Eugênia Anna Santos

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Eugênia Anna Santos
Mae Aninha.jpg
Nascimento 13 de julho de 1869
Salvador
Morte 3 de janeiro de 1938 (68 anos)
Salvador
Cargo Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Ọbá Biyi[1], (Salvador, 13 de julho de 1869 — Salvador, 3 de janeiro de 1938) Iyalorixá, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e no Rio de Janeiro.

Vida[editar | editar código-fonte]

Eugênia Anna Santos[2] nasceu no dia 13 de Julho de 1869, às dez horas da manhã, na rua dos Mares 76, em Salvador, Bahia. Filha de Sérgio José dos Santos (chamado em gurunsi Aniió), brasileiro, e Leonídia Maria da Conceição Santos (chamado em gurunsi Azambrió), brasileira. Não há informação sobre os avós paternos e maternos. Seu registro de nascimento fora efetuado pela própria Eugênia Anna Santos, no cartório do sub distrito do Paço, rua do Tingui 97, CEP 40040-380, Salvador, Bahia, no dia 7 de Junho de 1937.[3]

Foi iniciada na nação de Ketu em 1884, aproximadamente, pela iyalorixá Marcelina da Silva,[4] Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia Figueiredo,[5] Omonikê. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, conta que depois da morte de Marcelina da Silva, Eugênia Anna Santos, fez santo Afonjá no Engenho Velho,[6] com Tia Teófila, Bamboxê[7] e Tio Joaquim.[8] Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Maria Bibiana do Espírito Santo afirmou que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”.

Fundou o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro em 1895 e em Salvador em 1910. Em 1936, reinaugurou o Ilê Iyá,[9] instituiu o Corpo de Obás de Xangô (Ministros de Xangô) com Martiniano Eliseu do Bonfim,[10][11] lançou a pedra fundamental no novo barracão Ilê N'Lá e fundou a Sociedade Cruz Santa, no Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador. Em 1937, participou do II Congresso Afro-Brasileiro em Salvador, a convite do escritor e etnólogo Edison Carneiro. Influenciou Getúlio Vargas, na promulgação do Decreto-Lei 1.202, no qual ficava proibido o embargo sobre o exercício da religião do candomblé no Brasil - contou com a ajuda de Oswaldo Aranha, seu filho-de-santo e chefe da Casa Civil e do Ogan Jorge Manuel da Rocha.

Começou a mostrar-se doente em junho de 1936. Seu último barco, com suas últimas filhas-de-santo, saiu no dia 13 de dezembro de 1937. No dia 3 de janeiro de 1938, às quinze horas, ela faleceu - vítima de arteriosclerose, conforme atestado apresentado por seu médico Dr.Rafael Menezes, na casa de Iyá no Ilê Axé Opô Afonjá. Às dezenove horas, o corpo foi transportado, em carro mortuário, do Ilê Axé Opô Afonjá para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no centro histórico de Salvador, Pelourinho, onde ficou exposto até as quinze horas do dia seguinte, quando saiu o cortejo fúnebre. No dia 4 de janeiro de 1938 foi sepultada no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, com todas as formalidades de praxe do candomblé e da religião católica. Então, seguiu-se o axexê no Ilê Axé Opô Afonjá.

Em 3 de Janeiro de 1945, foi realizada a obrigação de Aku (ou obrigação dos sete anos), o último dos compromissos da Sociedade para que a sua Iyá Obá Biyi obtivesse luzes e descanso eterno. Eugênia Anna Santos repousa num mausoléu, oferecido pela Sociedade Cruz Santa Opô Afonjá, no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, Salvador, Bahia.

Eugênia Anna Santos por Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi
É imprescindível citar como fonte para o artigo do perfil biográfico de Eugênia Anna Santos o livro "História de Um Terreiro Nagô" de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, porque ele compartilhou da vida dela, como agente direto e também espectador, e registrou, nesse livro, o dia-a-dia do Ilê Axé Opô Afonjá desde sua fundação. Para maiores detalhes sobre a importância desse livro para o estudo da biografia de Eugênia Anna Santos, ler o artigo do livro História de Um Terreiro Nagô. Nesse documento, Mestre Didi escreve o nome de Mãe Aninha como "Eugênia Anna dos Santos" e a filiação como nome do pai "Sérgio dos Santos (Aniyó)" e da mãe como "Lucinda Maria da Conceição' (Azambriyó)". Essas informações são diferentes das registradas na certidão de nascimento.

1. Iniciação Religiosa

Segundo Marcos Santana,[12] as possibilidades de pesquisa sobre os processos de iniciação de Eugênia Anna Santos "ainda não foram esgotadas". Em seu livro Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano, escreve:[13]

"(...) é de aceitação universal que a jovem Eugênia Anna Santos teria sido iniciada na nação de Ketu em 1884, aproximadamente, pela insigne Iyalorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães,[14] residência de Maria Júlia Figueiredo, Omonikê."

Maria Salete Joaquim cita Mãe Stella:[15]

"Para se tornar mãe-de-santo tem que nascer, é uma escolha do Orixá. Ser mãe-de-santo é dom, porque a pessoa tem que ser dotada para exercer o cargo. Se a pessoa não for dotada ela pode saber o máximo, mas nunca será Mãe."

Os pais de Eugênia Anna Santos imprimiram-lhe um sentido religioso profundo, advindo das antigas tradições gurunsi.[16] Segundo Agenor Miranda Rocha, Pai Agenor:[13]

"Foi iniciada ainda criança para Iá Grimborá,[17] divindade da nação grunci, de seus pais africanos"

Mãe Stella, em seu livro Meu Tempo é Agora escreve:[1]

"A Iyálòriṣa era descendente de africanos Grunci. Foi iniciada no culto aos Oriṣá Yoruba, popularmente chamado KETU, cultuando, também, as divindades familiares, grunci. Construiu uma casa para Iyá, Oriṣá Obinrin correspondente à Yemọja dos Yoruba. Outras divindades grunci são cultuadas na casa de Iyá; um culto à parte, diferenciado."
"(...) Mãe Aninha era de Şàngó, filha-de-santo de Iyá Marcelina - Ǫba Tosin, do Candomblé do Engenho Velho, o Aşę Iyá Naso Oká."

