Malanje (província)

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Malanje
Localidade de Angola Angola
(província)
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província de Malanje
Dados gerais
Fundada em 1921 (98 anos)
Gentílico malanjino
Província Malanje
Município(s) Cacuso, Caombo, Calandula, Cambundi-Catembo, Cangandala, Cuaba Nzogo, Cunda-Dia-Baze, Luquembo, Malanje, Marimba, Massango, Mucari, Quela e Quirima
Características geográficas
Área 98 302 km²
População 1 108 264[1] hab. (2018)
Altitude 500 m a 1500 m
Clima Aw/As/Cwa
Temperatura 20°C a 25°C

Malanje está localizado em: Angola
Malanje
Localização de Malanje em Angola
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Projecto Angola  • Portal de Angola

Malanje (por vezes erroneamente grafada como Malange) é uma das 18 províncias de Angola, localizada na região norte do país. Sua capital está na cidade e município de Malanje.

Segundo as projeções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população de 1 108 264 habitantes e área territorial de 98 320 km².[1]

É constituída por 14 municípios: Cacuso, Caombo, Calandula, Cambundi-Catembo, Cangandala, Cuaba Nzogo, Cunda-Dia-Baze, Luquembo, Malanje, Marimba, Massango, Mucari, Quela e Quirima

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra "Malanje", teria vindo da língua quimbunda antiga, e teria como significado o termo "as pedras" (ma-lanji), existindo porém várias versões sobre surgimento do nome Malanje.[2]

A versão mais conhecida afirma que antes da colonização portuguesa o rio Malanje (ou rio Cadianga) foi atravessado por mercadores e, como na época não existiam pontes, as pessoas tinham que passar pelos rios em cima de pedras. Após atravessar o rio, os mercadores avistaram os moradores locais, os perguntando qual era nome do rio, a que os moradores responderam "Ma-lanji Ngana" (são pedras, Senhor).[2]

Outra versão diz que uma expedição lusa, liderada por Rodrigues Graça (1843), chegou às margens no rio Malanje e encontraram 3 mulheres locais. Então os portugueses perguntaram o que as moradoras locais estava a fazer e elas responderam: "estamos moendo mandioca". Os europeus ficaram encantados com a quantidade de mulheres e perguntaram sobre os homens da região, então elas responderam em quimbundo: "Mala hanji", que significa: "Também há homens."

Uma terceira versão diz que os portugueses enviaram emissários aos sobas (mwen'exi) locais com o objectivo de prevenir que eles tivessem que usar a força para ocupar a região. Quando um dos emissários foi dar a mensagem ao soba local, ele respondeu: "Malagi?", em português: "São malucos?".

História[editar | editar código-fonte]

Antes da chegada dos portugueses, a região de Malanje estava sob domínio do poderoso reino da Matamba, havendo também certa influência do reino do Congo. Outro reino que tinha presença na área era o reino de Cassange.

Conflitos entre Portugal e o reino Ndongo-Matamba[editar | editar código-fonte]

Na influência da ocupação holandesa de Angola e da reconquista de Angola, a rainha Ana de Sousa Ginga, monarca do reino do Ndongo, conquistou as terras do reino da Matamba, em 1630, e proclamou-se rainha do Reino Unido Ndongo-Matamba. Os portugueses tiveram que os defrontar depois de 1648, quando a rainha Ana de Sousa Ginga aí se fixou. Como resposta militar ao Reino Unido Ndongo-Matamba, em 1671 as autoridades coloniais lusitanas erguem a Fortaleza-Presídio de Pungo-Andongo.

A interferência militar dos portugueses no reino foi crescendo cada vez mais, até que estes conseguiram impor um rei à sua escolha ao trono de Ndongo-Matamba, em 1763, subjugando a região ao distrito do Golungo Alto.

Guerras da Baixa de Cassange[editar | editar código-fonte]

Caravana europeia em Pungo-Andongo, em 1857.

Em 1838 Portugal resolve construir o presídio de Calandula, transferindo, em 1843, um relevante contingente militar para a vila do Lombe, numa tentativa de manter o reino de Cassange sob vigilância e controle.[3]

Em 1850 explode a primeira guerra do Cassange, entre reino de Portugal e o reino de Cassange, onde os portugueses conseguem empreender a queda do rei Bumba (1850), sem contudo derrotar as forças nativas, havendo necessidade de uma segunda campanha (1851). Menos de um ano depois, em 1852, explode a segunda guerra do Cassange, onde as forças nativas impõem severas derrotas aos contingentes coloniais, permitindo o regresso do rei Bumba. Para preservar seu trono, Bumba oferece vassalagem.[3]

