Marietta Baderna
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| Marietta Baderna Baderna Franca Anna Maria Mattea | |
|---|---|
![]() Litografia de Baderna aos 16 anos | |
| Nome completo | Marietta Baderna Giannini |
| Outros nomes | Maria Baderna |
| Nascimento | 8 de julho de 1828 |
| Morte | |
| Causa da morte | câncer uterino |
| Nacionalidade | italiana |
| Progenitores | Mãe: Luigia Guani Pai: Antonio Baderna |
| Cônjuge | Gioacchino Giannini |
| Filho(a)(s) | 3 |
| Ocupação | bailarina, dançarina |
| Período de atividade | 1839 – 1884 |
Marietta Baderna Giannini (nascida Baderna Franca Anna Maria Mattea; Castel San Giovanni, 8 de julho de 1828 – Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1892)[1] foi uma bailarina italiana, radicada no Brasil em 1849. Casou-se com o maestro Gioacchino Giannini no Rio de Janeiro e suas apresentações tornaram-se populares na cidade, onde seu sobrenome entrou para o vocabulário do português brasileiro como sinônimo de "confusão".[2][3][4][5]
Desde cedo teve a inclinação para a dança incentivada pelo pai e, aos treze anos, fez sua estreia nos palcos no Teatro Municipal de Piacenza.[3][1] Foi aluna do coreógrafo Carlo Blasis e tornou-se membro principal do corpo de baile da Imperial Academia de Dança e Pantomima do Teatro alla Scala de Milão.[5] Baderna era considerada uma das maiores bailarinas da Europa já na adolescência, arrebatando plateias dos principais teatros da Itália e da Inglaterra.[6]
Quando em plena ocupação austríaca na Itália e em meio ao movimento democrático que corria na conturbada Europa nos meados do século XIX,[7] os rebeldes revolucionários mantinham como forma de protesto a decisão de que não houvesse vida artística na Itália enquanto durasse a ocupação.[8] Nesse contexto, Antônio e sua filha cruzam o Atlântico com uma companhia de dança em direção à então capital do Brasil Império, Rio de Janeiro,[7] e desembarcaram em exílio em 1849.[8]
Movida por seu talento, Baderna estreou nos palcos brasileiros e seu sucesso foi um acontecimento muito celebrado à época,[8] e "baderna" tornou-se sinônimo de "beleza", mas posteriormente, recebeu críticas por parte da elite conservadora ao introduzir, entre os passos do balé clássico, gestos do lundu, da umbigada e de outras danças afro-brasileiras. Em meio a essa polêmica, aqueles que defendiam sua dança, passaram a ser chamados de "badernas"[7][9] e a palavra "baderna" mudou o seu significado e tornou-se sinônimo de "confusão" ou "tumulto".
Biografia
[editar | editar código]Primeiros anos e juventude
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Baderna nasceu em 8 de julho de 1828 em Castel San Giovanni — atual província de Placência —, filha do cirurgião Antonio Baderna e de Luigia Guani.[1] Aos onze anos de idade, iniciou os estudos de ballet na escola de dança de Carlo Blasis, estreando aos treze anos no Teatro Municipale di Piacenza. Passou a atuar em diferentes palcos europeus, de Londres a Milão onde, posteriormente, passaria a fazer parte da Imperial Régia Academia de Dança do Teatro alla Scala,[10][1] já se destacando como "Prima Ballerina Assoluta" (Primeira Bailarina Absoluta) com sucesso por toda a Itália e participando de diversas turnês em outros países europeus.[8]
Em 1847, apresentou-se na Inglaterra tendo uma temporada de sucesso na Royal Opera House, no distrito de Covent Garden em Londres.
