Maíra (mitologia)
Maíra | |
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| Outros nomes | Mair • Mayr • Mahira • Mair • Mahyra • Maire • Mbahíra • Baíra |
| Representantes | Mair-umuana Mair-sumé Mair-poxi Mair-atã Mair-aíra |
Na mitologia tupi, Mair ou Maíra[1] é o título que se dá à categoria de heróis civilizadores e antepassados míticos mais importantes dos tupis,[2] uma linhagem de “super-homens” unidos entre si por laços de parentesco. Descendentes diretos de Umuana/Munhã/Monã, o deus criador, eles são frequentemente vistos como antigos profetas, criadores de regras sociais, e ancestrais dos povos originários.[3]
O frade franciscano francês do século XVI André Thevet explica que “Mair” quer dizer “Transformador”,[3] mas para o historiador brasileiro Teodoro Sampaio a palavra significa “Solitário” (de mbae-ira, “coisa apartada”, “ente separado”).[4]
Representantes
[editar | editar código]As fontes coloniais e etnográficas registram vários Maíras, e a reconstrução de uma cronologia é necessariamente hipotética, porque os mitos não foram originalmente organizados como uma sucessão histórica linear.[3]
- O primeiro foi Mair-umuana, Mair-munhã ou Mair-monã (Mairumûana, Mair-umûana ou Maíra-humane, significando “Maíra-antigo” ou “o Maíra de Umuana/Munhã/Monã” em tupi[5]), nascido Irãmajé, criador da humanidade atual após a anterior ter sido destruída num grande incêndio e depois um dilúvio causados pelo criador, Monã, que lhe concede muitos poderes (versões variantes dizem que Mair-umuana é filho ou descendente de Irãmajé e dotado de grandes poderes por Monã[6]). Ele introduziu a agricultura e, em épocas de seca, fazia chover (ele se transformava em uma criança e dizia às pessoas para baterem nele, o que magicamente fazia a chuva cair), e foi pai de Sumé. Na morte Irãmajé/Mair-umuana se transfigura em Tupã.[3]
- O segundo é Mair-sumé, Mair-zumane ou simplesmente Sumé, filho de Mair-umuana (às vezes ambos são considerados um só, pois Mair-zumane seria o mesmo que Mair-humane, enquanto os omáguas ou cambebas, povo tupi do Amazonas e do Peru, falavam de um deus chamado Zumi-Topana, aparentemente igualando Sumé a Tupã, que é o mesmo Irãmajé/Mair-umuana). Ele divulgou o cultivo da mandioca e o uso do fogo por onde passou, deixando as marcas de seus pés por todo Pindorama, mas, ao chegar ao lugar que depois seria a Bahia, o povo quis devorá-lo (talvez para absorver os seus poderes) e, acossado contra o mar, teve, para salvar a vida, de dar um extraordinário salto, indo cair na Ilha de Maré na Baía de Todos os Santos e deixando no local onde tomara o impulso mais traços de seus pés. Ele é o pai dos gêmeos Tamanduaré e Aricuté, envolvidos com o segundo dilúvio e que se tornaram os ancestrais dos tupinambás e temiminós, respectivamente.[3]
- Outro é Mair-poxi ou Maíre-pochy (Mair-poxy, "Maíra-feio", "Maíra-ruim" ou "Maíra-mau"[5]), um homem horrendo e desfigurado, que fez a filha de um líder a quem ele servia engravidar ao comer um peixe por ele pescado, e mais tarde esse filho ainda bebê milagrosamente o reconheceu no meio de uma multidão de guerreiros ao escolher o seu arco entre os presentes. Tendo sido Mair-poxi desdenhado em sua generosidade por sua própria esposa, sogro e cunhados, que foram convidados a comer das soberbas colheitas de sua roça numa época de penúria, foram todos transformados em animais por ele.[3]