Dentro do Ilê Axé Opô Afonjá de Salvador existe naquele espaço sagrado a casa de Iyá - Yemonja dos Yorubás, de Grunci, local onde Mãe Aninha faleceu na presença de algumas de suas filhas de santo, dentre elas a Mãe Preta do Brasil, Senhora de Oxum. Mãe Agripina a Iyalorixá que substituiu Mãe Aninha no Opô Afonjá do Rio de Janeiro, tinha o desejo de trazer os assentamento de Iyá para a casa carioca, a todo pedido de Mãe Agripina, a Matriarca Iyá Obá Biyí dispensava atenção, no entanto, não tomava a providência sem consulta ao Orixá, e recebeu de Iyá-Yemonjá que somente sairia de onde estava para a casa que estava sendo construída em São Gonçalo, ou seja, no Opô Afonjá de Salvador. O antropólogo e professor emérito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Vivaldo da Costa Lima, em seu texto Candomblés da Bahia na década de 30 escreve:[18]

"Utilizo aqui as informações que me foram confiadas pela ialorixá Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, filha-de-santo de Aninha e bisneta-de-sangue de Marcelina Obatossi: – “Depois da morte de minha vó Marcelina é que minha mãe fez santo no Engenho Velho. Fez Afonjá, com minha tia Teófila, Bamboxê e Joaquim”. Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Senhora me respondeu que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”. Senhora me disse ainda que o ajibonã de sua mãe-de-santo “foi homem, não foi mulher – Pedro do Cabeça, marido da finada Tia Tiana, Oloxun, mãe-de-santo de Popó, que morava na rua das Campelas."

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[11]

"Fez Xangô à Rua dos Capitães, em casa de Maria Júlia Figueiredo (filha de Iyanassô), que chefiava a casa, junto com Marcelina da Silva (Obá Tossi) e tio Rodolpho Martins de Andrade (Bamboxê), conhecido também como Êssa Obotikô. O Xangô de Aninha deu-lhe o nome de Obá Biyi."

"Passados alguns anos, quando chegou o tempo determinado e Aninha completou os sete anos de iniciada, foram feitas novas obrigações, conforme determinação dos orixás, de modo que ela obtivesse poderes suficientes para exercer o cargo de uma das zeladoras do culto afro da Bahia, ou seja, para que fosse Iyalorixá do tradicional Axé de Ketu, de acordo com a história, ficando conhecida como Iyá Obá Biyi.

Eis por que, mesmo sendo descendente da nação Grunci, fez Xangô Ogodô e Afonjá na nação Ketu."

Resumo do percurso religioso de Mãe Aninha:[11]

Data Local
não disponível Casa Branca do Engenho Velho
não disponível Roça do Camarão (Rio Vermelho) [11][19]
não disponível Santa Cruz (Rio Vermelho)
não disponível Rua dos Capitães[20]
1903 Corriachito
1907 Ladeira da Praça
1910 Ladeira do Pelourinho, 77[21]

2. Comerciante no Pelourinho

Tinha como atividade civil o comércio de quitutes, artesanato e produtos rituais africanos, com estabelecimento na Ladeira da Praça, no Pelourinho. Foi uma empreendedora muito bem sucedida. Segundo Marcos Santana:[13]

"Diversos relatos dão conta de que Mãe Aninha era uma comerciante bem sucedida que ajudava os mais necessitados amparando-os e encaminhando-os para trabalhar na sua residência. Essa posição social iria refletir na aquisição em 1909, das terras no alto de São Gonçalo para a criação definitiva do Axé de Xangô Afonjá."

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, descreve:[11]

"(...) Iyá Obá Biyi voltou a Salvador, para sua casa, à Ladeira do Pelourinho, onde tinha uma quitanda bem sortida de todos os ingredientes africanos e brasileiros para seu próprio uso e para vender também às pessoas que precisavam e procuravam comprar em suas mãos, para os devidos fins, nos respectivos terreiros de seitas africanas."

Mãe Stella comenta:[13]

"A casa de Aninha da Ladeira da Praça era um verdadeiro pensionato gratuito, onde as protegidas ajudavam na confecção de doces muito bem aceitos naquele tempo".

O sociólogo e doutor pela Universidade de Chicago Donald Pierson escreve:[22]

"(...) Possui na cidade uma pequena loja onde vende vários artigos, inclusive usados nos rituais de culto; e sabendo os membros do mundo afro-brasileiro que esses artigos devem ser legítimos, uma vez que são vendidos por ela, a loja faz bom negócio." "Outra moda, que no século XIX serviu para marcar a alta classe daqueles (de qualquer sexo) que a adotassem era deixar que as unhas do indicador e polegar crescessem até bem compridas... e cortá-las em ponta aguda. Hoje em dia, ao passo que os brancos, na Bahia, não mais seguem essa moda, vêm-se, ocasionalmente, pessoas de destaque entre os negros - por exemplo, Mãe Aninha do candomblé de São Gonçalo - usando unhas excessivamente compridas."

