Marta Suplicy

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Marta Suplicy
Foto oficial como Senadora da República.
Senadora por São Paulo São Paulo
Período 1º de fevereiro de 2011
até a atualidade[nota 1]
48ª Prefeita de São Paulo Bandeira da cidade de São Paulo.svg
Período 1º de janeiro de 2001
até 1º de janeiro de 2005
Vice-prefeito Hélio Bicudo
Antecessor(a) Celso Pitta
Sucessor(a) José Serra
15ª Ministra da Cultura Brasil
Período 13 de setembro de 2012
a 11 de novembro de 2014
Presidente Dilma Rousseff
Antecessor(a) Ana de Hollanda
Sucessor(a) Ana Cristina Wanzeler (interina)
11ª Ministra do Turismo Brasil
Período 23 de março de 2007
até 3 de junho de 2008
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Antecessor(a) Walfrido dos Mares Guia
Sucessor(a) Luiz Barretto Filho
Deputada Federal por São Paulo São Paulo
Período 1º de fevereiro de 1995
até 1º de fevereiro de 1999
Vida
Nome completo Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy
Nascimento 18 de março de 1945 (71 anos)
São Paulo, SP, Brasil
Dados pessoais
Alma mater Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Cônjuge Eduardo Suplicy (1964–2001)
Luis Favre (2003–2009)
Márcio Toledo (2013–atualmente)
Partido PMDB (2015-atualmente)
PT (1981-2015)
Profissão Psicanalista, sexóloga e política

Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy (São Paulo, 18 de março de 1945) é uma psicóloga, apresentadora de televisão, sexóloga e política brasileira. Filiada ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), é atualmente Senadora pelo Estado de São Paulo [1].

Marta foi filiada ao Partidos dos Trabalhadores (PT) de 1981 a 2015, tendo sido deputada federal, prefeita de São Paulo, ministra do Turismo do segundo governo Lula[2] e ministra da Cultura do primeiro governo Dilma[3]. Ainda pelo PT, foi eleita senadora, tendo se tornado a primeira vice-presidente mulher do Senado Federal[4]. Em setembro de 2015, contudo, depois de 34 anos de militância, filiou-se ao PMDB[5].

Início de vida, família e educação[editar | editar código-fonte]

Marta e Eduardo Suplicy (foto) casaram-se em dezembro de 1964.
Marta é mãe dos cantores Supla (foto) e João e do advogado André.

Marta Teresa Smith de Vasconcellos nasceu em 18 de março de 1945 no Jardim Paulistano, São Paulo, sendo filha primogênita do industriário carioca Luís Affonso Smith de Vasconcellos e da dona de casa paulista Noêmia Fraccalanza Smith de Vasconcellos.[6][7][8] Além de Marta, o casal teve outros três filhos: Luiz, Teresa e Cristina. Seu pai, Luís Affonso, era proprietário de indústrias de papel e cartonagens.[9][10] Vinda desta família tradicional de São Paulo, é bisneta e trineta dos barões de Vasconcellos.[11]

Marta viveu sua infância e adolescência em uma casa ampla e confortável localizada no Jardim Paulistano. Entre seus passatempos, destacava-se a leitura e a montaria em cavalos.[12] Ela estudou em instituições de ensino da elite paulistana, cursando o primário no Externato Madre Alix e estudando no Colégio Des Oiseaux, das cônegas de Santo Agostinho, até o fim do curso ginasial. Logo depois, cursou o colegial no Colégio Nossa Senhora de Sion, também na cidade de São Paulo, onde fundou e presidiu o Grêmio estudantil na década de 1960, com marcada atuação na política estudantil, notadamente contra a ditadura militar.[13][14][15] Em 1963, ingressou na Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).[16]

Em 15 de dezembro de 1964, Marta casou-se com o estudante Eduardo Suplicy, nascido em 1941, e proveniente de outra tradicional família de São Paulo, sendo filho do empresário Paulo Cochrane Suplicy. Eles haviam se conhecido no ano de 1960, quando Marta apaixonou-se por Eduardo e, graças a sua insistência, eles viriam a namorar a distância. Juntos, eles tiveram três filhos: Supla (1966), André (1968) e João (1974).[9][17][18][19]

