Gênero não binário

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(Redirecionado de Maverique)
A bandeira genderqueer em Valência, escrita "o futuro não é binário" em espanhol.
contém cores roxa, branca, amarela e preta
Bandeira da visibilidade não-binária
Símbolo de gênero não-binário (🜬), proposto como alternativa aos símbolos masculino () e feminino (), com um asterisco no lugar das seta e cruz.

Não binariedade[nota 1][1] ou identidade não binária é um termo guarda-chuva (que abarca várias identidades diferentes dentro de si) para identidades de gênero que não são estritamente masculinas ou femininas, estando portanto fora do binário de gênero e da cisnormatividade.[2][3][4][5] Academicamente, a não binariedade pode ser frequentemente agrupada à inconformidade de gênero.[6] Pessoas não binárias podem classificar a sua identidade de gênero de várias maneiras, entre as quais:

Diferença entre identidade de gênero, expressão de gênero e sexo biológico[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Diferença entre sexo e gênero

Ao contrário do que se possa pensar, a identidade de gênero não binária não tem qualquer correlação com alguém ser, ou não, intersexo.[18]

O sexo biológico refere-se às características sexuais, e é tipicamente identificado à nascença por médicos com base nos genitais independentemente da identidade de gênero que o bebê possa vir a ter. O sexo é classificado como endossexo (completamente masculino ou feminino),[19] intersexo (entre o feminino e o masculino) ou altersexo (fora dessa dicotomia).[20] Embora existam classificações mais atuais, que tentam se desvencilhar das terminologias tradicionais, para não generizar o sexo entre "masculino" ou "feminino", levando em conta Ductos de Müller e de Wolff, pessoas ovarianas, espermatogênicas, oogénicas, estrogênicas, vulvarianas, testiculares, ovotesticulares (ou (am-)bigonadais), microgaméticas e megagaméticas (ou macrogaméticas), que podem, ou não, ser intersexo.[21][22]

A identidade de gênero é uma questão de autopercepção e não se prende com fatores externos. Uma pessoa pode ser cis ou transgênero. Sendo trans, pode identificar-se dentro do gênero binário (homenidade ou mulheridade) ou possuir uma identidade não-binária.[23][24]

Expressão de gênero resulta de uma combinação entre comportamento social e maneirismos, com aparência (penteado, roupas…) interior ou exterior, e é geralmente encarada como feminina ou masculina. Considera-se que quem não exibe um alinhamento entre o que se considera feminino ou masculino é andrógino ou inconforme de gênero.[25]

Terminologias[editar | editar código-fonte]

Algumas pessoas não-binárias preferem utilizar pronomes neutros ou epicenos, em inglês são conhecidos o "they/them/their" singular, os neopronomes de Spivak, ‘‘E/Em/Eir’’, ou de Elverson, "ey/em/heir", ou outros criados na comunidade trans, como "ze/hir" ou ‘‘xe/xem/xyr’’ equivalentes, por exemplo, a elu/e,[26] éli/i (inspirado no neopronome élle do espanhol)[27] e ile/e[28][29] propostos neolinguisticamente, em nosso idioma,[30][31] enquanto há quem prefira os pronomes pessoais convencionais "ela" ou "ele", vistos que podem ser usados com uma concordância léxica mais simples. Muitos simpatizantes costumam usar terminações em "@" ou "x" (como el@s ou elxs), mas elas podem atrapalhar leitores de tela e outros tipos de software de acessibilidade.[32] Há ainda pessoas não-binárias que preferem que sejam referidas por pronomes alternados, variando por exemplo entre "ele" e "ela" (chamados de rolling pronouns, ou ‘‘pronomes rotativos’’),[33] outras preferem não usar nenhum pronome.[34]

