chamou Filosofia Concreta. Escreveu muitos livros, sobre várias áreas do conhecimento (Filosofia, Psicologia, Oratória, Ontologia, Lógica, etc.), publicados com recursos próprios sob o nome "Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais".

Segundo Mário Ferreira dos Santos, sua Filosofia Concreta seria completamente baseada na lógica, não havendo possibilidade de discordância de seus pressupostos, a que chamou "Teses", denominando-se tal característica como apoditicidade lógica. A primeira tese é a fundamentação de toda a sua filosofia: "Alguma coisa há, e o nada absoluto não há", da qual extrai outras teses, passando pelos principais tópicos da filosofia através dos métodos da Filosofia da matemática.

Também escreveu extensamente sobre religião e conceitos religiosos, e no Brasil foi um estudioso do chamado anarquismo cristão, por ele visto sob uma ótica muito particular, tendo sido ativo participante do Centro de Cultura Social, "um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo da primeira metade do século".[2] Nesse âmbito, é notado por afirmar o cristianismo como "uma filosofia superior"[2] e pelo estudo do que chamou de "fundo cósmico da religião".[3]

Infância, juventude, casamento e o trabalho como tradutor[editar | editar código-fonte]

Mário Ferreira dos Santos nasceu em 3 de janeiro de 1907, na cidade de Tietê, em São Paulo. Seu pai, Francisco Dias Ferreira dos Santos, era dono de uma companhia teatral itinerante. Estabelecido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, dedicou-se ao estudo do então nascente cinema e tornou-se um dos pioneiros dessa arte no Brasil. Seu curta-metragem de ficção Os Óculos do Vovô é o filme brasileiro mais antigo de que se tem notícia e traz o próprio Mário como ator infantil.[4]

Apesar do anticlericalismo de seu pai, Mário foi matriculado em um colégio jesuíta e em 1925 ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no curso de Direito, em que se formou em 1930. Passou a escrever em jornais de Pelotas e no Diário de Notícias e Correio do Povo de Porto Alegre. Como jornalista participou da Revolução de 1930, e acabou na prisão pelas críticas feitas ao novo regime.[5]

Em 1929 casou-se com Yolanda Duro Lhullier, com quem teve duas filhas, Yolanda e Nadiejda.

No início dos anos 40 foi contratado como tradutor pela Livraria do Globo, em Porto Alegre. Mudando-se para São Paulo em 1945, continuou seu trabalho como tradutor na Editora Flama. Com dificuldades em publicar seus livros, fundou suas próprias editoras, a Logos S.A. e a Matese S.A. Foi pioneiro no sistema de venda de livro a crédito, vendidos de porta em porta.[6]

Como tradutor, Mario efetuou dezenas de traduções diretas do grego, do latim, do alemão e o francês, de obras dos mais variados filósofos clássicos, escolásticos, tomistas, modernos e contemporâneos. Dentre eles: Aristóteles, Pitágoras, Nietzsche, Kant, Pascal, Tomás de Aquino, Duns Scott, Henri-Frédéric Amiel e Walt Whitman.[5]

A filosofia de Mário Ferreira dos Santos[editar | editar código-fonte]

A partir de 1947 dedica-se unicamente à filosofia, a qual o manteria ocupado, e muito, por mais de vinte anos, lecionando durante todo esse tempo para alunos particulares e pequenos grupos. Mário teve uma vida intelectual livre e independente, e fugiu a vida toda da burocracia acadêmica. Viveu exclusivamente de sua advocacia, do magistério particular e como empresário editorial.

Nunca ocupei nenhum cargo em nenhuma escola, por princípio. Deliberei, desde os primeiros anos, tomar uma atitude que consiste em nunca disputar cargos que podem ser ocupados por outros. Sempre decidi criar o meu próprio cargo, a minha própria posição sem ter de ocupar o lugar que possa caber a outro. Eis por que não disputo, nunca disputei nem disputarei qualquer posição que possa ser ocupada por quem quer que seja.
 
Mário Ferreira dos Santos[5].

