Maria I de Inglaterra

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Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a rainha da Inglaterra. Para outras com o mesmo nome, veja Maria I.
Maria I
Rainha da Inglaterra, Espanha, França,
Irlanda, Duas Sicílias e Jerusalém
Arquiduquesa da Áustria
Duquesa de Borgonha, Milão e Brabante
Condessa de Habsburgo, Flandres e Tirol
Rainha da Inglaterra, Irlanda e França
Reinado 19 de julho de 1553
a 17 de novembro de 1558
Coroação 1 de outubro de 1553
Antecessor(a) Eduardo VI
Joana Grey (disputado)
Sucessor(a) Isabel I
Rainha Consorte da Espanha
Reinado 16 de janeiro de 1556
a 17 de novembro de 1558
Predecessora Isabel de Portugal
Sucessora Isabel de Valois
 
Marido Filipe II de Espanha
Casa Tudor
Nome completo
Maria Tudor
Nascimento 18 de fevereiro de 1516
  Palácio de Placentia, Londres
Morte 17 de novembro de 1558 (42 anos)
  Palácio de St. James, Londres
Enterro Abadia de Westminster
Pai Henrique VIII de Inglaterra
Mãe Catarina de Aragão

Maria I (18 de fevereiro de 151617 de novembro de 1558) foi Rainha da Inglaterra, Irlanda e França de 1553 até a morte, além de Rainha Consorte da Espanha a partir de 1556. Filha do rei Henrique VIII e sua primeira esposa, Catarina de Aragão, ascendeu ao trono após ter deposto sua prima, Joana Grey, que foi proclamada rainha pelas vontades de seu meio-irmão, Eduardo VI.

Eduardo VI era o meio-irmão mais novo de Maria, sucedendo seu pai em 1547. Seu reinado foi marcado pela Reforma Protestante que impôs na Inglaterra, tentando impedir que esta voltasse ao Catolicismo. Ele tentou retirar Maria da linha de sucessão por suas diferenças religiosas quando descobriu sua doença terminal. Joana Grey, prima em segundo grau de ambos, foi inicialmente proclamada rainha de acordo com sua vontade; entretanto, Maria reuniu forças e conseguiu que a mesma fosse deposta do trono inglês. Atuando como a quarta monarca da Casa de Tudor, seu reinado é conhecido por reverter todas as reformas do irmão, bem como por sua perseguição aos protestantes ingleses, que lhe rendeu o epíteto de "Maria Sangrenta".[n 1]

Em 1556, Maria se tornou Rainha Consorte da Espanha graças ao seu casamento com Filipe II. O matrimônio foi recebido com uma revolta popular organizada por Thomas Wyatt, onde buscava depor a rainha em favor de sua meia-irmã, Isabel, que iria restaurar o Protestantismo e se casar com um homem inglês. Após a captura de Henrique Grey, um dos líderes do levante, Maria decidiu executá-lo junto a sua filha Joana. Maria não teve filhos, passou por duas gravidezes psicológicas, uma em 1554 e outra em 1557, o que a fez ser ridicularizada na Europa, forçando-a aceitar que sua meia-irmã era a sua legítima sucessora.

Maria foi a primeira mulher que obteve sucesso na reivindicação do trono da Inglaterra, apesar da concorrência e determinação dos opositores. Em seus primeiros anos, gozava de apoio popular e simpatia, principalmente pela população católica. Apesar de seu reinado ser lembrado sumariamente pela fome — provocada por desastres naturais —, bem como pelo que ficou conhecido como perseguições marianas, ela foi pioneira em políticas de reforma fiscal, expansão naval e exploração colonial.

Início da vida[editar | editar código-fonte]

Nascimento e família[editar | editar código-fonte]

Os pais de Maria: Henrique VIII (1491–1547) e Catarina de Aragão (1485–1536).

O pai de Maria, o rei Henrique VIII, se casou com a mãe dela, Catarina de Aragão, em 11 de junho de 1509, no Palácio de Placentia, em Londres.[1][2] Deste matrimônio, Catarina engravidou seis vezes. A primeira filha nasceu prematura e morreu em 31 de janeiro de 1510, em 1 de janeiro de 1511 nasceu Henrique, Duque da Cornualha, que sobreviveu apenas por 52 dias.[3] Em novembro de 1513, outro filho, que não teve nome divulgado, morreu pouco depois de seu nascimento.[3] A terceira criança, um garoto, nasceu morto em fevereiro de 1515.[3] Após quatro gravidezes que falharam em gerar ao rei um herdeiro, as relações entre o casal se tornaram "tensas".[4] Nesse período, Henrique iniciou um caso com Elizabeth Blount, cuja relação era conhecida por Catarina e acabou gerando um filho, Henrique Fitzroy, nascido em 1519,[4] que poderia entrar na linha de sucessão ao trono inglês graças ao Segundo Ato de Sucessão.[5] Entretanto, Fitzroy morreu de tuberculose em 1536.[6]

Em 18 de fevereiro de 1516, às quatro da manhã, Maria nasceu como a quinta filha do casal. O trabalho de parto havia sido longo e difícil, mas a criança era saudável e robusta.[7] Dois dias depois de seu nascimento, a confirmação do nascimento do bebê chegou para toda a Inglaterra, bem como o seu nome, que era uma homenagem do rei para sua irmã, Maria Tudor,[8] que foi rainha consorte da França graças ao seu matrimônio com Luís XII de França.[9] No seu terceiro dia de vida, Maria foi batizada pela fé católica na Igreja dos Frades Observantes, em Greenwich.[10] Seus padrinhos incluíam sua tia-avó, Catarina de Iorque, Condessa de Devon, o Lord Chancellor Tomás Wolsey e Inês Howard, Duquesa de Norfolk.[11] A prima de seu pai, Margarida Pole, Condessa de Salisbury, foi uma das madrinhas (depois governanta) de Maria em sua crisma, que ocorreu imediatamente após o seu batismo.[12] Com um ano de vida, Maria tornou-se madrinha para sua prima, Francisca Brandon.[13]

O nascimento de Maria havia melhorado a relação entre Henrique e Catarina.[7] Por outro lado, a cada nascimento naquele tempo, o esperado era que a criança de um rei fosse um menino, já que a chegada de uma menina significava que as celebrações seriam adequadamente reduzidas.[7] Por exemplo, o embaixador veneziano Sebastian Giustinian parabenizou Henrique pela criança; entretanto, afirmou: "Sua serenidade teria experimentado uma maior satisfação se [o bebê] fosse um menino".[14] O rei, no entanto, respondeu com bom humor: "Filhos virão. A rainha e eu ainda somos jovens".[14] Em 10 de novembro de 1518, Catarina deu à luz a uma menina que seria sua sexta gravidez com o rei, mas a mesma morreu horas depois do nascimento,[3] fazendo de Maria a única que sobreviveu ao parto e à infância.[15]

Educação e planos de casamento[editar | editar código-fonte]

Maria durante o seu noivado com Carlos V, entre 1521-1525. Na imagem, ela usa um broche retangular escrito "O Imperador".