Resumo dos endereços residenciais de Mãe Aninha:[11]

Data Local
não disponível Rua dos Capitães[20]
1903 Corriachito
1907 Ladeira da Praça[23]
1910 Ladeira do Pelourinho, 77[23]

3. Ialorixá no Ilê Axé Opô Afonjá

Eugenia Anna Santos, comprou a roça de São Gonçalo do Retiro em 1909 e lá fundou o Ilê Axé Opô Afonjá. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[11]

"(...) Aninha Iyá Obá Biyi residia na Ladeira do Pelourinho n.77, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde tinha posição de destaque, não só nas irmandades ali existentes como também na Igreja da Barroquinha. Foi quando, por ordem do seu eledá Xangô, comprou uma roça no alto de São Gonçalo do Retiro, onde organizou seu terreiro, fazendo uma grande casa para todos os orixás e as pessoas velhas que a acompanhavam, e realizando logo a inauguração do novo terreiro, denominado "Axé Opô Afonjá", com a iniciação de Agripina Souza, filha de Xangô. Agripina veio a ser a Iyalorixá do Axé Opô Afonjá do Rio de Janeiro, situado e funcionando em Coelho da Rocha, Axé que lhe foi dado pela velha Aninha e que é uma espécie de sucursal carioca do Axé Opô Afonjá, casa matriz de onde ele nasceu. No dia 27 de agosto de 1911, já com tudo mais ou menos organizado, foi feita a iniciação de Vevélha, filha de Oxun, e, em 7 de setembro, de Inezinha, filha de Oxalá, e de Faustina, filha de lansan. A essa altura, lyá Obá Biyi já havia iniciado por suas próprias mãos 23 pessoas (sem contar as que foram iniciadas em casas particulares, e outras dentro do Axé, cujos nomes não chegaram ao conhecimento público por motivo ignorado) e mais 20 homens, como Alabê, Axogun, Ogan, etc. Existia também grande quantidade de pessoas sem postos na casa mas que tomavam parte e acompanhavam todo o ritual do Axé. Daí, Iyá Obá Biyi, com sua boa vontade, seu espírito batalhador e a ajuda de todos que a acompanhavam, continuou a construir o Axé, fazendo casas nos assentos já existentes para Exu, para Oxalá, esta com um quarto para as Ayabá, para a Iemanjá denominada Ilê lyá, onde Mãe Aninha adorava Iyá n'ilê Grunci (a mãe da terra dos Grunci, na África), outra para Obaluaiyê, além da de Oxossi e da casa de Ilê Ibó Akú (casa de veneração aos mortos), que ficou situada perto da casa de Obaluaiyê, pelos lados de baixo da roça."

Em 1921, Eugenia Anna Santos foi para a casa de José Theodório Pimentel, Balé Xangô,[24] em Itaparica. Mãe Aninha era muito amiga da família Pimentel. José Theodório Pimentel ajudava Mãe Aninha desde os tempos da Ladeira da Praça. Essa viagem foi muito importante porque é a evidência de que Mãe Aninha fez a ponte entre o Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e o culto aos Eguns em Itaparica e nessa casa fez a iniciação tanto de Mãe Senhora quanto de Mãe Ondina, filhas do mesmo barco,[25] suas sucessoras no Ilê Axé Opô Afonjá. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[11]

"Em 1921, Iyá Obú Biyi , Aninha, foi para a casa de José Theodório Pimentel (Balé Xangô), em Itaparica, fazer a iniciação da filha do dono da casa, Ondina Valéria Pimentel, filha de Oxalá - mais tarde, Iyá Kekerê do Axé; de Senhora, filha de Xangô; de Filhinha, de Oxun; de Túlia, de Iemanjá, e de Vivi, de Obaluaiyê. Tirou esse barco de iyawôs com a ajuda de sua irmã lesse-orixá Fortunata de Oxossi (Dagan), mãe legítima de Silvânia, filha de Airá, a Iyámorô do Axé Opô Afonjá."

Mãe Aninha estava cercada de pessoas de sua confiança e sabia delegar. Em 1934, Mãe Senhora também já demonstrava grande espírito de liderança, conforme segue o relato de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô:[11]

"Mesmo na ausência de Aninha, prosperava o Axé, dirigido por pessoas de sua confiança. Assim, em 1934, por ocasião das festas de ano das Águas de Oxalá, estando Iyá Obá Biyi no Rio, foi feita a remodelação de um barracão de palha que havia em frente a casa de Oxalá, e Senhora, a então Osi Dagan, mandou construir uma casa para Oxun, seu cledá, ao lado da casa de Oxossi, para que os festejos fossem realizados conforme o calendário.

Em junho de 1935 , Eugenia Anna Santos voltou do Rio de Janeiro para Salvador. Mandou desmanchar o barracão de palha em frente a casa de Oxalá para construir outro bem maior, mais acima, ao lado da atual porteira de acesso ao terreiro. Conforme Vivaldo da Costa Lima, na ausência de Mãe Aninha, chefiaram o terreiro sua irmã-de-santo Fortunata, a dagã do terreiro, Silvana, sua filha, a iámorô e Mãe Senhora, de Oxum, a ossidagã. Dirigiam elas as obrigações anuais; cuidavam dos filhos da casa; atendiam ao serviço diário dos santos, pois que certas obrigações, como a iniciação ou feitura do santo só poderiam ser feitas com a participação pessoal de Mãe Aninha.

No dia 29 de junho de 1936, instituiu o Corpo de Obá (ou Ministros de Xangô), tradição só conservada na Bahia no Ilê Axé Opô Afonjá. Mestre Didi comenta:[11]

"O restabelecimento da antiga tradição dos Obás de Xangô veio dar ainda maior prestígio ao Opô Afonjá e demonstrar as qualidades e conhecimentos da Iyalorixá Aninha Iyá Obá Biyi."

No dia 8 de novembro de 1936, Mãe Aninha, Obá Biyi, fundou a Sociedade Cruz Santa no Ilê Axé Opô Afonjá.