O chefe tribal da Passagem-Feira de Ma-lanji, ao ver os resultados da guerra de Baixa de Cassange ao sul e leste, se antecipa a alguma intervenção portuguesa e oferece estatuto de "moradores" aos comerciantes lusitanos, em 1852. As autoridades coloniais a transformam no povoado de Malanje e erguem a paróquia de Nossa Senhora de Assunção.[3]

Após quase uma década de relativa tranquilidade, ocorre a terceira guerra do Cassange (1861-1862), após a recusa do rei Bumba em continuar a prestar vassalagem aos portugueses, declarando a independência do reino de Cassange. A resposta lusitana foi esmagadora, derrotando o reino sublevado.[3]

Fundação do forte e do distrito de Lunda[editar | editar código-fonte]

Em 1862, após o fim da terceira guerra do Cassange, as autoridades colonias resolvem fundar o Forte de Malanje, e; em 1867/68 finalmente elevar a vila de Malanje como sede do Concelho.[3]

Em 13 de julho de 1895 é criado o "distrito de Lunda", para administração portuguesa junto ao Protetorado Lunda-Chócue. A capital foi assentada em Saurimo e; preterida em 1896 para Malanje, permanecendo até o ano de 1921, quando volta novamente para Saurimo.

Na década de 1900 a região passa por um enorme processo de integração com o restante da colônia, quando a linha do Caminho de Ferro de Luanda, que liga Malanje a Luanda é concluída.

Da criação do distrito de Malanje ao período das guerras[editar | editar código-fonte]

Até o início da década de 1920 a a região de Malanje estava conectada administrativamente com o distrito de Lunda (atual Lunda Sul) quando, em 1921, o governador colonial José Norton de Matos devolve a capital distrital de Lunda para a cidade de Saurimo, e; no ato seguinte cria o distrito de Malanje, fixando sede na cidade homônima. Em 1972 o distrito tornou-se província

É em Malanje que estoura a guerra colonial numa revolta laboral que ocorre em 4 de janeiro de 1961, a Revolta da Baixa do Cassange ou "Guerra de Maria", onde se dá um levantamento popular dos milhares de trabalhadores dos campos de algodão da companhia Luso-Belga Cotonang. As duras condições de trabalho e de vida,[4] a constante repressão aliada à influência da independência do Congo em junho de 1960 (na região do Cassange viviam os congos que tinham origens comuns com povos do Congo), foram os principais factores que deram origem à sublevação destes angolanos.[5] Os trabalhadores decidiram fazer greve e armaram-se de catanas e canhangulos (espingardas artesanais). Os revoltosos destroem plantações, pontes e casas. A resposta das forças portuguesas é dura e violenta, através de companhias de caçadores especiais e bombas incendiárias lançadas de aviões da Força Aérea Portuguesa (FAP), tendo provocado um número bastante elevado de mortos: entre 200 a 300, ou mesmo alguns milhares.[6] Todos estes acontecimentos são ocultados do público em geral.[7] Este dia é lembrado em Angola como o Dia dos Mártires da Baixa de Cassange,[8] e terá sido o acontecimento que "despertou consciência patriótica dos angolanos e de unidade dos angolanos em prol da sua liberdade".[9]

Em 1968, o MPLA abre a "Frente Leste" fazendo de Malanje sua IV Região Militar, criando a "Rota Agostinho Neto", onde tiveram lugar os maiores combates entre o movimento e as forças portuguesas. Em 1973 Portugal retoma a região, que cai sob domínio da UNITA já em 1975, com pouquíssimas ações do FNLA ao norte. Em 1977 o MPLA começa a executar uma enorme ação militar na província, sendo que a mesma volta ao domínio do movimento na década de 1980.

Geografia[editar | editar código-fonte]

Quedas de Calandula, em 2009.

Malanje limita-se ao norte pela província do uige Zaire, ao leste pelo Congo-Quinxassa, Lunda Norte e Lunda Sul, ao sul e sudoeste pela província do Bié e, ao oeste pelas províncias do Cuanza Sul e Cuanza Norte.

A província situa-se no norte de Angola e a sua altura varia de 500 a 1500 metros em relação ao nível do mar, registrando alguns de seus maiores pontos culminantes em altitude na Serra de Tala Mungongo.

As duas maiores bacias hidrográficas que irrigam a província são a bacia do Cuanza, assentada no rio Cuanza, e a bacia do Cuango, assentada no rio Cuango, uma sub-bacia da bacia do Congo.

Clima[editar | editar código-fonte]

Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger predomina, na maior parte da província, o clima tropical de savana (Aw/As) com uma temperatura média de 20°C à 25°C. Na porção sul da província registra-se o clima subtropical úmido (Cwa).

Vegetação e patrimônio natural[editar | editar código-fonte]

A sua vegetação é composta de florestas tropicais, savanas e o misto de floresta-savana com florestas úmidas, sendo que suas áreas de cobertura vegetal intocada encontram-se no Parque Nacional da Cangandala, na Reserva Especial do Milando e na Reserva Natural Integral do Luando.