Maria era uma criança precoce.[16] Em julho de 1520, quando mal havia completado quatro anos e meio de idade, entreteve uma delegação francesa visitante com uma apresentação onde dançava e tocava virginal (uma espécie de cravo).[17] Grande parte de sua educação inicial veio através de sua mãe, que consultou o humanista Juan Luis Vives para pedir conselhos, com este a recomendando o De Institutione Feminae Christianae, um tratado na educação de meninas.[18] Aos nove anos, Maria podia ler e escrever em latim.[19] Estudou francês, espanhol, música e, talvez, grego.[20] Henrique adorava a filha e se gabou ao embaixador veneziano Sebastian Giustinian: "Esta menina nunca chora".[21] Fisicamente, Maria tinha, como seus pais, uma pele muito clara, olhos azuis e cabelos ruivos ou loiro avermelhados. Ela também era corada, um traço herdado de seu pai.[22]

Apesar de sua afeição por Maria, Henrique ficou profundamente desapontado por seu casamento não ter produzido filhos.[23] Quando Maria tinha nove anos, era aparente que Henrique e Catarina não teriam mais filhos, deixando-o sem um herdeiro masculino legítimo.[24] Em 1525, o rei enviou a filha para a fronteira com Gales para que ela pudesse presidir, presumidamente apenas em nome, o Conselho de Gales e das Bordas.[25] Maria teve sua própria corte no Castelo de Ludlow e muitas das prerrogativas reais normalmente reservadas ao Príncipe de Gales.[26] Muitos a chamavam de Princesa de Gales, embora ela nunca tenha sido tecnicamente investida com o título.[27] Aparentemente, Maria passou três anos nas Bordas Galesas, realizando visitas regulares à corte do pai, antes de voltar permanentemente para Londres, na metade de 1528.[28]

Durante a infância de Maria, Henrique negociou futuros casamentos para ela. Quando tinha apenas dois anos de idade, foi prometida ao Delfim, filho do rei Francisco I da França, porém o contrato foi repudiado após três anos.[29] Em 1522, Maria acabou entrando em um contrato para se casar com seu primo, Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, então com 22 anos.[30] Entretanto, o compromisso foi anulado por Carlos, com o consentimento de Henrique, alguns anos depois.[31] Tomás Wolsey, principal ministro do rei, voltou então às negociações com os franceses, com Henrique sugerindo que Maria se casasse com o próprio Francisco, que estava querendo forjar uma aliança com a Inglaterra.[32] Um tratado de casamento foi assinado e ditava que ela se casaria com o mesmo ou com seu segundo filho, Henrique, Duque d'Orleães; porém Wolsey conseguiu firmar a aliança com a França sem que houvesse o casamento.[33] De acordo com Mario Savorgnano, observador veneziano, Maria desenvolvia-se como uma jovem bonita, bem proporcional e com um bonito rosto.[28]

Adolescência[editar | editar código-fonte]

Maria se tornou filha ilegítima de Henrique após seu casamento com Ana Bolena (foto), recusando-se a reconhecê-la como rainha.

Enquanto isso, o casamento de seus pais estava em perigo. Decepcionado com a falta de um herdeiro do sexo masculino e ansioso para voltar a casar, Henrique tentou fazer com que seu casamento com Catarina fosse anulado, mas o Papa Clemente VII recusou seu pedindo.[34][35] Henrique alegou, citando passagens bíblicas (Levítico 20:21), que seu casamento era impuro, já que a mesma era viúva de seu irmão, Artur, Príncipe de Gales, tio de Maria, morto aos quinze anos.[36][37] Catarina afirmou veementemente que seu casamento com Artur nunca foi consumado e por isso não era um casamento válido.[38] De fato, este casamento havia sido anulado pelo Papa Júlio II, usando como base a sua declaração.[39] Clemente pode ter ficado relutante a agir em favor de Henrique por estar sendo influenciado por Carlos V, sobrinho de Catarina e ex-prometido de Maria, cujas tropas haviam cercado e ocupado Roma na Guerra da Liga de Cognac.[40]

A partir de 1531, Maria estava frequentemente doente com menstruação irregular e depressão, embora não seja claro se isso era causado pelo estresse, puberdade ou uma doença mais profunda.[41] Além disso, ela não era permitida a ver sua mãe, que fora mandada embora da corte.[42] No início de 1533, ele se casou com Ana Bolena, que estava grávida da primeira e única filha do casal, Isabel.[43][44] Em maio do mesmo ano, Tomás Cranmer, o Arcebispo da Cantuária, declarou formalmente que o casamento de Henrique com Catarina não tinha valor e que a união com Ana era válida.[45] Em seguida, Henrique rompeu com a Igreja Católica e declarou-se Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra.[46] Catarina acabou se tornando apenas a viúva de Artur e Maria considerada filha ilegítima do rei.[47] Ela era chamada de "senhorita Maria", ao invés de "princesa", com seu lugar sendo transferido à sua meia-irmã recém-nascida.[47] A própria criadagem de Maria havia sido dissolvida, seus criados foram dispensados do serviço e ela foi enviada para juntar-se a criadagem da jovem Isabel, em Hertfordshire.[48][49]