Mãe Stella escreve sobre os tempos de Mãe Aninha:[1]

"Iyá Oba Biyi era muito zelosa com coisas de hierarquia e awo. Tinha um grupo de filhas-de-santo mais velhas, e umas tantas quantas senhoras idosas, as Àgba, responsáveis pela educação direta das filhas-de-santo. Depois da iniciação, mãe Aninha as deixava aos cuidados das velhas senhoras. Tia Catú-Ayrá Tolá, filha-de-santo de mãe Aninha, na força de seus noventa e dois anos, nos conta muitas histórias. Ai da filha-de-santo que resolvesse passar por cima da hierarquia, indo queixar-se diretamente à Mãe-de-Santo! Não tinha nem graça... O grupo de Àgba, a que me referi, tinha de educar as iniciadas. Se estas não se comportassem muito bem, a culpa era atribuída à incompetência das mestras. O professor responde pelos discípulos, não é assim mesmo? Daí o zelo das mais velhas em transmitir conhecimentos que tinham recebido de seus mais velhos, aos mais moços. Ninguém ia querer receber uma advertência da Mãe-de-Santo, tendo a satisfação de mostrar que davam conta do recado, sabiam das coisas! Se a Iyalòrisa entregava seu filho a uma Ojúbòna, para tomar conta, é que confiava naquela pessoa, sentindo-se, até, desmoralizada em caso de falhas da mãe-pequena do Iyawó. Por tal motivo, procurou preencher seu Egbé com os cargos inerentes a um Ase. Sendo ela mestra maior, orientou a todos com sua força de caráter e disciplina."

Marcos Santana oferece uma proposta de como estaria formada a hierarquia do Ilê Axé Opô Afonjá em 1938:[13]

  1. Iyalorixá - Obá Biyi
  2. Iyá Kekerê - Iwin Tonã
  3. Iyá Dagã - Odé Gidê
  4. Iyá Morô - Ayirá Bayi
  5. Ossi Dagã - Oxum Muiywá
  6. Otun Dagã - Maria Otun de Ossanhe[26]
  7. Ajimuda - Ojeladê
  8. Balé Xangô - Bamboxê, Essa Obiticô / José Teodoro Pimentel
  9. Êssa Oburô - Obá Sañya / Tio Joaquim
  10. Assobá - Bopê Oiá
  11. Iyá Egbé - Airá Tola
  12. Oganlá - Ajagun Tundê
  13. Olopondá - Vevelha
  14. Sobaloju - Obá Kayodê

Segundo Vivaldo da Costa Lima, Mãe Aninha participava com devoção dos ritos e sacramentos da igreja católica - atitude dominante nas antigas mães-de-santo da Bahia: era Priora das Irmandades do Senhor Bom Jesus dos Martírios e de Nossa Senhora do Rosário, Provedora Perpétua de Nossa Senhora da Boa Morte, da Barroquinha, e Irmã Remida da Irmandade de São Benedito, nas Quintas.[18]

4. Últimos dias

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, participou dos eventos narrados e conta em seu livro 'História de Um Terreiro Nagô':[11]

"No dia 6 de junho, Mãe Aninha fez a iniciação de José, de Ogun; Cantulina, de Airá; Eutrópia, de Oxun. Adoecendo, teve que parar um pouco para descansar, deixando algumas iyawôs para quando melhorasse - o que não aconteceu. (...)

Quando a morte se aproximou de Iyá Obá Biyi, às nove horas do dia 3 de janeiro de 1938, às nove horas, foi imediatamente reconhecida. Mãe Aninha, devido a seus profundos conhecimentos, estava ciente de seu fim e já tinha até a roupa preparada para o seu enterro. Chamou então seu neto, Didi, o Assobá, o Obá Aré Miguel de Sant'Anna, e a Ossi Dagan Senhora. Imediatamente eles chegaram e se apresentaram ao lado da cama onde ela se encontrava, em um dos quartos da casa que atualmente é de Ossãin.

Iyá Obá Biyi, já com a fala confusa, disse: "Obá Aré: Obá Abiodun fica como presidente da Sociedade, e você eu quero que fique ao lado de Ossi Dagan, lessé orixá" (aos pés do orixá). Logo em seguida, virou a língua e falou, em iorubá, algumas coisas que nenhum deles entendeu. Então ela disse: "Não sabem o que perderam". E pediu que a levassem para a casa de Iyá, onde, depois de ter feito alguns preceitos com o auxílio de suas filhas que, em sua maior parte, lá estavam, além de alguns Obás e Ogans, perdeu a fala e veio a falecer às 15 horas, na presença de seu médico que chegou a tempo de vê-la dar o último suspiro.

Às 19 horas, depois de terem sido tomadas as providências necessárias, o corpo de Iyá Obá Biyi foi transportado, em carro mortuário, do Axé Opô Afonjá para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde ficou exposto até às 15 horas do dia seguinte, quando saiu o enterro.

À saída do carro mortuário acompanhado de oito ônibus, não se podia passar no Pelourinho, tal a quantidade de automóveis e a mult idão de gente que acompanhava. Só em um dos livros de presença colocados na entrada da Igreja, havia registro de mais de oitocentas assinaturas.

Trazido para o carro mortuário, o caixão foi quase que arrebatado pelo povo, que fez questão de conduzi-lo nas mãos até o cemitério das Quintas, seguido do carro mortuário, dos ônibus super lotados, dos automóveis e de um número incalculável de pessoas a pé, interrompendo o trânsito por uma hora e quarenta e cinco minutos, segundo os jornais da época.

Na subida da Ladeira das Quintas, o caixão foi entregue aos Obás, Ogans e filhos da casa, para que prestassem as obrigações que tinham por dever para com a Iyalorixá morta. Ossi Dagan (Senhora) colocou-se à frente, saudou Xangô e, rogando a Deus pelo descanso eterno para sua Iyalorixá, iniciou a cerimônia.

Iniciaram-se as cantigas de preceito. As pessoas que carregavam o caixão andavam um pouco, depois davam três passos para trás, três para a frente, e assim sucessivamente, até chegarem ao portão das Quintas, onde entregaram o caixão para aqueles que o haviam retirado da Igreja. Então encaminharam-se todos, no mais profundo silêncio, para o cemitério da Irmandade de São Benedito, onde foi feito o sepultamento, fazendo-se ouvir, na despedida à Mãe Aninha,

Ajimudá (Martiniano Elizeu do Bonfim), e muitos outros oradores."