Marta interrompeu seus estudos na PUC-SP para acompanhar Eduardo, que fora estudar mestrado em Economia, nos Estados Unidos, entre 1966 e 1967. Neste período, estudou psicologia infantil na Universidade Estadual de Michigan, mesma instituição em que seu esposo estudava. Marta retornou ao Brasil e reingressou na PUC-SP em 1968, vindo a concluir sua graduação em psicologia em 1970.[20] Ela deu continuidade aos seus estudos, finalizando uma pós-graduação na Universidade Stanford em 1972, onde estudou psicologia comportamental (behaviorismo), psicanálise e sexologia, e obteve o título de mestre em psicologia clínica pela Universidade Estadual de Michigan em 1973.[21][22][23][24] Marta também recebeu um Certificado de Proficiência em Inglês pela Universidade Estadual de Michigan.[25]

Carreira na psicologia e na televisão[editar | editar código-fonte]

Durante sua estadia nos Estados Unidos, Marta conheceu e ficou fascinada pelo movimento feminista.[22] Quando voltou ao Brasil, deu continuidade ao seu trabalho como psicóloga comportamental e sexóloga. Marta foi uma das fundadoras do curso de Terapia Comportamental no Instituto Sedes Sapientiae, onde foi professora de terapia de casais entre 1973 e 1976. Ela também atendia casais em seu escritório particular, escrevia colunas para as revistas Claudia e Vogue, e ministrava palestras. Em meados dos anos de 1970, conheceu outras feministas e participou de um grupo de mulheres intelectuais que reuniam-se para debater a condição da mulher no país.[22]

Marta Suplicy O primeiro passo para quebrar o tabu generalizado contra a sexualidade é poder falar dela numa boa. As atitudes negativas frente ao sexo tem um peso muito maior do que a ignorância. Marta Suplicy

 — Marta, em 1983, [22]

Em 1980, Marta aceitou o convite do diretor Nilton Travesso para apresentar o quadro "Comportamento Sexual", na TV Mulher, um programa novo da Rede Globo que era dedicado as mulheres. O quadro possuía uma audiência média diária de dois milhões de telespectadores, tornando-se um dos mais conhecidos do programa, e era voltado a um público cuja maioria era composta por mulheres de 29 aos 45 anos de idade. Entre os temas que Marta comentava, estavam a gravidez na adolescência, orgasmo, impotência e impulso sexual.[26][27]

Como apresentadora, Marta causou polêmica ao enfrentar o conservadorismo e defender abertamente assuntos controversos, como a emancipação e os direitos da mulher, o aborto, os movimentos feministas e LGBT. Sendo a primeira vez em que o sexo foi debatido na televisão brasileira, o programa recebeu quatro processos do Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel), que era responsável pela censura na TV,[28] por "divulgação de fatos impróprios para o horário." Marta também foi alvo de muitos protestos por falar, em pleno dia, sobre orgasmo feminino e por repetir as palavras pênis e vagina. Um dos grupos opositores foi as Senhoras de Santana, que exigiu a retirada do ar o quadro de Marta.[29][30][31]

Em novembro de 1982, a Rede Globo, apesar de manifestar apoio a Marta, decidiu suspendê-la do programa devido ao volume de multas e a "incontáveis problemas que a empresa vem enfrentando junto a diversos órgãos oficiais ainda dominados por um obscurantismo que impede a livre discussão de problemas fundamentais para o telespectador." Após o afastamento, a emissora recebeu inúmeras manifestações contrárias a censura, culminando na volta de Marta ao programa no início de dezembro. A TV Mulher saiu da grade de programação da Rede Globo em junho de 1986, passando a ser exibida na TV Manchete, onde Marta continuou apresentando um quadro semelhante entre 1987 e 1988.[21][22][32][33] Ao longo do período em que o programa foi transmitido pela Globo, Marta recebeu mais de três mil cartas de telespectadoras com dúvidas e críticas sobre o papel da mulher na sociedade, além de questões relacionadas com a família e a sexualidade.[34]

Marta voltou a apresentar um programa de televisão em agosto de 1999, quando ancorou o programa Jogo Aberto, destinado a debater a sexualidade das mulheres, sendo exibido nas noites de sábados na TV Bandeirantes. Em outubro do mesmo ano, a emissora o tirou do ar alegando "alterações na grade de programação." No entanto, a baixa audiência, cuja média era de dois pontos no Ibope (cerca de 160 mil telespectadores na Grande São Paulo), e a falta de anunciantes foram decisivas para o seu fim.[35][36][37]

Ainda no campo da psicologia, Marta publicou nove livros relacionados a esse tema, incluindo: Conversando sobre Sexo (1983), Sexo para adolescente: orientação para educadores (1988), Papai, mamãe e eu: o desenvolvimento sexual da criança dos dois aos seis anos no lar e na escola (1990), Guia de orientação sexual (1994), Sexo se Aprende na Escola (1995) e Sexo para adolescente: amor, homossexualidade, masturbação, virgindade, anticoncepção, AIDS (1995).[38][39]