Voltou para a Itália, mas o clima político obrigou-a a deixar o país. Na época, seu país estava dividido e uma parte sob a dominação da Áustria. Jovem ainda, Baderna chegou a contribuir financeiramente para as conspirações patrióticas e pela unificação; ela e seu pai eram seguidores de Giuseppe Mazzini, líder do movimento republicano, derrotado pelos monarquistas e austríacos após a Revolução de 1848, também chamada de Primavera dos Povos.[5][6] Com a derrota do movimento revolucionário que varreu a Europa, e para fugir às represálias, ela e o pai Antônio Baderna, que havia participado das revoltas, se auto-exilam no Brasil.
Um mês antes de Baderna completar 21 anos, recebe convite do maestro Gioacchino Giannini, encarregado de reunir e contratar artistas na Itália sob encomenda do empresário Manuel José de Araújo do Theatro São João[1] para se apresentarem no Brasil. Assim, embarca juntamente com o pai no navio italiano Andrea Doria, partindo de Gênova em 5 de junho de 1849.[6][11]
Vida no Brasil
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Baderna desembarcou no Rio de Janeiro em 1º de agosto de 1849 juntamente com outras 55 pessoas do corpo de baile — a troupe da Companhia Lírica Italiana, seus familiares e maestros.[1] Faz sua estreia em 28 de setembro de 1849 no balé Il Ballo delle Fate ("O Lago das Fadas"), coreografado por Giuseppe Villa, causando grande comoção na sociedade e recebendo uma série de críticas positivas, publicadas em vários jornais do Rio de Janeiro.[11][8]
Seu pai, Antonio Baderna, atuou como seu empresário e também como ferrenho defensor dos direitos da bailarina perante os problemas financeiros com os proprietários do teatro. [1] No ano seguinte, em 1850, cidade seria acometida por uma epidemia de febre amarela e diversos integrantes da companhia teatral, como também seu pai, vieram a falecer.[10] Considerada como a grande bailarina do Romantismo brasileiro, Baderna chegou a ter uma das maiores remunerações do teatro após a morte de seu pai.[10]
Suas apresentações foram incorporando danças afro-brasileiras, como o lundu e a umbigada, apesar de serem consideradas "escandalosas" para a sociedade escravista brasileira, faziam sucesso, lhe garantindo um grupo de fãs ardorosos. As manifestações exaltadas desses fãs garantiram-lhes o nome de "badernistas", e a palavra "baderna" tornou-se sinônimo de "confusão" ou "tumulto".[3][12]
Talvez por ser conhecedora de danças folclóricas como a cachucha, Baderna tenha se encantado com a sensualidade dessas danças ao ar livre,[11] em locais como o Largo da Carioca, chegando a participar das mesmas com os próprios escravos. Um escândalo para a sociedade escravagista e hipocritamente sexofóbica, como diz seu biógrafo, o jornalista italiano Silvério Corvisieri, que fez uma reconstrução histórica da cidade do Rio de Janeiro e do cotidiano brasileiro de meados do século XIX. Em meio aos ataques, Baderna e os fãs revoltados eram defendidos por figuras como o escritor José de Alencar e o respeitado poeta e editor Francisco de Paula Brito.[6][13]

Sofria represálias nas óperas, sua dança era deixada para o final ou então não renovavam o seu contrato. Os jovens, seus fãs radicalizavam; para protestar contra a direção dos teatros, boicotavam os espetáculos, ou faziam a "pateada" (ato de bater os pés no chão), interrompendo espetáculos no meio e fazendo manifestações ainda mais radicais.[6]
Viúva aos 34 anos, passou um tempo fora dos palcos e, em 9 de maio de 1861, parte com três filhos menores, no paquete inglês Magdalena, com destino a Southampton, Reino Unido.[1] Apresenta-se no Théatre Imperial du Châtelet em Paris na opereta Rothomago, com Les Clowns Du Diable e o Grand Ballet Des Dentelles; também se apresentou no Grand Théatre de Bordeaux.