Vivaldo da Costa Lima, em seu texto Candomblés da Bahia na década de 30, escreve:[18]

"O jornal o Estado da Bahia de 5 de janeiro publicou sobre o mesmo uma ampla matéria, em cinco colunas e com três fotografias. Segundo a mesma, mais de duas mil pessoas compareceram e acompanharam, a pé, o cortejo, até as Quintas; o comércio das imediações da Igreja do Rosário, no Taboão e na Baixa dos Sapateiros, cerrou suas portas em homenagem a Aninha, muito querida e respeitada na área e dela moradora, por longos anos, em casa vizinha à Igreja onde foi velado o seu corpo. Diz, ainda a reportagem, que o Cônego Assis Curvelo, na capela do cemitério, fez a encomendação do corpo, seguindo-se o sepultamento em cova recém-aberta". Falaram, na ocasião, vários oradores, entre estes o Sr. Álvaro MacDowell de Oliveira, em nome da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia, o escritor Édison Carneiro, além de representantes do Centro Cruz Santa e da Irmandade do Rosário. Por fim, terminada a cerimônia, duas marinettis levaram grande número de amigos de Aninha para São Gonçalo, a fim de tomar parte nas cerimônias fúnebres preparatórias do axexê da querida mãe-de-santo". Devendo-se assinalar, aqui, o fato de entre os oradores, por ocasião do seu sepultamento, haver também estado o velho amigo e irmão Martiniano do Bonfim."

Mãe Stella comenta sua experiência:[1]

"(...) Deixou o Asé em 1938, juntando-se a outros dignos ancestrais, levando consigo muito conhecimento que não teve tempo de passar. Quando faleceu, deixou um barco de Iyáwó novíssimo; mal tinham acabado de dar o nome. Deve ter sido horrível! A cidade do Salvador parou com o falecimento de Iyá Obá Biyi."

"Lembro-me de minha tia, muito séria, conversando com o titio sobre a perda de uma jóia rara da Bahia. Nesse dia 3 de janeiro de 1938, vi titia chorar... Tinha doze anos. Tia Menininha (Archanja) era Sobálóju do terreiro de mãe Aninha."

Segundo depoimento de Mãe Cici, que ouviu uma história, no axexê de Mãe Aninha apareceram alguns eguns.[27]

"Tinha um grande barracão, de taipa e palha de dendê. Então, quando teve o axexê de Mãe Aninha, o povo da parte de egun foi fazer. Aí o egun dela saiu e chamaram pra pegar o carneiro. Aquilo foi um assombro pro povo. Eles nunca tinham visto uma coisa daquela. Quem viu, me contou, uma criatura que era mais velha do que eu dez anos. Ela era pequena e pulava na ponta do pé pra poder enxergar. O povo todo gritando, no desespero, quando viu aquela figura pegar o carneiro, trazer e desaparecer no mato."

Realizações[editar | editar código-fonte]

Segue abaixo uma introdução das principais realizações de Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, enquanto Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Segundo Marcos Santana:

"1936 pode ser considerado o ano das grandes realizações de Obá Biyi na Roça de São Gonçalo. Após o longo período no Rio de Janeiro ela, ao retornar a Salvador, cumpre uma agenda típica de grandes políticos e estadistas. As metas do seu projeto de vida e da sua vocação fundadora se concretizam seguindo uma meta-pré-estabelecida."[13]

1. Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - Saúde, Rio de Janeiro - RJ, 1895[28]

(em construção) Notas:

  • 1886: Primeira visita de Mãe Aninha
  • 1895: Mãe Aninha vem ao Rio com Bamboxê e Tio Joaquim e funda uma casa de santo no bairro da Saúde
  • 1935: Mãe Aninha encarrega Mãe Agripina para cuidar do Afonjá no RJ
  • 1944: localizado na rua bela em sao cristovao, Mãe Agripina transfere o Afonjá para Coelho da Rocha, São João do Meriti - RJ

2. Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1910

O terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá foi criado em 1910 por Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, em Salvador, Bahia. Ela adquiriu a roça de São Gonçalo, de aproximadamente trinta e nove mil m², onde está situado o terreiro, em 1909. O local é distante do centro histórico de Salvador - Pelourinho - onde Mãe Aninha tinha residência civil na época. São Gonçalo era conhecido pelos sítios de laranjais e pelos diversos quilombos.[13] Donald Pierson detalha as direções de acesso ao terreiro:

"Para se chegar à seita de uma conhecida mãe de santo, toma-se o bonde da Calçada para a periferia da cidade, passando-se por laranjais e pastos crescidos, até o matadouro, onde se desce: sobe-se depois por uma estrada íngreme, ladeada por plantas chamadas "nativos" (que dizem ser originárias da África), uricuris e outros coqueiros, até que depois de andar mais dois quilômetros, se chega a um cume que domina um verde vale, donde se pode ver a cidade, bem ao longe. Uma brisa fresca sopra do mar e tempera o calor do sol tropical. Entre palmeiras esparsas aninham-se várias casas, algumas elegantemente pintadas de branco, amarelo, verde e azul."[22]

3. Reinauguração do Ilê Iyá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936

Em pesquisa. Aguardando livro Bahia de Todos os Santos de Jorge Amado, relançamento da Companhia das Letras, em Maio de 2010. Há no livro um relato dele, com a descrição desse evento.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta um pouco:[11]

"Ainda em 1936, a Iyalorixá Iyá Obá Biyi - Aninha - participou do II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, enviando uma comunicação sobre culinária litúrgica baiana. Os congressistas foram festejados no Axé, por ocasião da remodelação da casa de Iyá, numa cerimônia que a todos impressionou, pela pureza e formosura do ritual.