A filosofia de Mário Ferreira é constantemente elogiada por sua forma e rigor de análise. Assim como a maior parte dos grandes filósofos, parte de pressupostos aparentemente simples para chegar na resolução de problemas de ordem maior.

Seu biógrafo, Luís Mauro Sá Martino, conta que "Havia um problema: praticamente não existiam livros sobre os assuntos aos quais ele se referia. Filosofia era um produto importado e caro. As obras filosóficas principais não estavam traduzidas e os textos em circulação, em sua maioria, eram precários." Nessa época, início dos anos 50, Mário Ferreira arquitetou uma obra de larga escala, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, na qual trataria da base filosófica de todas as áreas do conhecimento.

Ao contrário de outros filósofos, preocupados apenas com a formulação dos pensamentos, Mário Ferreira pretendia ser lido e compreendido por todos. A Enciclopédia tinha uma clara intenção social. O objetivo era levar conhecimento ao povo e estimular a mentalidade filosófica da população. Como não havia sequer livros suficientes com os conceitos principais da filosofia, foi preciso começar do zero, construir as bases de um pensamento filosófico e, em seguida, expor sua filosofia original.

Seu trabalho foi voltado a escrever filosofia para o grande público, principalmente o nacional, buscando afirmar nossa independência e capacidade para desenvolvimento de uma inteligência filosófica brasileira. De acordo com o Mário, o brasileiro era um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, que corresponda ao verdadeiro sentido com que foi criada desde o início.

Segundo o filósofo, o brasileiro não poderia permanecer na situação de ser um povo que recebia todas as ideias vindas de todas as partes, que não poderia encontrar um caminho para si mesmo. Sendo assim, nós deveríamos criar este caminho. Sem esta visão positiva e concreta da Filosofia não seria possível solucionar os inúmeros problemas vitais brasileiros de sua época, porque a heterogeneidade de ideias e posições facilitavam a de soluções, das quais muitas não eram adequadas às necessidades do país.[5]

Ostracismo acadêmico[editar | editar código-fonte]

Apesar de sua prolífica obra, o trabalho de Mário Ferreira dos Santos não encontrou grande difusão na academia brasileira ou estrangeira, e permanece pouco citado ou debatido. O Ph.D Stanislavs Ladusãns, um dos primeiros divulgadores da filosofia de Mário, o classificou como “o homem que ainda não foi descoberto no Brasil”.[7] Segundo Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos foi ostracizado no meio acadêmico brasileiro, tendo sofrido uma espécie de boicote nas universidades brasileiras nas quais a vertente dominante era o materialismo dialético.[8] De acordo com o Prof. Carlos Aurélio Mota de Souza, doutor pela USP, ainda há 29 obras inéditas de Mario Ferreira que permanecem desconhecidas do grande público.[5] O Ph.D. pela Universidade Stanford, João Cézar de Castro Rocha, atribui esse ostracismo à década de 50, pois, durante esse período, havia o desejo de incutir a pesquisa nas universidades, ambição que se chocava diretamente com o autodidatismo de Mário.[9]

Livros publicados[editar | editar código-fonte]