Maria continuou determinada, se recusava em reconhecer Ana como rainha e Isabel como princesa, enfurecendo Henrique.[50] Ela estava sob pressão e com seus movimentos restringidos, ficando frequentemente doente, com o médico real culpando a sua condição por "mau tratamento".[47] O embaixador Eustácio Chapuys tornou-se seu conselheiro e tentou, sem sucesso, interceder em seu favor.[51] A relação entre pai e filha piorou: eles ficaram sem se falar por três anos.[52] Apesar de Maria e Catarina terem ficado doentes, elas não eram permitidas a se verem.[53] Maria ficou "inconsolável" com a morte de sua mãe em 1536,[54] permanecendo de luto em estado de semi-reclusão, em Hertfordshire.[55] Em 1536, a rainha Ana foi acusada de incesto e adultério, sendo executada e tendo o casamento com Henrique anulado dias depois.[56] Isabel, assim como Maria, foi rebaixada à filha ilegítima e removida da linha de sucessão.[57]

Idade adulta[editar | editar código-fonte]

Duas semanas após a morte de Ana, Henrique se casou novamente, desta vez com Joana Seymour, que pedia para o rei se reconciliar com Maria.[58] Ele insistia que para tal, Maria deveria o reconhecer como líder da Igreja Anglicana, repudiasse a autoridade papal e aceitasse que o casamento com sua mãe era inválido e, assim, ela era ilegítima.[59][60] Ela tentou reconciliar-se com ele, submetendo-se a sua autoridade até onde "Deus e sua consciência" permitiram, mas acabou sendo intimidada a assinar um documento concordando com todas as demandas de seu pai.[61] Reconciliada com seu pai, Maria retomou seu lugar na corte.[62] Henrique lhe deu uma nova criadagem, que incluía a reinstalação de sua favorita, Susan Clarencieux.[63] Suas despesas na bolsa privada do período mostram que suas principais residências incluíam a Casa Hatfield, o Palácio de Beaulieu e Richmond, além dos palácios de seu pai, Westminster e Hampton.[64] Suas despesas incluíam roupas elegantes e cartas de baralho, um de seus passatempos favoritos.[65] No mesmo ano, os rebeldes no norte da Inglaterra, incluindo João Hussey, ex-camareiro de Maria, fizeram uma campanha contra as reformas religiosas firmadas por Henrique, e uma de suas reivindicações era que Maria fosse considerada legítima novamente.[66] A rebelião, que ficou conhecida como Peregrinação da Graça, foi brutalmente suprimida.[66] Hussey foi executado junto a outros rebeldes; entretanto, não havia sugestões de que a filha do rei estivesse envolvida diretamente.[67] Joana morreu em 1537 ao dar à luz ao único filho do casal, Eduardo VI.[68] Maria tornou-se madrinha de seu meio-irmão e demonstrou-se bastante comovida no funeral da rainha Joana.[69]

Maria em 1544, tempo em que se reconciliou com seu pai e voltou a linha de sucessão inglesa, atrás de seu irmão Eduardo VI.

A partir de 1539, Maria começou a ser cortejada por Filipe, Duque do Palatinado-Neuburgo, porém ele era luterano e sua pretensão não foi bem-sucedida.[70] Tomás Cromwell, principal ministro do rei, negociou durante 1539 uma potencial aliança com o Ducado de Cleves.[71] Sugestões de que ela se casaria com Guilherme, Duque de Jülich-Cleves-Berg, que tinha a mesma idade que ela, terminaram sem resultado;[70] porém foi concordada a união de Ana de Cleves, irmã do duque, com Henrique.[71] Quando o rei viu Ana pela primeira vez, em dezembro de 1539, uma semana antes do casamento, ele não a achou atraente, mas não poderia cancelar o matrimônio por questões diplomáticas e pela falta de um motivo adequado.[72] Cromwell caiu em desgraça e foi preso por traição em junho de 1540. Acusações, consideradas improváveis, sugerem que ele havia conspirado para se casar com a própria Maria, terminando com ele sendo decapitado.[73] Com o descontentamento de Henrique com Ana, o casamento acabou sendo anulado com o consentimento dela, já que não havia sido consumado.[74][75]

Em 1541, Henrique decidiu condenar à morte Margarida Pole, madrinha e antiga governanta de Maria, sob o pretexto que esta estava envolvida em uma conspiração católica, em que seu filho, Reginaldo Pole, também foi implicado.[76] Seu carrasco era "um jovem infeliz e desajeitado" que "literalmente cortou em pedaços sua cabeça e ombros", já que a mesma se recusou a ajoelhar.[77][78] Em 1542, após a execução de Catarina Howard, quinta esposa de Henrique, o rei convidou Maria para comparecer às festividades de natal.[79] Na corte, ela atuou como anfitriã enquanto seu pai não estava casado e sem uma consorte.[80] Toda a família voltou a se aproximar quando, em 1543, Henrique se casou com sua sexta e última esposa, Catarina Parr.[81] Ele colocou Maria e Isabel de volta para a linha de sucessão, atrás de Eduardo, através do Terceiro Ato de Sucessão.[82] No entanto, ambas continuaram legalmente ilegítimas.[83]

Em 1547, Henrique faleceu e Eduardo o sucedeu. Maria herdou propriedades em Norfolk, Suffolk e Essex, recebendo também terras em Hunsdon e o Palácio de Beaulieu como seu direito.[84] Já que Eduardo era menor de idade, um conselho regencial formado por protestantes foi construído e eles tentaram estabelecer sua fé por todo o reino. Por exemplo, o Ato de Uniformidade de 1549 prescrevia ritos protestantes para os serviços religiosos, como o uso do Livro de Oração Comum de Tomás Cranmer.[85][86] No entanto, Maria permaneceu fiel ao Catolicismo e comemorou desafiadoramente a missa tradicional em sua própria capela.[87] Ela apelou para que seu primo, Carlos V, aplicasse pressão diplomática na Inglaterra, exigindo que ela fosse autorizada a praticar sua própria religião.[88]

Durante a maior parte do reinado de Eduardo, Maria permaneceu em suas próprias propriedades e raramente comparecia à corte.[89][90] Um plano secreto para tirá-la da Inglaterra, em julho de 1550, usando como argumento a "segurança da Europa", acabou sem resultado.[91] As diferenças religiosas entre ela e seu meio-irmão continuaram. No natal de 1550, Maria compareceu, junto à sua meia-irmã Isabel, em uma reunião com Eduardo, então com treze anos, onde ele a constrangeu na frente da corte ao reprová-la por ignorar suas leis relacionadas a religião, levando-a às lágrimas.[92] Maria recusou diversas vezes as exigências de Eduardo para que abandonasse o Catolicismo.[93]

Ascensão[editar | editar código-fonte]

Maria ascendeu ao trono inglês após ter deposto sua prima, Joana Grey (foto), que foi proclamada rainha graças à Eduardo VI.