Muitas pessoas não binárias podem preferir o uso de uma linguagem neutra adicional para tratamento, tal como os títulos em inglês "Mx." ou "Mt." em vez de "Mr." ou "Ms." (e Mrs.), equivalentes a "Sre." e "Srte." (senhore ou senhorie e senhorite), versões neutras advindas de "sr(a)." e "srt(a)." (senhor/a ou v/s.a. de «vossa» senhoria), semelhantes também a dame e done, vindos de dama/damo e dom/dona.[35][36] Fiuk, quando esteve no BBB21, disse uma vez preferir senhore a senhor ou senhora.[37]

Integrantes do movimento zapatista vêm empregando as sufixações de "oa" como, por exemplo, em otroa (outroa), unoa (umoa) e loa (o/a), especificamente para designar um gênero natural para pessoas não-binárias, invés de apenas ser uma ambiguação de gênero.[38][39]

Identidades[editar | editar código-fonte]

Andrógine[editar | editar código-fonte]

O mito do andrógino como uma classificação, vem de Platão através de o Simpósio, como uma categorização, e numa literal tradução, visando uma neolinguagem não sexista de gênero neutro ou epiceno, junto a epicenidade:[40][41] "pessoas macho", "indivíduos fêmea" e "andrógines".[42] O que ele referenciou nessas três categorias poderiam ser tanto sexualidades, orientações sexuais, identidades de gênero, sexo biológico (ou aspectos de sexo)[43] e expressão de gênero nos dias atuais, pois não havia diferenciação dessas identidades,[44] naqueles tempos.[45] "Ginandromorfe" foi usado como um termo de gênero na década de 70.[46] Deve-se notar que o ginandromofismo não é observado na biologia como algo humano, mas sim animal. Porém a ginandromorfia pode ser obtida através da altersexualidade, numa espécie de transumanismo. Semelhante a androgynos, termo usado no judaísmo para se referir a variações corporais intersexo.[47][48]

"[...] pois a natureza humana original não era como o presente, mas diferente. Os sexos não eram dois como são agora, mas originalmente três em número; havia homem, mulher e a união dos dois, tendo um nome correspondente a essa dupla natureza, que já existia de verdade, mas que agora está perdida, e a palavra "andrógino" é preservada apenas como um termo de censura[...]. Neste momento os sexos eram três, e como eu os descrevi; porque o sol, a lua e a terra são três; e o homem era originalmente o filho do sol, a mulher da terra e a mulher-homem da lua, que é composta de sol e terra. Terrível era sui poder e força, e os pensamentos de seus corações eram grandes!"[49]

Androginia, no que tange a expressão de gênero, diz respeito a mescla das masculinidades e feminilidades, ou ainda das efeminações e masculinizações (ou feminização e virilização). Ginandria também é uma possível palavra, usada na botânica pra um uma planta hermafrodita, ou mais especificamente monoecia, também chamada de bissexuada. Note que a conceptualização de orientação sexual só veio no século XIX,[50] sendo a separação de sexo e gênero possível no século XX com o conceito de transgênero, através do uso de uma autoproclamada travesti.[51] Embora muitas vezes definida como uma ambiguidade ou ambivalência, ela não é uma dubiedade ou indefinição.[52][53] A imaterialidade do gênero, se vem com o constructo dele.[54]

Bigeneridade[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Bigênero

Identificação dupla, podendo ela ser estável ou fluida. Alguns indivíduos bigêneros expressam duas identidades de gênero, distintas ou semelhantes, simultâneas ou não. Não é necessariamente dois gêneros inteiros, há também duplicidade de gênero. demiagêneros, por exemplo, possuem um gênero parcialmente nulo ou ausente, dividindo sua identidade com agênero e outro gênero.[55][56]

Gênero-fluido[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Gênero-fluido

O gênero com que a pessoa gênero-fluido se identifica varia através do tempo: às vezes pode sentir-se cis, outras vezes trans binária, outras vezes trans não-binária, noutras identifica-se com vários gêneros, parcialmente, indefinidamente ou com nenhum. A velocidade com que o gênero muda varia de pessoa para pessoa, pode ser gradual, súbita, constantes, inconstantes, mensais, anuais ou diárias, podendo ser entre gêneros totalmente opostos. Além disso, gênero fluido não é uma mudança ou uma mistura de identidades, é uma identidade própria caracterizada pelas fluências de gênero, que não precisam necessariamente abranger todo o espectro de gênero.[57]