Retorna ao Brasil com os filhos partindo de Bordeaux, na França em fevereiro de 1864, onde os jornais da época referem como motivo de seu retorno o restabelecimento de sua saúde. É contratada para temporada do mesmo ano até 1865.[1]
Após quase uma década de obscuridade, já em 1874, Baderna reaparece em algumas atuações, passos ou bailados dançados nos intervalos ou ao final de peças dramáticas montadas no Teatro São Luiz no estado do Maranhão, pela companhia Empresa Dramática da atriz baiana Ismênia Santos.[1]
Após se aposentar dos palcos, ministra aulas de dança para moças no Rio de Janeiro como informa em anúncios regulares no Almanaque Laemmert.[1] Em uma edição de 1884, que cita à página 595, o nome de Baderna numa lista de professores de dança "com endereço à Rua do Theatro, 17 e à Travessa da Rainha, 10-B, Engenho Velho".[11] Continou nesse ofício de 1875 até o ano de 1884.[1][6][13]
Morte
[editar | editar código]Segundo certidão de óbito, registrada pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Baderna morreu em decorrência de um câncer uterino em 3 de fevereiro de 1892[1] em sua residência, deixando três filhos: Antonio, Henriqueta e Fanny. Foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier no dia seguinte.[14][15][1]
Homenagens
[editar | editar código]- O nome da bailarina foi adotado em 2010 pelo coletivo formado por mulheres do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP): "Coletivo Feminista Marias Baderna";[10]
- No carnaval de 2013, surgiu o "Bloco Maria Baderna" no município de Contagem, em Belo Horizonte.[10] Criado durante uma ocupação urbana[16] onde, um grupo de artistas e produtores culturais se organizaram para reivindicar melhorias na cultura da cidade e foram tachados de "baderneiros" por um funcionário da Prefeitura de Contagem.[17] Entre os destaques que compõem o bloco, é o próprio boneco da Maria Baderna;[16]
- "Maria Baderna" foi um dos episódios da segunda temporada da série Mulheres Fantásticas exibida em 2019 pelo Fantástico, onde a atriz Leandra Leal fez a narração;[18]
- Baderna também foi enredo da União da Ilha do Governador no carnaval de 2025. BA-DER-NA! Maria do Povo é o título que a escola de samba levou para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí.[19]
Legado
[editar | editar código]Influência no português brasileiro
[editar | editar código]Apesar de certo desconhecimento etimológico, por conta do processo linguístico que transformou um nome próprio num substantivo, o termo "baderna" está devidamente inserido no léxico e na cultura brasileira.[11]
O Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza, editado parcialmente pela Bibliotheca Nacional em 1889, o definiu como substantivo feminino, significando "súcia quase sempre dançante", onde a palavra "súcia" signfica "pessoas de má índole, geralmente os pobres". O exemplo dado no dicionário, clarifica o termo: "Este sujeito leva a noite toda tocando viola no meio de uma baderna de sujeitos conhecidos pelas autoridades do lugar como incorrigíveis" e declarando que a palavra deriva de "Marietta Baderna, célebre dançarina que esteve na Corte em 185… causando furor. 'Badernas' chamam-se seus admiradores e partidários".[nota 1][9][20]
Na atualidade, o Dicionário Aurélio (1986) e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2007), definem a palavra como sinônimo de "bagunça", "anarquia" e "contestação", com ambos reconhecendo o antropônimo de Marietta Baderna.[11]
Ver também
[editar | editar código]Notas
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Rabetti, Maria de Lourdes; Alcure, Adriana Schneider (2 de julho de 2015). «Contribuição dos estudos de caso e da pesquisa indiciária para a história do espetáculo: o lundu que Maria Baderna teria dançado em Recife». São Paulo: USP. Sala Preta. 15 (1): 70-86. ISSN 2238-3867. doi:10.11606/issn.2238-3867.v15i1p54-70. Consultado em 3 de abril de 2026. Cópia arquivada em 27 de abril de 2026