Em 6 de julho de 1553, com apenas 15 anos de idade, Eduardo VI morreu de uma infecção pulmonar, possivelmente tuberculose.[94] Ele não queria que a coroa fosse para Maria, temendo que esta restaurasse o Catolicismo na Inglaterra, além de desfazer as reformas feitas por ele e seu pai, Henrique VIII, e por isso decidiu excluí-la da linha de sucessão.[95] Entretanto, seus conselheiros avisaram que ele não poderia deserdar apenas uma de suas meia-irmãs, teria que deserdar também Isabel, apesar dela seguir o Protestantismo.[96] Desta forma, guiado por João Dudley, 1.º Duque de Northumberland, e talvez outras pessoas, Eduardo decidiu excluir ambas as irmãs da linha de sucessão ao trono da Inglaterra.[97]

Contrariando o Terceiro Ato de Sucessão, que restabelecia Maria e Isabel na linha de sucessão, Eduardo nomeou sua prima de primeiro grau, Joana Grey, como sua sucessora.[94] Joana era filha de Francisca Brandon e neta da irmã mais nova de Henrique VIII, Maria Tudor, que foi rainha da França por 85 dias.[98] Pouco antes da morte do meio-irmão, Maria foi convocada para Londres para visitar seu irmão moribundo. No entanto, ela foi advertida que a convocação era um pretexto para capturá-la e, assim, facilitar a adesão de Joana ao trono.[99] Desta forma, Maria saiu de sua residência em Hunsdon e fugiu para a Ânglia Oriental, onde ela possuía extensas propriedades, onde viviam muitos adeptos do Catolicismo — e também opositores de Dudley.[99] Em 9 de julho de 1553, diretamente de Norfolk, ela escreveu ao conselho privado com ordens expressas para sua proclamação como sucessora de Eduardo.[100]

Em 10 de julho de 1553, Joana foi proclamada rainha por Dudley e seus partidários, dia em que a carta escrita por Maria para o conselho chegou em Londres.[101] Até 12 de julho, Maria e seus partidários haviam reunido uma força militar no Castelo de Framlingham, em Suffolk.[102] O apoio à Dudley foi desmoronando, ao passo em que o de Maria aumentava.[103] Joana foi finalmente deposta em 19 de julho, fazendo-a ser conhecida como a "rainha de nove dias".[104] Ela e Dudley foram aprisionados na Torre de Londres.[105] Em 3 de agosto de 1553, Maria entrou triunfante em Londres, com uma onda de apoio popular.[106] Ela foi acompanhada por sua meia-irmã, Isabel, e uma procissão de mais de 800 nobres e cavalheiros.[106]

Uma das primeira ações de Maria como rainha foi ordenar a libertação dos católicos Tomás Howard, 3.º Duque de Norfolk e Stephen Gardiner, bem como o seu primo de segundo grau, Eduardo Courtenay, que estavam presos na Torre de Londres.[107][108] Maria entendeu que a jovem Joana Grey era unicamente uma peça no esquema de Dudley, com este sendo considerado o único conspirador para impedi-la de ocupar o trono inglês, executando-o.[109] Joana e seu marido, Guilford Dudley, embora considerados culpados, não foram executados, mas continuaram presos na Torre.[110][111] Entretanto, o pai de Joana, Henrique Grey, 1º Duque de Suffolk, foi libertado logo em seguida.[110] Maria foi deixada em uma posição difícil, pois quase todos os conselhos confidenciais estavam implicados para manter Joana no trono.[112] Ela, então, nomeou Gardiner para o conselho e fez dele o Bispo de Winchester e Lord Chancellor, títulos que ele manteve até sua morte, em novembro de 1555.[113] Susan Clarencieux, amiga próxima de Maria, tornou-se responsável por suas roupas e joias.[114] Em 1 de outubro de 1553, Gardiner coroou Maria na Abadia de Westminster.[115]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Retrato de Filipe II, feito por Ticiano, enviado à Maria em 1553, durante as negociações de casamento.

Aos 37 anos de idade, Maria voltou sua atenção para encontrar um marido e gerar um herdeiro para a suceder, na tentativa de impedir que a sua meia-irmã protestante, Isabel, chegasse ao trono da Inglaterra após sua morte.[116] Eduardo Courtenay e Reginaldo Pole foram mencionados como futuros pretendentes, mas seu primo, Carlos V, sugeriu que ela se casasse com seu único filho, Filipe II.[116] Filipe era viúvo da princesa Maria Manuela de Portugal, que morreu dias depois de dar à luz ao único filho do casal, o príncipe D. Carlos.[117] Filipe era herdeiro aparente de vastos territórios na Europa Continental e no Novo Mundo.[118] Como parte das negociações de casamento, um retrato do príncipe, feito pelo pintor Ticiano, foi enviado à Maria em setembro de 1553.[119]

Stephen Gardiner e a Câmara dos Comuns pediram para que Maria exitasse em continuar com os planos de matrimônio e considerasse a opção de se casar com um homem inglês, temendo que a Inglaterra fosse relegada a uma dependência dos Habsburgos.[120] O casamento era impopular com a população inglesa;[121] Gardiner e seus aliados se opuseram a ele com base no patriotismo, enquanto os protestantes foram motivados pelo medo do aumento do Catolicismo no reino.[122] Maria permaneceu insistindo em seu casamento com Filipe, causando protestos de imediato. Thomas Wyatt conduziu uma revolta popular, iniciada em Kent, para depor Maria em favor de sua meia-irmã, Isabel.[123] O protesto ficou conhecido como Rebelião de Wyatt,[124] sendo apoiado por Henrique Grey, 1º Duque de Suffolk, pai de Joana Grey.[125] Maria declarou publicamente que iria convocar o Parlamento para discutir se o casamento era desvantajoso para o reino e, se fosse, ela iria se abster em prossegui-lo.[126][127] Ao chegar em Londres, Wyatt foi derrotado e capturado. Assim, ele, Henrique Grey, Joana, bem como o seu marido, Guilford Dudley, foram sumariamente executados.[125] Isabel, apesar de negar envolvimento nos planos de Wyatt, foi presa na Torre de Londres por dois meses e depois colocada em prisão domiciliar no Palácio de Woodstock.[128]