- Depois temos Mair-atã, Mairatá ou Mairatã (Mair-atã, "Mair-forte" ou "Maíra-forte"[5]), neto de Mair-poxi (seu pai é possivelmente o filho que reconheceu Mair-poxi na multidão de guerreiros), que ensina técnicas culturais, organiza a vida humana, rouba o fogo dos urubus (façanha atribuída em outras versões a outros heróis), introduz o cultivo da mandioca (em outra versão atribuída a Sumé) e inaugura a ordem social. Este é a quem os tupis costumam chamar apenas de “Mair” ou “Maíra”,[5] o profeta por excelência, por ser ele o mais reverenciado, e é o pai dos gêmeos míticos Sol (Korahi ou Quaraci, nascido Mairaíra) e Lua (Sahi ou Jaci, nascido Mucuraíra). Ele mora isolado no Ikaiwéra ou Ikaiwára,[3] lugar inacessível aos mortais a oeste das antigas sedes dos tembés, além das cabeceiras do Gurupi e do Pindaré (oeste do Maranhão, próximo às divisas com Pará e Tocantins).[7]
- Mair-aíra (ou Mairaíra, Mair-a'yra, “Mair-filho”, “filho de Mair”), filho de Mairatã, ainda na barriga da mãe ele a guiou na busca do pai, que a deixara para trás em suas andanças porque ela não conseguia acompanhá-lo devido à gravidez, parando primeiro na casa de Mucura (“Gambá”), que também a engravidou, gerando Mucur-aíra (ou Mucuraíra, Mykur-a'yra, “Mucura-filho”, “filho de Mucura”, “filho do Gambá”), e depois na casa dos jaguares, que a devoraram. Os bebês, devido aos poderes divinos de Mairaíra, se salvaram e foram criados pela Avó Jaguar (em outra versão eles foram jogados no lixo e recolhidos por uma mulher, que os criou), mas, crescidos, souberam pela fala de um jacu que sua família adotiva (os jaguares) matou sua verdadeira mãe. Matando-os em vingança, os rapazes seguiram em busca do pai Mairatã, que só os reconheceu após uma série de desafios, completando a separação entre natureza e cultura, e Mairaíra e Mucuraíra foram então elevados ao céu, respectivamente, como Quaraci/Korahi, o Sol, e Jaci/Sahi, a Lua.[3] Para os modernos awá-guajás, os filhos gêmeos de Maíra são chamados Maíra e Ajỹ, mesmo nome dos espectros canibais de sua cultura (cognato de anhy, “anhá”, “anhang”, “alma desencarnada”, “fantasma”); a mãe dos gêmeos, para eles, foi a primeira mulher, criada por Maíra (o pai) a partir de um tronco de árvore, e os guajás são descendentes desses gêmeos, que no céu são chamados Kwarahy (Sol) e Jiahy (Lua).[8][9]
Pós-contato
[editar | editar código]Os tupinambás, crendo serem os europeus, mais avançados tecnologicamente, descendentes de Mair-sumé, que dizem ter viajado pelo mundo, chamaram-nos (de início aos franceses no Maranhão, depois também aos portugueses e europeus em geral) de “maíras”, e o termo passou ao vocabulário geral. Os traços europeus (pele branca, cabelos e olhos claros), que eles emprestaram a Sumé, constituem elementos superpostos, posteriormente, ao mito prévio, sugeridos pela convicção da volta do ancestral lendário.[3]
Os assurinis do Tocantins (povo tupi-guarani do Pará) creem que são todos filhos de Mahira, que tem relações sexuais com as mulheres durante o sonho e estas precisam fazer muito sexo com o marido e outros homens para que o sêmen deles faça o feto crescer, e todos esses homens são considerados pais biológicos da criança. Para eles, Mahira foi o único sobrevivente de um dilúvio depois da primeira criação do universo, abrigando-se no alto de uma árvore de bacabeira, uma palmeira nativa da Amazônia (mito originalmente atribuído a Tamanduaré, filho de Sumé, ambos da linha dos Maíras); então chamou a anta para que esta endurecesse a superfície da terra e criou a mulher de uma de suas próprias costelas para repovoar o mundo, vivendo os dois depois no céu, que os assurinis chamam de “Tupana”. Como se vê, o mito de Mahira para esse povo traz uma contaminação cristã que não é incomum em mitologias dos povos originários após o contato.[10]
