Madame Satã

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Madame Satã
Nome completo João Francisco dos Santos
Nascimento 25 de fevereiro de 1900
Glória do Goitá,  Pernambuco
Morte 12 de abril de 1975 (75 anos)
Rio de Janeiro,  Rio de Janeiro
Nacionalidade Brasil brasileiro
Ocupação artista

João Francisco dos Santos (Glória do Goitá, 25 de fevereiro de 1900[1]Rio de Janeiro, 12 de abril de 1976[2]), mais conhecido como Madame Satã, foi um transformista brasileiro, uma figura emblemática e um dos personagens mais representativos da vida noturna e marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX.

Nascido em Glória do Goitá, um município brasileiro localizado no interior do estado de Pernambuco, na Zona da Mata, João Francisco se mudou para a Lapa – que na época passava por um processo de transformação e civilização – aos 13 anos, onde viveu como moleque de rua até conseguir um emprego como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio.[3]

Foi em sua juventude na Lapa que João aprendeu a ser segurança, garçom, cozinheiro e até mesmo malandro. Porém, desde que conseguiu entrar para o teatro, João se afastou da vida boêmia do bairro que tanto conhecia. Em uma noite de 1928, quando voltava do trabalho, João resolveu jantar em um boteco – local onde encontrou Alberto, um vigilante noturno. O transformista, após ser provocado pelo vigia, pegou uma pistola e atirou no guarda. João foi condenado e passou dois anos e três meses na prisão de Ilha Grande. Depois de ser preso, João se afastou da carreira de artista e passou a viver uma carreira marginal.[4]

Cerca de dois anos depois, João Francisco foi absolvido de sua pena ao alegar legítima defesa. Apesar da absolvição, a vida do transformista foi marcada por outros 29 processos[5] – 3 homicídios, 13 agressões, 2 furtos, 3 desacatos, 4 resistências a prisão, 1 ultraje ao pudor e 1 porte de arma, entre outros. Nos processos os quais foi indiciado, João foi condenado em dez, passando um total de 27 anos e 8 meses de sua vida, intercalados, na prisão.[6] Com sua larga ficha criminal, João Francisco era um alvo fácil para os policiais.

O famoso apelido, Madame Satã, foi atribuído a João Francisco apenas no carnaval de 1938. Neste ano, o transformista desfilou pela primeira vez, trajando uma fantasia dourada – inspirada em um morcego típico de sua cidade natal. João garantiu o primeiro lugar do concurso e, após a festa terminar, ele e seus amigos foram levados para a delegacia. Porém, antes de serem soltos, o delegado exigiu saber o nome de cada suspeito. João se recusou a falar e foi apelidado pelo delegado de Madame Satã, que o reconheceu como vencedor do concurso.[7]

Assumidamente homossexual, João Francisco se casou com uma mulher aos 34 anos e, com Maria Faissal, criou e educou os seus seis filhos de criação.[8] Em fevereiro de 1976, João foi encontrado internado em um hospital em Angra dos Reis, um município situado no sul do Rio de Janeiro. Dois meses depois, o transformista faleceu, aos 76 anos, devido a um câncer pulmonar.[2]

Início de vida[editar | editar código-fonte]

Nascido em 1900, no interior de Pernambuco, João Francisco dos Santos é filho de Manoel e Firmina Teresa da Conceição, ambos descendentes de escravos.[9] O ano do nascimento de João Francisco é um mistério. De acordo com o registro civil, o nascimento do menino foi datado no ano de 1903, porém, naquela época, o registro não era garantia de exatidão. Devido a esse problema, Madame Satã adotou a data 25 de Fevereiro de 1900 como a data efetiva de seu nascimento.[10]

Apesar das condições de vida serem adversas, a família – formada por mãe, pai e dezoito filhos – viveu bem durante alguns anos. Em 1907, o pai de João Francisco morreu, deixando a família em uma situação precária. Frente a esse cenário, Firmina Teresa, mãe do menino, decidiu trocar João por uma égua.[9]

