Marca Inferior

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O Califado de Córdova (929–1031) no ano 1000

Marca Inferior ou Altaguir Aladna (Al-Tagr al-Adna) era uma circunscrição administrativa e militar do Alandalus, que se manteve desde o século VIII até ao fim do Califado de Córdova (929–1031), no século XI[1][2]. Estava situado a oeste do Alandalus[3]. Abrangia territórios hoje incluídos em Portugal, situados a norte e noroeste do rio Guadiana, até ao oceano Atlântico, na zona entre Beja e o rio Douro[3]. Correspondia às terras situadas a norte do Algarbe Alandalus[3]. Devido à sua natureza fronteiriça e à sua vulnerabilidade em relação às incursões cristãs, estava em alerta militar constante[1].

História[editar | editar código-fonte]

Como acontecera antes na Síria, no Egito e na Pérsia, a conquista árabe-berbere de 711 manteve numa primeira fase as unidades administrativas existentes na Península Ibérica, mudando-lhes apenas as denominações[3]. A Península foi dividida em coras (em árabe: كورة,; transl.: kūrah), que correspondiam a antigos conventos, ou dioceses[3]. No interior de cada cora, foram criadas unidades administrativas mais pequenas, chamadas quran (sing. qarya), correspondendo a "comunidades locais"[3].

Devido às necessidades militares da Reconquista, outras circunscrições foram criadas perto da fronteira. No início do século X, o Califado de Córdova (929–1031) estava dividido e organizado em seis grandes circunscrições, três interiores e três fronteiriças, todas com as suas respectivas coras.

  • As demarcações civis ou "regiões interiores" (nabiia) eram: Algarbe, que abrangia a atual província de Huelva e o sul de Portugal; Almauçate (al-Mawsat) ou "terras do centro", que se estendia pelos vales do rio Guadalquivir e do rio Genil, além das zonas montanhosas da Andaluzia, ou seja, a antiga "Bética"; e Alxarque ou "terra de oriente", que abrangia o arco mediterrâneo, da atual província de Múrcia até Tortosa.
  • Entre estas demarcações e a fronteira com os cristãos no Norte situavam-se três marcas, que correspondiam a três regiões fronteiriças fortificadas: Altaguir Alala (al-Tagr al-Ala) ou Marca Superior, com capital em Saragoça; Altaguir Alauçate (al-Tagr al-Awsat) ou Marca Média, com capital em Toledo; e Altaguir Aladna ou Marca Inferior, com capital em Mérida. Estas marcas mantiveram-se até a aparição dos Reinos de Taifas, no século XI[1].

Organização[editar | editar código-fonte]

No contexto hispanomuçulmano, a fronteira concebia-se como uma grande faixa desorganizada de separação, no exterior das marcas, sem fazer parte da estrutura territorial e com povoamento muito escasso, limitado a pontos concretos[4][5][6]. Neste modelo, em que as "marcas" ou "tugur" (plural de "taguir") desempenhavam um papel militar e estratégico fundamental, al-Taguir al-Adna correspondia a um território militar lusitano com uma capital em Mérida, na qual residia um chefe militar e civil único e forte chamado qa'id, que habitava na parte fortificada da cidade, ou alcáçova. A sua autoridade superpunha-se à autoridade dos vali ou governadores da cora incluída na marca. Tinha presumivelmente mais poderes e recursos militares[1][2].

A Marca Inferior integrava a Cora de Mérida, que se estendia pela atual Estremadura espanhola e o sul de Portugal, até ao oceano Atlântico, com capital na cidade de Mérida, antiga capital lusitana[2], que lhe dava o nome, ou em Badalhouce (Badajoz)[2], segundo a época. A demarcação procedia da antiga divisão lusitana tardia romana, que se formara como "cora" na época do emirado sob o nome de Xenxir. A Cora de Mérida, integrada na Marca Inferior, era uma das mais extensas e economicamente pujantes, embora a proximidade da fronteira cristã lhe desse um caráter predominantemente militar. A Cora de Lixbuna (Lisboa), pode ter sido um iqlim dependente do emirado de Xenxir, posto que também a estrutura deste tinha um cádi à frente da sua administração judicial, apesar de haver provas de que gozou de certa autonomia em 808-809, depois da rebelião de Tumlus[2].

Após a dissolução do califado, a Cora de Mérida converteu-se na Taifa de Badajoz.[7]

Referências

  1. a b c d Caliphs and Kings: Spain, 796-1031. [S.l.]: John Wiley & Sons. 2012. p. 27-28. 314 páginas  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  2. a b c d e «Consideraciones sobre la Marca Inferior de Al-Andalus, de Fernando Valdés Fernández». Castrum 4: Frontière et peuplement dans le monde méditerranéen au Moyen Âge. [S.l.]: Casa de Velázquez. 1992. p. 85-98. 341 páginas  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  3. a b c d e f Histoire du Portugal et de son empire colonial. [S.l.]: Karthala Editions. 1998. p. 18. 615 páginas  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  4. Sabaté Curull, Flocel: Repoblación y feudalismo, em Lynch, John Et Al. (2007): Historia de España, tomo 8: Los reinos medievales. Ed. El País, Madrid, pag. 28
  5. Como ocorreu com o vale do rio Douro após o abandono, por volta de 750, da zona pelos Berberes inicialmente assentados nela e as migrações de Moçárabes para o reino das Astúrias.
  6. Valdeón Baruque, Julio: El reino astur-leonés, em Lynch (2007), pag. 88
  7. Vallvé Bermejo, Joaquín/ Díaz Esteban, Fernando: La Cora de Mérida durante el Califato/Bataliús: el reino taifa de Badajoz, Badajoz, 1996, ISBN 84-921456-1-7, pp. 269-280