Carreira política[editar | editar código-fonte]

Em 1981, Marta filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT).[40] Seu esposo havia sido membro-fundador do PT um ano antes, mas Marta, conforme suas próprias palavras, "precisava refletir. Não sabia se tinha a ver comigo." No início, ela não costumava frequentar as reuniões partidárias e não dedicava-se muito nas campanhas eleitorais.[41] A partir de 1990, o PT passou a insistir para que Marta fosse candidata a um cargo eletivo, mas ela sempre recusava dizendo que "o político da família é o Eduardo."[41]

Entre 1989 e 1992, a pedido de Paulo Freire, secretário da Educação do governo da petista Luísa Erundina, Marta fundiu e presidiu o grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual, cujo objetivo era elaborar e implementar um programa de orientação sexual para a rede municipal de ensino.[42][21] A partir de 1994, trabalhou no Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual como parte do projeto Brasil, do Ministério da Saúde. O grupo introduziu programas de orientação sexual em seis cidades.[21]

Deputada federal[editar | editar código-fonte]

Em 1994, com o incentivo do marido e da cúpula do PT, Marta candidatou-se a deputada federal.[54] Sua plataforma de campanha priorizou as minorias e defendeu que o aborto fosse regulamentado nos casos previstos pela legislação.[54] Ela foi eleita com 76,1 mil votos, ou 0,71%, a quarta maior votação do PT-SP para o cargo.[55] Com isso, passou a residir no apartamento-funcional de Eduardo, em Brasília. Entretanto, continuou recebendo o auxílio-moradia da Câmara dos Deputados, o que, apesar de legal, causou constrangimento no PT quando a revista Veja noticiou o caso, fazendo com que Marta abdicasse do benefício, depois de alegadamente tê-lo usado por dois meses.[54]

Em maio de 1995, Marta propôs a legalização da prática do aborto nos casos em que a anomalia do feto fosse constatada.[56] Em agosto de 1997, ela foi uma das parlamentares que votaram a favor e articularam pela aprovação da regulamentação da oferta do aborto, em casos de risco de vida para a mãe ou estupro, na rede pública de hospitais. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a votação terminou, com o seu voto 'sim', em 24 votos a favoráveis e 23 contrários.[21]

Em agosto de 1995, Marta apresentou um projeto de lei que obrigava que 20% das vagas de candidatos em um partido ou coligação nas eleições proporcionais fosse preenchida por mulheres.[57] Em setembro de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a lei que estabelecia as normas para as eleições municipais de 1996, incluindo a obrigação de que 20% das candidaturas sejam obrigatoriamente ocupadas por mulheres.[58] Em 1997, Marta passou a defender que este número obrigatório subisse para 30%, argumentando que a participação feminina na política estava evoluindo lentamente e "muito pouco."[21][59] Em setembro de 1997, as novas regras eleitorais sancionadas pela presidência estipularam que "cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo."[60]

Em junho de 1996, uma comissão especial na Câmara dos Deputados foi criada para debater o projeto de sua autoria que possibilitava a união civil entre pessoas do mesmo sexo, e que também instituía as mesmas garantias legais dadas a casais heterossexuais.[61] A preposição, chamada de Projeto de Lei 1151 de 1995, recebeu forte oposição da bancada evangélica e de parlamentares conservadores e, posteriormente, foi arquivada.[62][21] Também relacionado aos direitos LGBT, apresentou a Proposta de Emenda à Constituição 139/1995, que visava proibir a discriminação motivada pela orientação sexual.[63] Com o parecer favorável do relator Régis de Oliveira, a PEC foi aprovada na CCJ. No entanto, a comissão especial para avaliar o assunto não foi constituída e, no início da legislatura seguinte, a proposição foi arquivada.[64]

Entre seus projetos apresentados como deputada federal, Marta também propôs a descaracterização do adultério como crime, a descriminalização do uso da maconha e a remição da pena para condenados que estudam.[65][21] No decorrer de toda a 50.ª Legislatura, ela foi integrante da Comissão de Seguridade Social e Família, da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão sobre Violência contra a Mulher, e suplente das comissões de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias.[21] Entre 1997 e 1998, foi vice-líder do bloco formado por deputados do Partido dos Trabalhadores, Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB).[39]

Candidata ao governo de São Paulo em 1998[editar | editar código-fonte]

Marta em sua propaganda na televisão e no rádio, em 1998.