Maria era — excluindo os breves e disputados reinados da Imperatriz Matilde e de Joana Grey — a primeira rainha a obter sucesso na reivindicação ao trono da Inglaterra.[129] Além disso, de acordo com a doutrina inglesa de jure uxoris, a propriedade e os títulos pertencentes a uma mulher tornam-se direitos de seu marido, o que fazia os ingleses temerem que qualquer homem com quem ela se casasse se tornaria, de fato e de nome, o rei da Inglaterra.[130] Apesar dos avós de Maria, Fernando e Isabel, terem mantido a soberania de seus próprios reinos durante o casamento, não havia nenhum precedente a seguir no reino.[131] De acordo com os termos de casamento da rainha Maria, Filipe deveria ser denominado "Rei da Inglaterra" e todos os documentos oficiais, incluindo os Atos do Parlamento, deveriam ser datados com ambos os seus nomes.[132] Entretanto, todos os termos só eram válidos durante a vida de Maria.[133] A Inglaterra também estava isenta de declarar apoio militar ao pai de Filipe em qualquer guerra, e este não poderia agir sem o consentimento da esposa, bem como nomear estrangeiros para cargos no reino.[134] Filipe não estava satisfeito com as condições impostas, mas estava disposto a concordar com elas para garantir o casamento.[135] Ele não tinha sentimentos amorosos em relação a Maria e buscava o casamento unicamente pelos ganhos políticos e estratégicos. O assessor de Filipe, Rui Gomes da Silva, escreveu à um correspondente de Bruxelas que "o casamento foi concluído não por consideração carnal, mas a fim de solucionar as desordens deste reino e preservar os Países Baixos".[136]

Para colocar seu filho no nível de Maria, o imperador Carlos V cedeu a Filipe o Reino de Nápoles, bem como sua reivindicação ao Reino de Jerusalém.[137] Portanto, Maria se tornou rainha dos dois reinos após o seu casamento.[138] O matrimônio ocorreu na Catedral de Winchester, em 25 de julho de 1554, apenas dois dias após o primeiro encontro do casal.[139] Filipe não falava inglês e, desta forma, eles se comunicavam em uma mistura de espanhol, francês e latim.[140]

Gravidezes psicológicas[editar | editar código-fonte]

Retrato de Maria e Filipe, por volta de 1558. O fato da rainha não engravidar foi ridicularizado na Europa.

Em setembro de 1554, Maria parou de menstruar. Ela ganhou peso e sentia náuseas, principalmente pela manhã. Por estas razões, quase toda a corte, incluindo os médicos, acreditavam que ela estava grávida.[141] Além disso, o Parlamento da Inglaterra aprovou um ato que tornava Filipe regente em caso da morte de Maria durante o parto.[142] Na última semana de abril de 1555, Isabel foi libertada da prisão domiciliar e convocada como testemunha do nascimento do sobrinho, que era esperado a qualquer momento.[142] De acordo com Giovanni Michieli, embaixador de Veneza, Filipe poderia estar planejando se casar com Isabel no caso da morte de Maria no parto.[143] Entretanto, em uma carta ao cunhado, Maximiliano II, ele expressava incerteza sobre a gravidez de sua esposa.[144]

Os serviços de Ação de Graças na diocese de Londres foram realizados no final de abril, depois de falsos rumores de que Maria havia dado à luz a um filho foram espalhados pela Europa.[142] Por volta de maio e junho, o aparente atraso no parto alimentou fofocas de que Maria, na verdade, não estava grávida.[144] Susan Clarencieux revelou suas dúvidas ao embaixador francês Antoine de Noailles.[145] Maria continuou a exibir sinais de gravidez até julho de 1555, quando seu abdômen diminuiu. Não havia bebê.[146] Michieli ridicularizou o fato, dizendo que a gravidez havia "acabado em vento ao invés de outra coisa".[142] Provavelmente, esta teria sido uma gravidez psicológica, induzida pela grande vontade da rainha em ter um filho.[142] Em agosto, logo após a "desgraça" da falsa gravidez, que Maria considerava "ser um castigo de Deus" por ter "tolerado heréges" em seu reino,[142] Filipe deixou a Inglaterra para comandar seus exércitos contra a França em Flandres.[147] Maria estava de coração partido e caiu em uma profunda depressão.[148] Michieli ficou tocado pelo sofrimento da rainha, e reconhecia que ela estava "extraordinariamente apaixonada" pelo marido e "inconsolável" com sua partida.[148]

Isabel permaneceu na corte até outubro, aparentemente havia sido restaurada na corte.[149] Na ausência de filhos no casamento, Filipe estava preocupado com o fato de que um dos seguintes requerentes do trono inglês depois de sua cunhada era Maria Stuart, Rainha da Escócia, que estava noiva de Francisco, Delfim da França.[150] Filipe persuadiu sua esposa de que Isabel deveria se casar com seu primo, Emanuel Felisberto, Duque de Saboia, para garantir a sucessão católica e preservar os interesses dos Habsburgo na Inglaterra, mas Isabel se recusou e o consentimento parlamentar era improvável.[150] Durante visitas recorrentes de Filipe em 1557, Maria pensou que estava grávida novamente, com um bebê podendo nascer até março de 1558.[151] Ela decretou por sua própria vontade que o marido seria regente durante a menoridade de seus filhos.[152] No entanto, nenhuma criança nasceu e Maria foi forçada a aceitar que Isabel era sua legítima sucessora.[150]

Morte e sucessão[editar | editar código-fonte]

Maria por Hans Eworth.