- ↑ Calsavara, Katia (31 de julho de 2001). «Marietta Baderna vai dos dicionários à biografia § Literatura»
. Folha de S.Paulo. Consultado em 8 de setembro de 2017. Cópia arquivada em 13 de maio de 2026 - 1 2 3 Pimenta, Reinaldo (2002). A casa da mãe Joana: curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas. Rio de Janeiro: Editora Campus. p. 33. ISBN 9788535210514. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025
- ↑ «A origem e o mito da baderna»
. Estadão. 31 de agosto de 2001. Consultado em 25 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 30 de novembro de 2021 - 1 2 3 Avella, Aniello Angelo (1 de janeiro de 2014). Tereza Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. [S.l.]: SciELO - EDUERJ. pp. 210–212. ISBN 9788575114445. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 Bueno, Márcio (27 de junho de 2021). «A Origem Curiosa das palavras: Baderna». Bafafá. Consultado em 25 de agosto de 2021. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025
- 1 2 3 «Maria Baderna § Programação/Bloco de rua». Portal Belo Horizonte. N.d. Consultado em 1 de março de 2026
- 1 2 3 4 5 Paiva, Vitor (27 de agosto de 2018). «A bailarina Baderna e a história de resistência por trás dessa palavra § Arte». Hypeness. Consultado em 23 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 27 de maio de 2022
- 1 2 3 Soares, Dr. Antonio Joaquim de Macedo (1889). baderna. Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza. Rio de Janeiro: Bibliotheca Nacional. p. 65. Consultado em 14 de maio de 2026
- 1 2 3 4 5 Cambruzzi, Bianca Novais (19 de outubro de 2023). «Marietta Baderna - Biografia § Personalidade». Impressões Rebeldes. Consultado em 27 de março de 2026. Cópia arquivada em 10 de abril de 2026
- 1 2 3 4 5 6 Dutra, Robson; Aragão, Vera (julho–dezembro 2011). «O Teatro São Pedro de Alcântara, Maria Baderna e algumas memórias do Rio de Janeiro do século XIX § Artigos» (PDF). Revista InterFACES/Centro de Letras e Artes UFRJ. Rio de Janeiro: 7 Letras. pp. 97–115. ISSN 1516-0033. Consultado em 27 de março de 2026. Cópia arquivada em 6 de setembro de 2025
- ↑ BUENO, Márcio (2003). A Origem Curiosas das Palavras 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio. 264 páginas. ISBN 8503007606
- 1 2 CORVISIERI, Silverio (2001). Maria Baderna - a Bailarina de Dois Mundos. Rio de Janeiro: Editora Record. 240 páginas. ISBN 9788501058034
- ↑ «Convite enterro (anúncio)». Jornal do Commercio (4). 4 de janeiro de 1892. p. 6. Consultado em 25 de novembro de 2018. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2020
- ↑ «Missas». Jornal do Brasil (9). 9 de janeiro de 1892. p. 2. Consultado em 25 de novembro de 2018. Cópia arquivada em 17 de julho de 2019
- 1 2 «Bloco Maria Baderna desfila no Santa Tereza dia 17/2 § Carnaval 2026». Curadoria. 6 de fevereiro de 2026. Consultado em 1 de março de 2026
- ↑ Mello, Alessandra (17 de fevereiro de 2026). «Conheça o bloco que homenageia a responsável pela palavra baderna». Estado de Minas. Consultado em 1 de março de 2026. Cópia arquivada em 8 de março de 2026
- ↑ Reis, João Paulo (29 de novembro de 2019). «Fantástico estreia nova temporada de Mulheres Fantásticas neste domingo; saiba como será». Observatório da TV. Consultado em 4 de abril de 2026
- ↑ «Baderna de Astrid Fontenelle: apresentadora influenciou enredo da União da Ilha». Band.Uol. 8 de janeiro de 2025. Consultado em 16 de fevereiro de 2025. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2025
- ↑ Silva, Paulo Celso da (22 de abril de 2020). «Baderna! Baderna! Baderna!». Jornal Cruzeiro. Consultado em 10 de maio de 2026. Cópia arquivada em 18 de maio de 2026
- Bibliografia
- GIANNINI, Paula (2023). Baderna - O Memoricídio no Dicionário. São Paulo: Palco das Letras. p. 310. ISBN 9786599409998. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025