Em 1998, Marta disputou as prévias do PT pela indicação ao cargo de governadora, enfrentando o deputado estadual Renato Simões, que pertencia a ala mais esquerdista e católica do PT paulista.[21][66] Com o apoio do presidenciável petista Luiz Inácio Lula da Silva, ela venceu a indicação do partido e tornou-se a candidata oficial pela coligação Pra Renovar São Paulo, formada também pelo PCdoB, o PCB e o PPS.[21][67] Seu candidato a vice foi Newton Lima Neto, ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos.[21]

Marta recebeu forte oposição de setores conservadores devido a sua trajetória feminista e libertária. Até mesmo em setores da Igreja Católica que apoiavam o PT resistiram a candidatura de Marta. O livro Sexo para adolescentes foi um dos pontos criticados; o bispo Amaury Castanho a classificou como "permissiva." Como resposta, Marta argumentou que pesquisas indicavam uma queda nos índices de gravidez na adolescência, AIDS e abortos entre os alunos de escolas onde o livro havia sido adotado.[21]

Durante sua campanha, Marta buscou distanciar-se da imagem que possuía de defensora das minorias. Ela deu menos foco a temas como a causa feminista e homossexual e enfatizou suas propostas para a área social, priorizando a saúde, educação e emprego. Em sua plataforma de governo, defendeu o projeto de bolsa-trabalho, que ofereceria cursos profissionalizantes a jovens, um programa de implemento de renda para famílias carentes, a construção de moradias populares e a construção de uma universidade pública na região do Grande ABC.[21]

Nas vésperas da votação do primeiro turno, o Datafolha mostrou que Paulo Maluf liderava com 31% das intenções de votos, seguido por Francisco Rossi (18%), Covas (17%) e Marta (15%).[68] O Ibope anunciou dados semelhantes, com Covas 5% a frente de Marta.[69][21] Embora a distância entre Covas e Marta era pequena, inclusive dentro da margem de erro, Covas passou a ser visto por parte da esquerda como o "mal menor" e com maiores chances de derrotar os conservadores Maluf e Rossi, apesar de possuir baixos índices de aprovação.[70][21] Neste cenário, com Maluf garantido no segundo turno, Covas e Marta buscaram atrair os votos dos eleitores que rejeitavam Maluf e dos mais progressistas. No dia da eleição, as pesquisas boca-de-urna mostraram que ambos estavam empatados, com 20% cada um.[71][72]

Com a totalidade das urnas apuradas, Maluf conseguiu 32,12% dos votos, Covas recebeu 22,95% e, surpreendentemente, Marta atingiu 22,5%, superando Rossi, que ficou com 17,1%.[73][21] A votação de Marta foi a melhor de um candidato petista a governador de São Paulo desde 1982.[21] Indignados com a diferença entre os resultados e as pesquisas, Marta e o PT ameaçaram processar os institutos, acusando-os de influenciarem os resultados finais ao divulgarem projeções manipuladas. Para Marta, tais pesquisas contribuíram para a ocorrência do voto útil, onde os indecisos e seus potenciais eleitores apoiaram Covas. Da mesma forma, as análises da eleição concluíram que o voto útil foi importante para levar Covas ao segundo turno e que Marta foi prejudicada por seu alto índice de rejeição, bem como ao seu partido, visto como radical por boa parte da população na época. No segundo turno, Marta e o PT apoiaram a reeleição de Covas.[70]

Eleição municipal de São Paulo em 2000[editar | editar código-fonte]

Após perder a disputa pelo governo Estadual em 1998, o PT paulista passou a visualizar em Marta a possibilidade de derrotar tanto tucanos quanto malufistas na eleição municipal de São Paulo em 2000. Em agosto de 1999, os petistas criaram o Instituto Florestan Fernandes, onde foram construídas as bases do plano de governo de Marta.[74] A candidatura de Marta também contou com o apoio formal de PCdoB, PCB e PHS, que juntos formaram a coligação Muda São Paulo.[75] Uma coligação com a ex-prefeita e então deputada federal Luiza Erundina (PSB) era prioridade para Marta, mas Erundina não quis desistir da disputa como candidata à prefeita.[76]

Hélio Bicudo foi o companheiro de chapa de Marta em 2000.