Gênero-fluxo[editar | editar código-fonte]

O gênero-fluxo, chamado de genderflux, se refere a mudança na intensidade de uma identidade, mas não uma mudança na identidade em si, podendo passar por estados negativos, positivos, neutros, ambíguos, nulos e mistos. Noutras palavras, tem a ver com às vezes se identificar completamente com algum desses aspectos, num outro período parcialmente e noutro possuir total ausência, por exemplo.[58]

Neutralidade de gênero e ageneridade[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Ageneridade e Neutrois

Apesar de tenderem a confundir-se, e de várias pessoas aplicarem a si mesmas ambos os termos, implicam coisas diferentes: o primeiro é uma identificação-própria, relativamente aos gêneros binários, enquanto que o segundo associa-se à negação de uma identificação.

  • Neutrois: identifica-se como sendo neutral em gênero. É diferente de não ter gênero. Pode ser estático ou fluido. Não confundir com o gênero gramatical neutro.
  • Agênero (ou gênero nulo): significa "sem gênero" a pessoa não se identifica com nenhum gênero.[59] Não confundir com apogênero (alheidade ou indiferença em relação a qualquer definição de gênero), agênere ou nullo.

Há conceptualizações, de acordo com perspectivas de outras pessoas do meio, de que neutro seria um equilíbrio entre todo o espectro de gênero ou uma expressão de indiferença perante o gênero, como na matemática do plano cartesiano, onde neutro seria representado por 0 e agênero por ,[60][61] sendo ambos permutáveis, dependendo da situação. Mas, em relação ao balanceamento, existe a possibilidade de fluir, ou oscilar, entre gêneros positivos e negativos, sendo eles seu(s) gênero(s) absoluto(s) e oposto(s), o equilíbrio uma ambivalência de gênero. Já as interpretações sobre a nulidade de gênero variam de pessoa pra pessoa, mas nas descrições comuns, dá-se que é a rejeição para com a binariedade de gênero.[62] Os gêneros não-neutros são chamados de saturados.[63]

Demigeneridade ou semigeneridade[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Demigeneridade

Demigênero ou semigênero implica uma conexão parcial em relação a um certo gênero, sendo um termo guarda-chuva que engloba, por exemplo, demiboy (semigaroto, semimenino, semiguri, demiguri, demimoço, semimoço, demi-homem, semi-homem, demimenino ou demigaroto, alguém que se identifica parcialmente com o gênero masculino) ou demigirl (semigarota, semimoça, demimoça, demimulher, semimulher, semiguria, demiguria, semimenina, demimenina ou demigarota, alguém que se identifica parcialmente com o gênero feminino).[64][65]

Poligeneridade ou pangeneridade[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Pangênero

Identificação com vários gêneros ou todos os gêneros, dentro de sua cultura, experiência de vida, condição natural ou biopsicossocial e variação de neurotipo (simultaneamente e/ou fluindo, podendo haver um fluxo na intensidade ou não). Poligênero pode ser uma identidade múltipla e plural de gênero, semelhante a plurigênero e multigênero, abrangendo também pangênero.[66] Poligênero pode ser muitas vezes intercalado com multigeneridade e plurigeneridade, sendo plurigênero mais especificamente uma experiência simultânea. Pangênero foi primariamente identificado como posse de todos os gêneros, sem levar em consideração os lugares de fala dalguém.[67]

Maverique[editar | editar código-fonte]

Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Maverick.