A troca foi feita e Laureano, o negociante de cavalos que havia conversado com Firmina Teresa, prometeu à mãe que daria casa e estudo para o menino. Apesar da promessa feita à senhora, Laureano colou o menino para trabalhar como escravo em sua fazenda. Um ano depois, em uma viagem até Itabaiana, na Paraíba, João conheceu Dona Felicidade, que convidou o menino a fugir da fazenda de Laureano. Em 1908, o menino e a senhora chegaram ao Rio de Janeiro, onde Dona Felicidade montou uma pensão, chamada Hotel Itabaiano. Após a abertura da pensão, o garoto começou a trabalhar para Dona Felicidade, quase como escravo. Cansado da vida que levava, João decidiu fugir do local e foi viver na Lapa, em 1913.[3]

Inicialmente, João morou na rua e cometeu pequenos furtos, o que acarretou algumas prisões e surras da polícia. Anos depois, o menino começou a trabalhar como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio à serviço de “Seu Bernardo”. Em 1916, quando o garoto tinha dezesseis anos, ocorreu a primeira gravação de um samba, chamado Pelo Telefone, e em 1918, João começou a trabalhar como garçom na Pensão da Lapa, uma casa de tolerância da época onde aprendeu também a cozinhar.[11]

Em 1922, o sonho de ser artista começou a nascer dentro de Madame Satã – tudo por causa da companhia francesa Ba-ta-clan que passava uma temporada na cidade apresentando seu teatro de revista. Anos depois, o jovem começou a trabalhar como cozinheiro na Pensão do Cacete, local onde conheceu a atriz Sara Nobre, artista que o apresentou ao mundo do teatro.[12]

Durante sua juventude, além de realizar trabalhos temporários, Madame Satã também conviveu com muitos malandros. Em 1923, o transformista já era conhecido como um malandro respeitado pelo seu soco de esquerda, cujo apelido era Caranguejo da Praia das Virtudes. Madame Satã havia sido treinado por Sete-Coroas, um malandro e cafetão muito conhecido na Lapa, que foi o responsável por introduzi-lo ao mundo da malandragem e ensinar-lhe truques com a navalha.[13] O malandro, que havia treinado Satã, morreu e deixou Caranguejo como seu substituto na Lapa.[14]

No mesmo ano, Madame Satã começou a trabalhar como travesti-artista no espetáculo Loucos em Copacabana, assumindo a identidade de Mulata do Balacochê.[15] Na época, o transformista se sentia muito realizado com a profissão, e desde que havia conseguido entrar para o teatro, Satã havia se afastado da vida boêmia da Lapa. Porém, em 1928, se meteu em uma briga, que acabou resultando na morte do vigilante noturno Alberto. Após o crime, Madame Satã foi condenado a 16 anos – essa prisão, especificamente, marca o fim da carreira artística do transformista.[4]

Prisões e vida marginal[editar | editar código-fonte]

Entre 1928 e 1965, Madame Satã passou 27 anos e 8 meses intercalados presos. O primeiro crime, que também marcou o fim da vida artística de Madame Satã e o início da vida marginal do transformista, ocorreu em 1928. Na época, Satã trabalhava no espetáculo Loucos em Copacabana, interpretando a Mulata do Balacochê, e ao voltar do trabalho, decidiu jantar no boteco localizado no térreo do sobrado onde morava. No local, encontrou Alberto, um vigilante noturno, que provocou o artista por diversas vezes o chamando de “viado”.[16]

A versão, contada pelo próprio Madame Satã, afirma que mesmo após o vigia abrir o supercílio do transformista com um cassetete, o mesmo decidiu ir para a casa descansar. Porém, ao pensar na humilhação e na sua fama de malandro, o transformista voltou ao bar para resolver o conflito.[10] Após ser provocado novamente pelo vigia, Madame Satã pegou sua pistola e atirou no guarda, que caiu e bateu a cabeça na calçada. Como pena, o transformista passou 16 anos na prisão.[4]

Cerca de dois anos e três meses depois, Satã foi absolvido de sua pena ao alegar legítima defesa. De acordo com testemunhas, quem havia dado o primeiro golpe durante a briga havia sido Alberto. Além do assassinato do guarda, Madame Satã foi citado em outros 29 processos[5] – 3 homicídios, 13 agressões, 2 furtos, 3 desacatos, 4 resistências a prisão, 1 ultraje ao pudor e 1 porte de arma, entre outros. Nos processos os quais foi indiciado, João foi condenado em dez.[6] Além disso, atribuí-se a Madame Satã cerca de 100 assassinatos e mais de 3 mil brigas.[17]