Os deputados Paulo Teixeira e Arlindo Chinaglia reivindicaram a vaga de candidato a vice. Para evitar um racha na Convenção, o ex-deputado federal Hélio Bicudo foi escolhido. A escolha de Bicudo também foi feita para servir como um contraponto à imagem liberal de Marta e atrair o eleitorado mais conservador. Eles haviam tido desentendimentos recentes, principalmente relativos à regulamentação do direito de aborto e à parceria civil para homossexuais. Enquanto Marta apoiava ambos, Bicudo possuía uma posição oposta. Em janeiro de 1998, Bicudo declarou apoio a reeleição de Covas, pois via que ele detinha as condições para criar uma aliança que derrotaria o malufismo e não gostaria que Marta implementasse suas ideias na área da saúde. No início de 1999, eles se reaproximaram.[77][76]

Além de Marta e Erundina, os principais candidatos naquele ano foram Maluf (PPB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Romeu Tuma (PFL).[78] O prefeito Celso Pitta, ex-afilhado político de Maluf, era avaliado negativamente por grande parte da população.[79] Marta esteve a frente nas pesquisas durante todo o primeiro turno.[79][80] Na propaganda eleitoral na TV e no rádio, fez poucas críticas aos seus oponentes, usando a maior parte de seu tempo para abordar as propostas de seu plano de governo, que incluía um programa de renda mínima, o "Começar de Novo", que requalificaria e daria oportunidades de emprego para pessoas com mais de quarenta anos,[81] e o Banco do Povo, que daria empréstimos para quem quisesse abrir um pequeno negócio ou melhorar uma microempresa já existente.[78] O discurso partidário do PT na campanha de Marta não estava tão radical como nas anteriores e lideranças do partido, como Lula e Eduardo Suplicy, tiveram pouca participação na propaganda eleitoral.[78]

Na votação do primeiro turno, Marta ficou isolada em primeiro lugar com 38,12% dos votos válidos. A outra vaga para o segundo turno contou com uma disputa acirrada entre Maluf, que conseguiu 17,39%, e Alckmin, que ficou com 17,25%. Tuma recebeu 11,45% dos votos e, Erundina, 9,90%.[82][83] Com dezesseis vereadores eleitos, o PT elegeu a maior bancada para a Câmara Municipal, composta por 55 vagas.[84] Durante o segundo turno, Marta recebeu o apoio formal de Covas, Alckmin e do PSDB.[85] Nas pesquisas, Marta possuía uma liderança de dois dígitos em relação a Maluf.[79] Em 29 de outubro, foi eleita prefeita com 3,2 milhões de votos, ou 58,51% dos votos válidos.[86]

Prefeita de São Paulo[editar | editar código-fonte]

Marta em janeiro de 2003, ao lado de Mário Soares, ex-presidente de Portugal.

Em 1º de janeiro de 2001, Marta foi empossada prefeita de São Paulo em uma cerimônia na Câmara Municipal.[87] Entre seus indicados para o secretariado, nomeou Carlos Zarattini (Transportes), João Sayad (Finanças), Jorge Wilheim (Planejamento e Urbanismo), Rui Falcão (Governo), Paulo Teixeira (Habitação), Evilásio Farias (Bem Estar Social), Helena Kerr (Administração), Eduardo Jorge (Saúde), Jilmar Tatto (Abastecimento), Arlindo Chinaglia (Administrações Regionais), Nádia Campeão (Esportes) e Fernando José de Almeida (Educação).[88]

No início de seu mandato, Marta enfrentou sucessivas ondas de greves no serviço de transportes, incitadas por uma "máfia dos transportes", que supostamente era um acordo entre empresários, concessionárias e sindicalistas com o objetivo de obrigar a prefeitura a conceder subsídios ou aumentar as tarifas.[89][21] Na ocasião, Marta foi ameaçada de morte, passando a usar um colete balístico. Para lidar com a situação, promoveu uma reestruturação do sistema de transportes, com a utilização de micro-ônibus em alguns trajetos, que complementavam os ônibus, a redução do número de linhas e o cancelamento de concessões a empresas.[21][90] Marta também construiu vias exclusivas para a circulação dos veículos de transporte público, sem barreiras físicas, que ficaram conhecidas como Passa-Rápido.[21] Em maio de 2004, instituiu o Bilhete Único, que permitiu ao usuário de ônibus fazer várias integrações, em um intervalo de duas horas, pagando uma passagem.[91][92]

Em seu plano de metas para o mandato, Marta incluiu a construção de 45 Centros Educacionais Unificados (CEUs), que, além de desempenharem o papel de estabelecimento educacional, ofereceriam serviços e atividades extra-curriculares, como teatro, cinema e piscina. Em agosto de 2003, o primeiro CEU, em Guaianases, foi inaugurado. Durante todo seu mandato, foram construídos 21 CEUs em áreas carentes da periferia, o que representou 46% do total prometido.[93] Ainda na área da educação, sua gestão distribuiu uniformes e material escolar para um milhão de crianças, criou duzentas mil vagas na rede municipal, instituiu o programa Vai e Volta, de transporte escolar, e implementou um projeto de orientação sexual.[94][21]

