Marie Van Langendonck

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Marie Van Langendonck
Nascimento 7 de outubro de 1798
Antuérpia
Morte 6 de junho de 1875 (76 anos)
Arroio Grande
Cidadania Bélgica
Ocupação escritora, poetisa

Marie Barbe Antoinette Rutgeerts Van Langendonck (Antuérpia, 7 de outubro de 1798Gravataí, 6 de junho de 1875) foi uma poetisa e escritora belga.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Era filha de Carolus Rutgeerts e Marie Joséphine Philomène Linee Rutgeers. De pequena nobreza, teve excelente educação.[1] Casou-se em 1827 com Jean Van Langendonck, oficial do Régiment de Guides e diretor do hospital militar de Charleroi.[1]

Publicações[editar | editar código-fonte]

Brasil, te revejo após três anos de ausência

No entanto te deixei para não mais voltar,
Mas a força de tua atração eu ignorava,
Pensei apenas uma lembrança de ti levar.
Mas debaixo deste outro céu, o céu de minha pátria,
Tive frio: de teu horizonte de fogo senti saudades
Da majestosa floresta a que nunca se esquece
Quando ali se viveu somente sob o olhar de Deus.
Salve, ó nova pátria de meus filhos,
Salve. Eu venho recuperar à sombra de tuas florestas
Este lugar ignorado onde minha vida vai acabar
Aonde eu irei, pela última vez, abençoá-los.”
O Retorno[2]

Publicou dois livros de poesia: Aubepines, editado em 1841, e Heures poétiques, editado em 1846.[1] Quando ficou viúva, em 1857, decidiu renunciar à vida confortável em seu país natal e emigrou para o Brasil,[1] onde seus dois filhos tinham vindo para trabalhar como colonos. Na verdade, os filhos integraram um projeto de colonização, a colônia Harmonia, às margens do rio Jacuí, proposto pelo conde belga de Montravel, projeto que, mais tarde, teria malogrado.[1]

Madame Van Langendonck escreveu um diário relatando suas experiências em terras brasileiras, no período em que residiu em no Rio Grande do Sul, entre os anos de 1857 e 1859.[3] Sua narrativa era muito viva e colorida, cheia de observações inteligentes sobre o país, as colônias, os emigrantes e o governo brasileiro.[1] Findos os dois anos, retornou à Europa. Saudosa, três anos depois reuniu-se novamente aos filhos, já fixados na colônia Harmonia.[1] A saudade está expressa no poema intitulado O Retorno (1863).

O livro com o relato da experiência brasileira, foi publicado na Bélgica em 1862, sob o título de Une colonie au Brésil (Uma Colônia no Brasil).[1]. Quando publicou o livro na Bélgica, incluiu o subtítulo 'Relatos históricos', razão pela qual pode-se afirmar que a autora desejava participar do gênero sério, dominado pelos historiadores e naturalistas. Ela tinha a intenção de que sua narrativa fosse autêntica, até certo ponto impessoal; entretanto, com frequência, resvalou para relatos próprios de diário íntimo, para observações de cunho pessoal. Um bom exemplo é um fato que ocorreu a caminho da cabana dos filhos e que lhe deu a oportunidade de falar do seu afeto por cães. Encontrando um cão de origem desconhecida, contou ela: "malgrado as prudentes advertências de nosso guia, dirigi-me diretamente ao cão, que, sem desconfiança, se deixou abordar e acariciar com um prazer evidente. Seu olhar doce convidava-nos positivamente a segui-lo".[1]

Sua descrição de Porto Alegre é diferente das descrições dos viajantes que, em geral, decepcionavam-se com a chegada às cidades brasileiras:

"Porto Alegre é uma bela cidade, inteiramente nova, construída em um terreno acidentado, perto do confluente de quatro rios, que formam uma quase ilha. Aí, o ar é salubre, as ruas, direitas e bem pavimentadas. O alto comércio é reservado aos alemães e aos portugueses: estes representam os judeus da Europa. Entre eles, tudo o que produz um ganho qualquer é justificado por suas relações. Por conseguinte, todos enriquecem. Chegando de ordinário ao Brasil com uma mão atrás e outra adiante, eles começam por vender aguardente de cana (cachaça) aos negros, cujos roubos compram ou receptam.[...]
A aristocracia é representada, em Porto Alegre, por verdadeiros índios, brasileiros puro-sangue. Povo um pouco indolente, porém dócil, benevolente e de uma boa-fé incontestável. Hospitaleiro com tato e delicadeza, ele se esmera em tornar seu país agradável aos estrangeiros, cujos sufrágios lhe dão prazer. No entanto, não lhe aponte melhoras a introduzir em seu governo ou em suas administrações; ele lhe escutará sem acreditar em você e lhe responderá sorrindo: Paciência.
Os alemães que, pela perseverança e o trabalho adquiriram, no Brasil, um grande conforto ou fortuna, permanecem simples e dignos, muito unidos entre si e educam perfeitamente seus filhos."[4]

O livro, no Brasil, foi traduzido e editado em Campinas mais de 100 anos depois, em 1990. Teve duas reedições, uma, em 2002, pela Editora Mulheres, de Florianópolis, e outra, em 2008, na Bélgica, que teve por base a versão original de 1883, pela Editions Biliki, cujo editor conheceu o livro a partir da edição brasileira.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k A paixão das florestas ou as viagens de Mme. van Langendonck, por Zahidé Lupinacci Muzart Acessado em 4 de novembro de 2016
  2. LANGENDONCK, 2002. Este poema tem seis estrofes, foi traduzido por Paula Berinson e está publicado na contracapa da edição da Editora Mulheres.
  3. A atração pelo desconhecido e a visão da América na obra de Marie van Langendonck, por Pamela Pinto Chiareli Fachinelli, Joana Luiza Muylaert de Araújo e Fani Miranda Tabak Acessado em 4 de novembro de 2016
  4. LANGENDONCK, 2002, p. 29.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]