Também chamada de maveriquinidade, veriquinidade e maverinidade,[68] é uma identidade de gênero caracterizada pela autonomia e independência perante o gênero masculino e feminino, tendo a convicção interior de que não seja relacionado a ou derivado de nenhum dos dois gêneros binários,[69] também não sendo uma ausência de gênero ou apatia para com ele ao mesmo tempo que também não é um gênero neutro.[70][71][72] O gênero também é descrito como inortodoxo e fora do convencional, sendo um subtipo de aporagênero.[73][74][75][76]

Esta identidade é vista como parte da não binariedade,[77] a bandeira maverique usa o amarelo, por ser a cor primária e fotológica dissidente das cores azul/ciano e rosa/vermelha, que traz o mesmo significado da bandeira não-binária, que seriam identidades de gênero totalmente fora do binário de gênero.[78][79]

Transfem e transmasc[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Transfeminilidade e Transmasculinidade

Muitas pessoas não binárias se reivindicam como transmasculinas ou transfemininas, dividindo suas identidades com homens trans, mulheres trans e travestis de gênero binário, sem necessariamente se identificarem como homem trans ou mulher trans, embora também haja quem se denomine homem não binário ou mulher não binária também.

Orientação sexual e afetiva[editar | editar código-fonte]

Indivíduos não binários, assim como qualquer outra pessoa, podem ter qualquer orientação sexual, romântica ou platônica. A determinação das orientações varia de pessoa pra pessoa. Muitos não querem usar neo ou microrrótulos, como onissexual e ceterossexual, outros preferem algo mais amplo e padrão, como multissexual e ambifilia.[80] Muitas vezes esses termos são associados com o MOGAI.

Monossexualidade[editar | editar código-fonte]

Um indivíduo não binário, assim como um binário, pode ser monossexual (atraído por apenas um gênero), sendo sua classificação divida entre ginessexual e androssexual, invés de homossexual ou heterossexual. Contudo, sabendo que não binariedade não é um gênero monolítico, mas sim um termo guarda-chuva, há gays e lésbicas que se descrevem como não binários, pois a desconexão para com os gêneros binários não deve ser necessariamente integral.[81] Embora haja ativistas que argumentem que isso é uma rebinarização identitária, há também contra-argumentos afirmando uma própria desbinarização das homossexualidades e flexibilização de sua naturalidade. Também há quem use o termo sáfique como mais inclusivo que lésbica, ou víncico/vinciano, mais inclusivo que homem gay.[82][83]

As orientações não hétero são mais comuns entre pessoas não binárias, por se reconhecerem como parte de uma minoria sexual. Porém, raramente, há quem se veja como hétero, ou que sinta sua atração ser conformante ou hétero, alguns fazendo uso do neologismo "strayt" ou hétere.[84] Um relacionamento que envolva, pelo menos, uma pessoa não binária, pode ser chamado de diamórico.[85]

Terceiro gênero[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Terceiro gênero

Terceiro gênero ou sexo, um termo usado por sociólogos e antropólogos, refere-se à variância de gênero ou de sexualidade dentro de uma cultura, ou pelo menos conota as denominações categóricas ou classificações para com as não conformidades afetivas ou identitárias dentro de uma sociedade. Muitas vezes há quarto, quinto e até mais gêneros, além dos terceiros. Embora nem todas as culturas ou sociedades reconheçam tais espécimes de gêneros, algumas pessoas com as identidades abarcadas pelo termo sociológico e antropológico não consentem com o uso da terminologia para descrever suas vivências, pois acaba reduzindo, alheando (othering) ou estranhando as identificações intrapessoais de algumas pessoas numa tríade.[86][87][88][89][90]

Dois-espíritos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Dois-espíritos

Dois-espíritos é um termo moderno e includente, criado através de uma conferência de 1990 por gays, lésbicas e transgêneros indígenas, substituindo o termo não-nativo berdache, que era encarado como depreciativo,[91] fazendo alusão a tribos com papéis de gênero misturados.[92] Também usa-se o particípio two-spirited (bi-espiritualizade ou de dois espíritos), em inglês. Há outro relacionado, como é o caso tri-espíritos (tri spirits/-ed),[93] pois dois-espíritos tem a ver com espiritar ou entrelaçar os dois gêneros ou sexos male e female (que muitas vezes traduzem-se como homem ou macho e mulher ou fêmea) numa pessoa só, tendo assim o espírito dos dois tradicionais,[94] fazendo alusão ao híbrido logo triespíritos também abarca uma terceira categoria dentro de si, dentro da perspectiva ocidentalizada e colonizada.[95] Nem todas as pessoas de dois espíritos se veem como não-binárias, por mais que a identidade fuja da lógica binária, ela pode se referir a ameríndios bissexuados.