Década de 1930[editar | editar código-fonte]

Após sair da prisão, Madame Satã começou a trabalhar como uma espécie de vigia em bares e botequins. Em troca, o malandro recebia dinheiro, refeições e cafés. Além de proteger estabelecimentos, Satã impedia que outros malandros e moleques de rua fossem perseguidos, e zelava para que meretrizes não fossem vítimas de agressão ou estupro. Mesmo trabalhando como vigia, sua rixa com a polícia não havia acabado. Depois do assassinato do guarda Alberto, muitas autoridades prometeram se vingar de Madame Satã. O primeiro conflito depois de sua absolvição, em 1930, foi causado por uma emboscada preparada pelo irmão do próprio Alberto. Porém, ao contrário do planejado pelo policial, Satã estava armado – o que resultou em um grande tiroteio, com Satã ferido no ombro e o outro na perna. No final, a briga não chamou atenção das autoridades e o transformista seguiu com sua vida malandra. Pouco tempo depois, o outro irmão de Alberto decidiu se provocar Madame Satã e o proibir de entrar no Cabaré Pigalle, na Lapa. O transformista surrou o policial, foi preso em flagrante e condenado a dois anos de prisão por agredir um agente público.[18]

Década de 1940[editar | editar código-fonte]

No começo de 1940, pouco tempo depois de Madame Satã sair da prisão de Ilha Grande, o malandro foi preso novamente. Madame Satã estava no Bar Canaã quando um sargento do Exército começou a disparar tiros contra ele, fugindo em seguida. Satã foi atrás do sargento e feriu o agente com um corte nas nádegas. Pelo crime, o malandro passou quatro anos no presídio de Ilha Grande.[19]

Quando saiu da prisão, Madame Satã decidiu mudar de vida. O malandro adotou a primeira de seus cinco filhos adotivos, Ivonete, e abriu seu primeiro negócio próprio: uma lavanderia. Apesar das mudanças, Madame Satã continuou a receber ameaças. Pouco tempo depois, um senhor homossexual foi morto em uma rua perto do antigo Teatro República, no Rio de Janeiro, e a culpa recaiu sobre o malandro. Satã era inocente, mas acabou sendo torturado por três dias para que confessa o crime e o paradeiro de seu cúmplice e passou mais dois dias presos na delegacia da Esplanada do Castelo.[20]

Após o fechamento da lavanderia, Madame Satã abriu um novo negócio – uma pensão. Com o local, Satã iria conseguir oferecer abrigo para as meretrizes e ainda conseguiria lucrar com isso. Porém, com o sucesso do pequeno hotel, a atenção da polícia se voltou novamente para Satã. As autoridades acreditavam que a pensão, na verdade, era um prostíbulo. Pouco tempo depois de abrir o negócio, o malandro foi chamado para depôr, uma vez que estava sendo acusado de lenocínio,[21] uma prática criminosa que consiste em explorar, estimular ou facilitar a prostituição. No interrogatório, o delegado deu um tapa em Satã, que revidou e apanhou ainda mais dos policiais presentes na delegacia. Apesar de absolvido da acusação de lenocínio, o malandro foi condenado a cumprir um ano e 6 meses por agressão.[22]

Ao sair da prisão, Satã arrumou mais uma confusão com a polícia. Após ser perseguido pelo delegado Frota Aguiar, o malandro bateu no policial e foi preso novamente. Mesmo com a boa relação que mantinha com os outros presos e com a administração do presídio – Satã trabalhava como cozinheiro da prisão de Ilha Grande desde a sua primeira passagem –, o malandro decidiu realizar sua primeira fuga. Ele e outros dois presos, Pepe e Americano, se atiraram no mar e nadaram até a praia do Leblon. Devido a exaustão da viagem, Madame Satã acabou sendo capturado. Após voltar para a cadeira, Satã se viu livre de Ilha Grande em 1946, mesmo sem cumprir sua sentença inteira.[23]