4. Lançamento da pedra fundamental do novo barracão, Ilê N'Lá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, escreve:[11]

"Em 1936, como resultado do esforço e da orientação de Iyá Obá Biyi, levantaram a primeira pedra para a construção do atual barracão, numa festa que contou com a presença de todos da casa e das autoridades da época."

5. Instituição do Corpo de Obá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936

Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, introduziu o Corpo de Obá, ou Ministros de Xangô, no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 29 de junho de 1936 - ato inédito num terreiro de candomblé, na América. Foi auxiliada diretamente por Martiniano Eliseu do Bonfim, Ajimuda do Ilê Axé Opô Afonjá.[13] Descreve Donald Pierson, num depoimento recolhido de Mãe Aninha a ele:[22]

"(...) Minha seita é nagô puro, como o Engenho Velho. Tenho ressuscitado grande parte da tradição africana que mesmo o Engenho Velho tinha esquecido. Têm mãe de santo aí para os doze ministros de Xangô? Não! Mas eu tenho."

Escreve Mãe Stella:[1]

"Com dignidade, auxiliada pelo Babalawo Martiniano Eliseu Bonfim, elo de ligação do Opó Afǫnjá com a Nigéria, introduziu no Novo Mundo o Corpo de Ọba, os Ministros de Ṣàngó, responsáveis pelas coisas civis da Roça.

(...) seis da direita (ǫtún) e seis da esquerda (òsi). Os Ǫba da direita têm direito a voz e voto; os da esquerda, a voz.

Aos Ǫba foi entregue o destino civil do Aşę e, também, religioso. Eles são os Ministros de Ṣàngó, seus representantes.

Ressalto que os Ǫba da direita também têm o direito de pegar o Şere de Ṣàngó, em atos realizados no Barracão, em louvação ao referido Orişa.

Os Ǫba são especialmente chamados de "pai" pelos filhos de Ṣàngó. Como Ministros de Rei, sentam-se ao lado da Iyálòrişa, a qual representa Ṣàngó, conforme os títulos ocupados. Trocam o "jùba" com Iyálaşę e demais autoridades religiosas, recebendo pedidos de bençãos, por parte do Ęgbę. São os representantes de direito da Sociedade Civil, incumbindo-lhes a tarefa de, junto à Iyá e Conselho Administrativo, conduzir os bons caminhos do Aşę, zelando, também, pela manutenção das tradições da Casa."

A denominação dos Obá se dá conforme segue:[1]

  • Os Obá da direita são: Kakanfò, Téla, Abiǫdun, Àrę, Àrolu e Ǫdǫfun.
  • Os Obá da esquerda são: Ǫnaşǫkun, Aręssá, Eleryin, Oni Koyi, Olugbǫn e Şòrun.

6. Fundação da Sociedade Cruz Santa - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936

Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, fundou a Sociedade Cruz Santa no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 8 de novembro de 1936, dia da festa dedicada a Oxum.[13] Escreve Mãe Stella:[1]

"(...) Em 1936 criou a Sociedade Cruz Santa do Opó Afǫnjá, preservando, assim, a continuidade de nossa casa, evitando eventuais possíveis incidentes de sucessão, pós sua morte."

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta:[11]

"Foi organizada então a sociedade civil com o nome de Sociedade Beneficente Cruz Santa Opô Afonjá, tendo como presidente de honra o Sr. Martiniano Elizeu do Bonfim (Ajimudá), e a primeira diretoria como se segue: Presidente Arkelao de Abreu (Obá Abiodun), Vice-Presidente Miguel A. de Sant'Anna (Obá Aré), Secretário Tibúrcio Muniz (Ogan Ilê Ogun), Tesoureiro Jacinto Souza (Obá Odófin)."

7. Participação no II Congresso Afro-Brasileiro - Salvador - BA, 1937

Eugenia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, participou do II Congresso Afro-Brasileiro, organizado por Edison Carneiro, com o apoio de Arthur Ramos e Áydano do Couto Ferraz, quando apresentou o assunto Notas sobre comestíveis africanos - 25 receitas sobre culinária ritual (sendo 24 com nome iorubá, sem tratar dos processos de preparo ritual)[13], publicado no livro de Edison Carneiro "O Negro no Brasil" (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1940).

O primeiro Congresso Afro-Brasileiro foi realizado na cidade do Recife, em Pernambuco no ano de 1934, sob a liderança de Gilberto Freyre e tendo também como um dos idealizadores o poeta brasileiro Solano Trindade que além de poeta e folclorista era militante ativista que participou da fundação da Frente Negra Pernambucana, Centro de Cultura Afro-Brasileiro, Teatro Experimental do Negro. Waldir Freitas Oliveira, professor, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia, comenta sobre o segundo Congresso Afro-Brasileiro:[29]

"(...) Naquela reunião pretenderam, de uma certa forma, mostrar aos pernambucanos que haviam realizado em Recife, em 1934, liderados por Gilberto Freyre, o I Congresso Afro-Brasileiro. Nós, em Salvador, tínhamos idéias próprias sobre o problema do negro. Isso porque não concordávamos, integralmente, com a concepção de Gilberto Freyre sobre a formação social do Brasil e com a sua teoria sobre relações raciais. Naquele encontro houve a tentativa da criação em Salvador de um núcleo de pesquisas dedicadas ao estudo da escravidão. Mas esse objetivo não foi adiante porque, com a insurreição comunista de 1935, Édison Carneiro esteve ameaçado de ser preso. E também porque, logo em seguida, veio o Estado Novo. Desse modo, aconteceu uma paralisação nessas atividades e ficamos, por algum tempo, sem estudos africanistas na Bahia. Mesmo assim, em 1937, Édison Carneiro publicou seu livro de estréia Negros bantus, editado no Rio de Janeiro."

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta:[11]

"Ainda em 1936, a Iyalorixá Iyá Obá Biyi - Aninha - participou do II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, enviando uma comunicação sobre culinária litúrgica baiana. Os congressistas foram festejados no Axé, por ocasião da remodelação da casa de Iyá, numa cerimônia que a todos impressionou, pela pureza e formosura do ritual."

