Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro

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Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro
Nascimento 1841
Lisboa
Morte 1915 (74 anos)
Progenitores Pai:Manuel Maria Bordalo Pinheiro
Irmão(s) Columbano Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro
Ocupação pintora, designer, bordado, guipura manual
Maria Augusta retratada pelo irmão Columbano no seu quadro "A Luva Cinzenta" (1881)

Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 14 de novembro de 184122 de outubro de 1915) foi uma pintora, decoradora e rendeira portuguesa. Renovou a indústria das rendas de bilros de Portugal e foi pioneira do design industrial português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Maria Augusta nasceu em Lisboa, no dia 14 de novembro de 1841 e faleceu a 22 de outubro de 1915. Era filha do pintor Manuel Maria Bordalo Pinheiro e de Augusta Maria do Ó Carvalho Prostes.[1] Os pintores Columbano Bordalo Pinheiro e Rafael Bordalo Pinheiro eram seus irmãos.

Percurso[editar | editar código-fonte]

Teve como mestres o seu pai e o seu irmão Columbano Bordalo Pinheiro.[2] Este usa-a como modelo em várias das suas pinturas entre as quais se destaca o quadro a Luva Cinzenta.[3][1][4]

Seguindo a veia artística familiar, mostra desde a infância uma inclinação para as Belas Artes. Torna-se uma pintora naturalista e uma decoradora reconhecida. Um dos seus quadros com flores, Os Malvaíscos, é particularmente aplaudido pelos críticos graças à sua delicadeza.[5][6]

Na decoração destacam-se os desenhos que criou e pintou para algumas das peças de faiança criadas pelo o seu outro irmão, o artista Rafael Bordalo Pinheiro, nomeadamente cafeteiras, chávenas, bandejas, entre outras. [7] Ainda na decoração os seus bordados e as rendas de bilros criadas por si sobressaem dos restantes. Ela chega a criar um novo ponto para as rendas que ficou conhecido como o ponto português.[5][8][1]

Tal como os seus irmãos expõe com o Grupo do Leão. Ela é uma das poucas mulheres a expor nas exposições de quadros modernos promovidas pelo grupo. Maria Augusta, Josefa Garcia Greno, Berta Ortigão e Helena Gomes ficam por isso  conhecidas como as “Senhoras Leoas”. [9][10]

Em 1885, a Cervejaria Leão d'Ouro, o ponto de encontro dos membros do Grupo Leão, sofre obras e Maria Augusta contribuiu para a nova decoração para o espaço, com um reposteiro criado e bordado por ela. [11][12][13][10] Dois anos depois, em 1887, é responsável juntamente com os dois irmãos, pela decoração do Palácio do Beau Séjour.[14] São dela as pinturas com motivos florais e vegetalistas que se podem ver em painéis decorativos nos tectos. [15]


A renda de bilros

A renda de bilros em Portugal tem uma longa tradição, desde sempre confeccionada pela mulheres, servia de complemento  ao rendimento familiar muitas das vezes dependente das actividades piscatórias às quais se dedicavam os homens. Entre 1851 e 1873, a qualidade da renda produzida em Portugal fez com que esta fosse premiada internacionalmente em várias exposições internacionais, nomeadamente em Londres (1851 e 1861), Paris (1855, 1867 e 1878), Viena (1873).[16] Depois deste período o facto de utilizarem um fio mais grosso e de continuarem a utilizar desenhos antiquados provocou o declínio desta actividade e consequentemente o rendimento das famílias. [17]

Para contornar esta situação é fundada em 1887, na cidade de Peniche, a Escola de Desenho Industrial Rainha Dona Maria Pia (mais tarde renomeada Escola Industrial de Rendeiras Josefa de Óbidos). Tinha como objectivo revitalizar as rendas de bilros e inverter a sua decadência, alinhando-se com a tendência internacional de criar escolas e cursos profissionais para mulheres.[16][17]

Maria Augusta, na altura uma artista reconhecida, é convidada para directora da escola, onde assume também os cargos de professora de desenho e de coordenação da oficina de rendas, dando novo impulso à aprendizagem deste tipo de artesanato. [18][16][19][20][21]