No mesmo ano, Madame Satã brigou com 12 soldados da Aeronáutica por dinheiro. A história, que foi registrada na Delegacia de Costumes, afirma que ele chegou no prostíbulo para defender sua amiga Nilsa de uma homenzarada. De acordo com a meretriz, os soldados realizaram o programa e, no final, não quiseram pagar pelos serviços prestados – o que a obrigou a chamar Satã para ajudá-la a convencer os homens a pagarem. Os soldados não gostaram da presença dele e a pancadaria começou, com Satã saindo em desvantagem. Ciente de que apanharia, Madame Satã levou a briga até a Taberna da Glória, onde utilizou cadeiras, mesas, garrafas e até uma navalha contra os homens. A briga terminou com a chegada da patrulha, que o prendeu. Ao chegar na delegacia, e explicar o ocorrido, ele foi liberado. Porém, a confusão chamou a atenção do novo titular da Delegacia dos Costumes, que mandou chamar Madame Satã – na conversa, conta-se que o delegado foi rude com o transformista, que reagiu desferindo socos contra o policial. O resultado foi mais uma prisão, mas dessa vez, a pena era de dezenove meses em Ilha Grande.[24]

Depois de cumprir a pena, Satã muda-se para São Paulo. Porém, ao contrário do planejado, ele acaba sendo preso mais uma vez por ter atirado em um policial. Madame Satã passou treze meses na prisão e foi obrigado a assinar um termo de compromisso, afirmando que não voltaria ao estado nos próximos dez anos.[25]

Década de 1950[editar | editar código-fonte]

No auge de seus 50 anos, ele retornou para o Rio de Janeiro e começou a viver uma rotina mais tranquila. Nessa época, havia um novo teatro na cidade e Madame Satã decidiu fazer o teste para participar do primeiro espetáculo – ele conseguiu e passou a imitar Carmen Miranda na peça. Ao término da temporada, o empresário decidiu viajar com a peça para São Paulo. Como havia sido expulso da cidade, Satã não quis acompanhá-los a princípio, mas mudou de ideia e decidiu arriscar. Ao chegar na capital, a peça – que até então estava sendo apresentada apenas no interior do estado –, chamou a atenção da polícia, que mandou buscar o transformista e despachá-lo para o Rio de Janeiro.[26]

Em janeiro de 1950, Madame Satã é preso acusado de receptação e condenado a 4 anos e 6 meses de prisão. Enquanto cumpria a pena estipulada, ele foi acusado de outros dois crimes: furto e rixa, que resultaram em mais 2 anos e 8 meses e um mês e 15 dias, respectivamente. Inicialmente, Satã foi enviado para o Presídio do Distrito Federal, onde foi transferido para a Penitenciária Central do Distrito Federal e, pouco tempo depois, para Ilha Grande. Em 1955, Satã foi preso novamente acusado de suadouro, um golpe aplicado por garotos ou garotas de programa para roubar seus clientes,[27] lenocínio e furto. No total, o transformista foi condenado a passar um pouco mais de 7 anos preso. Porém, devido a uma falha no sistema carcerário, Satã acabou permanecendo em Ilha Grande por mais dois anos após o cumprimento da pena.[28]

O ano de 1955 também foi marcado na vida de Satã por outro grande acontecimento: a briga e morte de Geraldo Pereira, um sambista brasileiro muito conhecido entre a década de 1940 e 1950. Essa história, em especial, tem duas histórias – a de Satã e a de Raul Moreno, um amigo de Pereira. De acordo com Satã, Geraldo havia chegado no bar em que ele estava bebendo acompanhado de uma mulher e começou a provocá-lo. Cansado dos xingamentos e das provocações, Madame Satã conta que deu apenas um soco no sambista, que caiu de cabeça no chão e desmaiou. Por outro lado, Raul Moreno conta outra versão, afirmando, inclusive, que estava acompanhando Geraldo e a mulher naquela noite. Segundo ele, Pereira jogou o copo de bebida de Satã no lixo três vezes e o malandro desferiu socos no sambista até ele se acalmar. Outras pessoas, no entanto, também afirmam que o artista sofria com outros problemas de saúde, o que leva a crer que a briga com Satã não foi a causa oficial da morte. Na época, laudos médicos inocentaram o malandro, alegando que a causa do óbito havia sido um derrame cerebral e/ou hemorragia intestinal. Apesar das alegações, a lenda de que Madame Satã havia matado um homem com apenas um soco se espalhou rapidamente, aumentando ainda mais a fama do malandro.[29]