No âmbito social, Marta iniciou o programa Renda Mínima, que complementava um ganho mensal de famílias carentes com filhos de até catorze anos que estavam estudando, introduziu o mecanismo de Orçamento Participativo, e substituiu as administrações regionais (AR's) pelas subprefeituras, que ganharam maior autonomia.[21][95][96]

Marta foi alvo de críticas ao reformular impostos existentes e ao criar novas taxas, como a Taxa do Lixo e a Contribuição Para Custeio da Iluminação Pública. Durante sua gestão, a arrecadação da prefeitura com impostos aumentou 24%. Em 2004, um estudou revelou que a renda média dos paulistanos destinada aos cofres municipais aumentou de 4,75% para 8,35%. Na época, Marta recebeu da oposição a alcunha de "Martaxa" e, posteriormente, reconheceu que errou ao aumentar a carga tributária.[97][98][99] Outro tema bastante comentado foi seu divórcio, ocorrido quatro meses após a posse, do senador Eduardo Suplicy.[100][101][102] Após a oficialização do divórcio, Marta manteve o sobrenome Suplicy, do qual a notabilizou na vida pública, e casou-se novamente em setembro de 2003 com o franco-argentino Luis Favre, membro da Secretaria de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores.[103][104][21]

Eleição municipal de São Paulo em 2004[editar | editar código-fonte]

Em 2004, Marta candidatou-se a reeleição com o apoio de sete partidos, a segunda maior coligação nas eleições municipais de São Paulo desde 1985.[105] [106] Marta vetou a possibilidade do PMDB indicar seu vice alegando que não confiava no partido, o que fez com que a coligação com os peemedebistas não se concretizasse.[107][108] Ela preferiu escolher o secretário petista Rui Falcão como seu companheiro de chapa.[105] Naquele ano, também foram candidatos José Serra (PSDB), Paulo Maluf (PP) e Luísa Erundina (PSB).[109] Após diversas denúncias de corrupção envolvendo Maluf e seus aliados, o malufismo perdeu espaço entre o eleitorado, o que fez com que a disputa ficasse focada em Marta e Serra.[110]

Em junho de 2004, o governo Marta era avaliado de maneira predominantemente regular.[110] Para se defender das críticas, ela alegava que assumiu o governo com uma prefeitura falida, péssimos sistemas de transportes e educação, e que havia feito muito pela cidade.[110] Segundo o Ibope, a educação e o transporte eram as áreas com maior aprovação, e a saúde e a segurança pública com a menor.[110] Os discursos de Serra e Marta foram bastante semelhantes. Serra propôs continuar os programas que estavam dando certo e priorizar a saúde, enquanto que Marta propôs manter e expandir os projetos bem avaliados pela população, além de também dar foco a saúde. Ambos não fizeram muitas referências aos seus partidos políticos, e Marta preferiu adotar um discurso menos ideológico e mais pragmático.[110]

Marta e o presidente Lula durante reunião no Palácio do Planalto, em novembro de 2004.

No primeiro turno, Serra recebeu 43,5% dos votos, Marta 35,8%, Maluf 11,9% e Erundina 3,9%.[111] No segundo turno, a campanha de Marta tentou vincular Gilberto Kassab, vice de Serra, a Pitta.[110][112] Os petistas lembraram que Kassab foi secretário do Planejamento de Pitta e, caso Serra renunciasse em 2006 para candidatar-se a outro cargo, a cidade corria o risco de "ter o governo Pitta novamente à frente da Prefeitura."[110][113] Em 15 de outubro, Maluf declarou oficialmente seu apoio a Marta; Erundina preferiu não apoiar ninguém.[114][115] As pesquisas divulgadas mostraram Serra na frente, com uma liderança que variou de 52-39%, em 10 de outubro, a 49-42%, na véspera da votação.[116] Em 26 de outubro, Serra foi eleito com 3,3 milhões de votos, contra 2,7 milhões de votos destinados a Marta. Assim como no primeiro turno, ele ganhou nos bairros mais ricos e Marta prevaleceu nos bairros mais periféricos.[117]