Sobre a sua direcção a qualidade da renda melhora substancialmente. Ela introduz um novo design onde é patente a sua inspiração na natureza (ramos de flores, tulipas, cravos, conchas, entre outros motivos), os seus desenhos permitem a produção peças sobre medida e separadas umas das outras o que permitem colocar a renda em objectos como leques e sombrinhas, o fio utilizado que passa a ser mais fino, a qualificação profissional das rendeiras melhora substancialmente, e  inventa um novo ponto, conhecido por ponto português.[1][22][8]

Os resultados são rápidos, o trabalho executado pelas rendeiras de Peniche ganha o primeiro prémio na exposição industrial de 1888, e a escola recebe a medalha de ouro na exposição universal de Paris de 1889, pela sua originalidade e qualidade, o que coloca a renda de bilros portuguesa ao nível dos melhores da Europa. [16][23]

As inovações introduzidas por Maria Augusta fizeram com que a renda de bilros se torna-se num dos emblemas da arte industrial portuguesa e se colocasse entre as melhores da Europa.[16]

Em 1889, decide por vontade própria deixar a escola e regressar a Lisboa. A pedido da rainha Dona Amélia, funda na rua António Maria Cardoso, o seu atelier e oficina de rendas onde rendeiras ensinadas por ela, produzem rendas de bilros com base nos desenhos que vai criando. De lá saem peças como cabeções, rendas largas ou estreitas, lenços, leques e sombrinhas. [24][25][18]

O seu trabalho foi admirado e elogiado por figuras públicas como o critico de arte Manuel de Sousa Pinto[26] que a chamava de "fada das rendas"[27]; o escritor Júlio Dantas escreveu uma nota de pesar quando ela falece, onde compara as suas rendas a "ourivesaria branca"[28] ; por sua vez o escritor Raul Brandão após visitar uma exposição dela, diz que elas "parecem pedaços feitos de luar".[29] Para além deles, o seu trabalho é reconhecido pelo governo que lhe pede que visite outras escolas de rendas na Europa nomeadamente as belgas e as francesas em 1889, aquando da sua ida à exposição de Paris. [16]

Reconhecimento e Prémios[editar | editar código-fonte]