Yinyang ren[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Yinyang ren

Yinyang ren é um termo usado para se referir a pessoas transgênero, intersexo, altersexo ou andróginas. Pode ser visto como depreciativo por alguns, pois invalida as subjetividades perante a mistura de feminino (yin) e masculino (yang) implicada por yinyang, algumas vezes traduzido como hermafrodita, porém também é reivindicada por certas pessoas como uma identidade de gênero para si mesmas, como a Organização Internacional Intersexo Chinesa (Oii-Chinese)[96] e o protagonista de O Sonho da Câmara Vermelha.[97]

Bissu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Bissu

Bissu é um gênero na cultura buginesa, do sul da Indonésia. A sociedade Bugis reconhece cinco gêneros: oroane, makkunrai, calalai e calabai, muitas vezes levando bissu a ser visto como um quinto gênero.[98] Esses gêneros ainda são ainda reconhecidos por alguns bugis, especialmente aqueles que praticam a religião pré-islâmica da região. Muitas vezes, bissu é descrito como um metagênero ou gênero-transcendente, representando todos os aspectos de gênero combinados por inteiro.[99] Muitos bissus, porém não todos, são intersexo.[100] Bissus desempenham um papel importante nas cerimônias religiosas, agem como agentes sacerdotais, dão bênçãos, dão orientações e são vistos como intermediários entre o povo e os espíritos.[101]

História[editar | editar código-fonte]

A palavra genderqueer tem origem nos anos 1990, embora já havia referências pelo movimento queercore e as queer zines desde os anos 1980 e 1970,[102][103][104] e começou por ser chamada "Gender Queer" antes que se tornasse uma única palavra. O significado original era literalmente "queer gender", traduzido para português como "género estranho". Explicações apontam que genderqueer é usado como termo guarda-chuva para pessoas não cisgênero, e inconforme de gênero sendo ainda mais abrangente que não binário.[105][106]

O uso mais antigo da palavra é atribuído a Riki Anne Wilchins, ativista dos direitos LGBT+, que utilizou o conceito na primavera de 1995 na newsletter In Your Face.

Genderqueer foi uma das 56 opções de identidade de gênero adicionadas ao Facebook em Fevereiro de 2014.[107]

Em agosto de 1999, Monica Helms cria a bandeira do orgulho transgênero, nela ela inclui pessoas de gênero neutro ou indefinido, através da listra branca, representando também intersexuais e aqueles que estão transicionando.[108]

Em hieróglifos egípcios é possível encontrar um terceiro género, Sekhet (sḫt), além de tai para homem e hmt para mulher, muitas vezes traduzido como eunuco, entretanto tal tradução pode ser considerada incerta.[109][110][111][112]

Muitas culturas e grupos étnicos adotaram conceitos de papéis tradicionais de gênero-variante, como os cinco gêneros na sociedade Bugis,[113][114] por volta do século XVIII. Hijra e dois-espíritos, por exemplo. Estas identidades eram comumente análogas a não binariedade, como se não se classificassem na ideia ocidental de papéis binários de gênero.[115]

Na tradição judaica, há identidades como androgynos (em hebraico: אנדרוגינוס , "andrógino") e tumtum (em hebraico: טומטום , "escondido"), que respectivamente, representam pessoas que naturalmente possuam ambas as características femininas e masculinas, ou a ausência delas.[116][117][118]

