Macuas

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Disambig grey.svg Nota: se procura pela língua banta, da família nigero-congolesa, falada por toda Nampula, partes da Zambézia, Cabo Delgado e Niassa, veja Língua macua.

Macuas
Mozambique - mask.jpg
Mulher macua exibindo a maquilhagem tradicional, a m'sira.
População total

1 600 000

Regiões com população significativa
 Moçambique 800 000
Tanzânia 360 000
Línguas
macua, português
Religiões
Cristianismo, islamismo, animismo,

Os macuas são um povo originário de Moçambique e da região de Mtwara, na Tanzânia,[1][2] cuja religião é um misto de monoteísmo e animismo, e cujas aldeias eram dirigidas por sobas locais, com a assessoria de um conselho. A sociedade é fortemente matriarcal.

Em Moçambique, o povo macua lidera a maior parte da zona norte do país, e o norte da província da Zambézia. Emakuwa é a língua oficial do povo Macua. É o maior grupo étnico de Moçambique.

História[editar | editar código-fonte]

A tradição oral macua diz que seus ancestrais foram o primeiro homem e a primeira mulher que surgiram no monte Namuli (a segunda montanha mais alta de Moçambique, e a montanha mais alta da província de Zambézia). As demais criaturas vivas teriam surgido nas montanhas próximas.[3][4][5] Já os acadêmicos têm dúvidas sobre o local de origem dos macuas: alguns apontam as montanhas, outros o oeste do lago Malauí, outros o norte (Tanzânia), outros o sul.[6] Entretanto, eles concordam num ponto: por volta do primeiro milênio da era cristã, os macuas já haviam se constituído como grupo étnico no norte de Moçambique.[7] Os macuas são estreitamente relacionados com o povo animista maravi. E também têm um longo passado de conflitos com os ajauas, um povo muçulmano que praticava incursões em busca de escravos para comerciar.[8][9]

Metais, manufatura e comércio[editar | editar código-fonte]

O povo macua tem uma história documentada de processamento de minérios e fabricação de ferramentas. O naturalista português da era colonial Manuel Galvão da Silva, por exemplo, descreveu minas de ferro do povo macua.[10] De modo similar, o explorador francês Eugene de Froberville descreveu os métodos macuas de produção de ferro a partir do minério em um forno a lenha.[11][12] O metal extraído era, então, transformado em machados, facas, lanças, anéis e outros artefatos.[13]

Tradicionalmente, o povo macua tem se dedicado à agricultura e à caça,[14][15] embora documentos da era medieval sugiram que os macuas também eram bem-sucedidos comerciantes e controlavam as rotas de comércio entre o lago Niassa e a costa atlântica, fazendo negócios rápidos com comerciantes suaíles (África oriental) e gujaratis (Índia) antes do início da era colonial.[16] Entretanto, antes do século XVIII, o povo macua trocava, primariamente, comida, presas de marfim e produtos de metal, por tecido, sal e outros produtos, mas não estava envolvido no comércio de marfim ou ouro.[17]

Colonialismo e escravidão[editar | editar código-fonte]

Os portugueses que chegaram em Moçambique no começo do século XVI observaram a habilidade e as relações comerciais dos macuas.[18] De modo geral, o povo macua foi pacífico em relação aos portugueses do século XVII até meados do século XVIII. Entretanto, com o aumento das plantações, do comércio de marfim e das incursões escravistas que capturavam macuas no século XVIII, o povo macua reagiu com uma guerra de 1749 em diante contra os portugueses e os grupos étnicos que apoiavam os interesses coloniais,[19][20] e contra os sultões da costa africana do oceano Índico.[21]

No começo do século XVIII, diz Edward Alpers, a demanda primária por escravos macuas, e moçambicanos em geral, não vinha de Portugal ou de suas colônias no Oceano Índico como Goa, porque havia muita mão de obra disponível no sul da Ásia e o império colonial português na Ásia era pequeno.[22] A maior demanda vinha de árabes 'Umani que procuravam por escravos para trabalho doméstico, e de franceses que precisavam de trabalhadores agrícolas para suas colônias nas ilhas vizinhas Comores, Reunião, Madagascar, Seicheles, Ilha de França (atual Maurícia) e outras. Com o crescimento dos interesses portugueses no Brasil e dos interesses de donos de plantações de outros impérios coloniais no Caribe, América do Norte e América do Sul, a demanda por escravos aumentou dramaticamente. O povo macua foi uma das maiores vítimas dessa demanda.[23][24]

O povo macua também se tornou vítima de incursões escravistas vindas do norte. O povo Yao os atacou para atender às demandas escravistas dos árabes centrados em torno de Zanzibar.[25][26] Depois de serem vítimas de incursões escravistas, os chefes macuas se juntaram ao lucrativo comércio no século XIX e passaram a atacar e vender povos vizinhos aos mesmos mercadores e exportadores.[27]