O seu talento e a sua dedicação à renda de bilros foram recompensados com:[5][1]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e f g h i j «ficha de Entidade - Bordalo Pinheiro, Maria Augusta de Prostes». MatrizNet. Consultado em 21 de maio de 2020 
  2. Maia, Clarinda de Azevedo (1986). História do galego-português: estado linguístico da Galiza e do noroeste de Portugal desde o século XIII ao século XVI. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p. 158 
  3. «Ficha de Inventário - A luva cinzenta». MatrizNet 
  4. «Revistas de Ideias e Cultura». ric.slhi.pt. Consultado em 21 de maio de 2020 
  5. a b c «R. Bordalo Pinheiro: maria augusta bordalo pinheiro» 
  6. «Ficha de Inventário - quadro Malvaíscos». MatrizNet 
  7. «Peças pintadas por Maria Augusta». Coleção Online - Museu Bordalo Pinheiro. Consultado em 2 de junho de 2020 
  8. a b «Ficha de Inventário - Leque em renda». www.matriznet.dgpc.pt. MatrizNet. Consultado em 21 de maio de 2020 
  9. Leandro, Sandra (2008). «Como leoas: as senhoras artistas do Grupo do Leão». Livros Horizonte. Consultado em 1 de junho de 2020 
  10. a b «A Sedução da Modernidade no Museu do Chiado». www.sabado.pt. Consultado em 1 de junho de 2020 
  11. Artistas e Espaços de Sociabilidade no século XIX: O “Leão d’Ouro” e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa (1885-1905) Nuno Saldanha, IADE-U/UNIDCOM, 2012, II Colóquio Internacional de História da Arte e da Cultura: “O Artista e a Sociedade”
  12. Silva, Dora Santos (22 de maio de 2018). «O "Grupo do Leão": a maior homenagem que Columbano Bordalo Pinheiro fez aos artistas». FCSH+Lisboa. Consultado em 21 de maio de 2020 
  13. Silva, Emilia Matos e Silva (12 de setembro de 2013). «Maria Augusta Bordalo Pinheiro (1841-1915)». Arte em Portugal. Consultado em 19 de abril de 2020 
  14. Administrator. «Quinta do Beau-Séjour» 
  15. Administrator. «Quinta do Beau-Séjour». acasasenhorial.org. Consultado em 21 de maio de 2020 
  16. a b c d e f g h i j  Rogers, Rebecca (2017). Women in International and Universal Exhibitions, 1876-1937. Abingdon, Inglaterra: Routledge. pp. 110, 112, 113, 122 
  17. a b «Rendas de Bilros de Peniche». www.cm-peniche.pt. Consultado em 2 de junho de 2020 
  18. a b c d Lemos, Carlos Cilia de (26 de outubro de 1908). «Rendas Portuguesas». hemerotecadigital.cm-lisboa.pt. Ilustração Portuguesa. Consultado em 2 de junho de 2020 
  19. «História - Escola Secundária de Peniche». sites.google.com. Consultado em 2 de junho de 2020 
  20. «Visão | Rafael Bordalo Pinheiro: Perfil de um português genial». Visão. 28 de agosto de 2016. Consultado em 2 de junho de 2020 
  21. Feminae - dicionário contemporâneo (PDF). Lisboa: Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. 2013. 295 páginas. ISBN 978-972-597-373-8 
  22. -. «R. Bordalo Pinheiro: maria augusta bordalo pinheiro». www.carloscorreia.net. Consultado em 2 de junho de 2020 
  23. «Rendeiras de Peniche com Maria Augusta - Fotografia». www.matriznet.dgpc.pt. MatrizNet. Consultado em 2 de junho de 2020 
  24. a b Artur, Maria Ribeiro (20 de julho de 1899). «As rendas de D. Maria Augusta Bordallo Pinheiro». hemerotecadigital.cm-lisboa.pt. O Ocidente : revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro. Consultado em 2 de junho de 2020 
  25. a b «Exposição de S. Luiz». Ilustração Portuguesa. 28 de março de 1904. Consultado em 2 de junho de 2020 
  26. «Manuel de Sousa pinto». modernismo.pt. Consultado em 2 de junho de 2020 
  27. Pinto, Manuel de Sousa. «Nota de pesar pelo falecimento de Maria Augusta». Revista Atlântida. Revista Atlântida. Consultado em 2 de junho de 2020 
  28. Dantas, Júlio (15 de dezembro de 1915). «O ano Artístico». ric.slhi.pt. Revista Atlântida. Consultado em 2 de junho de 2020 
  29. Rosa, Vasco (20 de fevereiro de 2018). Cinzento e Dourado. Raul Brandão em foco nos 150 anos do seu nascimento. [S.l.]: INCM 
  30. a b Grande Dicionário Enciclopédico. Lisboa: Editora ediclube. 4831 páginas. ISBN 8440802854 
  31. a b c d'Assumpção, Abel (1918). Sociedade das Belas Artes, quarta exposição de aguarela, desenho e pinturas. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes. pp. 45,46,48,52 
  32. a b c Grémio Artístico e Sociedade Nacional de Belas Artes, prémios conferidos (1891-1918) - http://tribop.pt/EXPO/1918-12-05%20-%204%C2%AA%20Expo%20ADM%20-%20SNBA-39-70-.pdf
  33. a b Sociedade Nacional de Belas Artes (Portugal) (1901). Exposição : catalogo illustrado. [S.l.]: Lisboa : Typographia da Companhia Nacional Editora 
  34. Figueiredo, José de (1901). Portugal na Exposição de Paris. Lisboa: Empreza da historia de Portugal. 31 páginas 
  35. Sociedade Nacional de Belas Artes (Portugal) (1901). Exposição : catalogo illustrado. [S.l.]: Lisboa : Typographia da Companhia Nacional Editora 
  36. Santos, Regina (1999). Portugal na Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1908. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. pp. 83,84