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Marina, o Monge

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Marina de Bitínia
Marina, o Monge
Estátua de Santa Marina venerada na cidade italiana de Polistena, Reggio Calabria
Monge e Taumaturga
Nascimento século VIII
Bitínia
Morte c. 750
Líbano
Veneração por Igreja Católica, Igreja Copta, Igreja Ortodoxa, Igreja Maronita
Principal templo Igreja de Santa Maria Formosa
Festa litúrgica 18 de junho e 17 de julho (em Veneza)
Atribuições hábito monástico, crucifixo, lírio e uma criança
Padroeira pessoas injustiçadas, mulheres grávidas e meninas
Portal dos Santos

Santa Marina, o Monge, também conhecida como Santa Marina de Bitínia ou Marina de Alexandria, é uma figura venerada especialmente nas tradições católica e ortodoxa. É lembrada por sua vida de dedicação religiosa e por sua notável trajetória ascética, marcada pela humildade, penitência e firmeza de fé.

Originária da região bizantina da Síria, em área correspondente ao atual Líbano, Santa Marina é citada em diversas fontes hagiográficas que relatam sua escolha pela vida monástica e as provações que enfrentou em nome de sua vocação. Apesar das variações existentes entre essas tradições, seu nome permanece associado à virtude, à renúncia e à busca pela união com Deus, sendo considerada um exemplo expressivo da espiritualidade cristã do Oriente antigo.[1]

História

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Há relatos diversos e, por vezes, controversos sobre a vida de Santa Marina. A tradição mais difundida narra que ela era filha de pais cristãos abastados, e que perdeu a mãe ainda na infância, sendo criada com grande devoção e zelo religioso por seu pai, Eugênio. Quando se aproximava a idade do casamento, o pai desejava retirar-se para o mosteiro de Qannoubine, no Vale do Kadisha, Líbano, após assegurar um bom matrimônio para a filha. Marina, porém, ao descobrir o plano, perguntou-lhe por que ele desejava salvar apenas a própria alma, “deixando a dela se perder”. Diante da resposta do pai — “O que farei contigo, minha filha, se és mulher?” —, Marina afirmou que renunciaria à sua condição visível, vestindo-se como homem para poder servir a Deus. Então, cortou os cabelos, trocou as roupas e assumiu o nome de Marinho. Admirado com a firmeza de fé da filha, Eugênio distribuiu seus bens entre os pobres e partiu com ela para o mosteiro, onde ambos abraçaram a vida monástica.[2][3]

Durante cerca de dez anos, pai e filha viveram em oração, jejum e humildade até que Eugênio faleceu, deixando Marina sozinha. A jovem, perseverante, intensificou ainda mais seu ascetismo e manteve oculto o segredo de ser mulher. Os demais monges, ao perceberem sua voz suave e fragilidade física, atribuíam tais traços à vida de penitência e longas orações.[2][3]

Certa vez, o abade enviou Marina e outros monges a uma viagem para tratar de assuntos do mosteiro. Ao anoitecer, hospedaram-se numa pousada onde também estava um soldado romano de passagem. Este, seduzindo a filha do estalajadeiro, desonrou-a; para ocultar o crime, acusaram falsamente o “monge Marinho” de ser o responsável. Algum tempo depois, descobriu-se que a moça estava grávida, e o pai, tomado de ira, dirigiu-se ao abade para exigir punição. O superior chamou Marina, repreendeu-a duramente, e ela — sem jamais revelar a verdade — aceitou a "culpa" em silêncio, pedindo perdão. Sua humildade e ausência de defesa aumentaram ainda mais a indignação do abade, que a expulsou do mosteiro.[2][3]

Marina permaneceu por anos à porta da comunidade, vivendo como mendiga, suportando o frio, a fome e a vergonha com paciência e oração. Quando a criança nasceu, a filha do estalajadeiro a entregou a Marina, que o criou com amor e sacrifício, alimentando-o com leite de ovelhas e cuidados simples. Após cerca de dez anos, tocado pela compaixão dos monges, o abade permitiu que ela regressasse, impondo-lhe, contudo, severas penitências e as tarefas mais humildes — limpeza, cozinha e transporte de água —, as quais Marina aceitou com devoção exemplar.[2][3]

Aos quarenta anos, já debilitada pela austeridade e pela doença, Marina adoeceu gravemente e, após três dias, faleceu. Quando os monges preparavam seu corpo para o sepultamento, descobriram que “irmão Marinho” era, na verdade, uma mulher. O abade, profundamente comovido e arrependido por suas injustiças, chorou copiosamente e revelou o fato ao estalajadeiro, cuja filha e o soldado também confessaram publicamente a falsidade de suas acusações, pedindo perdão diante do corpo da santa. Durante o funeral, segundo a tradição, um dos monges, que era cego de um olho, recuperou milagrosamente a visão ao tocar o corpo de Marina.[4]

Veneração

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Igreja Santa Maria Formosa, em Veneza

Santa Marina é venerada tanto pela Igreja Católica quanto pela Igreja Ortodoxa, que a reconhecem como modelo de humildade, penitência e pureza de coração. Sua vida de virtude, marcada pelo silêncio diante da injustiça e pela completa entrega a Deus, inspirou séculos de devoção monástica, especialmente entre as comunidades do Oriente cristão.

Na tradição copta, acredita-se que seu corpo permaneça incorrupto, sendo guardado na Igreja de Santa Marina, no Egito, onde é exposto aos fiéis no dia de sua festa, celebrada em 15 de Mesra (no calendário copta, equivalente a 21 de agosto).[5][6]

No Ocidente, sua história foi difundida por meio de antigos martirológios e pela devoção popular, sobretudo entre religiosos e religiosas que veem em Marina um exemplo de obediência, penitência e desprendimento das vaidades terrenas.

Em diversas tradições, Santa Marina é invocada como intercessora pelos injustamente acusados, pelos que sofrem humilhações e pelos que buscam viver em castidade e humildade. Seu testemunho atravessa os séculos como símbolo de fé perseverante, simplicidade e amor absoluto por Cristo.

É recordada pelo Martirológio Romano em 18 de junho. Em Veneza, sua festa é no dia 17 de julho.

Santa Maria Formosa é uma igreja em Veneza, Itália, reconstruída em 1492, pelo projeto do arquiteto renascentista Mauro Codussi, em homenagem a Santa Marina de Bitínia.[7]

Veja também

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Referências

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  1. «História de Santa Marina». Cruz Terra Santa. Consultado em 1 de novembro de 2025 
  2. a b c d «Santa Marina da Bitínia, virgem e monja». Arautos do Evangelho. 17 de junho de 2022. Consultado em 1 de novembro de 2025 
  3. a b c d Korotaev, Michael V. «Saint Marina the Monk». www.maronite-institute.org. Consultado em 18 de fevereiro de 2018 
  4. «Santa Marina: a história da libanesa que viveu em um mosteiro». Canção Nova. 20 de setembro de 2022. Consultado em 1 de novembro de 2025 
  5. https://st-takla.org/books/youssef-habib/st-marine/miracles.html (em árabe)
  6. http://www.wataninet.com/2014/07/كنيسة-السيدة-العذراء-المغيثة-بحارة-ال/161308/ (em árabe)
  7. «Marina, donna padre e vergine madre». Città Nuova (em italiano). 19 de outubro de 2017. Consultado em 1 de novembro de 2025