Segundo Vivaldo da Costa Lima[30]:

Ela havia voltado do Rio, um pouco adoentada, e nunca mais recuperou inteiramente a saúde. Mas fez uma festa, lá em São Gonçalo, no dia 14 de Janeiro, quando o terreiro está fechado. O noticiário do congresso diz que essa festa foi a melhor que houve durante o congresso. É bom que evoquem esses fatos, 50 anos depois de ocorridos: isso tudo aconteceu em 1937, quando uma mãe de santo tradicionalista e rigorosa não hesitou em organizar uma festa em seu terreiro, fora do calendário ritual, para uma finalidade que ela considerou, e o Xangô da casa com certeza confirmou, necessária a um propósito válido. Não houve, nesse caso, qualquer concessão indevida, nenhuma quebra de normas, mas o pleno exercício da capacidade de decidir. Dentro da coerência e dos princípios, e do ritmo da casa, como costumava dizer a ialorixá Senhora, Aninha cumpria o prometido a Carneiro e preparou depois, um pequeno trabalho sobre culinária africana, muito interessante, que está publicado no Negro no Brasil. Um trabalho sinóptico, extremamente despojado, mas suas receitas revelam claramente, no campo da comida ritual, o que significava para o povo de santo a reserva nas 'coisas de fundamento', porque Aninha apenas descreve 25 qualidades das comidas, todas com os nomes nagôs, menos uma, a "farofa", descritas - as que o foram - com extrema simplicidade, com breves referências ao ingrediente básico utilizado, mas nenhuma informação, no entanto, sobre a maneira de fazer e menos ainda ao seu possível emprego ritual no candomblé.

8. Promulgação do Decreto-Lei 1.202 - Rio de Janeiro - RJ, 1939

O Decreto-Lei número 1.202, publicado em 8 de Abril de 1939, dispõe sobre a administração dos Estados e dos Municípios, ou seja, descreve qual a competência de cada esfera do Estado e da Administração Pública.[31] No artigo 33, parágrafo 3, lê-se: "É vedado ao Estado e ao Município: Estabelecer, subvencionar ou embargar o exercício de cultos religiosos;".

Esse fato é de suma importância porque, na época de Mãe Aninha, o exercício livre da religião do candomblé sofria de preconceito e perseguição policial. Embora o Decreto-Lei tenha sido publicado somente em 1939, consta que Mãe Aninha teria se encontrado antes com o presidente Getúlio Vargas em data anterior, pois, Mãe Aninha era sua conselheira espiritual e o Chefe da Nação no período da ditadura com ela se cuidava espiritualmente, o encontro da Iyalorixá com o Presidente Getúlio Vargas para tratativa da Lei foi no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, através de Oswaldo Aranha - filho-de-santo de Mãe Aninha -, chefe da Casa Civil e do Ogan Jorge Manuel da Rocha.

Escreve Mãe Stella:[1]

"Foi a responsável pela liberação do culto afro-brasileiro, bastante perseguido, nos primórdios do século, pela polícia. Candomblé era coisa de negros ignorantes, prática fetichista, a vergonha da Bahia - diziam. Ǫba Biyi não hesitou: no Rio de Janeiro, onde residia na época, foi ter com Getúlio Vargas, obtendo a liberdade para a prática da religião dos Orişa, pelo Decreto n.1202. A Entrevista com o "Presidente" foi conseguida graças à ajuda de Oswaldo Aranha, então chefe da Casa Civil, amigo de mãe Aninha, e esforços do Ogan Jorge Manuel da Rocha."

Ver também[editar | editar código-fonte]