De acordo com uma pesquisa do Datafolha realizada entre 7 e 8 de outubro de 2004, 48% da população considerava o governo Marta ótimo ou bom. Por alguma razão, que intriga analistas políticos, ela não conseguiu transformar esse índice de aprovação em votos nas eleições.[118] O jornalista Gilberto Dimenstein citou a imagem de arrogância de Marta e a ligação de Serra com a classe média como fatores que contribuíram para a derrota da prefeita.[119] Um estudo intitulado de "A derrota não explicada" concluiu que "houve uma separação nítida entre a imagem pessoal da Marta e de seu governo na hora da avaliação eleitoral." Este mesmo estudo sugeriu três cenários que poderiam ter culminado na reeleição da petista: "Marta teria vencido se as grandes obras tivessem sido entregues três meses antes da inauguração oficial, pois seus benefícios teriam apagado a lembrança dos transtornos que causaram", "Marta teria vencido se tivesse persistido na estratégia inicial de investir na periferia" e "Marta teria vencido se não tivesse esquecido dos bairros classe média."[118]

Eleições estaduais de São Paulo em 2006[editar | editar código-fonte]

No primeiro semestre de 2005, Marta começou a percorrer cidades estratégicas de São Paulo com o objetivo de se tornar a candidata do PT ao governo do Estado na eleição de 2006.[120] Em dezembro de 2005, o PT definiu que a prévia do partido ocorreria no início de maio de 2006 caso não houvesse consenso entre Marta e o senador Aloizio Mercadante, que também reivindicava a candidatura.[121] O presidente Lula agiu para evitar que a prévia fosse realizada e tentou alcançar um acordo entre ambos. De acordo com matéria de abril de 2006 da Folha de S. Paulo, o presidente pretendia oferecer a ex-prefeita três opções para que ela desistisse da disputa: o compromisso de que disputaria a prefeitura paulistana em 2008; um cargo importante na coordenação da campanha presidencial em São Paulo; ou um ministério de relevo caso fosse reeleito.[122] Entretanto, Marta manteve sua candidatura e, apesar de não ter declarado publicamente, Lula apoiou e trabalhou pela candidatura de Mercadante.[123][120][124]

Marta discursando ao lado de Lula durante o segundo turno da eleição presidencial de 2006.

Em 3 de maio de 2006, o Ibope revelou que José Serra, pré-candidato do PSDB, derrotaria Marta por 59-27% e Mercadante por 50-8%. O instituto mostrou que Mercadante possuía uma taxa de rejeição de 11%, menor que a de Marta, que atingiu 31% neste quesito, a maior entre os postulantes ao governo. A mesma pesquisa indicou que a base de apoio de Marta estava concentrada entre os eleitores mais carentes da cidade de São Paulo, onde inclusive superava Serra numericamente, e a de Mercadante entre o eleitorado visto como formador de opinião.[125][126]

Em 7 de maio de 2006, o PT realizou suas prévias.[127] Na capital, Marta recebeu quase o dobro dos votos de Mercadante.[128] Porém, o senador venceu no interior paulista e tornou-se o candidato petista com 52,8% dos 67.598 votos válidos.[129][130] Em 8 de maio, Marta declarou seu apoio a Mercadante, afirmando que o partido saiu do processo "sem rachaduras" e que o senador possuía chances de derrotar Serra.[131][132][133]

Após Mercadante perder para Serra no primeiro turno e ser envolvido no Escândalo do Dossiê, Marta saiu fortalecida da eleição, mesmo sem ter concorrido a nenhum cargo. Nas eleições legislativas, a maioria de seus aliados foram reeleitos, incluindo Jilmar Tatto, Carlos Zarattini, Devanir Ribeiro, Cândido Vaccarezza, Antonio Palocci e Rui Falcão.[134][135] Em 4 de outubro, Marta assumiu a coordenação da campanha para o segundo turno de Lula, a pedido dele. Marta expressou que sua estratégia seria contrapor o governo Lula aos dois mandatos de FHC.[136][137] Após a reeleição do presidente Lula, Marta declarou à imprensa que havia vencido o "projeto que diminuiu o fosso entre ricos e pobres."[138]

Ministério do Turismo[editar | editar código-fonte]

Marta Suplicy em Zurique (Suíça) para assistir ao anúncio da FIFA sobre o país que sediará a Copa do Mundo de Futebol de 2014.

Ao término do processo eleitoral de reeleição do presidente Lula, Marta Suplicy assume o Ministério do Turismo no segundo mandato do presidente Lula[139].