Após sua segunda gravidez psicológica, Maria estava fraca e doente em maio de 1558.[153] Em seus últimos dias, ela "confortou todos aqueles que se afligiam por seu estado [de saúde]"[154] e lhes contou que bons sonhos ela teve, onde "muitas crianças pequenas, como anjos, tocavam e cantavam notas agradáveis para ela".[155] Antes da meia noite de quarta-feira, Maria teve seus últimos rituais em seus aposentos no Palácio de St. James.[154] Às seis horas da manhã de 17 de novembro, antes do amanhecer de um dia de outono, Maria foi à missa, como fazia diariamente.[155] Em dias difíceis ou triunfantes, os rituais da Igreja Católica foram o seu maior conforto.[156] Ela ainda era capaz de fazer as rezas em voz alta; sua voz profunda era mais forte que as lágrimas abafadas de seus atendentes.[156] Após o término, por volta das sete da manhã, a rainha foi descansar.[155] Sua partida foi tão pacífica que aqueles que a rodeavam não perceberam, à princípio, que ela havia falecido.[156] Maria tinha 42 anos e cisto ovariano ou câncer de útero são consideradas como a causa de sua morte.[157]

Um mensageiro foi até Bruxelas para avisar Filipe da morte de sua esposa.[157] Em 21 de setembro, seu pai, Carlos V, também havia falecido. Em uma carta para sua irmã, Joana, Princesa de Portugal, Filipe esboçava desespero: "Você consegue imaginar no estado que estou [...] Parece que tudo está caindo sobre mim de uma vez".[158] Quanto a morte de sua esposa, ele acrescentou: "Que Deus a receba em Sua glória! Eu sinto um pesar razoável por sua morte. Devo sentir sua falta, mesmo nessas circunstâncias".[159] Isabel ouviu sobre as notícias da morte de sua irmã calmamente, até cair de joelhos e chorar copiosamente.[158] Quando o Parlamento da Inglaterra ficou sabendo de sua morte, qualquer tristeza que possa ter sido sentida foi rapidamente ofuscada pela alegria de ter uma nova rainha.[158] Embora Maria tenha declarado que sua vontade era ser enterrada ao lado de sua mãe, em Peterborough, ela foi enterrada na Abadia de Westminster em 14 de dezembro, em uma tumba que eventualmente compartilharia com Isabel.[160] Na cripta de ambas está escrito em latim a seguinte frase: "Parceiras tanto no trono como no túmulo, irmãs Isabel e Maria, aqui deitamos para dormir com esperança de ressurreição".[n 2][161]

Com 25 anos de idade, Isabel foi proclamada rainha pela primeira vez por arautos que se dirigiram à Whitehall e fizeram o anúncio antes mesmo do prefeito ou de conselheiros da cidade.[162] No meio da tarde, "todas as igrejas de Londres tocavam o sino, e a noite fizeram fogueiras e colocavam mesas na rua para comer e beber em homenagem à nova rainha Isabel, irmã da rainha Maria".[162] Em sua entrada triunfante percorrida pela cidade, ela foi recebida calorosamente pelos cidadãos, saudada por orações e discursos, a maioria deles sendo de protestantes.[163] Em 15 de janeiro de 1559, Isabel foi finalmente coroada e ungida por Owen Oglethorpe, bispo católico, na Abadia de Westminster. Ela então foi apresentada para a aceitação do povo, em meio a um ruído ensurdecedor de órgãos, trompetas, baterias e sinos.[164]

Políticas[editar | editar código-fonte]

Religiosa[editar | editar código-fonte]

Tomás Cranmer foi um dos protestantes condenados à fogueira no que ficou conhecido como perseguições marianas.

No mês seguinte à sua ascensão ao trono inglês, Maria publicou uma proclamação onde afirmou que não obrigaria nenhum de seus súditos a seguir sua religião;[165] entretanto, no final de setembro de 1553, líderes de igrejas protestantes — incluindo Tomás Cranmer — foram presos.[166] O primeiro decreto de Maria, que aconteceu em outubro, validava o casamento de seus pais e abolia todas as leis religiosas implantadas por seu irmão, Eduardo VI.[167][168] A doutrina da igreja foi restaurada na forma que criava os novos Trinta e Nove Artigos de Religião, que (entre outras coisas) reafirmavam o celibato clerical.[169] Os sacerdotes casados foram privados de seus benefícios.[170]

Maria sempre rejeitou a ruptura com Roma instituída por seu pai, Henrique VIII, e o estabelecimento do Protestantismo pelo seu irmão no reino.[171] Filipe persuadiu o Parlamento da Inglaterra a revogar as leis religiosas de Henrique, devolvendo para a Igreja Anglicana a jurisdição romana.[171] Alcançando um acordo que demorou meses, Maria e o Papa Júlio III tiveram que fazer uma grande concessão: as terras do mosteiro confiscadas por Henrique não seriam devolvidas à igreja, mas permaneceriam nas mãos de seus novos proprietários influentes.[172] No final de 1554, o Papa aprovou o acordo e os atos contra a heresia foram reaprovados.[173]

Após a aprovação dos atos, um grande número de protestantes foram executados no que ficou conhecido como perseguições marianas. Entretanto, cerca de 800 protestantes ricos, incluindo John Foxe, conseguiram exílios em outros países.[174] As primeiras execuções ocorreram durante um período de cinco dias no início de fevereiro de 1555.[175] Tomás Cranmer foi obrigado a assistir outros bispos serem mortos na fogueira.[176] Cranmer recuou, rejeitou a teologia protestante e voltou a fé católica.[177][178] Sob o processo normal da lei, ele deveria ter sido absolvido como um arrependido. Maria, no entanto, recusou-se.[179] No dia de sua morte, ele voltou atrás e classificou o Catolicismo como uma "falsa doutrina".[180][177] No total, 283 pessoas foram mortas, a maioria na fogueira.[181] A morte na fogueira se mostrou tão impopular que até mesmo Alfonso de Castro, um dos funcionários eclesiásticos de Filipe, os condenou.[182][183] Simon Renard, diplomata da Inglaterra, alertou que tal "aplicação cruel" poderia "causar uma revolta".[184] A política de Maria continuou até sua morte e pode ter exacerbado o sentimento anticatólico e antiespanhol entre a maioria dos ingleses.[185] As vítimas das perseguições são classificadas como mártires.[182] Para substituir Cranmer, Reginaldo Pole, filho da governanta de Maria, Margarida, se tornou sacerdote e foi nomeado arcebispo da Cantuária.[186]