De acordo com Palmer e Newitt, uma das estratégias usadas pelos escravistas árabes e africanos era desumanizar as comunidades macuas e lomwe, divulgando seus estereótipos de "tribos bárbaras e selvagens", que faziam com que os compradores de escravos entre 1800 e 1888 se sentissem justificados para "explorá-los e civilizá-los".[28] Na realidade, os acadêmicos atuais, as evidências históricas e o sucesso econômico dos macuas sugerem que eles eram pacíficos e laboriosos.[29]

Religião[editar | editar código-fonte]

O povo macua segue, principalmente, sua religião tradicional (entre 66 e setenta por cento da população), que reverencia ancestrais e espíritos da natureza. A exceção é a população costeira, cujos comerciantes macuas, sob a influência de seus clientes suaíles-árabes, se converteram à escola xafeíta do islamismo sunita.[30]

O povo macua chama os muçulmanos do litoral de maka, o que pode derivar de "Meca" segundo Kroger, mas também pode derivar da palavra macua para "sal" e "costa" segundo Alpers.[31]

A diáspora macua[editar | editar código-fonte]

O povo macua se distribuiu amplamente pelo mundo durante a era colonial.

Referências

  1. Anthony Appiah; Henry Louis Gates (2010). Encyclopedia of Africa: Kimbangu, Simon - Zulu, Volume 2. [S.l.]: Oxford University Press. p. 116. ISBN 978-0-19-533770-9 
  2. Godfrey Mwakikagile (2013). Africa at the End of the Twentieth Century: What Lies Ahead. [S.l.]: New Africa Press. pp. 136–137. ISBN 978-9987-16-030-3 
  3. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 62–65. ISBN 0-253-34006-3 
  4. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. p. 223. ISBN 978-90-04-29368-7 
  5. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 8–9. ISBN 978-0-520-02689-6 
  6. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 62–65. ISBN 0-253-34006-3 
  7. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 62–65. ISBN 0-253-34006-3 
  8. Louis Brenner (1993). Muslim Identity and Social Change in Sub-Saharan Africa. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 80–82. ISBN 0-253-31271-X 
  9. Anthony Appiah; Henry Louis Gates (2010). Encyclopedia of Africa. [S.l.]: Oxford University Press. pp. p. 600. ISBN 978-0-19-533770-9 
  10. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 10–11. ISBN 978-0-520-02689-6 
  11. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 10–11. ISBN 978-0-520-02689-6 
  12. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. pp. 160–161. ISBN 978-90-04-29368-7 
  13. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 10–11. ISBN 978-0-520-02689-6 
  14. Andrew Dalby (1998). Dictionary of Languages: The Definitive Reference to More Than 400 Languages. [S.l.]: Columbia University Press. pp. pp. 386–387. ISBN 978-0-231-11568-1 
  15. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 11–12. ISBN 978-0-520-02689-6 
  16. Andrew Dalby (1998). Dictionary of Languages: The Definitive Reference to More Than 400 Languages. [S.l.]: Columbia University Press. pp. pp. 386–387. ISBN 978-0-231-11568-1 
  17. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 177–178. ISBN 0-253-34006-3 
  18. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 62–65. ISBN 0-253-34006-3 
  19. Bethwell A. Ogot (1999). Africa from the Sixteenth to the Eighteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 310–311. ISBN 978-0-520-06700-4 
  20. M. D. D. Newitt (1995). A History of Mozambique. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 75–76, 177–184. ISBN 0-253-34006-3 
  21. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 67. ISBN 978-0-520-02689-6 
  22. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 94–97, 126–129. ISBN 978-0-520-02689-6 
  23. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 94–97, 126–129. ISBN 978-0-520-02689-6 
  24. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. pp. 5–6, 61–66, 72–75, 123–124. ISBN 978-90-04-29368-7 
  25. Louis Brenner (1993). Muslim Identity and Social Change in Sub-Saharan Africa. [S.l.]: Indiana University Press. pp. pp. 81–82. ISBN 0-253-31271-X 
  26. Bethwell A. Ogot (1999). Africa from the Sixteenth to the Eighteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 771–775. ISBN 978-0-520-06700-4 
  27. J. F. Ade Ajayi (1989). UNESCO General History of Africa, Vol. VI: Africa in the Nineteenth Century Until the 1880s. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 185–189. ISBN 978-0-520-03917-9 
  28. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. pp. 27–29. ISBN 978-90-04-29368-7 
  29. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. pp. 27–29. ISBN 978-90-04-29368-7 
  30. Hilary C. Palmer; Malyn D.D. Newitt (2016). Northern Mozambique in the Nineteenth Century: The Travels and Explorations of H.E. O’Neill. [S.l.]: BRILL Academic. pp. pp. 63–67. ISBN 978-90-04-29368-7 
  31. Edward A. Alpers (1975). Ivory and Slaves: Changing Pattern of International Trade in East Central Africa to the Later Nineteenth Century. [S.l.]: University of California Press. pp. pp. 10–11. ISBN 978-0-520-02689-6