Em 13 de junho de 2007 lançou o Plano Nacional do Turismo. Questionada sobre a crise que ocorria então no setor aéreo e sobre a oportunidade de seu plano que incentivava viajar, respondeu: "Relaxa e goza que depois você esquece de todos os transtornos!"[140]. Esta frase causou um impacto muito negativo à sua imagem. No mesmo dia, Marta, reconheceu publicamente ter errado e ter feito uma declaração inapropriada e pediu desculpas[141].

Em 3 de junho de 2008, o presidente Lula definiu o substituto da ministra, que deixou o governo para se dedicar à campanha municipal de São Paulo. Ela foi substituída por seu secretário-executivo na pasta, Luiz Eduardo Barretto.[142]

Como Ministra do Turismo obteve, na Alemanha, linhas de crédito para empresários brasileiros interessados em investir na Copa do Mundo de 2014. Em março de 2008 foi assinado um acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que vai investir um bilhão de dólares no turismo brasileiro, em um novo modelo de Prodetur Nacional.[143]

Ministério da Cultura[editar | editar código-fonte]

Em 12 de setembro de 2012 foi nomeada ministra da Cultura pela presidente Dilma Rousseff, substituindo Ana de Hollanda[144].

Nesse período, Marta promoveu a atualização da Lei Rouanet[145] e a expansão dos CEUs (Centro Educacional Unificado) em regiões carentes.[146]

Em 11 de novembro de 2014, antecipando a reforma ministerial do segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff, Marta pediu demissão[147] e em 13 de novembro de 2014 reassumiu o mandato de senadora por São Paulo.[148]

Senado[editar | editar código-fonte]

Eleições 2010[editar | editar código-fonte]

Convenção do PT paulista realizada em 26 de junho de 2010 lança candidatura de Marta Suplicy ao Senado Federal. A mesma convenção confirma o senador Aloizio Mercadante (PT) como candidato ao governo estadual, pela coligação União Para Mudar. Marta liderou todas as pesquisas até a data da eleição, quando aparecia empatada com o candidato coligado pelo PC do B, Netinho de Paula. Entretanto, após a apuração dos votos verificou-se que o candidato mais votado e eleito para a primeira vaga de senador foi Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB.

Marta Suplicy, Ministra da Cultura, com Paulo Borges, criador do SPFW, no Movimento_HotSpot realizado no SEBRAE Nacional em Brasília em abril de 2013.

Marta foi a segunda colocada com 22,61% dos votos válidos ou 8 314 027 votos.[149][150]

Mandato[editar | editar código-fonte]

Marta tomou posse no Senado Federal em 1 de fevereiro de 2011. Foi eleita também a primeira vice-presidente do Senado por indicação do PT.[151] Durante a posse, declarou à imprensa que lutará pela retomada de discussão sobre projetos de lei autorizando o casamento homossexual e o aborto. Foi licenciada do Senado após assumir a função de ministra da Cultura. Retornou ao Senado após pedir demissão, em 11 de novembro de 2014.[147][148]

Marta é a terceira mulher a representar o Estado de São Paulo no Senado Federal: antes dela, Dulce Sales Cunha Braga[152], segunda suplente do Senador Amaral Furlan, do PDS, (eleito em 1978 pela ARENA, em eleição indireta), exerceu o mandato por seis meses, e Eva Blay[153], suplente de Fernando Henrique Cardoso, com ele eleita em 1986 pelo PMDB, assumiu o mandato interinamente entre 1992 e 1994, nas ocasiões em que o titular assumiu os ministérios das Relações Exteriores e da Fazenda durante o governo de Itamar Franco.

Candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2016[editar | editar código-fonte]

Em 28 de abril de 2015, desfilia-se do PT.[154] Em 15 de agosto de 2015, filia-se ao PMDB após ser sondada pelo PSB.[155].A filiação foi homologada em 26 de setembro de 2015.[156] [157]

Se torna candidata à prefeitura de São Paulo pela coligação União por São Paulo, formada pelo PMDB e pelo PSD, tendo o vereador Andrea Matarazzo como vice na chapa [158], é derrotada, ficando em 4º lugar na disputa pela Capital Paulista.

Notas

  1. Licenciada entre 13 de setembro de 2012 e 12 de novembro de 2014.
  2. A lista abaixo não mostra todas as preposições apresentadas por Marta Suplicy durante seu mandato como deputada federal por São Paulo. É possível ver todas os projetos de Marta no site da Câmara dos Deputados.

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • SÃO PAULO (MUNICÍPIO). PREFEITURA MUNICIPAL. SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Cidade educadora, educação inclusiva: um sonho possível. São Paulo, 2004.

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