Devido a todas essas prisões, o malandro fora muito respeitado nos presídios, principalmente em Ilha Grande. A administração e direção das cadeias, além dos funcionários dos locais, qualificaram Madame Satã como um preso tranquilo, que não arranjava nenhuma briga e que era até mesmo uma espécie de líder na prisão. Já os companheiros de cárcere, por conhecer sua valentia e fama, optavam por respeitar a figura.[30]

O surgimento de Madame Satã[editar | editar código-fonte]

No ano de 1938, João Francisco foi convencido a participar de um concurso de fantasia no baile de carnaval promovido pelo bloco Caçadores de Veados no Teatro República. Na época, o concurso era muito famoso – atraía turistas do Brasil e do mundo, oferecia oportunidades de trabalho para os transformistas e cedia bons prêmios a quem concorresse. Inspirada em um morcego do Nordeste do país, mais especificamente da região de Glória de Goitá, João Francisco ganhou o primeiro prêmio do concurso: um rádio e um enfeite.[31]

Dias depois, o transformista e seus amigos foram presos no Passeio Público, um parque famoso no Rio de Janeiro por ser um ponto de encontro de homossexuais. Na hora de registrar a ocorrência, o delegado pediu que João falasse seu apelido – mas ele afirmou que não tinha nenhum e se recusou a contar seu nome verdadeiro. Porém, o oficial reconheceu o malandro como o vencedor do concurso do Teatro da República. Associando a fantasia com o filme “Madam Satan”, de Cecil B. de Mille, que havia sido recentemente lançado no Brasil, o delegado decidiu apelidar João Francisco dos Santos de Madame Satã.[31]

Depois de serem soltos, os amigos de João espelharam a história pela cidade – inicialmente, João não gostava do apelido, mas se conformou aos poucos. Em pouco tempo, Madame Satã já era uma lenda no Rio de Janeiro. O apelido se espalhou tão rápido que inúmeros transformistas tentaram se batizar de Madame Satã, mas o próprio João zelava muito pela sua reputação e protegia o apelido.[32]

Vida artística[editar | editar código-fonte]

Em 1922, ao assistir um espetáculo do teatro de revista da companhia francesa Ba-ta-clan, João Francisco começou a alimentar o sonho de ser artista. Anos antes, em 1916, ele já havia participado de uma gravação do samba "Pelo Telefone", mas a primeira aparição do transformista no teatro só foi datada em 1928. Na época, Madame Satã trabalhava no teatro Casa de Caboclo, na praça Tiradentes, interpretando a Mulata do Balacochê no espetáculo Loucos em Copacabana. Apesar do sucesso que a personagem fazia, a primeira parte de sua vida artística não durou muito, uma vez que neste mesmo ano ele acabou sendo preso acusado de assassinar um vigia noturno.[33]

Madame Satã na Boite Cafona´s
Madame Satã na Boite Cafona´s.

A vida de Madame Satã foi marcada por idas e vindas para a prisão, fato que o obrigou a abandonar a vida artística. Porém, na década de 1950, o transformista se aventura novamente no teatro. Após ser expulso de São Paulo por ter atirado em um policial, Satã soube que um empresário, chamado Najar, estava abrindo um novo teatro na cidade e selecionando artistas para sua primeira temporada. Como a vida de artista de Satã tinha sido curta, o malandro decidiu fazer o teste para um importante papel na peça. Passada a seleção, ele acabou conseguindo o papel e passou a imitar Carmen Miranda no espetáculo. A temporada acabou e o empresário decidiu viajar com a peça para São Paulo. Inicialmente, devido ao termo de compromisso assinado com o estado, Madame Satã não queria ir, mas decidiu arriscar. No começo, a peça estava em cartaz apenas no interior do estado, mas tempos depois passou a ser apresentada na capital. O sucesso do espetáculo chamou a atenção da polícia, que mandou buscar um de seus artistas principais, Madame Satã, e o despachou de volta para o Rio de Janeiro.[26] Essa prisão, especificamente, marcou o fim da carreira do transformista no teatro.