I. Relacionados ao Ilê Axé Opô Afonjá:

1. Ialorixás do Ilê Axé Opô Afonjá, Salvador: (ordem cronológica)

2. Ialorixás do Ilê Axé Opô Afonjá, Rio de Janeiro: (ordem cronológica)

3. Outros:

II. Relacionados à Casa Branca do Engenho Velho:'

1. Ialorixás da Casa Branca do Engenho Velho:

Referências

  1. a b c d e f g h Santos, Maria Stella de Azevedo. "Meu Tempo é Agora". 1993. Ver seção Bibliografia.
  2. Nome, local de nascimento e filiação adotados conforme certidão de nascimento, conforme livro: Santana, Marcos. Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano. Página 62, Nota 16. Ver seção Bibliografia.
  3. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô - documento imprescindível e talvez o mais importante até hoje para análise da biografia de Mãe Aninha - escreve o nome de Mãe Aninha como Eugênia Anna dos Santos, com o nome do pai Sérgio dos Santos (Aniyó) e da mãe Lucinda Maria da Conceição (Azambriyó).
  4. Marcelina da Silva foi a segunda Iyalorixá do Candomblé da Casa Branca do Engenho Velho. Marcelina da Silva foi filha-de-santo e prima de Iyá Nassô Oió Acalá Magbô Olodumarê, a primeira Iyalorixá da Casa Branca do Engenho Velho. Marcelina da Silva é avó de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà.
  5. Maria Júlia Figueiredo, Omonikê, foi a terceira Iyalorixá da Casa Branca do Engenho Velho. Maria Júlia Figueiredo é filha-de-sangue de Iyá Nassô Oió Acalá Magbô Olodumarê, a primeira Iyalorixá da Casa Branca do Engenho Velho.
  6. Ilê Iyá Nassô ou Casa Branca do Engenho Velho.
  7. Rodolfo Martins de Andrade, Bangboshê Obitikô, foi um babalawo africano.
  8. Joaquim Vieira da Silva, Obá Sanyá, Essa Oburô, Tio Joaquim, foi um dos fundadores do Ilê Axé Opô Afonjá.
  9. Casa de Iemanjá no Ilê Axé Opô Afonjá. Evento regisrado no livro de Jorge Amado Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, 1945.
  10. Martiniano Eliseu do Bonfim, Ajimuda da casa de Omolu, do Ilê Axé Opô Afonjá.
  11. a b c d e f g h i j k l m n o dos Santos, Deoscóredes Maximiliano. História de Um Terreiro Nagô. 1988. Ver seção Bibliografia.
  12. Marcos Santana é Ogã da casa de Oxum no Ilê Axé Opô Afonjá, professor, músico, teólogo e autor do livro "Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano". Ver seção Bibliografia.
  13. a b c d e f g h i j Santana, Marcos. Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano. 2006. Ver seção Bibliografia.
  14. A rua dos Capitães é a atual rua Ruy Barbosa, no Pelourinho, centro histórico de Salvador.
  15. Joaquim, Maria Salete. O papel da liderança religiosa feminina na construção da identidade negra. 2001. Ver seção Bibliografia.
  16. Os gurunsi são um conjunto de grupos étnicos que hoje habitam o norte de Gana e o sul de Burkina Faso, região do Alto Volga; existem evidências de que os gurunsi habitam a região desde 1100 a.C.; hoje, sua população estimada é de 1,2 milhão de pessoas. Segundo Vivaldo da Costa Lima, os gurunsi não mantinham nenhuma relação com os iorubás até o tráfico negreiro. Nina Rodrigues conheceu alguns gurunsi em Salvador, no fim do século XIX, conforme referência em "Os Africanos no Brasil": os negros galinhas teriam sido embarcados na feitoria existente na foz do rio das Galinhas (o Gallina River dos mapas ingleses), no golfo de Benin. Este porto, muito ativo no tráfico de escravos até meados do século XIX, era o local mais direto ou mais fácil de atingir, para os negros grunces trazidos do norte, contornando a terra perigosa dos axantes.
  17. Iyá Grimborá, que na nação ketu corresponde a Iyamassê, qualidade de Yemanjá que representa a mãe de Sàngó.
  18. a b c Lima, Vivaldo da Costa. O candomblé da Bahia na década de 30. 2004. Ver seção Bibliografia.
  19. Escreve Mestre Didi que nessa roça do Camarão, no Rio Vermelho, "(...) funcionava o terreiro do tio Joaquim Vieira (Obá Saniá), filho de Xangô, conhecido também por Êssa Oburô, um dos maiores conhecedores das seitas africanas, na época, aqui na Bahia, e amigo inseparável de tio Bamboxê".
  20. a b É a atual rua Ruy Barbosa, no Pelourinho, centro histórico de Salvador.
  21. Pelourinho, centro histórico de Salvador, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
  22. a b c Pierson, Donald. Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial. 1945. Ver seção Bibliografia.
  23. a b Pelourinho, centro histórico de Salvador
  24. Na África, os "balés" são os chefes de grandes famílias.
  25. Segundo Vivaldo da Costa Lima, barco significa o grupo de iniciação e não deve ser entendido como sinônimo de embarcação, embora o sentido figurado não deva ser ignorado.
  26. Maria Otun, Olosanhe, era avó da atual Iyakekerê do Afonjá, Mãe Georgete de Oxum.
  27. Obàrayi - Babalorixá Balbino Daniel de Paula. 2009. Ver seção Bibliografia.
  28. Rocha, Agenor Miranda. Caminhos de Odu. 1999. Ver seção Bibliografia.
  29. Oliveira, Waldir Freitas. As pesquisas na Bahia sobre os afro-brasileiros. 2004. Ver seção Bibliografia.
  30. Lima, Vivaldo da Costa. Lessé Orixá, nos pés do santo. Página 252. Ver seção Bibliografia.
  31. Ver texto integral do Decreto-Lei 1.202 no site do Senado do Brasil no link: http://legis.senado.leg.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=7172

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. JOAQUIM, Maria Salete. O papel da liderança religiosa feminina na construção da identidade negra. Pallas Editora. 2001. 187 p. ISBN 8534702470.
  2. LIMA, Vivaldo da Costa. O candomblé da Bahia na década de 30. Vol. 18, pp. 201–221. 2004.
  3. LIMA, Vivaldo da Costa. A família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais. Português. ed.2a. Salvador. Corrupio. 2003. 216 p. ISBN 8586551171.
  4. LIMA, Vivaldo da Costa. Lessé Orixá, nos pés do santo. Editora Corrupio. Salvador. 2010. ISBN 978-85-86551-42-0.
  5. MARIANO, Agnes; QUEIROZ, Aline. Obàrayi - Babalorixá Balbino Daniel de Paula. 2009. Barabô. ISBN 978-85-62542-00-8.
  6. OLIVEIRA, Waldir Freitas. As pesquisas na Bahia sobre os afro-brasileiros.
  7. PIERSON, Donald. Original em inglês: Negroes In Brazil: A Study of Race Contact at Bahia. The University of Chicago Press. 392 p. 1942. Em português: Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial. Vol. 241. Companhia Editora Nacional, 1945.
  8. PRANDI, Reginaldo. Segredos Guardados: Orixás na Alma Brasileira. Companhia das Letras. 2005. ISBN 8535906274.
  9. ROCHA, Agenor Miranda. As Nações Kêtu: origens, ritos e crenças: os candomblés antigos do Rio de Janeiro. 2a-edição. MAUAD Editora Ltda. 2000. 112p. ISBN 8574780189.
  10. ROCHA, Agenor Miranda. Caminhos de Odu. 2a ed. Rio de Janeiro. Pallas. 1999. ISBN 8534702128.
  11. SANTANA, Marcos. Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano. Português. ed.1a. Salvador. EGBA. 2006. 100 p. ISBN 8575051520.
  12. SANTOS, Maria Stella de Azevedo. Meu Tempo é Agora. São Paulo. Editora Oduduwa. 1993.
  13. SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos. História de Um Terreiro Nagô. 2a.edição. Editora Max Limonad. 1988.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]