Em inglês e francês, respectivamente, há e houve a distinção de genre e gendre, sendo o primeiro para se referir a um gênero literário, musical ou de jogos eletrônicos, por exemplo. Gendre é a derivação regressiva de gender.[119] Na tentativa de fazer uma palavra específica ou reivindicada, alguns usam gênere(s)[120] em alguns momentos, semelhante ao uso de travestigênere(s)[121] e outras palavras sufixadas com -gênero, tornando-as adjetivas, parecida com o italiano genere.[122][123][124] Quanto a forma adjetivada dessas palavras, certos linguistas argumentam que seja empregado -gênere e -genérico, como é o caso de congênere e interespecífico/a, logo, frases como "pessoas bigênero" e "indivíduos pangêneros" se tornam "pessoas bigêneres" ou "bigenéricas" e "indivíduos pangêneres" ou "pangenéricos".[125][126]

Bandeiras[editar | editar código-fonte]

A bandeira genderqueer
Ver artigos principais: Simbologia LGBT e Bandeira de orgulho

Genderqueer[editar | editar código-fonte]

Criada por Marilyn Roxie em 2011, a bandeira de orgulho gênero-queer consiste em três riscas horizontais e foi criada para complementar as atuais bandeiras de identidade de gênero e orientação sexual.[127]

A risca roxa, mistura de azul e rosa (cores tradicionalmente associadas com homens e mulheres, respectivamente), representa a androginia e "queerness" (cuirdade, cuiridade, kuirdade, kuiridade, queeridade, queeritude, cuiritude, kuiritude ou queerdade, em tradução livre). O branco simboliza agênero, refletindo o uso de branco na bandeira trans para a identidade de gênero neutra, e o verde representa todos cuja identidade está fora do gênero binário.[128]

Em 2013, Roxie clarificou que a semelhança entre as cores desta bandeira e a da Women's Social and Political Union, uma organização de sufrágio baseada no Reino Unido, não era intencional.[129]

Não-binária[editar | editar código-fonte]

Em 2014, Kye Rowan criou a bandeira do orgulho não-binário, com quatro listras nas cores amarelo, branco, roxo e preto-cinza. O amarelo representando gêneros totalmente fora da binariedade, branco, como cor fotológica, pessoas com vários ou todos os gêneros, roxo a multiplicidade e flexibilidade de gêneros, preto indivíduos com nenhum de gênero.[130]

Outras específicas[editar | editar código-fonte]

Pessoas notáveis[editar | editar código-fonte]

  • Angel Haze, rapper de origem norte-americana, identifica-se como indivíduo agênero, tendo revelado a sua identidade de gênero publicamente em Fevereiro de 2015. O seu pronome pessoal de escolha é o they singular, que, se traduzido, significaria algo como Elu ou Ile.[131]
  • Ruby Rose, atriz, modelo e DJ australiana, identifica-se como gênero fluido. O seu pronome pessoal de escolha é "ela".
  • Nico Tortorella, estadunidense que trabalha com modelagem e atuação, identifica-se como gênero fluido, tendo vindo a público como tal em 2016.
  • Linn da Quebrada, atriz, cantora, compositora, travesti e ativista social brasileira. Ela se define como terrorista de gênero.[132]
  • Lázare Heliodoro, musicista, cancionista e multi-instrumentista, ativista LGBTQIAP+ e proponente da ideia legislativa sobre inclusão não-binária nos documentos oficiais de identificação.[133][134]
  • Matheusa Passareli, pessoa não-binária, estudante que foi assassinada aos 21 anos no Rio de Janeiro.[135][136]
  • Autumn Burchett, pessoa não-binária transfeminina, jogadora profissional de Magic: The Gathering, primeira a não ser um homem a vencer e ser campeã de um Pro Tour.[137][138]
  • Jonathan Van Ness, pessoa não-binária, cabeleireira e personalidade de TV conhecido por seu papel na série Queer Eye, o seu pronome de escolha é "ele", mas também é indiferente ao uso de pronomes femininos e neutros.[139]
  • Sam Smith, pessoa cantora-compositora britânica e não-binária, que venceu quatro Grammy Awards e usa o pronome singular they.[140]
  • Janelle Monáe, pessoa cantora-compositora, bailarina e atriz norte-americana, se revelou não-binária em janeiro de 2020.[141][142]
  • Lírio Negro, artivista alagoano, ex-coordenador da área não-binária da Aliança Nacional LGBTI+,[143][144] integrante do GRIT/ILGA Portugal, da Red No Binarie Latinoamérica, da Rede de Feminismo Interseccional ELLA e Vice-Coordenador Nacional do IBRAT - Instituto Brasileiro de Transmasculinidades.[145]
  • Demi Lovato, artista estadunidense, das áreas de canto, composição e atuação. Em maio de 2021, Demi descreve ao público o uso de they singular.