Anos mais tarde, após deixar a prisão pela última vez, a imitação de Madame Satã da cantora Carmem Miranda virou show na boate Cafona’s. Em 1974, o transformista retornou aos palcos. Ele começou a fazer parte de um grupo de teatro, chamado Chegança, e participou da peça Lampião no Inferno, que estava em cartaz no Teatro Miguel Lemos. No espetáculo, Madame Satã interpretava o próprio Satanás.[34]

Vida amorosa e família[editar | editar código-fonte]

Assumidamente homossexual, Madame Satã iniciou sua vida sexual quando tinha 13 anos – na época, meretrizes conhecidas do transformista organizavam bacanais e, desde jovem, Satã marcava presença. Nesses bacanais, o jovem teve experiências heterossexuais e homossexuais, mas afirma ter gostava “mais de ser bicha e por isso sou bicha”, disse ele em seu livro de memórias. Apesar de ter vivido em épocas conturbadas da história brasileira, Satã não fazia nenhuma questão de esconder sua orientação sexual.[35]

A relação mais expressiva de Satã, antes de seu casamento, foi com Brancura, um malandro conhecido na Lapa, considerado o grande amor da vida do transformista. Juntos, os dois viveram feliz durante quase dois anos. Porém, o malandro se apaixonou por uma mulher, fugiu do Rio de Janeiro para se casar com ela e abandonou Satã. Movido pela ciúme, o transformista foi para Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, para matar o casal, mas não encontrou os dois. Dois anos depois do desaparecimento de Brancura, ele reaparece e retoma a amizade com Satã.[36]

Em 1946, já com 34 anos, Madame Satã casou-se com Maria Faissal e, com ela, criou e educou os seus seis filhos de criação.[37] A primeira dos filhos a ser adotada foi Ivonete, uma criança de rua que Satã pegou para criar logo após sair da prisão de Ilha Grande.[38]

Fim da vida[editar | editar código-fonte]

Após sair de sua última prisão, em 1965, Satã decidiu abandonar a Lapa e permanecer em Ilha Grande. Nessa época, ele trabalhava como cozinheiro em casas de família e até mesmo fazia faxinas nas casas de ex-policiais e funcionários.[39] Sete anos depois, em 1971, Satã concedeu uma polêmica entrevista ao jornal O Pasquim.[5] Após o sucesso da entrevista, que trouxe detalhes da história de vida do malandro, Satã publicou seu primeiro livro de memórias pela Editora Lidador, o Memórias de Madame Satã. Escrito por Sylvan Paezzo, o livro foi publicado em 1972.[40] Nessa época, Madame Satã voltou a fazer parte de peças de teatro e shows, mas um pouco tempo depois retornou para Ilha Grande. Em 1974 foi lançado o filme Rainha Diaba, que conta a vida de um transformista marginal, interpretado por Milton Gonçalves, livremente inspirado em Madame Satã.[41]

Porém, em fevereiro de 1976, Madame Satã foi encontrado internado em um hospital em Angra dos Reis, um município situado no sul do Rio de Janeiro. Internado como indigente, Jaguar - um cartunista e jornalista do O Pasquim - resgatou o amigo em Ilha Grande e o transferiu para um hospital na Zona Sul do Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema.[37] Mesmo com o tratamento adequado, Satã morreu após ter complicações de um câncer no pulmão. Apesar da versão oficial afirmar que o transformista morreu devido a um câncer pulmonar, Jaguar concedeu diversas entrevistas afirmando que ele havia morrido de Aids. “Quando cheguei ele estava com 47 quilos, metade de seu peso normal. Naquele tempo, em 76, não se falava ainda disso, mas tenho certeza de que ele morreu foi de Aids", disse Jaguar em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo.[42]

No dia 14 de abril de 1976, Madame Satã foi enterrado na Ilha Grande. Apesar da fama, a notícia de sua morte não foi muito noticiada no Rio de Janeiro – já em São Paulo, a morte de Satã saiu na primeira página da Folha Ilustrada da Folha de S. Paulo. Outro lugar de destaque que a morte de Madame Satã ganhou foi no jornal O Pasquim, que publicou uma outra entrevista com o malandro, além de fotos e depoimentos de pessoas próximas ao transformista. Em sua missa de sétimo dia, em Ilha Grande, figuras conhecidas como Jaguar, Joel Barcelos e Elmar Machado se juntaram à familiares e conhecidos de Satã para lamentar a morte do transformista. Atualmente, a história de Madame Satã não é tão conhecida pela população em geral, mas seu alcançou uma fama significativa ao redor do Brasil.[43]