Economia[editar | editar código-fonte]

Malanje é subdividida em três zonas geo-económicas, são elas: O planalto de Malanje, a Baixa de Cassanje e a Zona do Luando.

Agropecuária e extrativismo[editar | editar código-fonte]

Malanje é uma província essencialmente agrícola, destacando-se pela produção das seguintes lavouras temporárias: mandioca, arroz, algodão, milho, batata-doce, ginguba, girassol, feijão, soja e hortícolas.

Na criação de animais, destaca-se a pecuária, para corte e leite, assentando os rebanhos no gado bovino, além de caprinos, suínos e ovinos. Outra criação de animais de relevo, para carne e ovos, está nos galináceos.

O extrativismo vegetal ainda encontra grande cadeia na extração madeireira, e; o extrativismo animal na pesca fluvial, realizada particularmente no rio Cuanza.

Indústria e mineração[editar | editar código-fonte]

Panorama da Central Hidroelétrica de Capanda, em 2013.

Malanje possui algumas plantas industriais, majoritariamente instaladas na zona da capital, no qual são fabricados materiais de construção, produtos voltados para a alimentação e tabacos, além de unidades agroindustriais de transformação de matérias primas agrícolas e de origem animal. Outra planta industrial importante é produção energética na Central Hidroelétrica de Capanda.

A indústria mineral trabalha na extração e semi-beneficiamento de diamantes, calcário, urânio e fosfatos.

Comércio e serviços[editar | editar código-fonte]

O setor comercial têm grande importância na capital provincial, onde estão sedes de grupos atacadistas que fornecem produtos a toda população malanjina, servindo de ponto intermediário entre o centro-norte e o leste do país.

Infraestrutura[editar | editar código-fonte]

Transportes[editar | editar código-fonte]

Atendida por uma relativa rede rodoviária, a província malanjina é servida por três principais troncos: o primeiro de sentido norte-sul assenta-se na rodovia EN-160; o segundo de sentido oeste-leste assentado na rodovia EN-230A, e; o terceiro, na rodovia EN-140, também de sentido norte-sul. Outras estradas importantes incluem a EN-230 e a EN-226.

Outra vital via de transporte é o Caminho de Ferro de Luanda, que liga a província ao porto de Luanda.

Educação[editar | editar código-fonte]

Malanje tem uma Faculdade de Medicina (é a primeira da província e fica localizada na capital), que surgiu como extensão da Universidade Lueji A'Nkonde[10], que está sediada no Dundo. Outra importante instituição é o Instituto Médio Agrário, localizado na comuna do Quéssua.

Cultura e lazer[editar | editar código-fonte]

A província é conhecida principalmente por possuírem as grandes Palancas Negras, animais símbolo de Angola, encontradas principalmente no Parque Nacional de Cangandala.

Outros pontos importantes de Malanje são as famosas Pedras Negras de Pungo Andongo e as Quedas do Calandula, sendo que esta última, localizadas no município do Calandula, são as maiores cataratas de toda a África depois das Cataratas de Vitória.

Referências

  1. a b Schmitt, Aurelio. Município de Angola: Censo 2014 e Estimativa de 2018. Revista Conexão Emancipacionista. 3 de fevereiro de 2018.
  2. a b Alexandre, Helder Pande. Proposta de Harmonização Gráfica da Toponímia de Angola: O Caso do Município de Malanje. Universidade Nova de Lisboa. Março de 2015.
  3. a b c d e Pélissier, René. História das Campanhas de Angola: resistência e revoltas (1845-1941). Lisboa: Estampa, 1986.
  4. António Lopes Pires Nunes. «Angola 1961». Consultado em 23 de Outubro de 2011 
  5. Mário Mendes - Wordpress (9 de Janeiro de 2010). «A Revolta da Baixa do Cassange». Consultado em 16 de Outubro de 2011 
  6. Jornal de Angola (3 de Janeiro de 2009). «Angola ainda chora massacre dos camponeses de Cassanje». Consultado em 16 de Outubro de 2011 
  7. «Portugal by James Fearon and David Laitin (Stanford University)» (PDF). Consultado em 7 de fevereiro de 2009 
  8. Jornal de Angola (6 de Janeiro de 2011). «Revolta dos Camponeses de Cassange despertou a consciência para liberdade». Consultado em 16 de Outubro de 2011 
  9. Angop - Agência AngolaPress (4 de Janeiro de 2009). «Baixa de Cassange despertou consciência patriótica dos angolanos». Consultado em 16 de Outubro de 2011 
  10. Exibir biografia do autor Arquivado em 21 de novembro de 2015, no Wayback Machine. - RD Ferramentas de Leitura

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • SANTOS, Egídio Sousa. "A Cidade de Malanje na História de Angola”, Editorial Nzila, Angola, 2005
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