Discriminação e estado legal[editar | editar código-fonte]

Reconhecimento legal de identidades não binárias ou de terceiro gênero no mundo
  Marcação de gênero não binário voluntária
  Marcação de gênero não binário apenas para indivíduos intersexo
  Procedimento padrão para pessoas de terceiro gênero
  Procedimento padrão para indivíduos intersexo
  Não há reconhecimento legal ou não há dados disponíveis

Brasil[editar | editar código-fonte]

No passaporte brasileiro, há a identificação de sexo em três categorias: "M", "F" e "X". Para conseguir emitir um passaporte com o sexo "X", é preciso selecionar a opção "não especificado" ao solicitar novo passaporte no site da Divisão do Passaporte da Polícia Federal. A lei reconhece a identidade de gênero, sendo possível retificar os registros, como a certidão de nascimento, alterando nome e sexo, sem a precisar de laudos médicos ou procedimentos cirúrgicos, porém as categorias continuam sendo "masculino" e "feminino",[146] havendo propostas legislativas para o reconhecimento do gênero neutro.[147][148][149][150]

Em 2020, algumas pessoas, isoladamente, conseguiram ter uma opção degenerizada de sexo na certidão de nascimento.[151] Em 2021, uma pessoa agênero consegue o reconhecimento de registro neutro de gênero, em sua certidão de nascimento por decisão da justiça.[152]

Estados Unidos[editar | editar código-fonte]

A maioria dos interrogados no questionário "National Transgender Discrimination Survey" escolheu a opção "Um gênero não listado aqui" (em inglês: Question 3 Gender Not Listed Here, Q3GNLH). Destes, 90% reportaram testemunhar preconceitos antitrans no local de trabalho e 43% reportaram ter tentado cometer suicídio.[153]

Austrália[editar | editar código-fonte]

Desde 2003 os cidadãos australianos podem escolher "X" como opção para marcar o seu gênero no passaporte.[154] Em 2014, uma terceira categoria "não especificada" foi denominada pela Suprem Corte.[155][156]

Japão[editar | editar código-fonte]

No Japão, o "X-gênero" ou gênero-X é um terceiro género e identidade não binária conhecida como Xジェンダー, como alternativa ao "M" de masculino e "F" de feminino.[157]

Alemanha[editar | editar código-fonte]

Nas certidões de nascimento e noutros registros legais, alemães têm a opção "diverso" como categoria de gênero, após a corte decidir que as designações binárias são discriminatórias e violam as garantias de liberdade individual.[158][159][160]

Áustria[editar | editar código-fonte]

Desde 2018, as pessoas intersexo têm o direito de se registrar civilmente como pessoas não-binárias. Decisão baseada na Convenção Européia de Direitos Humanos pelo Tribunal Constitucional da Áustria.[161][162]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

Referências

  1. «Binaridade ou binariedade». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 5 de dezembro de 2018 
  2. Usher, Raven, ed. (2006). North American Lexicon of Transgender Terms. San Francisco: [s.n.] ISBN 9781879194625. OCLC 184841392 
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