  • Teses da Existência e da Inexistência de Deus - com pseudônimo de Charles Duclos. Editora e Distribuidora Sagitário, 1946.
  • Se a Esfinge Falasse - com pseudônimo de Dan Andersen. Editora e Distribuidora Sagitário, 1946.
  • Realidade do Homem - com pseudônimo de Dan Andersen. Editora e Distribuidora Sagitário, 1947.
  • Curso de Oratória e Retórica, Editora Logos, 1953 .
  • Técnica do Discurso Moderno. Editora Logos, 1953.
  • Filosofia e Cosmovisão. Editora Logos, 1954.
  • Lógica e Dialética. Editora Logos, 1954.
  • Psicologia. Editora Logos, 1954.
  • Teoria do Conhecimento. Editora Logos, 1954.
  • Ontologia e Cosmologia. Editora Logos, 1954.
  • O Homem que Nasceu Póstumo. Editora Logos, 1954.
  • Curso de Integração Pessoal. Editora Logos, 1954.
  • Análise Dialética do Marxismo. Editora Logos, 1954.
  • Tratado de Simbólica. Editora Logos, 1955.
  • Filosofia da Crise. Editora Logos, 1955 (1ª edição), É Realizações, 2017 (2ª edição).
  • O Homem perante o Infinito (Teologia). Editora Logos, 1955.
  • Aristóteles e as Mutações. Editora Logos, 1955.
  • Noologia Geral. Editora Logos, 1956.
  • Filosofia Concreta (3 volumes). Editora Logos, 1956.
  • Sociologia Fundamental e Ética Fundamental. Editora Logos, 1957.
  • Filosofias da Afirmação e da Negação. Editora Logos, 1957.
  • Práticas de Oratória. Editora Logos, 1957.
  • O Um e o Múltiplo em Platão. Editora Logos, 1958.
  • Métodos Lógicos e Dialéticos (3 volumes). Editora Logos, 1959.
  • Pitágoras e o Tema do Número. Editora Logos, 1960.
  • Páginas Várias. Editora Logos, 1960.
  • Filosofia Concreta dos Valores. Editora Logos, 1960.
  • Convite à Estética. Editora Logos, 1961.
  • Convite à Psicologia Prática. Editora Logos, 1961.
  • Convite à Filosofia. Editora Logos, 1961.
  • Tratado de Economia (2 volumes). Editora Logos, 1962.
  • Filosofia e História da Cultura (3 volumes). Editora Logos, 1962.
  • Análise de Temas Sociais (3 volumes). Editora Logos, 1962.
  • O Problema Social. Editora Logos, 1962.
  • Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais (4 volumes). Editora Matese, 1963.
  • Dicionário de Pedagogia e Puericultura (3 volumes). Editora Matese, 1965.
  • Origem dos Grandes Erros Filosóficos. Editora Matese, 1965.
  • Protágoras. Editora Matese, 1965.
  • Isagoge de Porfírio. Editora Matese, 1965.
  • Grandezas e Misérias da Logística. Editora Matese, 1966.
  • Invasão Vertical dos Bárbaros. Editora Matese, 1967.
  • Erros na Filosofia da Natureza. Editora Matese, 1967.
  • A Sabedoria dos Princípios. Editora Matese, 1967.
  • A Sabedoria da Unidade. Editora Matese, 1967.
  • A Sabedoria do Ser e do Nada. Editora Matese, 1968.
  • O Apocalipse de São João (póstumo). Editorial Cone Sul, 1998.
  • A Sabedoria das Leis Eternas (póstumo). É Realizações, 2001.
  • Cristianismo, a Religião do Homem (póstumo). EDUSC, 2003.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Mário Ferreira dos Santos: uma esfinge no labirinto». Academus. Consultado em 24 de maio de 2017 
  2. a b Ramus, Gustavo (1 de janeiro de 2008). «Anarquismo cristão e sua influência no Brasil». verve. revista semestral autogestionária do Nu-Sol. 0 (13). ISSN 1676-9090 
  3. Vargas, Carlos Eduardo de Carvalho (1 de janeiro de 2007). «Contribuições filosóficas de Mário Ferreira dos Santos à metodologia da pesquisa sobre religião». Revista do Núcleo de Estudos de Religião e Sociedade (NURES). ISSN 1981-156X. 0 (06). ISSN 1981-156X 
  4. «OS ÓCULOS DO VOVÔ». cinemateca brasileira. Consultado em 18 de Janeiro de 2015 
  5. a b c d e «Por que reler Mário Ferreira dos Santos hoje?». Consultado em 24 de dezembro de 2016 
  6. «MarioFerreiraDosSantos» (PDF). Consultado em 24 de dezembro de 2016 
  7. «Mário Ferreira dos Santos». Revista Filosofia. Consultado em 29 de dezembro de 2016 
  8. «Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro». Dicta & Contradicta. Consultado em 18 de Janeiro de 2015 
  9. Santos, Mário Ferreira dos (2017). Filosofia da Crise Prefácios de Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha. [S.l.]: É Realizações. p. 1-17. ISBN 978-85-8033-283-4 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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