Internacional[editar | editar código-fonte]

Para reforçar a conquista Tudor da Irlanda, sob o reinado de Maria, os colonos ingleses foram instalados onde hoje é localizado os Condados de Laois e Offaly, iniciando então sua colonização.[187] Uma das principais cidades da Irlanda na época era chamada de Maryborough (agora Port Laoise).[188] Em janeiro de 1556, o sogro de Maria, Carlos V, abdicou ao trono espanhol e seu marido foi proclamado rei, mas ela permaneceu na Inglaterra.[189] Filipe negociou uma trégua instável com os franceses em fevereiro de 1556.[190] No mês seguinte, o embaixador da França na Inglaterra, Antoine de Noailles, entrou em uma trama contra Maria quando, Henrique Dudley, primo de segundo grau do falecido João Dudley, 1.º Duque de Northumberland, tentou montar uma força de invasão na França.[191] A trama foi denunciada e os conspiradores na Inglaterra foram sentenciados, Dudley ficou exilado na França e Noailles deixou o reino.[191]

Filipe retornou à Inglaterra em março de 1557 para persuadir Maria a apoiar a Espanha em uma nova guerra contra a França.[192] A rainha foi a favor da declaração de guerra, mas seus conselheiros se opuseram a isso pois o comércio francês seria comprometido, violaria o tratado matrimonial e um legado econômico ruim herdado do reinado de Eduardo VI, bem como uma série de colheitas deficientes significava que a Inglaterra não tinha suprimentos e recursos financeiros.[193] A guerra só foi declarada em junho de 1557, quando o sobrinho de Reginaldo Pole, Thomas Stafford, invadiu a Inglaterra e ocupou o Castelo de Scarborough com a ajuda das forças francesas em uma tentativa fracassada de depor Maria.[194][195] Como resultado da guerra, as relações entre a Inglaterra e o papado tornaram-se tensas, já que o Papa Paulo IV era aliado de Henrique II da França.[196] Em janeiro de 1558, as forças francesas tomaram Calais (atual Bolonha-sobre-o-Mar), a única posse restante da Inglaterra no continente europeu.[197] Embora o território tenha sido financeiramente oneroso, foi uma perda ideológica que danificou o prestígio de Maria.[197][198]

Comercial[editar | editar código-fonte]

O reinado de Maria foi caracterizado pela grande umidade. A chuva persistente e as inundações subsequentes elevaram o número de pessoas atingidas pela fome na Inglaterra.[199] Outro problema foi o declínio do comércio de tecidos da Antuérpia.[200] Apesar do casamento de Maria com Filipe, a Inglaterra não se beneficiava do comércio grandiosamente lucrativo da Espanha com o Novo Mundo.[201] Os espanhóis guardavam suas rotas comerciais com bastante sigilo, e Maria não tolerava o comércio ilícito ou a pirataria, principalmente contra o marido.[202] Na tentativa de aumentar o comércio e resgatar a economia inglesa, os conselheiros de Maria continuaram com a política implantada por João Dudley, 1.º Duque de Northumberland, cuja mesma tinha a finalidade de buscar novas oportunidades comerciais. Desta forma, ela concedeu uma carta régia à Companhia de Moscóvia — governada por Sebastião Caboto —,[203] além de ter encomendado um atlas mundial de Diogo Homem.[204] Aventureiros como John Lok e William Towerson acabaram ganhando a oportunidade de navegarem pelo sul na tentativa de desenvolver rotas com a costa da África.[205]

Financeiramente, o reinado de Maria tentou conciliar uma forma moderna de governo com despesas correspondentemente mais elevadas, além de um sistema medieval de coleta de impostos e dívidas.[206] A rainha manteve no cargo William Paulet, 1º Marquês de Winchester como Lord High Treasurer — cargo que o mesmo ocupava desde o reinado de Eduardo VI — para que ele supervisionasse o sistema de cobrança de receita.[207] A falta de aplicação de taxas para novas formas de importação significou que uma grande fonte chave de receita foi negligenciada.[207] Para resolver o problema, o governo de Maria publicou o Livro das Taxas (1558), que enumerava as tarifas a serem pagas e os direitos sobre cada importação. Essa publicação permaneceu sem alterações até 1604.[208] O sistema monetário inglês entrou em degradação durante os reinados de Henrique VIII e Eduardo VI.[209] Em seus primeiros anos como rainha, Maria redigiu planos para a reforma monetária, mas estes não foram implementados até a sua morte.[208]

Legado[editar | editar código-fonte]

Maria é reconhecida por seu papel na restauração do Catolicismo e perseguição aos protestantes, o que a mantém, desde então, na cultura popular por mais de cinco séculos.

Em seu funeral, John White, bispo de Winchester, louvou Maria: "Ela era a filha do rei, a irmã do rei e a esposa do rei. Ela era uma rainha e também, pelo mesmo título, um rei".[210] Ela é lembrada como a primeira mulher a reivindicar com sucesso o trono da Inglaterra, apesar das reivindicações concorrentes e oposição determinada.[211] Além disso, desfrutou de apoio popular e simpatia de seus súditos durante os primeiros anos de seu reinado, especialmente por parte dos católicos romanos da Inglaterra.[212]

Os escritores protestantes da época tornaram a visão sobre ela altamente negativa. John Knox a atacou no livro The First Blast of the Trumpet Against the Monstruous Regiment of Women (1558), que usava como argumento a premissa de que, de acordo com a sua compreensão da Bíblia, "Deus, pela ordem de sua criação, privava as mulheres de autoridade e domínio".[213] Ela também foi vilipendiada em Book of Martyrs (1563), escrito por John Foxe.[214] As edições subsequentes do mesmo permaneceram populares entre os protestantes ao longo dos séculos seguintes e ajudaram a moldar percepções duradouras de que Maria era, na verdade, uma tirana sanguinária.[215][216] O livro de Foxe também ajudou a moldar o epíteto de "Maria Sangrenta", que viria se tornar uma lenda urbana nos Estados Unidos, cuja história tem entre suas versões a vida da rainha Maria.[217]