Para alguns outros povos tupis modernos, como os caapores, awa-guajás, tembés e guajajaras do Maranhão, Maíra criou o mundo e a humanidade, sendo seu principal herói cultural e o responsável pelo ciclo mítico da criação.[11][12][13]
Os parintintins (kagwahiva), povo tupi do Amazonas, chamam Mair/Maíra de Mbahíra ou Baíra, deus criador ou semideus que trouxe o fogo aos homens e deu origem a muitos itens e práticas culturais, assim como deu forma à paisagem.[14][15]
Mairi
[editar | editar código]Os tupinambás, que se consideravam filhos do herói mítico ou grande ancestral Maíra, chamavam o seu território na Amazônia nas proximidades do litoral norte do Brasil durante o período pré-cabraliano (nos atuais estados brasileiros do Amapá, Pará e Maranhão) pelo topônimo "Mairi", termo de origem tupi que inicialmente significaria o "território de Maíra" ou "terra dos filhos de Maíra".[16]
Devido à associação dos franceses com os Maíras, "Mairy" foi o nome dado pelos tupis às cidades e povoações dos franceses assentados no Brasil. A cidade de Olinda em Pernambuco era antigamente conhecida como Mairy, sendo esta a forma contracta de mair-reiya, "reunião ou multidão de mair", ajuntamento de europeus, franceses principalmente. "Mairyara", contração de mairy-uara, seria como se chamava o habitante da cidade, o cidadão.[4]
Referências
- ↑ FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 066.
- ↑ Mairi. [S.l.: s.n.] Cópia arquivada em 4 de dezembro de 2022
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267).
- 1 2 SAMPAIO, Teodoro. O tupi na geographia nacional. 2.ª ed. São Paulo: O Pensamento, 1914. p. 242.
- 1 2 3 4 NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p 254.
- ↑ THEVET, André in PINTO, Estevão: Muxarabis & Balcões. Companhia Editora Nacional, Coleção Brasiliana, Vol. 303, São Paulo, 1958. pp. 159-164.
- ↑ NIMUENDAJÚ, Curt; WELPER, Elena (tradução). Mitos Tembé coletados por Curt Nimuendajú. In: Martius-Staden-Jahrbuch. Editores: Eckhard E. Kupfer et al. São Leopoldo: Oikos, n. 63 (2020), p. 298-338
- ↑ Awa Guajá - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.
- ↑ GARCIA, Uirá Felippe. Karawara: a caça e o mundo dos Awá-Guajá. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
- ↑ Asurini do Tocantins - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.
- ↑ Laila Suellen Santana Chaves; José Guilherme dos Santos Fernandes. «Narrativas etnográficas e míticas acerca de práticas culturais dos indígenas Ka'apor na Amazônia Oriental» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 16 de novembro de 2021
- ↑ «Tembé - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 2 de novembro de 2020. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Karawara: a caça e o mundo dos Awá-Guajá» (PDF). 2010. Consultado em 14 de julho de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 16 de agosto de 2017
- ↑ Parintintim - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.
- ↑ SILVA, Paulo Pimentel da (Paulinho Du Sagrado); BLAIR, Nair. Máscara de Sucuri. In: BOI BUMBÁ GARANTIDO. Magia e Fascínio no Coração da Amazônia. Parintins: Boi Bumbá Garantido, 2017. Spotify.
- ↑ NEVES, Ivânia dos Santos (2022). Mairi a terra de maíra: a ancestralidade indígena eclipsada em Belém. 7. Rio de Janeiro: Policromias revista do discurso, imagem e som. pp. 178–205. Cópia arquivada em 4 de dezembro de 2022