Madrigal

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Madrigal é um gênero musical profano ou a sua composição poética, que surgiu entre os séculos XIII e XVI.

Há três hipóteses para sua etimologia: matricale, canto popular materno; materialis, como componente poético profano e matricalis, canto polifônico de igrejas.[1] Madrigal pode referir-se tanto à forma poética e musical que ocorre na Itália no séc. XIV quanto a partituras sobre versos seculares, nos séc. XVI ou séc. XVII.[2]

O madrigal aborda assuntos heróicos, pastoris, e até libertinos. Por sua flexibilidade, que nenhuma outra forma musical havia até então oferecido aos músicos, assim como pela variedade dos textos sobre os quais se constrói, ele favorece a imaginação criadora e o lirismo de expressão.

Juntamente com outras formas musicais que utilizavam o canto, o madrigal leva à origem da ópera.

Origens e influências na música do séc. XVI[editar | editar código-fonte]

Os madrigais começaram a ser cantados na Itália nos finais do séc. XIII (exemplos de Giovanni da Caccia e de Jacopo da Bologna) e difundem-se pela Europa no séc. XVI, influenciando a maioria das invenções musicais da época[3] Jacob Arcadelt, Philippe Verdelot e Adrian Willaert retomaram-nos no séc. XVI de uma maneira diferente. No séc. XVII foram substituídos pela Cantata.

Características, inovações[editar | editar código-fonte]

Os madrigalistas da segunda metade do séc. XVI foram particularmente engenhosos com os chamados "madrigalismos" — passagens nas quais a música aplicada a uma determinada palavra expressa o seu sentido, por exemplo, atribuindo à palavra "riso" uma passagem com notas rápidas como numa gargalhada, ou à palavra "suspiro" uma nota que recai na nota inferior; construindo efeitos de eco e contraponto; fazendo corresponder a palavras monossilábicas italianas como sol, mi, fa, re, as notas musicais homônimas; utilizando as semínimas (ou, ao contrário, as mínimas), para exprimir sentimentos de tristeza ou alegria; compondo uma melodia ascendente para corresponder à palavra "céu" e fazendo-a descer para corresponder à palavra "profundo". Essa técnica é também chamada de "pintura musical" ou "música visual" e pode ser encontrada não apenas em madrigais, mas em outras músicas vocais desse período.

Compositores musicais[editar | editar código-fonte]

Resonet in laudibus , de Orlando di Lasso

Dentre os madrigalistas italianos mais rigorosos estão o flamengo Orlando di Lasso, Giovanni Pierluigi da Palestrina, autores de madrigais profanos e sacros, o veneziano Andrea Gabrieli, que adota o recitativo coral e o diálogo, seu neto Giovanni Gabrieli e Luca Marenzio, Carlo Gesualdo, e Cláudio Monteverdi, que introduziu em 1605 o baixo contínuo na forma e, mais tarde, compôs o livro Madrigali guerrieri et amorosi (1638) (Madrigais de Guerra e Amor), que é, no entanto, um exemplo de madrigal Barroco; algumas das composições desse livro carregam uma pequena relação com os madrigais a cappella do século anterior. Na ária de soprano "Blute nur" da Paixão segundo São Mateus, Bach compôs melodias sinuosas para fazer corresponder à palavra "serpente".

Poetas[editar | editar código-fonte]

Enquanto subgénero lírico, encontram-se madrigais no famoso Canzionere de Petrarca, cuja poesia foi frequentemente adaptada a música depois da sua morte, especialmente por compositores italianos de madrigais do Renascimento.  Em Portugal, o madrigal é cultivado até o séc. XVIII, em especial pelo seiscentista Faria e Sousa e o neoclássico Filinto Elísio e, no Brasil, pelo árcade Silva Alvarenga, praticamente desaparecendo no séc. XIX, sendo um género desprezado pelos Românticos, e sendo retomado no séc. XX com o Modernismo. Manuel Bandeira compõe o Madrigal Melancólico.[4] Em Espanha, foi uma forma popular; Francisco de Quevedo escreveu famosos madrigais.

Madrigal de Filinto Elísio:

Dormias Márcia, e eu vi cupido ansioso,
 

       Já dum, já doutro lado
  Querer furtar-te um beijo gracioso,
  Que tu, a cada arquejo descansando,
          Na linda boca urdias.
  Graciosíssimo, oh! Márcia!... Não sabias
  Como o nume girava de alvoroço,
          Escolhendo-lhe o jeito
  De o dar do melhor lado. Eu vim, e dei-to
 

Bem na boca, e logrei o esperto moço.

("Madrigal", Obras de Filinto Elysio. - Nova ed. - Lisboa : Typ. Rollandiana, 1836-1840. - 22 v., Tomo I; grafia modernizada).

Tradicionalmente, seguindo o exemplo de Petrarca, utiliza uma combinação livre de versos decassílabos e hexassílabos em rimados consoante, numa única estrofe com cerca de 10, geralmente de tema amoroso. Posteriormente, estas regras esbateram-se (vide: "Madrigal", de Camilo Pessanha, in Clepsidra).

 

Notas e referências

  1. Moisés, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo, Cultrix, 1995, p.317
  2. Dicionário Grove de Música.Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1994, p.563
  3. Moisés, Massaud. Op.Cit., idem
  4. Moisés, Massaud. Op. Cit., ibidem

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Moisés, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo, Cultrix, 1995.
  • Dicionário Grove de Música.Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1994.
  • Obras de Filinto Elysio. - Nova ed. - Lisboa : Typ. Rollandiana, 1836-1840. - 22 v., Tomo I.
  • James Haar, Anthony Newcomb, Glenn Watkins, Nigel Fortune, Joseph Kerman, Jerome Roche: "Madrigal", emThe New Grove Dictionary of Music and Musicians, ed. Stanley Sadie. 20 vol. London, Macmillan Publishers Ltd., 1980. ISBN 1561591742
  • Gustave Reese, Music in the Renaissance. New York, W. W. Norton & Co., 1954. ISBN 0393095304
  • Alfred Einstein, The Italian Madrigal. 3 volumes. Princeton, New Jersey, Princeton University Press, 1949. ISBN 0-691-09112-9
  • Allan W. Atlas, Renaissance Music: Music in Western Europe, 1400–1600. New York, W. W. Norton & Co., 1998. ISBN 0-393-97169-4
  • Howard Mayer Brown, Music in the Renaissance. Prentice Hall History of Music Series. Englewood Cliffs, New Jersey; Prentice-Hall, Inc., 1976. ISBN 0-13-608497-4
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