Maria é lembrada no século 21 por seus vigorosos esforços para restaurar o Catolicismo na Inglaterra, cuja religião havia sido minimizada pelo curto reinado de seu meio-irmão, Eduardo VI.[218] Os historiadores protestantes criticam seus esforços, enfatizando que em apenas cinco anos atuando como rainha, ela condenou à morte na fogueira centenas de protestantes, episódio que ficou marcado como perseguições marianas.[181] Em meados do século 20, H. F. M. Prescott tentou corrigir o pensamento de que Maria era intolerante e autoritária, escrevendo de forma mais objetiva sobre a atuação dela como rainha, gerando avaliações à seu respeito mais simples, partidárias e com maior ceticismo.[219] Revisionismos historiográficos desde a década de 1980 tem, até certo ponto, melhorado sua reputação entre os estudiosos.[220] Christopher Haigh, professor da Universidade de Oxford, argumentou que o seu avivamento das práticas católicos eram, na época, bem-vindas.[221] Haigh concluiu que "os últimos anos do reinado de Maria não foram uma preparação horripilante para a vitória protestante, mas uma consolidação contínua da força católica".[221]

Historiadores católicos, como John Lingard, concluíram que as políticas de Maria falharam não porque estavam erradas, mas porque ela teve um reinado muito curto para estabelecê-las e por conta dos desastres naturais que iam além do seu controle.[222] Seu casamento com o espanhol Filipe II era impopular entre a população da Inglaterra, e as políticas religiosas de ambos resultaram em um ressentimento profundo.[223] As colheitas fracassadas presentes no reinado de Maria aumentaram o descontentamento público.[224] Filipe passou a maior parte do casamento no estrangeiro, o que tornou a rainha uma pessoa deprimida,[148] e o fato de não ter tido filhos a tornou triste.[225] Embora o seu governo seja frequentemente classificado como ineficaz e impopular, as políticas de reforma fiscal, expansão naval e exploração colonial, que são creditadas como realizações elisabetanas, começaram no reinado de Maria.[226] Além disso, após a revogação do Ato de Sodomia de 1533 — em seu primeiro ano no trono inglês — ela é reconhecida por historiadores como a única monarca a não criminalizar a homossexualidade desde que a lei foi instalada.[227] O ato foi reinstalado por Isabel I em 1563,[227] permanecendo até 1967.[228]

Maria foi retratada na cultura popular diversas vezes. Ela foi tema de diversos livros ao longo dos anos, incluindo Mary Tudor (1833) por Victor Hugo,[229] The Queen's Fool (2004) por Philippa Gregory[230] e Wolf Hall (2009) de Hilary Mantel.[231] Além disso, sua história foi parodiada no episódio "Margical History Tour" da série de animação The Simpsons, onde a personagem Lisa Simpson é culpada do divórcio de seus pais, por ter "nascido no sexo errado".[232] Sarah Bolger também deu vida a Maria na série de televisão The Tudors, exibida pela BBC Two, cuja mesma foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Série Dramática, em 2007.[233]

Títulos, estilos e brasões[editar | editar código-fonte]

Brasões de Maria em junção com os de seu marido, Filipe II.

Quando Maria ascendeu ao trono, ela foi proclamada com os mesmos títulos oficiais adquiridos por Henrique VIII e Eduardo VI: "Maria, pela graça de Deus, Rainha da Inglaterra, França e Irlanda, Defensora da Fé e Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra e da Irlanda".[234] Este último título era repugnante ao Catolicismo, religião praticada por Maria, e ela decidiu omiti-lo no Natal de 1553.[235]

Sob os termos de casamento entre Maria e Filipe, os títulos oficiais conjuntos refletiam não apenas para os domínios e reivindicações da parte dela, mas também da parte dele: "Filipe e Maria, pela graça de Deus, Rei e Rainha da Inglaterra, França, Irlanda, Nápoles e Jerusalém, Defensores da Fé, Príncipes da Espanha e Sicília, Arquiduqueses da Áustria, Duques de Milão, Borgonha e Brabante, Condes de Habsburgo, Flandres e Tirol".[236][237] Esse estilo, entretanto, sofreu mudança quando Filipe ascendeu ao trono espanhol, em 1556, alterando para: "Filipe e Maria, pela graça de Deus, Rei e Rainha da Inglaterra, Espanha, França, Irlanda, Duas Sicílias e Jerusalém, Defensores da Fé, Arquiduques da Áustria, Duques de Milão, Borgonha e Brabante, Condes de Habsburgo, Flandres e Tirol".[238]

O brasão de armas da rainha Maria era o mesmo usado por todos os seus antecessores desde Henrique IV: um quartel esquartelado em azure, três flor-de-lis em or (para a França) e gules, bem como três leões em guarda em pala (para a Inglaterra).[239] Seu brasão era, algumas vezes, mostrado em junção com o de seu marido.[240] Maria adotou como seu lema a frase: "Verdade, a Filha do Tempo".[n 3][241]

Árvore genealógica[editar | editar código-fonte]

Ricardo, Duque de Iorque
Cecília Neville
Eduardo IV
Jorge, Duque
de Clarence
Isabel I
Fernando II
Henrique VII
Isabel de Iorque
Margarida Pole,
8.ª Condessa de Salisbury
Joana de Castela
Maria de Aragão
Catarina de Aragão
Henrique VIII
Margarida Tudor
Maria Tudor
Reginaldo Pole
Carlos V
Isabel de Portugal
Jaime V
Francisca Brandon
Filipe II
Maria I
Isabel I
Eduardo VI
Maria
Joana Grey

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Em inglês: Bloody Mary.
  2. Em latim: Regno consortes et urna, hic obdormimus Elizabetha et Maria sorores, in spe resurrectionis.
  3. Em latim: Veritas Temporis Filia.

Referências

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18 de fevereiro de 1516 – 17 de novembro de 1558
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