Referências

  1. N Green, James (2003). «O Pasquim e Madame Satã, a rainha negra da boemia brasileira». Revista Topoi 
  2. a b DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 73 
  3. a b DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 18 e 19 
  4. a b c DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 18 
  5. a b c ALTMAN, Fábio (2004). A arte da entrevista. São Paulo: Boitempo Editorial. p. 361 
  6. a b DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 36 
  7. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 27 e 28 
  8. «Madame Satã». Revista E. 27 de janeiro de 2015. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  9. a b Erro de citação: Código <ref> inválido; não foi fornecido texto para as refs de nome :4
  10. a b DA SILVA, Geisa Rodrigues Leite (2013). As múltiplas faces de Madame Satã. Rio de Janeiro: Eduff. p. 18 
  11. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 19 e 20 
  12. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 20 
  13. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 21 
  14. DA SILVA, Geisa Rodrigues Leite (2013). As múltiplas faces de Madame Satã. Rio de Janeiro: Eduff. p. 21 
  15. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 16 
  16. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 17 e 18 
  17. EDUARDO, Cléber. «Marginal com muito orgulho». Revista Época. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  18. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 21 e 22 
  19. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 21, 37 e 38 
  20. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 39 e 40 
  21. «Significado de lenocínio». Dicio. Consultado em 22 de novembro de 2018 
  22. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 40 
  23. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 41 
  24. DRUST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 42 
  25. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 44 
  26. a b DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 45 
  27. «Significado de suador». Dicio. Consultado em 22 de novembro de 2018 
  28. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 46 e 49 
  29. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 32 e 33 
  30. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 46 
  31. a b GREEN, James N. (2003). «O Pasquim e Madame Satã, a "rainha" negra da boemia brasileira» (PDF). Revista Topoi. p. 201 e 202. Consultado em 22 de novembro de 2018 
  32. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 28 
  33. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 16, 17 e 20 
  34. SILVA, Pedro Pepa. «Muito prazer, Madame Satã». Revista Geni. Consultado em 22 de novembro de 2018 
  35. PAEZZO, Sylvan (1972). Memórias de Madame Satã. Rio de Janeiro: Lidador. p. 116 
  36. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 29 
  37. a b «Madame Satã». Revista E. 27 de janeiro de 2017. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  38. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 39 
  39. DA SILVA, Geisa Rodrigues Leite (2013). As múltiplas faces de Madame Satã. Rio de Janeiro: Eduff 
  40. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 72 e 73 
  41. «A RAINHA DIABA». Adoro Cinema. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  42. «Satã foi o primeiro travesti malandro». Agência Estado. 3 de fevereiro de 2001. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  43. DURST, Rogério (1985). Madame Satã: com o diabo no corpo. São Paulo: Brasiliense. p. 62 e 64 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • PAEZZO, Sylvan. Memórias de Madame Satã. Rio de Janeiro: Lidador, 1972.
  • DURST, Rogério. Madame Satã: com o diabo no corpo. Reprint. São Paulo: Brasiliense, 2005, 80pp., ill., b&w photos, 12mo, bds. (Encanto Radical, n. 68). ISBN 85-11-03068-9 1st ed., 1985.
  • MADAME Satã. Diretor de cinema: Karim Aïnouz. Produtor de cinema: Isabel Diegues; Maurício Andrade Ramos e Walter Salles. São Paulo: Imagem Filmes, 2002. 1 DVD (100 min.), son., color.
  • RAINHA Diaba. Direção por Antonio Carlos da Fontoura. Rio de Janeiro: Ipanema Filmes, 1974. 1 DVD (1h 50min), son., color.
  • AS GRANDES ENTREVISTAS DO PASQUIM. Direção: André Weller. Canal Brasil, temporada 1. Episódio 13 (exibido em 05/09/2016).
  • RODRIGUES, Geisa. As múltiplas faces de Madame Satã: estéticas e políticas do corpo. Niterói: Ed. UFF, 2013.
  • DESBOIS, Laurent: A Odisseia do cinema brasileiro, da Atlântida à Cidade de Deus, Companhia das Letras 2016.
  • A ARTE DA ENTREVISTA. 2. ed. São Paulo (SP): Scritta Oficina, 1995. xxi, 585 p. (Clássica). ISBN 8573200235.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]